se houvesse cultura nos açores teríamos Casas-Museu

Crónica 422 se houvesse cultura nos açores teríamos Casas-Museu 26.10.2021

Já em 2003 recém-chegado da Austrália imaginei Portugal com roteiros culturais dedicados aos seus autores, como se podia ler em A língua portuguesa e a UE alargada, 2003-06-02 | Revista ELO |

Quem se lembrou já de incluir roteiros turísticos literários a locais celebrizados pelos monstros sagrados da literatura dos sécs XIX e XX? Alguns constam já dos vulgares roteiros paisagísticos, havia que organizar a leitura de livros desses autores, e a divulgação nesses locais, [como em abril 2003 com a atribuição do prémio Camilo Castelo Branco a Mega Ferreira]. Disponibilizavam-se traduções ou faziam-se reedições (económicas, sem luxos) para os milhares de turistas desses novos países que quererão vir a Portugal. Lucrava o país, editores, operadores turísticos e a língua. Podíamos começar com o José Saramago e um roteiro às terras de origem acompanhado de leitura de obras suas, disponibilizadas em línguas dos países da UE, passando por locais evocados em “A Cidade e as Serras” e outras paisagens dos Açores de Nemésio, à Brasileira de Pessoa ou à Monsanto de Fernando Namora. Convidavam-se professores jubilados que amam a Língua Portuguesa para falarem das mil e uma nuances de cada um, pedia-se aos autores vivos que disponibilizasse um dia do calendário para falar da sua obra ou lê-la num cenário apropriado. Estou certo de que a organização de tais eventos custaria menos do que muitas funções oficiais já agendadas.

Posteriormente, com a morte em 2008 de Dias de Melo e a de Daniel de Sá em 2013 propugno a criação de casas-museu como forma de homenagear aqueles autores e a sua obra, uma na Calheta de Nesquim e outra na Maia micaelense.

Agora que o Cristóvão de Aguiar abandonou as vestes terrenas, e depois de falar com os filhos reitero essa necessidade de uma Casa-Museu na localidade de S. Miguel Arcanjo, São Roque do Pico para onde ele se mudou na década de 1990 e ali fez a sua segunda casa. Os filhos estão dispostos a repor toda a sua biblioteca e manter a casa tal como estava quando ele a habitava a fim de que possa ser convertida num local dedicado ao autor e às suas obras.

Se a região autónoma dos Açores tivesse uma verdadeira Secretaria da Cultura esta deveria inscrever já no orçamento regional montantes destinados a adquirir as casas daqueles autores e convertê-las em Casa-Museu. Uma região que não honra a memória dos seus maiores nas letras e artes não pode arrogar-se o direito de falar na sua história e muitos menos dizer que tem cultura.

É essa visão que sempre faltou a esta autonomia envergonhada em que vivemos. Propositadamente deixei de fora todos os outros autores que merecem idêntico tratamento e concentro-me nestes três pois com eles lidei e deram contributo de relevo aos nossos Colóquios da Lusofonia.

Se o governo não quiser, que seja a autarquia de São Roque do Pico a tomar a dianteira e a iniciativa e a ficar na vanguarda desta merecida homenagem ao prolífico autor Cristóvão de Aguiar. Fico à espera.

Imagem da casa em S. Miguel Arcanjo

Chrys Chrystello, Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713

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INADMISSIVEL INTOLERAVEL INACEITAVEL TRATORES E RUAS ESTREITAS

 

 

 

Paulo Monteiro

No faroeste, ao menos era com cavalos. Aqui, é com tratores muito poluentes, e sobredimensionados cá para a santa terrinha. Só pode ser assim porque os chorudos subsídios não param de cá chegar por exigência do patrão das vacas. Os consumidores, estilo…

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    Chrys Chrystello

    Paulo Monteiro A PROPÓSITO DESSES TRATORES SOBREDIMENSIONADOS INSURGI-ME EM TEMPOS…..e saiu hoje no diário dos açores, ass autoridades sugeriram proibir o estacionamento para os tratores passarem.. ler em https://blog.lusofonias.net/inadmissivel-into

