Crónica 296 futuro hipotecado

Crónica 296 futuro hipotecado 7.11.19

Acordei menos otimista do que me é costumeiro, quando fui confrontado com a dívida galopante das empresas públicas açorianas, muitas delas comprometidas a desaparecer sem deixarem rasto que não seja o de milhões de prejuízos, com a indefinição desse sorvedouro de utilidade pública que é a SATA (dizem que está técnica e financeiramente falida) mal gerida há anos, servindo interesses vários e descurando a sua função essencial de ligação interilhas para todos os açorianos (nas Canárias os voos entre as ilhas rondam os 30 euros e pouco mais na ligação à Península Ibérica) quando, no segredo dos deuses, se discute o custo da mobilidade (nunca entendi por que razão temos de subsidiar as companhias pagando valores avultados que depois vamos recuperar aos CTT). Claro que a SATA é uma companhia de aviação muito complicada, tinha tanto débito que era capaz de afundar o Titanic, mas nunca ninguém me disse quanto é que pagava por cancelamentos de voos, desvios de aviões, acomodação de passageiros em terra, e as mil e uma peripécias de quem prefere voar na transportada aérea cá do sítio. Conheço picos de gente que tem exigido reembolso por cancelamentos, atrasos, e sabe-se lá que mais, mas deixemo-nos de treta, numa época em que viajar é tão banal, essa companhia acrescentou o elemento surpresa a quem viaja e nunca se sabe se vai viajar, já que a horas raramente chega, e aproveita para dar a conhecer aos passageiros outros aeródromos e locais que não constavam do plano original de voo. E tudo sem nada pagarem, que generosidade.

Dito isto ainda ouvi os lamentos dos que se queixam da Delta Airlines estar a acabar com as suas ligações diretas ao continente americano, bem úteis para a diáspora, ou de como está a ser negociada uma contrapartida para ligações Madrid Terceira (nem um concorrente se mostrou interessado no concurso público). Há ainda o novo porto da Horta que muitos contestam, depois de verem os maus resultados do porto das Lajes das Flores, da Madalena do Pico e tantas outras obras que foram feitas ao arrepio do clima e de outras idiossincrasias insulares, e o eterno adiar das pistas do Pico e da Horta que permitiriam outros voos para aquelas ilhas do Triângulo.

Da saúde nem falo pois se vivesse no Pico ou Graciosa ou Flores, por exemplo, já teria pensado em emigrar, talvez para a Suécia.

O nosso ambicioso projeto do Museu da Açorianidade ficou enterrado na crise de 2008 e o projeto do Museu da Autonomia anda a acompanhar D Sebastião em manhãs de nevoeiro mas, neste campo, congratulo-me com a conturbada autarquia da Ribeira Grande que no orçamento de 2020 inseriu a módica quantia de 7 milhões para festas, festinhas e festivais, que é disso e de bola que o meu povo gosta. Claro que este investimento popular nada tem a ver com as eleições do próximo ano nem com a ação judicial contra outras festas no passado…

E como o mês de outubro foi chuvoso custou ver tanta água a perder-se no mar em vez de se construírem reservatórios (uma ideia que adiantei em 2008 e aqui transcrevo

(CRÓNICA 60.2. – DA ÁGUA QUE RAREIA (Cuidado! Há um cidadão que não se cala na Lomba da Maia) – 22 novembro 2008)

Desde que cá cheguei, biliões de litros de água vieram diretamente das nuvens para as ribeiras que os despejam no mar. Um equilíbrio perfeito com a natureza, mas que esqueceu a presença humana. Espero que alguém já tenha lido alguma coisa sobre as mudanças climatéricas que se avizinham e comece a construir reservatórios maiores antes de esta ilha se começar a parecer com a metade seca da ilha de Santa Maria ou com a aridez das Canárias e de Cabo Verde. Nessa altura será tarde demais, a menos que nas terras altas, como na Lomba da Maia, tenhamos reservatórios suficientes para as nossas necessidades e deixemos de depender dos outros que não cuidam de nós como nos prometeram antes de serem eleitos para defenderem os nossos interesses. Ser vocal e “palestiniano” na Ribeira Grande tem imensas vantagens, mas não desisto de ser da Lomba da Maia, de me identificar com esta e por esta perseverar. Quando em 2006 ou 2007 escrevi, num livro que poucos leram, que se deviam fazer reservatórios das águas pluviais que iam sempre parar ao Grande Mar Oceano houve quem se risse de mim, mas agora clamam que algumas terras sofrem uma seca como não há memória…nada que uns tostões de Bruxelas não resolvam para calar as vozes da seca. Mas claro está que isto são apenas queixumes de quem nunca está satisfeito e quer sempre mais e mais do que estas terras e estas gentes podem dar.

