EDUARDO FERRAZ DA ROSA

EDUARDO FERRAZ DA ROSA – POESIA AÇORIANA
ABALO DA TERRA
“À memória de Vitorino Nemésio”
Senhor, a nossa Ilha
É pasto já do pó antecipado.
– Susto, foi tão duro o alçar da sua mão.
Que nem égua, terra ou água, ai!
Se deu por mansa no seu tino. (…)
No “Bombita” a essa hora.
Não sentiste, oh felizardo!
A ferradura solta – cardo do mar perdido,
O cavalo caído e peado, sem chão,
No seu cerrado.
1980
@Eduardo Ferraz da Rosa nasceu na Praia da Vitória em 1954.
Licenciou-se e doutorou-se em Filosofia na Universidade Católica. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e a Faculdade de Ciências Socias e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
É professor na Universidade dos Açores de Filosofia e Cultura Portuguesa, é investigador, escritor, ensaísta e poeta com vasta obra publicada. Foi Conselheiro Nacional de Educação pela Região Autónoma dos Açores. Foi co-diretor do jornal “Vida Académica” e do programa radiofónico “Vampiros”. Foi delegado regional do FAOJ e dirigiu o gabinete de Informação e Divulgação Cultural para as Comunidades. Estrou-se em poesia e conto, em 1970, no jornal “O Heraldo Português” de Taunton (Massachussets). Foi Consultor do Governo Regional dos Açores e das Câmaras de Angra do Heroísmo e Praia da Vitória, Investigador na Biblioteca e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo, e Director da Biblioteca e Centro de Documentação do Hospital da Ilha Terceira.
Entre livros, artigos de jornal e de revista, estudos e ensaios, coordenações editoriais e conferências, destacam-se “E o Mar este Silêncio” (poesia), com carta-prefácio de Vitorino Nemésio (1980), “Vitorino Nemésio, Uma Poética da Memória”, com prefácio de José Enes (1989), “Açorianidade e Autonomia – Organização” (1989), “Uma Hermenêutica Trágica da Experiência do Mistério: Finitude e Esperança em Antero de Quental (1991)” e “Luís Bernardo Leite de Athaíde: Uma Estética da Açorianidade” (1991). “Perspetivas Antropológicas e Éticas na Prática da Medicina” (1991), “As Semanas de Estudos dos Açores: Um Projeto Solidário de Cultura e de Desenvolvimento” (1992), “O Culto e a Devoção ao Divino Espírito Santo na Historiografia, na Cultura e na Sociedade Açoriana” (1999) e “Almeida Garrett, os Açores e a Praia da Vitória: Duas Memórias Garrettianas da Praia no Bicentenário do seu Nascimento” (1999) são outras das obras de Eduardo Ferraz da Rosa. Escreveu, ainda, “Memória Biobibliográfica Vieiriana” (2000), “Heranças da Terra” (2000), “Desafios Clínicos e Éticos em Antropologia Oncológica” (2003), “Identidade, Diplomacia e História: Receção, Representações e Heranças da Presença Aliada nos Açores” (2003), “Historiografia, Ciência e Mito: Os Açores e a Dinâmica do Conhecimento do Atlântico” (2004), “Poder, Tradição e Utopia: Nemésio e a Autonomia dos Açores” (2004), “Insularidade, Narrativa e Ciência: O Terramoto de 1755 e os Açores” (2005) e “Filosofia, Ciência e Teologia: Cristianismo e Fé em Joseph Ratzinger” (2006), entre muitos outros.
Com o pseudónimo de @Domingos Ourique escreveu o livro de poemas “Natal/73 e Crónicas da Ilha” (1973) e “E o Mar e Este Silêncio” (1980).
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AS ILHAS DE GUILHERME DE MORAIS

