crónica 368 DO IBERISMO AO 1º DE DEZEMBRO

crónica 368 DO IBERISMO AO 1º DE DEZEMBRO
qUANDO ESTA CRÓNICA FOR PUBLICADA, A DATA TERÁ PASSADO SEM GRANDES MANIFESTAÇÕES PÚBLICAS NACIONAIS OU REGIONAIS SOBRE A SUA IMPORTÂNCIA, E UM POVO QUE NÃO CUIDA DA SUA HISTÓRIA ESTÁ CONDENADO AO IDÊNTICO OLVIDO

Gostava de ter algumas réstias do meu sempiterno otimismo, mas a reserva desoladamente está no nível mínimo desde há décadas. Quando, ano após ano, a chuva cai e não molha corações pois esses secaram para sempre, quando dia após dia nos lavam o cérebro com uma pandemia que eliminou as mortes por gripe mas fez aumentar outras mortes temos de assumir que esta casa em que vivemos, a sociedade, é de péssima qualidade e estes “mestres” de construção não passam de biscateiros incapazes de fazerem uma obra como deve ser. Mas vamos todos cantando e rindo para o matadouro das vacinas que nos obrigam a tomar. Raras vezes as pessoas param para pensar, mesmo os que ainda não desaprenderam tal exercício. Menos ainda as vezes que estudam a história e dela retiram ensinamentos. É esta a tradição e não é de hoje, vem de há muitos anos como constatei ao traduzir este parágrafo:

Enquanto a Terceira e as ilhas próximas resistiam ao assalto dos espanhóis à Coroa portuguesa, S. Miguel franqueou-lhes a entrada. Isto deveu-se ao facto de o Corregedor Ciprião de Figueiredo estar sedeado em Angra. Fiel apoiante do Prior de Crato, terá proferido a frase “antes morrer livres que em paz sujeitos”. … a capitania de S. Miguel estava na mão da influente família Gonçalves da Câmara. Além disso, residia em S. Miguel o Bispo dos Açores, D. Pedro de Castilho, fiel a Filipe II. Viria a ser Vice-Rei de Portugal em paga da fidelidade à causa castelhana. Mais tarde, o Capitão do Donatário de S. Miguel recebeu o título de Conde de Vila Franca. Abundam ainda agora os que esquecem o terror do domínio castelhano e pressurosos querem entregar o país ao vizinho ibérico. Miguel Urbano Rodrigues escrevia em 2006[1]:

Os iberistas, ao esboçarem uma Espanha pletórica de energias, de progresso e criatividade, simulam esquecer a mais alta taxa de desemprego da União Europeia. Não aludem ao racismo e à xenofobia que fazem hoje da pátria de Cervantes um dos países europeus onde os imigrantes, sobretudo os magrebinos, equatorianos e colombianos, são mais discriminados. Preferem discorrer sobre a localização da capital, a estrutura institucional do Estado, Federação ou simples transformação de Portugal em mais uma Região Autónoma, e, o papel do Rei. Fala-se do bacalhau, do fado, do flamenco, de marialvas e senhoritos, dos dois idiomas, … longe de serem «muito parecidos», portugueses e espanhóis distanciaram-se progressivamente, exibindo atitudes quase antagónicas. Trabalham e comem a horas diferentes, transformam o culto do aperitivo num instrumento de convívio.

Outra omissão é a falta de referências à colonização económica de Portugal pela Espanha. O processo em curso é avassalador. Há três décadas a Espanha não existia como parceiro comercial. Hoje ocupa o primeiro lugar nas importações portuguesas. A banca espanhola conquistou parcela importante do mercado português. O mesmo ocorre com a hotelaria e as grandes transnacionais como El Corte Inglês e Zara. As imobiliárias espanholas invadem as cidades. O processo de colonização pacífica assume facetas particularmente alarmantes no Alentejo onde capitalistas espanhóis compraram as melhores terras no Alqueva. Adquiriram milhares de hectares para criação de porcos, instalação de lagares e plantação de oliveiras e vinhas. A invasão é festejada pelo Governo e pela grande burguesia. Agradecem.

Saúdam os espanhóis como agentes do progresso. Com a espontaneidade da nobreza de 1383 a saudar D João De Castela e a nobreza de 1580 a alinhar com Filipe II. Essa forma de dominação económica encobre uma modalidade de intervenção imperial. Hoje, ninguém se surpreenderia se Portugal passasse a dependência espanhola, como se de um banco se tratasse. Como se falássemos em abrir um escritório no litoral já que o interior está desertificado de gentes e de economias de mercado viáveis. Por outro lado, despontam iniciativas de união ibérica, nem sempre dissimuladas, que causam engulhos.

Por ser um estudioso que condensou o que penso, sigamos Carlos Fontes,

O iberismo é típico do séc. XIX. … As pequenas nações condenadas a serem absorvidas pelas grandes (teoria darwinista). É uma manifestação patológica de indivíduos que sofreram influência espanhola ou se assumiram como agentes de interesses espanhóis. Quando a situação é melhor no outro lado da fronteira, a integração surge como a solução para resolver a crise, sem trabalho. Alguns assassinatos de iberistas ficaram célebres, como defesa de valores fundamentais – dignidade, identidade cultural e liberdade -, mas também respeito por si próprios. Um povo que não se respeita a si próprio, nunca será respeitado por outros. Ora, o iberista sempre manifestou um profundo desprezo pela dignidade e liberdade do português, agindo de modo a destruir a comunidade que o viu nascer… As mortes de dois iberistas assumiram uma enorme carga simbólica na história

A morte do Conde de Andeiro, fidalgo galego, foi o símbolo de liberdade de um povo que recusa as ingerências externas e os jogos palacianos. Este traidor castelhano participou em conspirações ao serviço de Portugal e de Inglaterra. Em Lisboa, ascendeu a uma elevada posição na corte, tendo recebido de D. Fernando o título de Conde de Ourém, e na crise de 1383-85, esteve ao serviço de Castela. Foi assassinado, em 1383, por D. João, mestre de Avis e futuro rei. A sua nefasta ação traduziu-se numa violenta guerra civil que só terminou quando os portugueses exterminaram os aliados de Castela.

Já a morte de Miguel de Vasconcelos exprime simbolicamente a afirmação da identidade cultural de um povo, cuja forte individualidade saiu reforçada após uma opressão de 60 anos. Ficou tristemente célebre pelo ódio que nutria pelos seus concidadãos. Em 1634 tentaram-no matar. Se o tivessem feito, muitas vidas teriam sido provavelmente poupadas. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, quando os portugueses restauraram a independência foi o primeiro a ser morto… depois, o povo português travou, durante 28 anos, uma sangrenta guerra na Europa e na América do Sul pela defesa da sua liberdade e dignidade.

Ora bem, como ninguém estuda História, episódios como este perdem a força e não são transmitidos de geração para geração, perdendo-se a memória coletiva do povo. Continuemos com as palavras de Carlos Fontes. Nas últimas décadas, órgãos de comunicação social, usando da liberdade de expressão, têm procurado abrir fraturas na sociedade. O objetivo é:

  1. Mostrar através de “sondagens” encomendadas ou “discussões” públicas que na sociedade portuguesa existe um grupo cujo objetivo é a dissolução do Estado português;
  2. Dar “voz” à hipotética minoria iberista portuguesa. Ao mesmo tempo, a imprensa espanhola mostra a aceitação à integração.
  3. Os supostos iberistas não constituem uma corrente de opinião nem um movimento organizado[2].

 

A razão por que escolhi este tema é a data que ora se celebra, o dia da Restauração da Independência de 1 de dezembro de 1640. Para que os mais jovens nunca o esqueçam e deixem de a tratar como um dia sem aulas. Infelizmente, é para a maioria, um dia como qualquer outro nos Açores, sem que o povo se dê conta do seu significado:

“…arrebatados do generoso impulso, saíram todos das carroças e avançaram ao paço. Neste tempo andava D. Miguel de Almeida, venerável e brioso, com a espada na mão gritando: — Liberdade, portugueses! Viva El-Rei D. João, o Quarto!”