Houve entretanto uma notícia boa que nos trouxe o Tribunal de Contas, a da morte do projeto da incineração em São Miguel, e quem sabe?, pode ser que se sigam as mais novas tecnologias para solução do problema em vez de construir incineradoras de métodos caros e antiquados. O lixo, ah! O lixo para que algumas vozes clamavam pela coincineradora que a Europa já não propugnava e nem era solução dada a dimensão das terras. E o povo, como era feliz como as vacas, continuava a mandar tudo para o chão, fosse no dia-a-dia ou nas inúmeras festas que aconteciam em todas as freguesias e lugarejos, sem entenderem que esse lixo e esses plásticos iriam voltar na comida para as suas mesas, fosse misturado com o sal ou no sistema digestivo de peixes e mariscos. A educação cívica ainda estava em estudo nos currículos das escolas que eles não frequentavam. Era um povo tão feliz e sorridente que se mantinha colonizado, sem o saber, sempre atento e venerando às migalhas que os senhores atiravam das ameias aos servos da gleba. E, como atentos e venerandos sempre haviam sido, assim se quedavam, pois sabiam que as migalhas dos subsídios e apoios à lavoura, às artes e literatura secariam se deixassem de o ser.

Nem sabiam, nem a escola que tinham abandonado lhes ensinara quem dissera… “… As couzas que padecem os moradores desse afligido reyno, bastarão para vos desenganar que os que estão fora desse pezado jugo, quererião antes morrer livres, que em paz sujeitos. Nem eu darei aos moradores desta ilha outro conselho… Porque um morrer bem é viver perpetuamente…“.

Fora Ciprião de Figueiredo (Alcochete, 155? – Lagny-sur-Marne, 1606), 1.º e único conde da vila de São Sebastião (por D. António I de Portugal), por vezes designado por Ciprião de Figueiredo Vasconcelos, que se distinguiu como corregedor dos Açores durante a crise de sucessão de 1580, tendo governado o arquipélago durante o período conturbado que se seguiu à aclamação nas ilhas de D. António, Prior do Crato como rei de Portugal. A ele se deve a fortificação e organização da defesa da ilha Terceira que levou à vitória na Batalha da Salga.

Havia coisas ainda a melhorar, como dar vida ao velho burgo quando os milhares de turistas de cruzeiros caíam sobre a cidade quem uma praga de gafanhotos para encontrarem as lojas e museus encerrados, pois cumpriam o horário de repartição pública. Manter as esporádicas intervenções de cultura de rua para animar e divulgar a nossa cultura e produtos locais, fomentando a economia.

Tinham de se abrir os urinóis da cidade fora do horário de expediente, recuperar a velha zona onde estava uma cadeia superlotada, descaraterizada por aterros, elefantes brancos de galerias que iam demolir no dia de são-nunca-ao-entardecer, inacabadas, um monstro de cimento à espera de serem ajardinadas e da construção de mais um monstruoso hotel, enquanto os mais afoitos iam, ali ao lado, ao casino tentar a sua sorte. E a cadeia sobrelotada e sem condições, há mais de uma dezena de anos, desesperava enquanto, lentamente, iam extraindo a bagacina do local escolhido para construir uma prisão, como se na ilha não houvesse locais sem bagacina para a construírem…

Sem visão de futuro, vivemos num mundo reativo, em vez de proativo, dependentes de um turismo que se pode mudar para outras paragens a qualquer momento, hipotecando o futuro de filhos e netos, esses que fazem um ou outro estágio remunerado sem hipóteses de terem continuidade nas empresas que, ano após ano, beneficiam do Estagiar L, T ou quejandos sem intenções de aumentarem os seus quadros. E depois ainda há quem se admire pela desertificação de todas as ilhas? Digo eu que nada percebo destas coisas mas que lamento o desperdício de milhões que chegam da Europa para alimentar os sorvedouros de empresas falidas em vez de criarem oportunidades e futuro para os jovens. Em dias destes apetece hibernar ou voltar a dormir e esperar que seja um pesadelo que estamos a sonhar acordados.