AS ILHAS DE GUILHERME DE MORAIS
«(…) é que estas terras, eleitas de Deus, são ainda desconhecidas dos próprios açorianos, perdidos uns nos outros na bruma das ilhas afastadas.
Os açorianos são, infelizmente, os primeiros a desconhecer os Açores, isolados nos seus alcantis, como se cada ilha fosse um País diverso e longínquo.
Por isso todo o açoriano devia fazer o cruzeiro das suas ilhas: para decorar o poema de beleza que existe em cada uma, para escutar a alma que palpita em todas – Portugal.»
Embora não seja muito frequente e talvez até pouco avisado abrir um comentário a uma obra literária fazendo uso de um trecho tão extenso, a verdade é que não há como ficar indiferente à mensagem ali registada. Sendo certo que na primeira metade do século passado esta premissa teve um alcance, seguramente, bem mais amplo, a verdade é que não se evidencia nela quaisquer imprecisões, volvidos que estão quase noventa anos desde a sua redação original.
A obra «Ilhas do Infante», da autoria de Guilherme de Morais (editada pela primeira vez pela Livraria Editora Andrade, em Angra do Heroísmo) é o resultado de uma série de crónicas publicadas na imprensa regional açoriana, fruto de um cruzeiro a bordo do vetusto Vasco da Gama, o «velho Pimpão da Heróica Marinha de Guerra Portuguesa», decorria o ano de 1932. A viagem pelas ilhas celebrava «patrioticamente o V Centenário do seu Descobrimento», numa altura em que se apontava 1432 como a data de descoberta das ilhas açorianas.
Para além do texto original de Guilherme de Morais, em boa hora recuperado pela editora Artes e Letras, este excelente volume integra também três textos introitos: um da autoria de Urbano Bettencourt, onde tece preciosas anotações de contexto, adiantando também algumas de índole mais analítica, outro da responsabilidade de José Henrique dos Santos Barros, anteriormente publicado no seu «O Lavrador de Ilhas – I», e intitulado «Os Açores Num Livro de Viagens Dum Escritor Açoriano Injustamente Esquecido», onde se pode confirmar que o livro se lê «(…) ainda hoje, com bastante interesse», e outro, ainda, sob forma epistolar, em cujo remetente Ruy-Guilherme de Morais, filho de Guilherme de Morais, autor da obra original, partilha, com soberbo brilhantismo literário, informações sobre a vida e obra do seu falecido pai, com quem apenas conviveu durante seis anos, em consequência do precoce desaparecimento de Guilherme de Morais aos trinta e três anos de idade.
Qualquer um destes relatos conduz os leitores a uma narrativa de viagem verdadeiramente extraordinária, abrindo-lhes possíveis perspetivas de leitura ou, ao invés, condicionando-a irremediavelmente, sobretudo, pelas constantes alusões que são feitas às similitudes com a muito interessante obra «Ilhas Desconhecidas», de Raul Brandão. Aliás, é o próprio Guilherme de Morais que, na sua narrativa e por diversas ocasiões (talvez em demasia), faz referência à obra de Brandão, publicada em 1927, cerca de cinco anos antes deste seu cruzeiro pelas ilhas açorianas.