A ideia de nacionalidade esteve por trás da restauração da independência plena após 60 anos de monarquia dualista. Cinco séculos de governo próprio haviam forjado a nação, rejeitando a união com o país vizinho. A independência fora sempre um desafio a Castela. Entre os dois estados houve sucessivas e acerbas guerras, as únicas que Portugal travou na Europa. Para os Portugueses, os Habsburgo eram usurpadores, os Espanhóis inimigos e os partidários, traidores. Avançara depressa a castelhanização do País de 1580 a 1640. Autores e artistas gravitavam na corte espanhola, fixavam residência, aceitavam padrões espanhóis e escreviam em castelhano, enriquecendo o teatro, a música ou a arte pictórica espanholas. A perda da individualidade cultural era sentida por portugueses, a favor da língua pátria e da sua expressão em prosa e poesia. Contudo, os intelectuais sabiam perfeitamente que os esforços seriam vãos sem a recuperação da independência política. Muitas razões que justificavam a união das coroas ficaram ultrapassadas. O Império Português atravessava uma crise com a entrada em jogo de holandeses e ingleses. Perdera o monopólio comercial (Ásia, África e Brasil) e a Coroa, a nobreza, o clero e a burguesia haviam sofrido severos cortes de receitas.

Os Espanhóis reagiam contra a presença portuguesa nos seus territórios, mediante vários processos, entre os quais a Inquisição. Isso suscitou grande animosidade nacionalista em Portugal aprofundando o fosso entre os dois países. Margarida, duquesa de Mântua, neta de Filipe II, exerceu o governo de Portugal de 1634 a 1640, como vice-rei e capitão-general. Economicamente, a situação piorara desde 1620 e estava longe de brilhante. Os produtores sofriam com a queda dos preços do trigo, azeite e carvão. A crise afetava as classes baixas, cuja pobreza aumentou. O agravamento dos impostos tornava a situação pior. Para explicar os tempos difíceis, a solução apresentava-se fácil e óbvia: a Espanha, causa de todos os males.

A conspiração independentista era heterogénea [nobres, funcionários da Casa de Bragança e do clero]. Em novembro conseguiram o apoio do duque de Bragança. Na manhã do 1º de dezembro, um grupo de nobres atacou a sede do governo[3] prendeu a duquesa de Mântua, matou e feriu membros da guarnição militar e funcionários, como o Secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos. Já dizia Camões: “Também dos Portugueses alguns traidores houve, algumas vezes…” (Os Lusíadas, C. IV, 33). Seguidamente, os revoltosos percorreram a cidade, aclamando o novo estado, secundados pelo entusiasmo popular, a mudança do regime foi recebida e obedecida sem dúvida. Só Ceuta permaneceu fiel à causa de Filipe IV.

  1. João IV entrou em Lisboa a 6 de dezembro. Proclamar a separação fora fácil, difícil seria mantê-la. Tal como em 1580, em 1640 os portugueses estavam desunidos. As classes inferiores mantinham a fé nacionalista em D. João IV, mas o clero e a nobreza, com laços em Espanha, hesitavam. O novo monarca estava numa posição pouco invejável.

Do ponto de vista teórico, tornava-se necessário justificar a secessão não como usurpador, mas a reaver o que por direito legítimo lhe pertencia[4]. Do lado espanhol, a Guerra dos Trinta Anos (até 1659) e a questão da Catalunha (até 1652) atrasavam ofensivas de vulto. A guerra, que se prolongou por 28 anos, teve altos e baixos até se assinar o Tratado de Lisboa, em 1668, entre Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha, em que este reconhece a independência do nosso País.

Hoje, gente com passaporte português celebra o 1º de dezembro como desastre ou deplorável evento. Esquecem que se tratou da reconquista da liberdade do povo e da nação subjugada pela dinastia dos Filipes de Castela. Mais vale um povo pobre e livre do que rico na gaiola dourada com as cores do reino de Espanha. Assim o dizem os galegos que se aproximam das origens portuguesas preservando a língua e cultura comuns: a memória dos homens é curta.

São interessantes os “pequenos detalhes” que determinam a Históriae que legalizaram de pleno direito a sucessão de Filipe II ao trono de Portugal em 1580 por morte sem descendência do herdeiro varão cardeal D. Henrique (68 anos) 9º filho do rei D. Manuel I. A candidatura de Filipe era fortíssima e indiscutível pelo casamento da filha terceira de D. Manuel I, com Carlos V, pais de Filipe I (II de Espanha).

Paradoxalmente, antes da candidatura de Filipe, a situação poderia ter sido invertida, unificando as coroas ibéricas “para o lado português”. Em 1499, foi proclamado herdeiro das coroas de Portugal e de Espanha, Miguel da Paz[5], primeiro filho de D. Manuel I com Isabel, filha dos Reis Católicos. Azar dos portugueses ou conspiração castelhana, morreu com 2 anos de idade.

Os portugueses serão sempre saudosistas, dos espanhóis, de Salazar e do sonho chamado 25 de abril.

— Quem diria que Portugal estaria melhor como província espanhola do que independente? (Os galegos dizem que não).

  • Quem garante que não seria Portugal uma célula independentista, tipo ETA, (aliada ou não à Galiza)?
  • E se fosse ao contrário? Se o Reino de Espanha fosse hoje uma província de Portugal?

Que aconteceria aos Bourbon?

Só tinham utilidade nos EUA. Lá emborcam todos os Bourbon que encontram.

Infelizmente, aqui ao lado, entronizam-nos e chamam-lhes Reis.

Chrys Chrystello, Jornalista,

Membro Honorário Vitalício nº 297713

[Australian Journalists’ Association] MEEA]

[Diário dos Açores (desde 2018)

Diário de Trás-os-Montes (desde 2005) e

Tribuna das Ilhas (desde 2019)]

 

esta e anteriores crónicas em As (Ana)Chrónicas Açorianas (lusofonias.net)

As (Ana)Chrónicas Açorianas (lusofonias.net)

[1] Miguel Urbano Rodrigues. “Alentejo Popular” (Beja) 02-11-06

[2] Oliveira Martins (1845-1894) é o melhor exemplo dos esbirros iberistas. É difícil de determinar a causa do profundo ódio que manifestava. Foi um típico vira-casaca: anarquista, socialista, republicano, monárquico, liberal, antiliberal. Defendeu a liberdade, mas também a ditadura. Atacou os ditadores, mas apoiou João Franco, sendo apontado como um dos introdutores das ideias socialistas e como um protofascista. Muitas das ideias foram aplicadas por ditadores (Sidónio Pais ou Oliveira Salazar). Antero de Quental (1869) era um confesso iberista, dois anos depois já nem fala no assunto, e mais tarde abomina a ideia. Algo idêntico ocorreu com Teófilo Braga.

[3] (Paço da Ribeira)

[4] Abundante bibliografia (em Portugal e fora dele) procurou demonstrar os direitos reais do duque de Bragança. Se o trono jamais estivera vago de direito, em 1580 ou 1640, não havia razões para eleição em cortes, o que retirava ao povo a importância que teria, fosse o trono declarado vago.

[5] in Oliveira Marques, “A Restauração e suas Consequências”, in História de Portugal, vol. II, Do Renascimento às Revoluções Liberais, Lisboa, ed. Presença, 1998, pp. 176-201). Todo o reinado (1640-56) foi orientado por prioridades. Primeiro, a reorganização militar, reparação de fortalezas, linhas defensivas fronteiriças, fortalecimento das guarnições e obtenção de material e reforços. Paralelamente, a intensa atividade diplomática nas cortes da Europa, para obter apoio militar e financeiro, negociar tratados de paz ou de tréguas, conseguir o reconhecimento da Restauração, e a reconquista do império ultramarino. A nível interno, a estabilidade dependeu, do aniquilamento da dissensão a favor de Espanha. A guerra da Restauração mobilizou todos os esforços e absorveu enormes somas. Pior, impediu o governo de conceder ajuda às atacadas possessões ultramarinas. Mas, se o Império, na Ásia, foi sacrificado, salvou a Metrópole da ocupação pelos espanhóis. Portugal não dispunha de exército moderno, as forças terrestres escassas, as coudelarias extintas e os melhores generais lutavam pela Espanha, e a guerra se limitou a operações fronteiriças de pouca envergadura.

CONVERSAS DO ALÉM – CRÓNICA 119 – 24 JULHO 2012 dedicado ao Dr. Soares de Barcelos falecido ouº2018

. CONVERSAS DO ALÉM – CRÓNICA 119 – 24 JULHO 2012

Há tempos fiquei menente[1] quando me disseram que um falecido, na vizinha Lombinha da Maia, pedira para ser enterrado com o seu inseparável telemóvel. O homem sem pitafe[2] algum viera da Amerca[3], da antiga Calafona[4], e queria estar contactável mesmo para lá do grande túnel luminoso.