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  • Paulo Monteiro

    E não são apenas os tratores. os autocarros também são sobredimensionados para as nossas vias. O feudalismo não existe apenas na pecuária (frequentemente apelidada “agricultura”). Não tenhamos dúvidas, vivemos numa terra feudal, comandada por meia dúzia de donos disto tudo. Estou plenamente convencido que será assim até ao fim dos tempos. Este estado de coisas existe na agricultura, perdão, na pecuária, na indústria, no comércio, na política, no desporto e na… cultura. Nesta santa terrinha não se pode mexer minimamente em interesses instalados, e há interesses que se instalam muito rapidamente e ficam de pedra e cal. É por isso que tento viver o máximo possível à margem dos acontecimentos locais. É irreal, é virtual, é impraticável? Talvez, mas vejo que o Mundo tem muito mais e muito melhor para dar que este cenário medieval em que esta terra insiste em viver. Veja-se o recente caso da autorização das touradas à corda, uma vergonha! Não têm mais nada em que pensar?
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    Chrys Chrystello

    Paulo Monteiro assim o tenho escrito diversas vezes quer no diário dos açores quer nos volumes do chronicaçores (mais 2 prontos a publicar em 2022….)

 

 

A SOLUÇÃo APRESENTADA FOI METER UMA LINHA AMARELA E PROIBIR O ESTACIONAMENTO NAS ZONAS ESTREITAS DA RUA…..

ERA UMA VEZ A HISTÓRIA DUM ARQUIPÉLAGO

todas as crónicas anteriores em https://www.lusofonias.net/mais/as-ana-chronicas-acorianas.html

Crónica 421 ERA UMA VEZ A HISTÓRIA DUM ARQUIPÉLAGO 13

Crónica 421 ERA UMA VEZ A HISTÓRIA DUM ARQUIPÉLAGO 13-10-2021

 

Surgiram nos últimos dias artigos científicos que provam, de acordo com novo estudo internacional, que contou com a participação de investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos – Açores (CIBIO), de forma elucidativa a presença nos Açores doutros povos 700 anos do povoamento português.

A partir do estudo do pólen, fragmentos fósseis de plantas e resíduos de carvão presentes nos sedimentos, concluiu-se que as primeiras ocupações humanas nos ecossistemas das ilhas levaram a profundas alterações ecológicas e ambientais. Os modelos climáticos utilizados sugerem que a colonização inicial no final do início da Idade Média (500 a 900 d.C.) ocorreu em conjunto com ventos do nordeste anómalos e com temperaturas mais quentes no hemisfério norte.

Estas condições climáticas provavelmente inibiram a exploração a partir do sul da Europa e facilitaram a colonização humana a partir do nordeste do Atlântico. Estes resultados são consistentes com dados arqueológicos e genéticos recentes, sugerindo que os nórdicos foram muito provavelmente os primeiros colonos das ilhas, contrariando assim, o consenso de que o arquipélago nunca tinha sido habitado até à chegada dos portugueses.

O que se sabia ate agora era que em 1270 Lanzarote Malucelli chegou às Canárias e Madeira. Há mapas de expedições às Canárias por genoveses ao serviço de Portugal (D. Afonso IV, 1291-1367). O mais antigo é de Angelino Dulcert (1338) e dele constam as ilhas dos Açores, depois há o planisfério Mediceo, o portulano Laurentino de 1351, o Atlas catalão de 1375, a carta de Pinelli-Walckenaer (1384) e a De Viladestes de 1413, e no Atlas de Cristofalo Soligo em 1470 surgem todas as ilhas dos Açores.

Mapa De Angelino Dulcert 1338

As teses do Descobrimento por Frei Gonçalo Velho (Cabral), baseiam-se na tradição oral recolhida por Gaspar Frutuoso, na segunda metade do séc. XVI.

Azurara, Duarte Pacheco Pereira e outros, nunca citam Gonçalo Velho e opinam que data de 1431. As teses ecléticas apontam para o Descobrimento no tempo de D. Afonso IV sendo as viagens do Infante D. Henrique de reconhecimento. O mapa de Beccario, de 1435, assinala a maioria das ilhas como “insule de nuovo reperte“. Damião Peres defende que “foram achadas por Diogo de Sunis (ou Silves), piloto de el-rei no ano de 1427“. É atribuído a Gonçalo Velho Cabral, primeiro capitão donatário (S. Miguel e Sta Maria), o papel de lançador de gados e colonizador. A referência vem em Azurara (Crónica do Descobrimento da Guiné, 1453):

E na era de mil… (?) mandou o Infante D. Henrique a um cavaleiro que se chamava Gonçalo Velho, Comendador que era da Ordem de Xpõ (Cristo) que fosse povoar, outras duas ilhas que estão afastadas daquelas (Madeira e Porto Santo) a cento e setenta léguas a noroeste”.