Chrys Chrystello, Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713 [Australian Journalists’ Association] MEEA]

Para o Diário dos Açores (desde 2018) Diário de Trás-os-Montes (desde 2005) e Tribuna das Ilhas (desde 2019)

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AS SAIAS E OS COLÓQUIOS DA LUSOFONIA

AS SAIAS E OS COLÓQUIOS DA LUSOFONIA CHRYS Pages from 2019-11-03-3

CRÓNICA 295 AS SAIAS E OS COLÓQUIOS DA LUSOFONIA 30.10.2019

Andei dias seguidos na dúvida se devia abordar tão candente tema da política portuguesa que tudo faz esquecer, mesmo as questões mais prementes.

Escreveu o Padre Mário de Oliveira “O papa usa saias. Os cardeais usam saias. Os bispos católicos usam saias. Ninguém acha mal, pelo contrário. São clérigos, por isso, uns seres estranhos e separados dos demais. Parecem humanos, mas não são. São clérigos = separados. E um assessor de deputada não pode usar saias?!

O problema não é a saia. ele usa o que quiser e não deve ser impedido mas nós temos de conhecer as verdadeiras intenções desse uso. Já as tinha usado antes em público? No seu quotidiano anda de saias ou apenas se serviu disso para se exibir e provocar a atenção mediática.

Será que os membros do partido Livre querem protagonismo pelo que vestem para ocultar o que pensam? Ou são seguidores dos métodos populistas?

Pela parte que me toca tenho de fazer uma confissão, desde os meus verdes anos no Oriente (Timor-Leste, Bali e, Macau e, depois Austrália) fui sempre à praia usando um sarong de Bali ou uma lipa de Timor, mas quando cheguei a Portugal fui desaconselhado por todos de os usar em público e como a norma dominante aqui era essa, deixei de os usar em público, pois há muito passei a idade da contestação ao “normal” estabelecido pelos cânones sociais.

Aqui terei de fazer nova confissão, no recato do meu “Castelo” na Lomba da Maia durante a época da primavera – outono uso-os frequentemente durante o dia ou para dormir, tendo sempre à mão uns calções ou bermudas para coloca no caso de haver gente a bater à porta.

Um número restrito de pessoas amigas já se habituaram a ver-me nesses preparos e nunca fizeram comentários (sabe-se lá o que contam lá fora) e mesmo a técnica de higiene doméstica (a que antigamente se chamava mulher-a-dias) não estranha este hábito trazido de fora…

Como escreveu Ana Afonso em Lugar ao Sul “… impedindo que consigamos olhar para o estado do mundo em que vivemos. Exemplo disso foi toda a agitação que se gerou em torno de uma peça de roupa que uma pessoa decidiu levar para o dia da tomada de posse dos novos deputados. Como é que uma coisa sem importância nenhuma se torna a coisa mais importante de um dia que tinha, de certeza, coisas bem mais importantes a destacar? E porque deixamos nós que isso aconteça, alimentando o acessório, e deixando morrer à míngua de atenção o essencial?”

Dito isto, imaginem só que num dos próximos colóquios da lusofonia, clamando pelo direito à diferença, contra a masculinização dos nossos colóquios eu me apresentava de lipa ou sarong… seria o mesmo poeta utópico que criou os eventos, mas ninguém ouviria o que dissesse para se concentrar na minha indumentária, tão a despropósito para aquele ambiente.

Com certeza seríamos notícia de primeira página e teríamos os vários canais de TV presentes, e 10 milhões de portugueses finalmente descobririam que existimos (desde 2001) e haveria vontade de o governo apoiar as nossas realizações por serem anticonvencionais, na luta contra os estereótipos e a masculinização da sociedade. Podia bem ser o chamariz que nos falta para atrair a atenção dos que ainda nos ignoram, mas a minha mulher que não gosta de holofotes poderia decidir que eu tinha ido longe de mais. É tudo uma questão de princípios e de ter uma noção de senso comum. Há muitas maneiras de alterar a “norma” e fiquem tranquilos os nossos associados e amigos, decerto esta não será a que adotarei para nos trazer à ribalta.

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pão por deus, dia de finados e outras tradições retirado de chrónicaçores – uma circum-navegação

 

“pão por deus, dia de finados e outras tradições retirado de chrónicaçores – uma circum-navegação (https://www.lusofonias.net/arquivos/429/OBRAS-DO-AUTOR/1024/chronicacores-VOL-3-vol-2005-2018-rascunho-sem-cortes.pdf)

pao por deus e outras tradições em ChronicAçores

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