Qual não foi o meu espanto, num alpardusco[5] de camarça[6], ao transitar pelo cemitério já encerrado a visitas, e ver três pessoas do lado de fora das grades do cemitério falando com alguém e usando os telemóveis bem encostados ao ouvido. Uma delas, tinha uma mão nas grades e na outra segurava o aparelho. Não tinha tarelo[7] nenhum. Não querendo ser lambeta[8], interroguei-me

“Estaria a falar com o falecido, que nascera empelicado[9]?

Será que o finado atendeu do lado de lá dentro do seu caixão de mogno envolto na “Stars and Stripes” à prova de leiva[10] ou continuaria na sua eterna Madorna[11]?

Teria acendido um palhito[12]para ver quem lhe ligava?

De que falariam?

Que mexericos trocavam?

Lamentar-se-iam da falta que lhes fazia ou estariam a queixar-se da carestia de vida?

Que palavras trocariam que não tivessem já comunicado?

Que faltara dizer?

Estariam a queixar-se da sorte caipora[13] dos herdeiros ou a culpá-los pela caltraçada[14] criada pelo inexistente testamento? Teriam sido vizinhos de ao pé da porta[15]?

Falariam do gado alfeiro[16] sem touro de cobrição?

Talvez dum derriço duma filha numa constante arredouça[17], às fiúzes[18] do namorado da cidade? Eu ia ficar a nove.[19]

Tratando-se de gente rural podia augurar que os vaqueiros se preocupassem mais com subsídios e vacas. Não devem escalar grandes cumes culturais ou espirituais. Pressuponho ser esse o jaez da conversação. Não creio que pedissem aconselhamento para as legislativas dali a seis semanas nem tampouco lamentassem a falta delas. Quem sabe que lastimavam? Falariam de mordomos, impérios e festas que isso, sim, seria assunto da maior relevância local, que o melhor da festa é esperar por ela, mas mais apropriado para se discutir à mesa, sem ninguém a atramoçar[20] com uns calzins[21] de abafado[22] até se ficar meio piteiro[23].

Uma pessoa interroga-se sobre a possibilidade de duração infinita das baterias do aparelho no esquife. Seria a solução para escritores e outros que se separam dos leitores sem tempo de dizerem um último adeus, escreverem a última frase de um livro, acenarem com um novo projeto ou retificarem qualquer coisinha.

Seria a forma inédita de poderem continuar a comunicar com aqueles que ficam facilmente órfãos de autores que os acompanharam nesta digressão terrena.

Admiro-me que as companhias de telecomunicação não tenham inventado uma bateria de longa duração que não precise de ser carregada debaixo de terra e permita acesso ilimitado, a troco de uma conveniente taxa vitalícia, aos que os deixaram já no meio duma amizade, dum amor, duma relação, duma paixão. Seria, decerto, um êxito comercial se viesse com a possibilidade de personalização do aparelho. Quem sabe o que se evitaria de dores incompletas, de saudades por mitigar, de conversas inacabadas? Novos planos poderiam surgir em operadoras de telemóveis. Um tema a merecer estudos futuros…[24]

[1] Menente, espantado, estupefacto (São Miguel)

[2] Pitafe, defeito, atribuído quer a pessoas, quer a objetos. Nódoa na reputação.

[3] Amerca, corruptela de América, ou Nova Inglaterra por oposição ao outro grande polo de emigração, a Califórnia

[4] Calafona, Califórnia, na estropiação dos emigrantes de antigamente

[5] Alpardusco, o mesmo que alpardo, crepúsculo, lusco-fusco (São Miguel)

[6] Camarça, tempo húmido (São Miguel)

[7] Tarelo, juízo, tino (São Miguel)

[8] Lambeta, intrometido (São Jorge)

[9] Empelicado diz-se de pessoa afortunada, usado na frase nascer empelicado (Terceira)

[10] Leiva, musgo Sphagnum. No Corvo musgo, nas Flores musgão, no Faial tufos. Calluna vulgaris, usada em S. Miguel na preparação do solo das estufas dos ananases.

[11] Madorna, sono leve, sonolência, torpor

[12] Palhito, o mesmo que fósforo (Terceira)

[13] Caipora, de qualidade inferior, reles. Sorte caipora: que pouca sorte, sorte maldita (São Miguel)

[14] Caltraçada, confusão, mixórdia, trapalhada

[15] Vizinho do pé da porta, que mora nas redondezas de uma casa (São Miguel)

[16] Alfeiro, gado que não dá leite, a vaca que não apanhou boi, e não dá leite. Gado alfeiro sem touro de cobrição (in Cristóvão de Aguiar)

[17] Arredouça, confusão, desordem

[18] Fiúzes (São Miguel) ou às fiúzas de, à custa de, viver à custa de outrem (Terceira)

[19] Ficar a nove, não entender nada do que ouviu.

[20] Atramoçar, aborrecer, interferir com, maçar (in Cristóvão de Aguiar) (São Miguel)

[21] Calzins, pequeno copo, geralmente destinado a beber aguardente ou bebidas finas

[22] Abafado, costa norte de S. Miguel, a abundância de pomares e a produção frutícola excedentária é frequentemente aproveitada para licores, vinhos abafados e compotas. Nos abafados, com elevado teor alcoólico a fermentação é interrompida através da adição de aguardente, permanecendo doce (o açúcar da uva não se transformou em álcool) é o vinho do Porto dos Açores, sem corantes ou conservantes.

[23] Piteiro, aquele que bebe muito (Terceira, Flores)

[24] revisto por e dedicado ao Dr. Soares de Barcelos (Dicionário dos Falares dos Açores (ed. Almedina 2008), por me fazer sentir menos estrangeiro (faleceu em outº 2018)

INSÓLITOS ISLÂMICOS – CRÓNICA 11, 24 JANEIRO 2006

INSÓLITOS ISLÂMICOS – CRÓNICA 11, 24 JANEIRO 2006

O dia acordou arejado. De facto, fora o mais fresco desde que chegara. No carro 6 ºC. Em Ponta Delgada os termómetros marcavam 9º, mas esperava-se que subisse até aos 18 ºC. De acordo com o calendário, pendurado em frente à secretária, era dia 23 de janeiro de 2006. Ao ler o jornal Público foquei uma notícia insólita:

À luz ou às escuras? Apagada, torna tudo muito mais louco: apalpões, encontrões, tropeções.

Manter a roupa? Deve ser sempre mantida, antes, durante e depois, pois é mais quentinho e aconchegado.

No campo alentejano espera-se que ele esteja com ceroulas e samarra e ela de saiote, combinação e chancas…

Como seria nas velhas dinastias praticantes de safada e jesuítica hipocrisia? Teriam um buraco no amplo camisão de noite? Quando os reis e príncipes se encontravam com as amantes ou barregãs, haveria mais intimidade e seriam dispensadas as vestes? O Freitas do Amaral na biografia do primeiro rei esqueceu-se de abordar o tema. A literatura medieval e posterior, atazanada pela sede persecutória da Inquisição deixou esta lacuna que urge investigar. Atenção mestrandos e investigadores. Apliquem-se e estudem o tema em profundidade. O resto da população regressará à pacatez islâmica e cumprir as normas e regulamentos: nudez total nunca!

Ora aqui está a prova porque é que Portugal sofre de todas as maleitas e baixa estima nacional. Finalmente sei porque é o desemprego aumenta, as empresas deslocalizam, a pátria espera pelo salvador que não se chama Sebastião e não chega numa noite de nevoeiro, nem é natural de Santa Comba Dão. Agora sei por que razão a igreja católica se viu compelida a criar a Santa Inquisição pedida por D. Manuel I, para cumprir o acordo de casamento e a 17 dezº 1531, o Papa Clemente VII, instituiu-a, mas um ano depois anulou a decisão. D. João III, renovou o pedido e encontrou ouvidos favoráveis no novo Papa Paulo III que cedeu, em 23 maio 1536, para durar até 1821.

A crer na História, na Idade Média o quotidiano das pessoas era preenchido por devassidão, depravação, desregramento, intemperança, libertinagem, devassidão, e por isso a Igreja teve de agir. Agora é a vez do Egito, com 477 anos de atraso, verificar a gravidade do problema que pode invalidar casamentos.