Ainda que encarasse os Açores como «uma visão do Paraíso», e visse este como um «livro de paisagens», a riqueza deste «Ilhas do Infante» encontra-se alojada, sobretudo, na leitura que conseguir penetrar além do ato meramente descritivo e contemplativo, pese embora, este, per si, seja já digno de assentamento. Servindo-se muitas vezes de uma linguagem luxuriante, mas nem por isso menos lúcida, Guilherme de Morais dá-nos conta desta sua «peregrinação sentimental» pelo arquipélago (que muito lhe exaltou o «açorianismo»), não olvidando de, a trechos, lançar o seu olhar expositivo e, subliminarmente, crítico sobre a vivência social, económica, política, no fundo, sociológica, nos Açores, na primeira metade do século XX.
Esta é uma obra que precisa de ser lida com calma, (re)construindo mentalmente cada imagem, saboreando cada descrição, para assim conseguir trazer à memória cada recanto, cada visão, cada ângulo ou ponto de vista descritos. Mesmo considerando a incompletude em termos de ilhas (encontra-se omissa a narração da visita à ilha Terceira), assim como as diferentes “profundidades” consignadas a cada ilha (fruto, sobretudo, do tempo de estada do Vasco da Gama em cada porto) este relato propicia uma visão distinta do arquipélago e, mesmo os afortunados que já calcorrearam as nove ilhas que o compõe, terão aqui uma oportunidade de se apropriar de uma outra visão que lhes é oferecida a partir do longínquo ano de 1932. Para aqueles outros que se encontram em processo de “ilharização”, esta obra reveste-se, então, de uma valia redobrada, dando-lhes a conhecer uma visão do passado que sustenta hoje a realidade que todos conhecemos.
Apreciei sobremodo todos os capítulos, «Intermezzo», incluído; de todos retirei considerações, mas, não há como deixar de enaltecer a atenção conferida à ilha de Santa Maria, da qual destacaria o excerto dedicado a São Lourenço: «Se me preguntarem onde está o segredo, o “quid” desta maravilha, não saberei dizer, ninguém o saberá dizer. É talvez este conjunto desarmónico, este destrambelho de cores, atropelando-se, repelindo-se, o verde das vinhas em luta com o vermelho vivo dos telhados, com o azul do mar e o ouro da praia e tudo isto, afinal, confundindo-se, amalgamando-se ao mesmo tempo, num gral imaginário onde os olhos se perdem, numa visão daltónica, tontos de beleza emotiva.
Há paisagens que se não pintam porque não há cores que as possam trasladar, com fidelidade, da natureza. Essas, só a música, na sua portentosa faculdade interpretativa, as pode reproduzir.
S. Lourenço pertence ao número das paisagens musicais».
A par da refinada prosa poética que perpassa toda a obra, esta edição contempla ainda um conjunto de doze sonetos que atesta a «alta sensibilidade» de Guilherme de Morais e que comprova também que o seu desaparecimento precoce parece ter ceifado ao solo de criação açoriano o brilhantismo de uma pena que ainda teria muito para oferecer. Cabe-nos congratular aqueles que, sabiamente, souberam resgatar a sua obra do esquecimento, trazendo-a aos escaparates da vida, repondo, dessa forma, alguma justiça na injustiça com que se reveste sempre uma morte prematura.
«Ilhas do Infante», Guilherme de Morais, Artes e Letras, 2019
May be an image of bird and text that says "GUILHERME DE MORAIS ILHAS DO INFANT UM CRUZEIRO NOS AÇORES MANCHAS & PAISAGENS I LETRAS"
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Pedro Arruda Tudo O Que Não Se Pode Dizer – Lançamento