Outro coevo do Infante, o almoxarife do Paço de Sintra, Diogo Gomes, conta:

O Infante desejando descobrir lugares no Oceano Ocidental, e se existiam para além das descritas por Ptolomeu, mandou caravelas a procurar e viram a ocidente trezentas léguas além do Cabo Finisterra e vendo que eram ilhas, entraram na primeira. Voltaram a comunicar ao referido Infante as descobertas, com o que ele folgou muitíssimo e mandou o cavaleiro Gonçalo Velho, nas caravelas que conduziam animais domésticos que se distribuíram por cada uma das ilhas…”

Não diz quem capitaneou as caravelas da descoberta, só fala do povoamento. Nunca se saberão ao certo os nomes. As teorias da revelação do arquipélago dividem-se em três:

  • no segundo quartel do séc. XIV, no reinado de D. Afonso IV (H. Major, Ferreira de Serpa);

. na primeira metade do séc. XV por Gonçalo Velho (cardeal Saraiva, Aires de Sá);

  • as que conciliam as duas correntes de opinião (Jordão de Freitas, Velho Arruda).

As primeiras fundamentam-se em mapas genoveses após 1351. O arquipélago, conhecido por Cartagineses e Árabes, surge perfeitamente localizado nos mapas genoveses que atribuem o achamento a marinheiros portugueses e a genoveses (ao serviço de Portugal), entre 1317 e 1339. A historiografia (sécs XVIII e XIX) afirmava perentoriamente a veracidade desta informação e defendia que os fenícios projetaram o empório comercial na costa ocidental africana. Apenas os Velhos do Restelo, mantiveram a tese de que a região estava por revelar no início das navegações henriquinas.

A era dos Descobrimentos foi iniciada em 1317 por D. Dinis que contratou o genovês Manuel Pezagno (Pessanha) para o comando da frota real. Em 1335, D. Afonso IV enviou uma armada às Canárias cujos privilégios seriam concedidos em 1338 a mercadores estrangeiros. Segue-se, em 1415, a conquista de Ceuta numa expedição organizada por D. João I.

Gaspar Frutuoso escrevia:

“Em 1428 foi D. Pedro à Inglaterra, França, Alemanha, tornou pela Itália, Roma e Veneza e trouxe um mapa-múndi que tinha a Terra e o estreito de Magalhães a que chamavam de Cola do Dragão e o Cabo da Boa Esperança; e conjeturou que se ajudaria o Infante em seu descobrimento…”

Data de 1345 o “Libro del Conoscimiento de todos los rregnos et tierras e señoríos que son por el mundo et de las señales et armas que han“, de Jerónimo Zurita, frade mendicante de Sevilha, que teria acompanhado as expedições portuguesas, onde estão descritas diversas ilhas.

“Sobí en un leño con unos moros e llegamos a la primera isla, que dizen Gresa, e aprés d’ella es la isla de Lançarote, e dizen le así porque las gentes d’esta isla mataron a un ginovés que dezían Lançarote. E dende fui a otra isla que dizen Vezimarín e a otra que dizen Rachan, e dende a otra que dizen Alegrança, e otra que dizen Vegimar, e otra que dizen Forte Ventura, e otra que dizen Canaria. E fui a otra que dizen Tenerefiz, e a otra que dizen la isla del Infierno, e fui a otra que dizen Gomera, e a otra que dizen la isla de lo Fero, e a otra que dizen Aragavia, e a otra que dizen Salvaje, [Selvagens, Madeira] e a otra que dizen Desierta [Desertas], e a otra que dizen Lecmane [Madeira], e a otra el Puerto Santo [Porto Santo], e a otra la isla del Lobo, e a otra la isla de las Cabras [S. Miguel], e a otra la isla del Brasil [Terceira], a otra la Columbaria [Pico], a otra la isla de la Ventura [Faial], a otra la isla de San Jorge, e a otra de los Conejos, e a otra de los Cuervos Marines [Flores e Corvo], e en tal manera que son veinte e cinco islas.