Se em vez do Egito fosse em Portugal quem sabe quantos seriam os casamentos anulados? Mas também neste particular Portugal pode dar umas dicas aos egípcios: ao preço a que a eletricidade está, deve ser sempre de luz apagada, com os dois parceiros totalmente vestidos por haver falta de verbas para aquecimento. Nem se consegue imaginar a cena doutra forma.

Infelizmente o debate não vem a tempo para perguntar aos candidatos a Presidente da República qual das infrações cometeram. Imagine-se a discussão nos 27 países. Resta aguardar que o debate chegue ao Parlamento Europeu.

Haverá no país e ilhas atlânticas, alguém interessado num inquérito para ver quantos casamentos são inválidos?

Por mais tolerante e multicultural que possa ser esta questão está a dar comigo em doido.

Se seguir a norma ora decretada no Egito nunca estive casado!

Isto sem contar as noites quentes passadas – em quantos países – em que ABSOLUTAMENTE me esqueci dos lençóis.

E na praia quando havia luar?

E quando era novo e acampava?

E na fase louca de vida em que vivi com os hippies na Beach House na praia em Díli?

Ou quando fui às massagens em Pattaya, Tailândia?

E em Macau, Indonésia, Kuwait City, ou no Brasil e Espanha com mais de 43 ºC? em Perth estivera sob 49 ºC.

O melhor será invocar doença degenerativa do foro psíquico ou amnésia súbita. Ai se me apanham! Ainda bem que não fui ao Egito nem vi múmias nem pirâmides, caso contrário penavsa numa cadeia do Cairo. Vou aproveitar para enviar esta Crónica aos filhos a avisá-los dos perigos que correm. Admira-me que o primeiro-ministro não tenha dado uma conferência de imprensa a alertar o povinho. O Papa Benedito se calhar vai aproveitar esta boleia islâmica e exigir o mesmo dos católicos.

“Sou casado, tenho filhos, mas você é linda. Quer fazer amor comigo?” Ouvi esta frase vulgar num filme mas pensava ser mais romântico “Voulez-vous coucher avec moi (ce soir)?” frase francesa divulgada na música “Lady Marmalade,” por Bob Crewe e Kenny Nolan e popularizada em 1975 por Patti LaBelle, Nona Hendryx e Sarah Dash. Seguiram-se versões em 1998 pelos All Saints e 2001 por Christina Aguilera, Lil’ Kim, Mýa e Pink num “single” para a banda do filme Moulin Rouge! A frase apareceu numa peça de 1947 de Tennessee Williams “A Streetcar Named Desire – Um elétrico chamado desejo.” David Frizzell e Shelly West gravaram um disco com música “country” em 1980 com o mesmo título, mas sem relação ao êxito anterior. Também em 1973, a atriz porno, política e ex-parlamentar italiana, Ilona Staller (Cicciolina), atingiu a fama com um programa de rádio com esse título “Voulez-vous coucher avec moi?” na Rádio Luna. Mas a origem da frase data de 1922 num poema de E. E. Cummings mais conhecido pela primeira estrofe “little ladies more,” que contém duas vezes a célebre frase.

Apesar de me lembrar de frases semelhantes estou vivamente convicto de jamais ter cometido qualquer ato de qualquer natureza com uma cidadã que professasse a religião islâmica, mas vou rever os apontamentos. Houve uma atraente e jovem árabe, dissera ser libanesa e não iraquiana, nessa viagem a meu lado rumo à Europa, de seis em seis horas erguia-se, estendia o tapete portátil, como quem abre um computador de viagem, perguntava onde ficava Meca e punha-se a orar a Alá. Nunca se deve fiar no que dizem. Não seria mais tarde, uma mártir e não se fizera explodir? Nem a tentei converter nem ela quereria.

Evoco as gaiatas persas no voo Air France (Paris Banguecoque 1973). O Xá Reza Pahlavi no poder na Pérsia e Farah Diba era nome de imperatriz. As meninas ricas passavam a vida em Paris a comprar joias e vestidos. Pareciam ocidentais de beleza exótica e pele levemente tisnada, nunca mais as vira. Nem eu nem ninguém. O Xá foi apeado e a Pérsia desvaneceu-se no Irão islâmico com mullahs, aiatolas e polícias à paisana para levantarem as burcas às jovens e verificarem se tinham batom nos lábios ou rímel, manifestações decadentes da civilização ocidental. Quantas não recordariam com saudade os tempos sem burca? a civilização retornara à idade da pedra com poderio nuclear, açoitando os criminosos, empalando mulheres à pedrada, cortando mãos, enforcando homossexuais e desviantes. Desafiava o ocidente, negava o holocausto.

Uma vez no bar dum hotel alemão de Frankfurt-am-Main, uma jovem sarracena, atraente, misteriosa e enigmática abordara-me com sinais de cabeça, já a noite ia alta. A atração das Arábias. Como se respondia nos antigos interrogatórios judiciais “Aos costumes disse nada.” Não recordo se seria argelina ou marroquina, talvez maltesa com sangue francês? Ou fora em Paris? Em Madrid não fora decerto, poderia ter sido em Londres ou Roma, Dubai, Abu Dhabi, Kuwait, Kuala Lumpur ou Banguecoque. As memórias entrecortavam-se, rostos sem nome e nomes sem rosto, lugares e momentos sem legendas. Aeromoças, companheiras de viagem, companhias de ocasião em busca de almas e corpos solitários. Nada sabia, nem nomes nem faces, nem a história. E depois havia a miúda, hospedeira da Cathay Pacific que telefonava e aparecia sempre que ia de Hong Kong a Sydney. Gestas que o tempo perdera. Episódios sem pontas para atar no balanço de vida hedonista.

Acreditem, era absolutamente demolidor. Nunca me lembrei ao conhecê-las de lhes perguntar a religião, nessas estadias curtas que fiz em cidades exóticas. Estava mais interessado em partilhar culturas e experiências do que descobrir o que se escondia por trás de véus e burcas. A ação jornalística em pleno Médio Oriente, de férias ou em trânsito, não estava totalmente desprovida de riscos como mais de uma vez constatei, mas este não fora previsto.

Por outro lado, a minha mulher “moura lisboeta” anda apreensiva, se bem que não seja seguidora dos ensinamentos de Maomé. Anda cabisbaixa e sisuda desde que leu a notícia, talvez prepare algo. Não auguro nada de bom. Isto não vinha nada a calhar, após tantos anos de casamento. A sociedade portuguesa vai agitar-se, imagino conversas em voz baixa à mesa dos cafés. Todos a fazerem perguntas e a tirarem notas, sabe-se lá do que são capazes para apanhar um qualquer pecador desprevenido. Este país sempre foi um covil de bufos. Que se cuidem os incautos que a fé pode abalar montanhas. Já me decidi, caso seja descoberto e exposto à ira islâmica, tornar-me-ei num mártir homem-bomba e far-me-ei explodir para ir direito ao céu onde garantem que 72 virgens me aguardam após a consagração como mártir em prol do Grande califado Al Andaluz..

 

ADOLESCENTES, 19 MAIO 2006 CRÓNICA 20.

11.20. ADOLESCENTES, 19 MAIO 2006 CRÓNICA 20.

De repente, penso ser demasiado exigente com o filho mais novo, tal como o pai foi comigo e estou errado. Vou tentar emendar-me. Fui bafejado com uma criança inteligente, ativa e dinâmica, sem dificuldades no ensino e continuo a exigir a calma e atitude que só tive em fase adiantada. Repito trajetos genéticos na ânsia de ter um filho que sofra menos do que eu até ter estabilidade emocional e psíquica. Quero incutir-lhe a ética de trabalho, dedicação e respeito pelos outros, que raramente se vê nos jovens, e que caraterizaram a minha vida. No resto não preciso de lhe incutir nada pois irá beneficiar da educação mais independente, destes tempos livres, mais desacompanhados do que eu tive, andando na aldeia de bicicleta, a brincar com os amigos e a descobrir o que quer que ande a descobrir. Em dezº 2005 voei pelo Atlântico para passar o Natal com a minha mãe. Era sempre eu quem fazia a deslocação, pois reconhecia (mas começava a ter dúvidas) que os filhos tinham esse dever. Em tempos esperara que nos fizessem o mesmo.