Texto de

Madalena San-Bento

, a quem muito agradeço, na apresentação de “Tudo O Que Não Se Pode Dizer”:

Boa tarde, caríssimos presentes
Desafiado por um amigo, Pedro Arruda coligiu neste livro os textos/crónicas que foi publicando, na imprensa e em blogues, cuja temática é tão intensa quanto este momento particularíssimo das nossas vidas em que, mais do que nunca, pelas piores mas também pelas melhores razões, sabemos que fazemos História.
É ainda sumamente importante que esta seja uma perspetiva insular e açoriana, integrada num fenómeno de dimensão mundial.
Um dia, não há dúvida, compêndios, ainda que virtuais, do estudo do passado, relatarão e avaliarão esta estranha paragem do mundo sob o signo da pandemia; mas também – não nos iludamos – olharão com a distância fria e despida que ainda não temos, para cada um dos nossos atos, cada uma das nossas respostas, movimentações e motivações, e ditarão factos, incluirão juízos – tal como acontece na feitura da História – não tanto sobre a pandemia em si, mas acerca do modo como nos comportamos com ela; como a ela respondemos.
Nós ainda não temos o distanciamento necessário para arquitetar toda a complexidade de elementos que compuseram e compõem a inusitada aclimatação deste novo mundo. No entanto, possuímos mais meios e conhecimentos do que em todas as outras épocas, para fazê-lo.
Temos, sim, a obrigação de evitar as mais enganadoras armadilhas do processo, se o desejarmos, efetivamente. Tanto pelos dados da evolução política e social do mundo, analisado até à exaustão pelos media, comentadores e redes sociais, como pelo potente fenómeno da globalização.
Mas, utilizando uma expressão do Professor Avelino Menezes, “o mundo da globalização, onde todos estão juntos, é também o mundo da descaraterização, onde ninguém se conhece.” Por isso, este contributo de Pedro Arruda, não me parece centrar-se naquilo em que o próprio autor acredita, mas no valioso repto para um diálogo em que a maioria de nós participe, transformando-se numa pedra para o edifício da identidade humana, sob dois aspetos fundamentais: enquanto cidadãos do mundo, e enquanto naturais dos Açores.
Pode dizer-se, para o apresentar a quem ainda não o conheça, que Pedro de Mendoza Y Arruda Oliveira Rodrigues, natural de Lisboa, nascido a 8 de outubro de 1974 é empresário. Reside nos Açores desde 1998, onde desenvolve atividades nas áreas do turismo, agricultura, associativismo, defesa do património, cultura, ambiente e comunicação.
Licenciado em História pela Universidade Autónoma de Lisboa, possui o Curso de Desenho da Sociedade Nacional de Belas Artes, em Literatura o Curso de Viva Voz e Introdução à Poesia e Literatura Portuguesas contemporâneas na Universidade Nova de Lisboa; Curso de Estudos Olisiponenses pela Universidade Autónoma de Lisboa.
Desempenhou funções de Gestor e Administrador na Plantação de Ananases Dr. Augusto Arruda. Foi sócio fundador da MUU – Produções Culturais, tendo desenvolvido diversos projetos nas áreas de cultura e comunicação. Foi Delegado de Turismo de São Miguel na Direção Regional de Turismo dos Açores, Coordenador de Promoção na Turismo dos Açores – ATA.
Fundador e presidente da USBA – União de Surfistas e Bodyboarders dos Açores, foi ainda comentador regular nos seguintes programas: Choque de Gerações, Língua Afiada e Açores 24 (RTP Açores).
Atualmente é comentador no programa 2 Margens da Açores TSF e cronista regular do jornal Açoriano Oriental com a coluna Café Royal.
Publicou dois livros de Poesia: 15 Poemas de Amor e um Divertimento; Um Dia Tudo Será Mar Outra Vez e tem diversos textos publicados em revistas e antologias.
Ele considerou fundamental juntar pessoas para discutirem diversas nuances deste momento facilmente desnorteante, que porém todos devíamos estar dispostos a sopesar, uma vez que todos estamos implicados.
Julgo que não devemos recusar este aspeto da sua exortação, portanto. Ou será que, como diz o sugestivo prefácio do Doutor Carlos Riley, pretendemos permitir que o Pedro permaneça “um navegador solitário no exercício da mais sagrada das liberdades, a liberdade de pensamento e expressão”?…
Bem, o propósito – refletir e pronunciar-se sobre este transe difícil, e a justificação – ser ele, talvez, uma das alturas mais complicadas das nossas vidas, estão estabelecidos.
Para esse desiderato, com projeção no futuro, todos seremos válidos; não necessitamos de nos assumir como políticos, religiosos, ou representantes de coisa nenhuma.
A mim, também convocada pelo autor para uma curta apresentação da sessão e do livro, julgo que caberá então somente sublinhar alguns dos motes que encontrei na obra, para que saibam com o que contar, que é como dizer, qual a matéria que o Pedro nos aponta para ser debatida:
– Qual a verdadeira dimensão social das epidemias, e até que ponto a sua força teórica é mais responsável do que a mortandade física, no desenho de novas sociedades?
– Se teimarmos em nada aprender com as mais óbvias lições de História, caminhando como zombies, de braços estendidos para a mimese, estaremos apenas a ser fastidiosos, previsíveis e repetitivos, ou nem sequer nos tornamos dignos de uma perpetuação civilizacional neste universo?
– Que atmosfera se pode evolar, de forma tão sensitiva quanto a de um mau perfume, do perigoso e galopante enamoramento entre política e meios mediáticos, quando se entrelaçam para sobrevivência mútua, através da manutenção de uma constante apoteose?
– Que alcance terão o potencial destruidor do histerismo, a disseminação frívola do ódio, a estupidez que crê sem procurar reagir, a ambição única de procurar viver em uníssono com as matilhas? E quanto nos retira tudo isso a presença de espirito necessária para lidar com o verdadeiro vírus?
– Aonde nos levará o que o autor chama “a humana naturalidade do medo”? À ressurreição de um ancestral instinto de sobrevivência, ou à perda, insuspeitada até que irremediável, de toda a liberdade que só milénios de caminhada de consciencialização havia logrado, e não totalmente conquistado?
– Analisemos os motivos pelos quais, independentemente do mote gerado por mais uma pandemia nessa História milenar, e como na crónica de uma morte anunciada por uma espécie de auto antropofagia, a humanidade, de um dia para o outro e em contaminação múltipla, está a eliminar-se, ao eliminar o próprio desenho da sua existência.
E se haverá uma razão para que isso aconteça, precisamente agora…
– Reflitamos na nova antinomia nascida de dois contrários a preto e branco que veio, de forma errónea, opor dois inimigos figadais, sem a clivagem do bom senso: os pro e contra COVID.
– A quanto montará a fragilidade ética e moral dessas sociedades, aparentemente sofisticadas e desenvolvidas, esventradas de forma impúdica e de um só golpe, por um único vírus, pois a causa real do seu desvario pode residir bem mais, no estado histórico dos países que assola, do que no seu potencial intrínseco…
– Acerca da surpresa ao constatar que todos nós, que até há pouco nos concentrávamos no modo de evitar populismos e o perigo das ditaduras, seremos capazes de nos entregarmos, sem talvez o sentir, ao que nas palavras do autor é a ditatorial sociedade “da higienização e do fascismo sanitário”.
– Sobre até que ponto o COVID 19 se transformou, para alguns de nós, em pretexto para exacerbamentos de grupo, incongruências individuais, fanatismo político e, em todos esses casos, numa orgia de episódios excessivos?
– Se a completa desumanização das nossas vidas é uma nova tendência que veio para ficar…
– Se as terríveis e profundas desigualdades do mundo, foram ou não sublinhadas a tinta fluorescente por uma coisa que, ironicamente, atacaria a todos, de forma niveladora…
– Se aquilo que procuramos é mesmo um novo normal, ou antes um novo mundo “mais solidário, mais livre, mais fraterno e, sobretudo, mais sustentável” – como o pretende Pedro Arruda.
Enfim, são estes, parece-me, os temas principais sobre os quais nos podemos pronunciar, ainda que seja pela oportunidade de conversar com nós próprios; ainda que seja pela humildade sapiente de estarmos presentes e escutar alguns outros.
Pedro Arruda considera que, se estamos mergulhados num ambiente no qual, por imposição temática, já nos entregamos todos à morte, vale a pena que respondamos ao menos, “que mundo queremos que nasça dessa morte”.
Destapa assim a caixa de Pandora da responsabilização coletiva neste mundo distópico – já não para onde nos dirigimos, mas onde nos estamos a habituar habitar:
Um cosmos desprovido de qualquer calor humano, procedimentos autistas, solidão intrínseca e em fosso abissal entre desafortunados e privilegiados. Estabelece assim, a culpa dos que navegam no cansaço cíclico de quem pouco faz por si e tudo exige aos que os governam, sem que se possa absolver ninguém pelo surgimento desse mundo onde, como escreve o autor, “por detrás de vidros fumados em carros que deslizam, magnatas passam a olhar impávidos, a ordem mecânica das coisas, cinzenta e esvaziada.”
Enfim; assumindo-se, em tudo, em sofrimento conjunto perante a nossa sorte comum, Pedro Arruda decide voltar-se para cada um de nós e lançar uma pergunta terrível e definitiva:
“Diz-me que isto é o Futuro”…
Madalena San-Bento
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MANUEL ZERBONE (1855-1905)