Curioso o frade descrever 25 ilhas, cujos nomes se manterão nas cartas náuticas, por um século:

1351 – O Portulano Mediceo Laurenziano (Atlas Laurentino), na Biblioteca Nacional de Florença, Itália, assinala as ilhas “Cabrera” (Santa Maria e S. Miguel), Brasil (Terceira), Ventura (Faial), Columbis (Pico), Corvis Marinis (Flores e Corvo) e a de S. Jorge, sem no entanto a nomear.

1375 – O Atlas Catalão, de Jehuda Cresques, na Bibliothèque Nationale de France, Paris, nomeia a ilha de S. Jorge.

1384 – O Atlas Walckenaer-Pinelli assinala a ilha de Santa Maria

1385 – A Carta de Soleri assinala as ilhas anteriormente apontadas e mantém a “Capraria” (Sta Maria e S. Miguel).

1413 – O mapa de Maciá de Viladestes, na Bibliothèque Nationale de France, assinala Santa Maria.

1426 – A carta de Giacomo Giraldi assinala a ilha de Santa Maria

A História vai sendo reescrita com novos estudos e descobertas, e temos de corrigir o que nos ensinaram.

Chrys Chrystello, Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713

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MEMÓRIA

 

PELAS 13.45 DE 2 OUT 1949 NO bAIRRO gARANTIA, VIVENDA eSTREMADURA NO aMIAL DO pORTO NASCIA UM JOVEM DO SEXO MASCULINO,

DOS QUE ESTAVAM VIVOS NESSA DATA APENAS RESTAM 6 DO LADO MATERNO E 3 DO LADO PATERNO. O ÚNICO QUE SE LEMBROU DE ASSINALAR A DATA FOI O ESCOLHIDO PARA ESTA PARTILHA 72 ANOS DEPOIS.

APROVEITO PARA ASSIM AGRADECER A TODOS OS QUE NAS VÁRIAS PLATAFORMAS SE ASSOCIARAM COM VOTOS NESTE DIA.

 

EXTRAIO DE CHRONICAÇORES A SAIR EM BREVE (

LIAMES E EPIFANIAS

(ChrónicAçores VOLUME V1949-2005

Uma Circum-navegação)

DO NASCIMENTO

 

As origens paternas pré-datavam o Condado Portucalense. Nasci no pós-guerra que abalara os alicerces da família. De abastada e com três carros na 1ª Grande Guerra, nada restava da fortuna da família com laivos de nobreza, além de memórias que a minha avó revivia. Passados os dias difíceis da Grande Depressão em que terrenos, casas e fábricas, foram perdidos na voragem da bancarrota ou roubados por membros da família, a família sobreviveu à 2ª Grande Guerra. Havia animosidade contra Franco, empatia com a Galiza, e orgulho na ajuda prestada a judeus fugidos do nazismo.

A Quinta do Cabeço em Afife foi uma das perdas mais sentidas pelo pai. A família reduzida a mera burguesia de pergaminhos mas sem “cheta,” como soía dizer-se. Da glória familiar vi (na juventude) os casarões na R. Visconde de Setúbal e R. da Regeneração (atual João das Regras, hoje um tribunal), e demolidas as da Foz e de Matosinhos onde os avós passavam o verão. Consta que um cunhado do avô, seu contabilista, fora dos que mais se aproveitara da falência. Com a derrocada viria a impossibilidade de o pai se resignar a acabar os estudos na Escola Comercial, começando a trabalhar nos escalões inferiores da Mobil Oil (Socony-Vaccum), multinacional norte-americana. Entretanto, o irmão mais velho, Adjuto (n. 1912- m 1982), emigrou para o Brasil com um tio-avô (Albino) que ali tinha fortuna e descendentes, sem nunca regressar.