Não houve essa sorte. Estive sempre disposto a fazer o que fosse preciso pelos pais. Sonhei que se repercutiria comigo mas não tinha ilusões. A relação não era biunívoca, as gerações não eram estanques. O primo de Ponta Delgada tem duas filhas expatriadas que vêm visitá-lo (quando eles não vão lá). O segredo: incentivo económico à vinda. Outro casal tem filhos noutras ilhas mas são eles que visitam, a alternativa era enviarem bilhetes de avião para os filhos. Discordo e decidi que quem vier cá virá à sua custa, sem subsídios. Sei como desiludi os pais durante décadas. Queriam uma imagem outra, dum espelho em que não estava, e a que não pertencia. Nada disso pedi aos filhos. Que se passou, no país e no mundo? Erramos na educação? Não inculcamos valores pelos quais nos guiamos na nossa vida? Não os soubemos transmitir? Algo errado devemos ter feito, ou esta sociedade nada tem a ver com a nossa?

O casamento deixou de ser uma meta. Os jovens amancebam-se para ver se dá. Para pagarem menos impostos. Se não der ou quando não dá, é mais fácil e económico, cada um vai à sua vida. Os filhos não programados vêm quando vêm. Depois logo se vê. Entretanto, usufruem da vantagem de os pais serem à moda antiga e vão colaborando, com o que for preciso, para a alegria de verem os netos. Havia dantes uma palavra para nos definir: palonços. Quando aprenderem as duras realidades do custo de vida é provável que telefonem a solicitar comiseração, um subsídio para as dificuldades. O que se passa, de facto, mas como é invisível não é comentado, é a perda irreparável dos laços tradicionais entre pais e filhos, muitas vezes mantida através da “compra” da sua presença por viagens. Durante mais de duas décadas e meia de expatriado sempre voltei a Portugal ver pais e filhos. Ainda lamurio que podia ter viajado pelo Pacífico, Nova Zelândia, Fiji, Nova Caledónia, Filipinas, Vanuatu e outras ilhas. Não me arrependo. Cria piamente na obrigação de vir ver os de cá, já que, jamais iriam lá, por mais bilhetes que mandasse ou súplicas que fizesse.

Mantive o vínculo a um passado mítico que mais tarde viria a desmistificar. Esta é uma reação ao envelhecimento e à evolução tecnológica brutal, que ocorre, para a qual esta geração não estava preparada. Como qualquer revolução, deixa uns mais preparados que outros para arrostar com provações e prosseguir. Estou cético e negativista, pois a velhice vai encontrar silêncio dos mais jovens, incapazes de nos verem envelhecer e aceitar graciosamente as mudanças, inclusive a relação entre pais e filhos. Não podemos agir como os nossos pais. Estamos em constante evolução e nada melhor que bom senso e amor para educar os filhos e manter um bom relacionamento. Na Austrália havia 97% de coisas positivas, e queixava-me dos 3% que abominava, a inumanidade de tratamento dos pais pelos filhos. Pensei encontrar cá os 3%. Enganei-me, ambos os países tinham sociedades similares de desprezo pela Terceira-Idade.

Curiosamente, a minha mãe, em finais de 1990, apoquentada, contava a todos que se arrependia de não me ter deixado seguir Letras e Humanidades como eu pretendia. Sossegara-a, estava perdoada. Não fazia mal. Cheguei ao destino, com uns milhões de quilómetros de desvio, mas cheguei. Não recrimino as escolhas dos pais por não me terem deixado seguir Direito em Coimbra. Escreveram direito por linhas tortas. Tento concentrar-se no mais novo. Dar-lhe o que possa, em experiência e conselhos úteis. Beneficiei de ter vivido mais tempo com ele do que com os outros. Seria reciproco? Para mim foi ótimo, mas também doloroso, exasperante. Sempre fiz telefonemas diários para saber da mãe, sem recordar que raramente recebi telefonemas dos filhos. Quando queria era eu quem tomava a iniciativa, até que me cansei da inutilidade dessas tentativas. Vim para Portugal e estar com a família, alargada a primos e descendentes.

“Estou deprimido” é expressão recorrente nesta geração paradoxal. Inconsciência crónica com excesso de preocupações. Da banalidade despreocupada à angústia paralisante. Convém recordar que a atual geração não passou por privações familiares, comparado com a minha geração de “baby boomers” no pós-guerra. A geração rebelde que, no fim dos anos 60, se revoltava contra o status quo na França e contra a guerra colonial em Portugal tinha algo contra que lutar. Vivia melhor que a geração dos pais, em conforto e posses económicas, mas era arrastada para projetos militares alienígenas aos quais se opunham. Queria tomar parte na construção da História e não ser arrastada como nota de rodapé como acontecera aos pais. Depois chegou o 25 de abril e as liberdades misturaram-se inicialmente com as libertinagens. Os jovens dos anos 70 e 80 nasceram com o rei na barriga. Nada era proibido e podiam almejar à sociedade sem classes em que todos tinham acesso ilimitado a todos os bens, sendo felizes para todo o sempre.

As crises económicas não se fizeram sentir muito na Europa Ocidental (exceção: a crise do petróleo, 1972) e a máquina da publicidade assenhoreou-se da televisão e comunicação social, moldando os que temos em casa ou que dela saíram há pouco. Por mais que tenhamos dito que a vida era feita de sacrifícios, não passaram pelas nossas experiências dolorosas, nem as viram nem as sentiram. Frequentar a universidade não era um apanágio de elites, nem mesmo as privadas era já considerado elitista. Os cursos facilitaram o acesso a canudos que tinham a fama de servirem para distinguir entre os que vencem na vida e os outros, embora na prática começasse a ser diferente.

A maioria dos pais enfrenta a situação desconcertante de terem filhos que, por um lado, se comportam irresponsavelmente sem dar importância às coisas que, teoricamente ,lhes deveriam interessar e, por outro lado, se manifestam devastados pela incerteza do futuro ou por pequenos reveses. Parece que nasceram sabendo tudo mas são incapazes de enfrentar minúsculos contratempos. Quase que são incapazes de, à minha janela, ver a lua mas distinguem o minúsculo farol de Santa Iria? Como é possível, que jovens tão pouco dados a levar a vida a sério se tornem em vítimas quando veem as coisas mal paradas. Estarão a exagerar? Não se tratará dum estratagema de autodesculpa, um recurso para obterem compaixão e evitarem atuar? Tudo leva a crer que não. Poucas vezes se trata de excesso de birras e de espavento de crianças ou adolescentes malcriados tentando comover os adultos assustadiços a fim de levarem a sua avante. Os pais fizeram o que lhes competia dando o máximo de bens materiais aos filhos, pois eles não tinham tido esse acesso. Aproveitaram igualmente para se rodearem desses bens e não podiam viver sem eles. Parecia uma sociedade de abundância sem limites. A pressão dos pares a nível social, engendrada pela insaciável publicidade, ajudou-os a que comprassem tudo e mais alguma coisa. Quando a árvore das patacas seca, i.e. só quando saem de casa é que se dão conta de que até as mais pequenas coisas têm um custo. A vida está feita de pequenas coisas, o que os irrita profundamente porque quando chegam às grandes coisas já não há dinheiro.

Muitos especialistas concordam, as causas da intolerância e da frustração jovens estão intimamente ligadas aos valores propugnados pelos meios de comunicação. Quando, desde a nascença, um jovem recebe através da TV, mensagens subliminares, não é descabido pensar que alguém os incapacitou para enfrentar a realidade. Esse alguém não foi nem o pai nem a mãe, incapazes de negarem os seus caprichos, mas os meios de comunicação a enganar e manipular as mentes dos recetores consumidores. A televisão (ou a publicidade que dirige como soberana implacável os conteúdos e as formas das mensagens) é o agente principal da frustração. Que capacidades de enfrentar os problemas terão os que nos anos mais recetivos da vida foram metralhados com promessas de felicidade virtual, de satisfação através do consumo, de êxito imediato, visões da vida pintada como um show de diversões que nunca termina? O discurso mediático e mercantil alimenta a falta de maturidade que se revela quando a realidade nua e crua mostra a face e o jovem constata que nada é como lhe disseram, criando um desajustamento causador de insatisfação e ansiedade. Assim como nos anos 60 e 70 se falava da geração rebelde, nos 90 foi a geração Prozac ou “rasca,” depois tivemos os “Millenials” agora podemos ter chegado à da frustração. Nem poderia ser doutra forma, mas a evidência não resolve o problema nem serve de consolo. Quando os adolescentes dizem que estão agoniados e deprimidos estão a falar a sério, sofrendo mais do que possamos imaginar. E convém fazer constatações mais comezinhas.