Urbano Bettencourt

is with

Souto Gonçalves

and

Albino Manuel Terra Garcia

.

6 m
MANUEL ZERBONE (1855-1905)
[ e a crónica do quotidiano faialense]
(…) Tu já assististe, leitora da minha alma, numa dessas manhãs de Julho, quando o sol começa a espreitar por cima do dorso gigante do Pico a água tranquila da baía, para onde ele deixa correr o oiro dos seus raios numa faixa de luz que treme e corre – um rio de oiro regando um prado de safiras – já assististe numa dessas manhãs claras à chegada dos barquinhos que nos trazem da fronteira ilha a lenha para cozermos a carne e as batatas, e os damascos para comermos em fruto nas sobremesas da estação calmosa e em amêndoa nos confeitos da Semana Santa? Já assististe, leitora da minha alma?
Pois bem, nessa doce hora de calmas poesias suaves, em que todo o ar se agita num gozo sensual, como se as frescas emanações do oceano e os deliciosos aromas dos arvoredos rumorejantes o tivessem fecundado num himeneu castíssimo, há uma brusca interrupção frisantíssima quando os barquinhos com as suas velas em triângulo – os barquinhos de que te falei – abicam à praia e vazam no sílex do areal os picarotos e as picarotas que trazem a bordo.
Os que esperam em terra gritam furiosamente pelos cestos de ameixas, pelos molhos de lenha, pelos sacos de inhames, pelos cabazes de ovos e pelas esteiras de sumagre; os que estão a bordo ainda mais gritam pelo homem que está à vara, pelo que deita a poita, pelo que tira o leme, pelo que apanha os remos e pelo garoto que está na caverna deitando água fora.
Já presenciaste uma destas cenas, leitora adorável, lança mão agora da tua vigorosa imaginação de mulher, acrescenta à algazarra em que te falei toda a algazarra que puderes imaginar, e terás uma ideia um pouco pálida, mas todavia uma ideia, do alarido que se fez na abertura da Junta Geral, no primeiro dia deste mês de Maio – o mês das flores que nem ao menos teve flores de retórica – do ano da graça que vai correndo. (…)
Manuel Zerbone, «Crónicas Alegres», I. Organização de Carlos Lobão. Câmara Municipal da Horta, 1989. (Crónica de 10.05.1885, pp. 41-42)
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PEDRO DA SILVEIRA “Fui ao Mar Buscar Laranjas

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“Fui ao Mar Buscar Laranjas. Poesia Reunida”, de Pedro da Silveira.
Volume que inaugurou, em 2019, a Coleção Poesia editada pelo IAC, e que recolhe a obra completa (com inéditos) do mais ocidental poeta da Europa.
Vamberto Freitas, Ana Monteiro and 39 others

POETAS AÇORIANOS – JOSÉ REBELO DE BETTENCOURT.

POETAS AÇORIANOS – JOSÉ REBELO DE BETTENCOURT.
POESIA AÇORIANA – JOSÉ REBELO DE BETTENCOURT
@José Rebelo de Bettencourt nasceu em Ponta Delgada em 1894. Foi escritor, ensaísta, poeta, cronista, crítico literário e jornalista. Frequentou a Faculdade de Letras e um colégio em Londres, mas desistiu de tudo para abraçar o jornalismo. Foi conferencista, tradutor e declamador. Foi contemporâneo e amigo de outos poetas açorianos como Armando Côrtes-Rodrigues, Dias de Melo, Eduíno de Jesus e Teófilo Braga. Fez parte da “geração de Orpheu”. Como jornalista colaborou no “Diário dos Açores” e no “Século”. Fundou em S. Miguel o “Distrito”. Foi redator do “A Pátria” e colaborou na “Gazeta dos Caminhos-de-Ferro” e na revista “Viagem”. Muitos dos seus escritos estão ainda dispersos por muitas publicações.
Quando foi lançada (1917) a “Revista Portugal Futurista” (de que só saiu um número que foi apreendido) José Rebelo de Bettencourt escreve nela um artigo num elogio a Santa-Rinta Pintor.
Uma das suas obras mais significativas, fora da poesia, foi “O Mundo das Imagens” que é um testemunho do início do Modernismo em Portugal. Na poesia publicou: “Ode a Camões”, “Cancões do amor e da terra”, “Cantigas”, “Oceano Atlântico” e “Vozes do Mar e do vento”.
Dele publicamos “A canção da fonte que dedicou ao seu amigo Armando Côrtes-Rodrigues,
A CANÇÃO DA FONTE
Oiço uma fonte a correr,
Oiço-a a correr e cantar,
Não tinha sede e parei
Sòmente para a escutar,
Água da fonte a correr,
Quem te ensinou a cantar?
Parece que estou ouvindo
A própria terra a falar.
Água da fonte a correr,
Sempre a correr e cantar,
O teu destino é fugir,
É fugir e não voltar.
Água da fonte a correr,
Sempre a correr sem parar,
És como os dias da vida
Que ninguém pode sustar.
Passas e deixas não sei
Que tristezas esparsas no ar…
– Cantar, também, muitas vezes,
É um modo de chorar!
Linda cantiga molhada,
Oiço-te e fico a cismar:
– Vais passando e vais morrendo,
Tudo é morrer e passar.
Onde vais, água da fonte
Tão apressada, a cantar?
– É o Mar e mais ninguém
Que por ti anda a chamar!
Água da fonte a correr,
Tua vida é singular:
– És hoje, canção da Terra,
Amanhã canção do Mar!
Coração, porque não cantas
Como esta fonte sem par?
Quem canta espalha saudades,
Não vale a pena chorar!
Canta, canta, coração,
Não deixes a dor entrar!
– A vida deixa – correr
Como esta fonte a cantar!
in: Vozes do mar e do vento, Lisboa, Oficinas Gráficas, 1953.
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SPA ENCERRA NOS AÇORES