O pai escandalizou a família e arcou com o ostracismo ao casar, segundo o culto católico romano, com uma mulher trabalhadora, noção herege aos olhos do conservadorismo familiar de pergaminhos e manias de aristocracia (falida) e sangue-azul diluído. Dir-se-ia que nasci no seio de atmosfera hostil. A mãe, era professora primária quando nenhuma mulher (na família do pai) trabalhava ou pensava na hipótese, pois, eram, respeitáveis donas de tradições, tocavam piano e falavam francês, segundo a norma.

Era às criadas que competia a tarefa de cuidar das crianças, educá-las, ensiná-las. As mais qualificadas encarregavam-se da limpeza e cozinha. Aos pais (nessa data, um de cada sexo) competia trabalhar, manter o bom nome da família, e prover às necessidades (expressas ou não). Em casa, viviam os pais, a avó paterna, uma irmã do pai solteira e uma tia-avó que faleceria dois anos depois. Ouvi dizer, que os pais se levantavam cedo, apanhando um elétrico e um autocarro para as deslocações, complementadas por longas caminhadas, dado que na época, os transportes coletivos eram reduzidos e o raio de ação limitado. Eu ficava a cargo da empregada e da avó, que sempre considerei adorável e terna, mas que nunca se convencera de que a família não era rica como dantes. A criada, um certo dia, casou com um trabalhador da construção civil, antes de emigrar para França. Quando regressou, tinha sete anos e servi de padrinho ao filho..

A casa tinha três quartos, sala de jantar e cozinha e guardo vaga recordação, mas interrogo-me onde ficava a mobília de escritório do avô, que o pai herdara, austera, imperial ou britânica, conforme os estados de espírito em que a lembrança acorria. A avó entretinha-se no quarto com a pianola com um sistema mecânico que permitia tocar pautas pré-impressas (tipo Braille). Sei que a avó manteve calado, dentro de si, o desgosto de nunca mais ter visto o filho que fora para o Brasil e lá ficara, sem nunca a ver nem dar a conhecer os netos mais velhos. Guardo dela a melhor das memórias.

O que persiste na distante reminiscência, a que o tempo, as ficções e os aspetos místicos da imaginação acrescentaram algo, é o enorme fogão a lenha na cozinha. A avó tomava sempre chá com leite, o chá inglês como lhe chamava e para o qual, por vezes, me convidava. Na altura, sentia-me impante de orgulho.

 

Os primeiros quatro anos de vida foram preenchidos (aos fins de semana, suponho) por passeios a pé, com pais, avó e tia na Estrada da Circunvalação Interna, Amial, junto à antiga barreira fiscal que controlava a entrada e saída do burgo. A moradia existe e aparte a pintura exterior não parece ter mudado desde que saí. Abstive-me de bater à porta e revisitar o sítio onde passei os primeiros anos, como quem parte em busca de lembranças, mais decorrentes de fotos do que de eventos.

Como poucos se interessavam pela genealogia no lado materno e com a política de silêncio, os dados fui-os arranjando na fase de deslumbramento monárquico da juventude nas férias na aldeia em busca de histórias e lendas. Não restavam dúvidas das ligações a judeus novos. Havia nomes típicos de Cristãos-novos como Ester, hebraico: e Stela, estrela, que não deixavam dúvidas, a menos que se ignorasse a etimologia.

Acarreto essas heranças genealógicas, ajustei a identidade à persona como alter ego, que comigo coabita. A minha mulher jocosamente comenta que o meu problema existencial era saber qual dos dois venceria, eu ou o alter-ego. Fora importante a dicotomia para definir a personalidade, independentemente das heranças genéticas. Sempre quis construir o rumo sem transportar o peso morto das expetativas, e a albarda de nomes. Nos apelidos paternos tinha orgulho em Barbosa[1] e Meira[2], de origem muito antiga. Do materno os apelidos dos bisavós Menezes, Madureira, Rodrigues, Magalhães na Eucísia (Alfandega da Fé e vizinhança), alegadamente ligada a D. Nuno Álvares Pereira[3] e pelo avô materno Moraes e Alves de Vimioso.