Será por isso que aumentou substancialmente nas últimas décadas o número de consultas de adolescentes nos serviços de urgência psiquiátrica. Num hospital de Barcelona as estatísticas indicam primeiro, as alterações de conduta, seguidas das crises de ansiedade, 25% do total de casos. Se acrescentarmos os 15% de tentativas de suicídio teremos de admitir que se trata dum problema grave e crescente. Trata-se de intolerância à frustração. Muitos jovens não aguentam os revezes pois não foram treinados para os enfrentarem. Nasceram sobreprotegidos, acostumados a conseguirem da família tudo, falta-lhes a experiência de sentirem necessidades ou de passarem pela penúria, carecendo de defesas face às dificuldades. Já se disse e redisse à saciedade, e com certo fundamento, que os pais das últimas décadas criaram inválidos sem recursos para enfrentarem um mundo, regido pela competitividade e elevados padrões de exigência, a nível laboral e profissional, nas relações interpessoais e integração social. Os adolescentes naufragam no trajeto entre a infância almofadada que nada lhes exigiu e um futuro eriçado de obstáculos.

A geração paterna apenas tem a perpetuação desse estereótipo. A sobreproteção e a permissividade excessivas criaram jovens dependentes, sem autonomia para fazer planos, tomar decisões maduras e confrontarem os próprios problemas. Não será totalmente justo adotar o discurso de serem os pais culpados da desventura da adolescência. As famílias, apenas em parte são culpadas da irresponsabilidade dos filhos que pagam com angústias, a vida mole e não adianta colocar mais esse peso nos ombros dos pais. Atuaram movidos pelo carinho, mesmo se revestido de formas erradas. A maioria dos jovens deprimidos deixou de buscar apoio e cumplicidade nos amigos como acontecia, quando se refugiavam dos pais cheios de defeitos, mas mais eficazes a gerirem a segurança emocional que é necessária nesses momentos. Hoje há leis e proteção contra “bullying”. No meu tempo fui vítima anos a fio (na primária e liceu, sem saber sequer que se chamava “bullying”) sem apoio parental ou outro. Tive de me desenvencilhar sozinho e sobrevivi. Sei que ainda hoje não me sinto à vontade, evito falar no assunto e não entro em detalhes, exceto para mencionar que a maioria jogava futebol e eu jogava xadrez, lia, fazia um jornal de liceu, dizia poesia, e não conseguia ficar bronzeado.

Numa conferência sobre educação e conflitos de gerações, o médico inglês Ronald Gibson citou quatro frases:

1) A juventude adora o luxo, é mal-educada, troça da autoridade e não tem respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais e são simplesmente maus.

2) Não tenho esperança no futuro do país se a juventude tomar o poder amanhã, porque é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.

3) O nosso mundo atingiu o ponto crítico. Os filhos não ouvem os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe.

4) Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.

Após ter lido as citações, ficou satisfeito com a aprovação dos espetadores e revelou a origem:

  • A primeira é de Sócrates (470-399 a.C.)
  • A segunda é de Hesíodo (720 a.C.)

  • A terceira é de um sacerdote do ano 2.000 a.C.

  • E a quarta foi escrita num vaso de argila na Babilónia (atual Bagdad) há mais de 4.000 anos.

 

Aos que são pais: RELAXEM, sempre foi assim. Como crianças mimadas em vez de lutarem por trabalhar e ganhar mais, queixam-se, entram em depressão apática, sofrem na inação e deprimem-se mais. Tudo é um direito divino que compete aos pais satisfazer e quando não alimentam a ilusória vida fácil, sentem-se traídos pela sociedade e família. O que não sabem é que um dia vão pagar as dívidas que o mundo e a sociedade lhes deixaram, e só então terão razão para se sentirem deprimidos, mas ainda não chegaram lá e não se preocupam. Parece a história deste país que habito, mas não é. Foi tudo inventado numa deprimente tarde chuvosa de inverno aqui na ilha de S. Miguel.

 

covid-fase-3 DUAS CRÓNICAS

 

COVID FASE 3 NO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO CRÓNICA 364 DE 25.10.2020

DIA 1 DE JANEIRO 2021, COMEÇA HOJE UMA NOVA ERA, a União Europeia decretou e deu poderes plenos aos estados membros para implementarem, de imediato, na medida das suas disponibilidades técnicas, as novas medidas de saúde púbica, necessárias para se lidar com a pandemia SARS-COV2 que alastrou, de forma descontrolada, por todo o mundo.

Assim, a partir de hoje, o Estado decide quem pode sair de casa, quem se pode dirigir ao emprego e a qual emprego, quem pode ir aos super e hipermercados fazer compras, decidindo também o que cada um pode comprar se o Estado considerar tais compras essenciais e de primeira necessidade. Nem todos os itens expostos podem ser adquiridos por qualquer pessoa.

Os levantamentos bancários continuam suspensos enquanto se introduzem as novas moedas virtuais e se faz a conversão de débitos e créditos em bitcoins e outras moedas.

Os programas de reconhecimento facial serão lentamente introduzidos em todos os países para permitirem um maior controlo de ameaças terroristas e de grupos que visam desestabilizar a sociedade, contrariando as medidas de controlo da pandemia e de bem estar e saúde de todos os cidadãos.

Todas as viagens para fora dos concelhos de residência e do país, terão de ser previamente autorizadas através do novo cartão de cidadão e de seus créditos sociais.

As viaturas privadas só podem circular se previamente os seus proprietários tiverem obtido os créditos sociais necessários para circular e apenas nas áreas autorizadas.

O novo sistema da EU permitirá aos cidadãos e empresas uma recompensa ou punição pelo respetivo comportamento social, como forma única de se debelar a grave crise de saúde que a Europa atravessa.

Este novo sistema de créditos sociais inclui toda as ações que possam afetar a honestidade e idoneidade de cada pessoa (exemplos: não atravessar a rua nas passadeiras e zebras, escrever falsidades nas redes sociais, difamar, propagar boatos ou notícias falsas relativamente ao Estado e seus membros, não reciclar os resíduos urbanos, ter dívidas não pagas, ter comportamentos de alcoólatra, excesso de tempo gasto em jogos online, etc..

Só assim será possível alcançar “harmonia social” nos campos da saúde, higiene e planeamento familiar; segurança social, cuidados com os mais velhos e caridade; trabalho e emprego; educação e investigação científica; cultura, desporto e turismo; proteção ambiental e poupança energética; aplicações e serviços de Internet; vida económica e social.

Tudo o que for publicado online será rastreado e incluído na pontuação de cada cidadão, o que significa que quem postar mensagens positivas sobre o país, o governo, o sistema social, a economia, etc., terá uma classificação mais elevada (e vice-versa, é claro).

Mas o que é ainda maior garante da justiça deste novo sistema, e a fim de evitar fraudes, é que os cidadãos não terão controlo total sobre a sua própria pontuação, pois a mesma depende também do que amigos e familiares disserem e fizerem online. Ou seja, se o cidadão X tiver o azar de ser amigo ou familiar de alguém que faça um comentário negativo online, ou que incorra em algum tipo de comportamento “desadequado”, o resultado é que o mesmo terá consequências negativas na sua classificação baixando-o e mesmo que X não tenha absolutamente nada a ver com o assunto.

Por outro lado, se cometer um ato heroico, fizer doações, participar em programas de voluntariado poderá ter mais pontos na sua classificação pessoal, uma espécie de Euromilhões que lhe permitirá ter mais benefícios como internet mais rápida, mais viagens, mais compras, inscrever os filhos nas escolas de topo, obter empréstimos bancários, candidatarem-se a benefícios da segurança social, concorrerem à função pública, poderem trabalhar no setor da restauração e hotelaria, na indústria da medicina, bem como na transação de certo tipo de ativos; conduzirem comboios ou aviões; visitarem certos restaurantes, hotéis, clubes, adquirirem seguros de natureza variada; renovarem a própria casa e, finalmente, e como já referido, sofrerem imposições à velocidade da Internet, que ficará mais lenta..