Sociedade Açoriana de Autores, já!
A Sociedade Portuguesa de Autores decidiu encerrar várias delegações no país, alegando a necessidade de reduzir custos. Manteve a delegação na Madeira, mas fechou a delegação nos Açores.
Portanto, a conhecida, poderosa e rica SPA manifesta pouco interesse em defender os direitos de propriedade intelectual dos autores açorianos, nas suas diversas expressões artísticas e culturais. Não vejo problema algum, muito sinceramente.
Se assim é, importa criar rapidamente nos Açores uma Sociedade Açoriana de Autores, precisamente para defender os direitos dos autores açorianos. Quem não nos quer não merece consideração. Os Açores possuem muitos autores e muita criação cultural. Portanto, como digo, os autores açorianos têm direito a ter uma entidade regional que os proteja em matéria de direitos de autor. Ou a SPA decide encerrar a delegação nos Açores e quererá que os autores açorianos continuem a pagar-lhe taxas para verem poucos resultados? Era o que faltava!

PEDRO PAULO CÂMARA – YVES DECOSTER

Quadro nr.4 , Texto :

Pedro Paulo Camara
Por detrás da janela da minha existência, por vezes reflexo ou materialização de arame-farpado agreste, ergue-se o pranto negro de mil gerações, amordaçadas pelo desencanto roxo do preconceito e do moralismo hipócrita e redutor. Mas janela só será janela enquanto a alma o permitir e o corpo não a transpuser. Dias virão em que esta fenestra será porta e porto de abrigo e não…
Pintei os lábios de vermelho e aguardei por um beijo, digno de ressuscitar qualquer dormente bela adormecida, ou um qualquer belo vigilante, expectante, como eu, no limite da ilha. Vem e traz os teus beiços proeminentes até ao meu regaço para que possam trilhar caminho ao encontro dos meus, embalados pela quinta faixa do álbum de estreia da ilusória Norah Jones.
Pressinto a tua chegada por detrás da quinta vaga ao pôr-do-sol. Terá o melro negro antecipado o teu regresso? A fêmea passa os dias debruçada no seu ninho, estrategicamente colocado no ramo central da velha nespereira do inculto quintal, languidamente triste. Há três noites, o vento atirou ao chão os dois ovos, gémeos e irmanados, agreste, esmagando a esperança de vida concretizada. Desde então, ela e ninho permanecem calados espreitando o horizonte, ao amanhecer, ao entardecer, como quem aguarda no deserto um pingo de chuva.
A vida também se constrói de silêncios e de espera.
Esta janela não se fechará! E tu chegarás, um dia, sorridente, mesmo que enrugado e sem dentes, de braços estendidos, confiante e disponível. Sorrirás e eu apaixonar-me-ei, novamente, redobradamente, pelos espaços vazios da tua boca e do teu ser. Por detrás do cortinado hialino, tomarei o teu casaco e tu tomarás um chá branco, nascido nas profundezas da cratera, níveo como o nosso afeto ardente.
Nesse dia transformado em noite, nessa noite transformada em dia, e assim consecutivamente, esta janela estará escancarada ao mundo, para que a rua possa ser contaminada pelas faúlhas de felicidade que emanarão dos nossos corpos completos. Come away with me… e eu escrever-te-ei a mais bela e demorada canção de amor eterno.
Pedro Paulo Câmara
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