  1. D. Sancho Nunes de Barboza, II de Celanova. Casou com Tareja Afonso, filha de Afonso Henriques e Elvira Gualter. O segundo casamento com Teresa Mendes, filha de Mem Nunes de Riba Douro, e de Urraca Mendes, senhora da Casa de Barbosa no termo do Porto, freguesia de S. Miguel de Rãs (Paço de Sousa, Penafiel) de quem tomou apelido. Importantes nobres no séc. XII. D. Sancho descendia de D. Nuno Guterres, filho do Conde de Cela Nova D. Teobaudo Nunes, cavaleiro do rei D. Bermudo II de Leão e irmão de S. Rosendo, bispo de Dume em 925.

[2] Vila de Meira, Lugo, bispado de Tui, família e solar junto à lagoa e Serra de Meira, onde nasce o rio Minho. Passou a Portugal, Paio de Meira, no tempo de D. Diniz, faleceu em 1325. Rodrigo Afonso de Meira, 1º senhor do solar. Brasão em 1451 a Afonso Nunes de Meira da corte do rei D. Duarte.

[3] Descende de Mendo, irmão de Desidério, rei lombardo, que tentou invadir a Galiza em 740, estabelecido em Trastâmara antes dos mouros, senhores do Castelo de Lanhoso. D Nuno, o Condestável (1360-1431) aos 13 anos foi escudeiro da rainha D. Leonor Teles e armado cavaleiro. Aos 16 anos casou com D. Leonor de Alvim. D. Duarte deu o título de Duque de Bragança. Retirou-se para o claustro carmelita do Carmo, onde se fez religioso e morreu, janº 1443, beatificado em 1918 pelo Papa Bento XV. O título de Condestável foi criado por D. Fernando em 1382, para as funções de Alferes-mor, a segunda personagem da hierarquia militar, depois do Rei, tendo como responsabilidades comandar a campanha militar na ausência do rei e manter a disciplina do exército, funções que hoje tem o chefe do estado-maior. Nunca vi a clarificação genealógica à família da mãe, sou cético, não havia dúvidas quanto ao resto embora me intrigassem relatos do bisavô materno ser cónego, casado, pai de filhos. Nunca se descobriu registo matrimonial.

quando o cometa andou aqui em 2014 escrevi isto

 

 

 

. ATERRAR NUM COMETA É COMO APANHAR UM TGV FORA DA ESTAÇÃO, CRÓNICA 141, 13 DEZ 2014

 

Aterrar num cometa é como apanhar um TGV fora da estação, mas foi isso que aconteceu há dias. O homem na sua infinita sede de conquista alcançou nova meta e mais nenhum cometa pode dormir descansado com esta ambição voyeurista. Nem David Bowie esse camaleão marciano da música tão avant-garde, o adivinhava em Space Oddity ou em Life on Mars… A sonda Rosetta mandou dizer que a água do cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko. é diferente da nossa.

Se fossemos tão bons em humanismo e ecologia como em tecnologia talvez não andássemos em busca de outro sítio no universo antes que este acabe, que é o único que temos (enquanto não o destruímos por completo) e mais uma civilização ia para as calendas. Os que sobrevivessem (os menos tecnologicamente aptos) teriam de recomeçar do grau zero. Na atual civilização dita ocidental, e face ao que observo, deste longínquo arquipélago dos Açores onde nada de relevante para o futuro da humanidade acontece, os prognósticos são negros. A manipulação de imagens e de textos e contextos com que as rádios, televisões e jornais nos bombardeiam todos os dias nada augura de bom.

Na vizinha Espanha já é proibido quase tudo, desde filmar polícias, a manifestações, a colocá-las na Internet…convém que não surjam imagens da realidade alternativa a que a comunicação social mundial pretende impor a todos, intoxicando uma população, cada vez mais inculta, impreparada e incapaz de discernir ou de pensar por si própria. Somos uma minoria, ouso mesmo chamar-lhe elite, que sobrevivemos dos tempos da “outra senhora” com capacidade de ver e ajuizar o que se passa em volta com o ressurgimento de nazismo e outros ismos, intolerâncias, egoísmos, um capitalismo selvagem em busca de lucro a qualquer preço, em que os homens e mulheres não são já meros servas da gleba como outrora, mas meros algarismos no deve e no haver das grandes corporações que tudo controlam.