Tudo vai depender do seu nível de confiança e credibilidade.

Para muitos analistas, há muito que os vários governos vinham solicitando autorização para este novo sistema de monitorização e classificação individual. E já vivemos há anos num mundo onde algoritmos preditivos determinam se somos uma ameaça, um risco, um bom cidadão ou se somos de confiança, pelo que a ameaça COVID veio permitir finalmente criar uma sociedade mais harmoniosa e funcional.

No entanto, como nota discordante, surgiu em Portugal um movimento contestatário intitulado “Cidadãos pela liberdade” (já devidamente identificados e assinalados como perigosos desordeiros atentando contra a ordem pública) que pretende declarar a inconstitucionalidade das novas normas através de uma providência cautelar.

A publicação deste artigo de minha autoria, comprovada que foi a sua originalidade e não plágio, dará um crédito de 5 pontos ao seu autor

.

Chrys Chrystello, Jornalista,

Membro Honorário Vitalício nº 297713

[Australian Journalists’ Association] MEEA]

[Diário dos Açores (desde 2018)

Diário de Trás-os-Montes (desde 2005) e

Tribuna das Ilhas (desde 2019)]

 

 

 

 

Cronica 365, NÃO FAÇA PLANOS, ELES JÁ OS FIZERAM POR SI, 2 NOV 2020

365, não faça planos, eles já os fizeram por si, 2 nov 2020

É oportuno recordar um conselho de Confúcio: “se tiveres planos para um ano, planta arroz; para dez anos planta árvores; para cem anos, educa as crianças.” Em democracia, isto seria muito difícil pois os políticos desta sábia visão não seriam reeleitos.

 

Com esta história do Covid se não morremos da doença, morremos da cura, mas entretanto os nossos direitos constitucionais podem ainda ter utilidade e ser usados como papel de parede. Aproveite para usar sempre a máscara, já não precisa disfarçar o sorriso. Aceite o que os governos e a OMS lhe mandam, é para seu bem e no fim, ainda lhe oferecem a vacina (a da gripe existe há décadas e a gripe continua como há séculos mas podia ser pior, dizem-me). Fazem bem os que não ouvem os cientistas (enganam-se tantas vezes…) e os que antecipam cataclismos, tudo pode acontecer, um meteoro destruidor (como já sucedeu); um tsunami avassalador, a erupção de Yellowstone ou Cracatoa. Nesta indiferença suicida, aproveitem os dias que restam antes do fim, continuando a poluir os oceanos com os plásticos, que já comemos na alimentação diária, que já respiramos e absorvemos nos pulmões, beba a água que falta em muitos cantos do mundo enquanto não paga por ela e enquanto a torneira estiver aberta. Quem sabe, se a IA (inteligência artificial), que povoa fábricas e escritórios, finalmente decide que não temos inteligência suficiente para continuar a viver e nos condena ao extermínio, como fizemos a tanta civilização que descobrimos quando explorávamos os oceanos (lembro-me de Pizarro e Cortéz nas Américas).

 

Por isso, continue a proferir palavras e desejos ocos; mas cheios de boas intenções; deixe-se absorver pelo consumismo exacerbado a que a massificação da propaganda o impele; compre, mais, sempre mais; endivide-se a si, aos filhos e aos netos para “possuir” bens materiais de que não necessita (embrulhados em plástico brilhante para poluir visivelmente) mas que lhe dão imenso gozo possuir mesmo que não os use (por exemplo um catamarã para navegar no Saara, um avião para estacionar na ilha do Corvo; um submarino para a Lagoa do Fogo; acredite que tem muitos amigos no Facebook; sinta que é um bom católico e vá à missa, aos enterros e outras funções (quando não espezinha os que se cruzam consigo ou se esquece dos ensinamentos dos livros sagrados); pense que é um bom patrão (só por ser condescendente com os súbditos, perdão, agora chamam-se “colaboradores”); estacione no lugar dos “deficientes (só demora um minuto) sempre que não encontre lugar à porta do supermercado; continue a ignorar como se circula numa rotunda; use a faixa do meio ou a da esquerda quando há mais do que uma nas autoestradas e vias rápidas; atire lixo ou beatas de cigarro do veículo em andamento ou se for a andar atire para o chão que a papeleira está a 50 metros; e terá, à sua frente, um futuro tão brilhante quanto o de Marco Túlio Cícero, advogado, político, escritor e filósofo. A sua influência na história da prosa subsequente é enorme. A ele se deve a introdução e o desenvolvimento da filosofia grega no mundo romano, bem como a criação de um vocabulário filosófico novo que incluiu termos como evidentia, humanitas, qualitas, quantitas e essentia. Morreu em 43 a.C. de morte matada. As suas mãos e a cabeça foram publicamente exibidas por ordem de Marco António. Se ainda não deu destino aos seus bens, pense nisso, pode não os ter amanhã ou não os poder utilizar. Quando os empregos acabarem vai viver de quê?

 

Há tanta civilização, conhecida e desconhecida, que desapareceu da face da terra. Algumas deixaram rastos visíveis, outras sumiram e nem conseguimos interpretar os vestígios para avaliar as causas do desaparecimento, é conjeturável que o mesmo suceda à nossa. Tudo começará do zero, com os sobreviventes, se os houver, e como a História nos ensina, serão os tecnologicamente menos atualizados, como os aborígenes australianos em contexto tribal. Demorará milhares de anos a evolução tecnológica e até lá ficarão a pairar nos céus satélites obsoletos, perecerão as torres de comunicações indispensáveis à civilização atual, a natureza ocupará os edifícios abandonados, as areias enterrarão os exageros dos Emirados Árabes, e, alguém descobrirá os vestígios desta civilização como descobriram Borobodur[1] ou como descobrimos cidades Maias, em plena selva, soterradas por séculos de abandono.

E termino parafraseando um mago da música, Roger Waters: “This species has amused itself to death” que é como quem diz “esta espécie (humana) divertiu-se imenso até à morte”. Seja feliz enquanto pode.

 

. Chrys Chrystello, Jornalista,

Membro Honorário Vitalício nº 297713 [Australian Journalists’ Association] MEEA]

[Diário dos Açores (desde 2018)

Diário de Trás-os-Montes (desde 2005) e

Tribuna das Ilhas (desde 2019)]

 

 

 

 

 

 

[1] (Indonésia, Java, construído no séc. IX e ressurgido em 1814 ou em 1860 parte de Angkor Vat, Camboja, que ainda não foi totalmente redescoberto)

Cronica 364 Covid Fase 3

e se pensa que vai haver natal leia isto

Pronto!
Na “douta” opinião do “cavalheiro”, Natal não é ” sempre que o homem quer “, mas sim “sempre que o Governo quiser”.
Dito de outra forma, e por “sugestão” do ” cavalheiro”, o Natal fica adiado “sine die” (cancelado já seria mais complicado, embora a “ilustre personagem”, o prefira).
Cumpra-se!
Image may contain: 1 person, text that says "SICO "LEI PERMITE AO GOVERNO CANCELAR 0 NATAL" 19:23 Covid-19 nove mortos e 132 infetados em lar de Alverca"
COVID FASE 3 NO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO CRÓNICA 364 DE 25.10.2020

DIA 1 DE JANEIRO 2021, COMEÇA UMA NOVA ERA, a União Europeia decretou e deu poderes plenos aos estados membros para implementarem, de imediato, na medida das suas disponibilidades técnicas, as novas medidas de saúde púbica, necessárias para se lidar com a pandemia SARS-COV2 que alastrou, de forma descontrolada, por todo o mundo. Assim, a partir de hoje, o Estado decide quem pode sair de casa, quem se pode dirigir ao emprego, quem pode ir aos hipermercados fazer compras, decidindo o que cada um pode comprar se o Estado considerar tais compras essenciais e de primeira necessidade. Nem todos os itens expostos podem ser adquiridos.

Os levantamentos bancários continuam suspensos enquanto se introduzem as novas moedas virtuais e se faz a conversão de débitos e créditos em bitcoins e outras moedas.

Os programas de reconhecimento facial serão lentamente introduzidos em todos os países para permitirem um maior controlo de ameaças terroristas e de grupos que visam desestabilizar a sociedade, contrariando as medidas de controlo da pandemia e de bem estar e saúde de todos os cidadãos.