Isto para não falar nos atropelos à dignidade humana que se escondem detrás do Patriot Act dos EUA, de 26 outubro 2001, que nos torna a todos em potenciais terroristas sem direitos exceto o de sermos interrogados e torturados, até possivelmente na tropicalíssima Guantánamo. E poucos podem escapar, a menos que vivam fora desta sociedade consumista que nos aliena e emprisiona.

Falamos da Monsanto dos GMO ou OGM, às farmacêuticas que nos matam e envenenam, aos bancos que nos especulam e roubam os nossos impostos, manipulando os governos títeres que têm vindo a colocar no poder, aos conglomerados da massificação da comunicação social que opera a uma voz única em que apenas os apresentadores diferem, mas as notícias não. Dois jornalistas da Fox (Steve Wilson e Jane Akre) foram despedidos pelo trabalho investigativo de um documentário (junho 2013) sobre uma hormona de crescimento bovino da Monsanto (não se encontra o link da reportagem (Mas consulte http://www.goldmanprize.org/recipient/jane-akre-steve-wilson/ ), desapareceu!

Os meus colegas jornalistas estão a ser presos e mortos (em todo o mundo) em número tão elevado como não há registo anterior, a vigilância em linha (online surveillance) há muito que nos privou da privacidade e alienou em redes sociais (sejam Facebook ou Twitter, ou qualquer outra). A Internet pode (e tem sido, nalguns países) controlada pelos governos. Estamos, cada vez mais, vulneráveis a ataques por governos autoritários, militantes, criminosos, fundamentalistas, e terroristas de todas as cores, tamanhos e feitios. A globalização da corrupção e outros atos criminosos impunemente aceites e tolerados na maioria dos países é uma das maiores ameaças à liberdade de expressão…

Temos uma nova censura (ou decommissioning na linguagem de George Orwell) que se estende a todas as formas do conhecimento incluindo a reescrita da História de acordo com os novos paradigmas dos poderosos…mas eu recordo as descrições que meu pai fez do nascimento dos nacionalismos exacerbados que através de um voto pretensamente democrático levou Hitler ao poder legitimando-o com o apoio de massas incultas e lavadas ao cérebro engolfadas num mundo em desalinho e insegurança que as levou a buscar o apoio de ditadores fortes (carismáticos ou não) e a segui-los carneirentamente como convinha.

Infelizmente a história repete-se e escrevi sobre este tema no meu livro ChrónicAçores entre 2005 e 2008, mas como poucos o leram menos ainda puderam ser avisados do que estava para vir e veio e continua a vir até ao ponto de rutura.

Tenho tido o sonho recorrente de uma grande manifestação ou tragédia (lembram-se das Torres Gémeas e episódios semelhantes, capazes de unir e mobilizar nações inteiras?) a ser transmitida por todo o mundo (sabemos todos como há imagens manipuladas e feitas em estúdio, tipo hologramas, usadas em filmes com fundo azul ou verde conforme o destino e depois colocam-se os intervenientes frente a essas imagens de fundo para obter o efeito desejado). Pode ser uma invasão alienígena, a segunda vinda do Messias, qualquer ato mesmerizador que una as pessoas prontas para aceitarem que o governo as defenda da ameaça.

Depois limita-se o acesso de imagens alternativas da realidade (aquela que não é transmitida pelas TV) e não sendo disseminadas não existem. Basta impedir que sejam publicadas. Pelo subliminar todas as pessoas se identificarão com as imagens manipuladas e tomarão as decisões baseadas nesse visionamento. Está completado o ciclo necessário para os governos tomarem as medidas que entenderem (lembram-se do surto de Ébola que surgiu e desapareceu enquanto milhares de tropas eram enviadas para África em missões das quais pouco ou nada sabemos?). Se, apesar disto surgir uma voz dissidente, fácil será silenciá-la com um escândalo sexual como fizeram com o ex-chefe do FMI Strauss-Kahn ou Edward Snowden da WikiLeaks, sem terem de “suicidar” tais vozes (está na moda serem suicidados).Tem sido feito recorrentemente pois a realidade há muito ultrapassou casos desses que vimos em séries de cinema de ficção.

Das dez teorias de conspiração de que mais se fala temos o eugenismo, malthusianismo, geoengenharia, e outros processos de controlo da população, pelos GMO – OGM, por “chemtrails” (as nuvens artificiais parecendo “contrails” ou rastro de aviões), por vacinas do H1N5, do Ébola ou quejandas (lembram-se das vacas loucas que vieram e foram? a gripe das aves, etc.), por alienígenas que dominam governos e laboratórios de experiências subterrâneas para escravizar a humanidade, pelo aquecimento global, pelo Codex Alimentarius da FAO e OMS (1963) ou a Agenda 21 da ONU.

Existe uma dúvida que me assola, por mais que lhes reconheça alguma validade, a menor população mundial tornaria inviável os governos e os lucros dos que alegadamente buscam reduzir a população e ver-se livres dos desempregados, pobres, velhos e outros “inúteis” da sociedade. Mesmo com a robótica a tomar conta da produção eles vão sacar mais dinheiro de quem? Dos robôs? Isto se não deflagrar um grande conflito mundial entre EUA+Europa e Rússia…ou se a China não quiser demonstrar que é já a maior potência mundial, ou se o Califado (ISIS é o nome de deusa egípcia do amor pouco apropriado) continuar a vir por aí fora.

Para incréus, como eu, custa a aceitar a nova realidade mundial. Cresci num mundo instável, mas onde os valores fundamentais permaneciam inalterados há décadas. Há sempre, com o avançar da idade, uma certa nostalgia pela segurança dos tempos jovens onde a esperança abunda. Não sei prever os negros dias de futuro que nos esperam. Quero crer que a bolha vai rebentar, pode ser bolsista como em 1929 com o desabar deste capitalismo neoliberal, o mais selvagem de todos ou outra bolha qualquer, um conflito mundial ou nuclear, e resta depois ter esperança em dias melhores, mas é uma incógnita bem cinzenta que vai ensombrar os anos derradeiros da minha passagem por esta Terra que todos destroem.

Espero que o novo mundo não tenha nem mais um Illuminati, palavra em latim que significa “iluminado”, uma ordem ou sociedade secreta com o iluminismo como base das suas doutrinas. Como se trata de um grupo secreto, é rodeado de grande mistério. O objetivo dos Illuminati é alcançar o domínio total do mundo, através de influências e pressões políticas, económicas e sociais.

A NWO (New World Order) ou NOM (Nova Ordem Mundial), seria um governo global, com autoridade sobre todo o mundo. Várias pessoas acreditam que um dos objetivos dessa NOM e dos Illuminati seria manter a população mundial abaixo de um determinado número de habitantes. Muitas pessoas teriam que ser eliminadas. Existem também teorias que indicam que os Illuminati manipulam vacinas, alimentos e a água para causar infertilidade e esterilização, diminuindo a população mundial.

Outra ligação muito comum é com o Clube de Bilderberg, associação ultrassecreta que organiza reuniões para 130 pessoas, com grande influência no mundo. Existe especulação que o que é decidido nessas conferências dita o futuro do resto de todo o mundo. Este clube deriva o seu nome da primeira reunião organizada (em 1954) no Hotel Bilderberg, na Holanda.

Alguns dos símbolos mais conhecidos dos Illuminati são o triângulo ou pirâmide, o “olho que tudo vê”, a coruja e o obelisco. Vários autores relacionam os Illuminati com a maçonaria e existem símbolos equivalentes. Vários cristãos acreditam que o líder da Nova Ordem Mundial e dos Illuminati será o Anticristo e o estabelecimento dessa ordem corresponderá ao início do fim do mundo.

Como filho da geração que acreditou no amor universal nos anos 60, quero crer que vai emergir uma nova ordem mais pacífica e amiga da Terra, onde a justiça e a equidade sejam, de novo, objetivos a atingir. Ao meu lado, porém, a maioria das pessoas está demasiado ocupada e preocupada com a sobrevivência pessoal, com a manutenção do poder de compra consumista para divagações destas, enquanto eu, pelo contrário, nada posso fazer para garantir a sobrevivência motivo que me leva a estas lucubrações, consciente de que mais gente pode partilhar a minha visão do mundo, exemplificada pelo paradigma dos Colóquios da Lusofonia que lidero a título gracioso em prol da defesa do imaterial: a língua e cultura de todos nós. Se mais gente se dedicasse a título gratuito a defender utopias destas, melhor seria este mundo.