Todas as viagens para fora dos concelhos de residência e do país, terão de ser previamente autorizadas através do novo cartão de cidadão e de seus créditos sociais. As viaturas privadas só podem circular se previamente os seus proprietários tiverem obtido os créditos sociais necessários para circular e apenas nas áreas autorizadas.

O novo sistema da EU permitirá aos cidadãos e empresas uma recompensa ou punição pelo respetivo comportamento social, como forma única de se debelar a grave crise de saúde que a Europa atravessa.

Este novo sistema de créditos sociais inclui toda as ações que possam afetar a honestidade e idoneidade de cada pessoa (exemplos: não atravessar a rua nas passadeiras e zebras, escrever falsidades nas redes sociais, difamar, propagar boatos ou notícias falsas relativamente ao Estado e seus membros, não reciclar os resíduos urbanos, ter dívidas não pagas, ter comportamentos de alcoólatra, excesso de tempo gasto em jogos online, etc..

Só assim será possível alcançar “harmonia social” nos campos da saúde, higiene e planeamento familiar; segurança social, cuidados com os mais velhos e caridade; trabalho e emprego; educação e investigação científica; cultura, desporto e turismo; proteção ambiental e poupança energética; aplicações e serviços de Internet; vida económica e social.

Tudo o que for publicado online será rastreado e incluído na pontuação de cada cidadão, o que significa que quem postar mensagens positivas sobre o país, o governo, o sistema social, a economia, etc., terá uma classificação mais elevada (e vice-versa, é claro). Mas o que é ainda maior garante da justiça deste novo sistema, e a fim de evitar fraudes, é que os cidadãos não terão controlo total sobre a sua própria pontuação, pois a mesma depende também do que amigos e familiares disserem e fizerem online. Ou seja, se o cidadão X tiver o azar de ser amigo ou familiar de alguém que faça um comentário negativo online, ou que incorra em algum tipo de comportamento “desadequado”, o resultado é que o mesmo terá consequências negativas na sua classificação baixando-o e mesmo que X não tenha absolutamente nada a ver com o assunto.

Por outro lado, se cometer um ato heroico, fizer doações, participar em programas de voluntariado poderá ter mais pontos na sua classificação pessoal, uma espécie de Euromilhões que lhe permitirá ter mais benefícios como internet mais rápida, mais viagens, mais compras, inscrever os filhos nas escolas de topo, obter empréstimos bancários, candidatarem-se a benefícios da segurança social, concorrerem à função pública, poderem trabalhar no setor da restauração e hotelaria, na indústria da medicina, bem como na transação de certo tipo de ativos; conduzirem comboios ou aviões; visitarem certos restaurantes, hotéis, clubes, adquirirem seguros de natureza variada; renovarem a própria casa e, finalmente, e como já referido, sofrerem imposições à velocidade da Internet, que ficará mais lenta..

Tudo vai depender do seu nível de confiança e credibilidade. Para muitos analistas, há muito que os vários governos vinham solicitando autorização para este novo sistema de monitorização e classificação individual. E já vivemos há anos num mundo onde algoritmos preditivos determinam se somos uma ameaça, um risco, um bom cidadão ou se somos de confiança, pelo que a ameaça COVID veio permitir finalmente criar uma sociedade mais harmoniosa e funcional. No entanto, como nota discordante, surgiu em Portugal um movimento contestatário intitulado “Cidadãos pela liberdade” (já devidamente identificados e assinalados como perigosos desordeiros atentando contra a ordem pública) que pretende declarar a inconstitucionalidade das novas normas através de uma providência cautelar.

A publicação deste artigo, comprovada que foi a sua originalidade e não plágio, dá um crédito de 5 pontos ao autor

 

teoria da treta 2006

11.24. A TRETA E INVERDADE. CRÓNICA 31, 1 NOVº 2006

Estamos a viver na sociedade de treta ou parafraseando Harry G. Frankfurt “On bullshit”. Esta é a nova adjetivação. A treta (bullshit) é mais perigosa e insidiosa do que as mentiras, pois está-se nas tintas para a verdade, generalizada e entrincheirada nos discursos dos políticos e dos fazedores de ideias. Trata-se de regra socialmente aceite por todos, escondendo dos destinatários o que o autor ambiciona. Inicialmente utilizada pelo marketing e relações públicas, passou a ser utilizada por todos, mesmo sem intenções de vendas. Todos têm opinião esclarecida sobre tudo, mesmo que nada saibam sobre os temas. Agora nos jornais e telejornais todos são comentadores e opinam sobre tudo e mais alguma coisa, sem formação específica. Começam como comentadores desportivos e acabam graduados em políticos ou vice-versa, falam de defesa nacional, economia, religião, relações internacionais, terrorismo, gastronomia, epidemias e o for necessário. Lembram a versão séc. XXI dos vendedores da banha da cobra.

A hipocrisia substituiu a busca da verdade e os interesses de Estado. Os ministro já não dizem o que é melhor para o país, mas descaradamente confessam o que melhor pode servir os seus interesses e dos grupos que os alimentam.

A verdade deixou de ser importante, permutada pela inverdade, para não lhe chamar abertamente, mentira. Cada vez mais o que se lê nos jornais tem de ser posto em causa, e, como no tempo da ditadura, temos de buscar fontes alternativas ou subterrâneas. Assiste-se nos jogos de futebol televisionados a comentadores que não sabem disfarçar o sectarismo clubístico e interrogámo-nos sobre se estão a ver o mesmo jogo. Num país em que a responsabilidade morre sempre solteira, dizem que se vai fazer um estudo, uma investigação, seja lá o que for, para apurar responsabilidades que nunca serão esclarecidas. Nunca é dito a culpa é minha, a incompetência foi nossa, ou coisa desse jaez.

É a regra da treta aplicada a tudo, desde professores doutores sem cursos, a lecionar sem quaisquer pruridos, em instituições universitárias, a ministros corruptos em negociatas resultantes de anteriores postos políticos. A vergonha desapareceu da face da terra e os valores educacionais que tenho, foram reciclados na incineradora. Ministros e políticos, empregam mulheres, filhos, cunhados, sobrinhos, primos, descaradamente, sem concurso, porque são pessoas da confiança (aqui levado ao extremo nos Açores). Nem acho mal empregarem pessoas de confiança desde que tenham mérito, mas essa seria a exceção. Acho melhor fazermos o mesmo com o nosso voto e só o darmos a pessoas da nossa inteira confiança e da família…é a descrença total do sistema político, da saúde, da justiça, da educação, eu sei lá.

Os alunos não passam ou o ranking PISA indica que Portugal está atrasado? Passemos todos e a taxa melhora…os alunos não aprendem? Reduzam-se e simplifiquem-se os cursos ao mínimo denominador comum para que passem e sejam doutores. Que interessam cursos desajustados da realidade e do mundo do emprego? Faça-se um país de doutores que a taxa está baixa. Mais regra da treta. A vida está cara? Para quem[1]? Para os que fruto de arranjinhos vários depois de trabalharem x tempo no lugar y recebem compensações ou rendas vitalícias que acumulam livremente com outro emprego sem perderem as reformas? Ou aquele senhor que se reformou por incapacidade aos 45 anos e recebe salário de milhares? Ou os que saem de ministros depois de favorecerem uma firma para cuja administração irão a seguir? Mas se isto é pior do que há 25 anos, ainda pode piorar mais e não haverá reformas para ninguém. Óbvio, o que me move é a inveja de não ter uma Fundação (Soares ou Saramago ou outra) a receber subsídios a fundo perdido do Estado, ou de já não ter ninguém da família no Governo ou no Parlamento. Mera inveja de não pertencer ao bando da regra da treta. Ainda sou do tempo em que uma verdade bem contada podia arruinar a carreira de qualquer um, hoje nem uma mentira bem contada afeta seja quem for… e sempre fui mau mentiroso.

 

[1] Para o Cavaco antes da reforma, ou depois de ser Presidente da República com reforma paga e mal podia viver com 12 mil € e tudo pago…?

 

 

atualizado em

Sobre as Teorias de Bullshit e os Bulshitters (ou, traduzindo à letra, sobre as Teorias de Merda e os Merdosos). Um artigo de Elliott Crozat na revista Epoché Philosophy Monthly a propósito das aparências de verdade que hoje nos rodeiam. Inclui uma prática classificação das Teorias de Merda e dos Merdosos #bullshit https://epochemagazine.org/an-examination-of-bullshit…
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