Vamberto Freitas · Os Dias Da Peste

Os Dias Da Peste
Uns morrem, outros vendem-se/outros conformem-se e outros esquecem…
Obras de Jorge de Sena: Antologia Poética
Vamberto Freitas
Melhor dizendo, não foi nem é fácil (para nós e para ninguém no mundo) viver o Covid-19 na ilha de São Miguel, e como Leitor de Língua Inglesa durante 29 anos na Universidade dos Açores. Num dia de Março deste ano eu tinha dado as minhas aulas de manhã, e depois desci à baixa de Ponta Delgada com um querido colega e amigo oriundo de Braga, doutorado numa área bem diferente da minha. Durante todos os meus anos naquela instituição de Ensino Superior, um dos dos meus grandes prazeres foi descer à cidade ao lado do jardim da universidade, e depois subir com o mesmo prazer, para as aulas da tarde. Naquele dia, no nosso regresso aos nossos gabinetes ou aulas encontramos um campus muito diferente, muito surpreendente. Quase não havia carros no estacionamento, e apenas víamos um ou dois alunos à distância. Olhámos um para o outroe pergunta-mo-nos: que se passa aqui? Na entrada da nossa faculdade, Faculdade de Estudos Sociais e Humanos saiu um colega de pasta na mão. Olhou-nos surpreendido. Não leram o e-mail do nosso Reitor? Não. Era hora do almoço e descanso. Ele acaba de encerrar a universidade devido à “peste” que agora assola o boa parte do mundo. Ficámos como que atónitos. Diz-nos ele: vão buscar as suas pastas e sigam para casa. Um dia ou dois depois vem a nova ordem ou pedido. A passar de agora, será o ensino à distância. Eu tinha entregue os meus documentos de aposentação definitiva em Fevereiro, mas estava sob contrato até Agosto. E agora? Agora foi toda a ajuda da minha Faculdade e da Reitoria. Faremos o melhor que nos seja possível, mesmo que a maioria dos docentes não estejam treinados para tal tarefa, comunicaram os nossos superiores hierárquicos. Pânico. Tudo viria a correr bem, sem que eu o esperasse, o assunto foi resolvido. Queremos o Vamberto em casa sereno, a ler e a escrever, elefaz parte da história destainstituição, e nunca dela me desligaria. Não se pode pedir mais do que esta cordialidade e profissionalismo, por assim dizer. Medo, ansiedade, paralisia mental, desgosto do fim de carreira que contava com 14 anos de ensino numa secundária no sul da Califórnia (Cerritos High School) e, uma vez mais, 29 anos de Universidade dos Açores, sem mácula e sem nunca rejeitar ou desobedecer à tarefas que me estavam destinadasem todas e quaisquer circunstâncias. Para além do que já disse, são agora as saudades que tenho das minhas aulas, dos almoços com colegas, de entrar no meu gigantesco gabinete, a dor de desfazer todos aqueles anos atirando para fora tudo quanto tinha acumulado, desde ficheiros, capas cheias de anotações, e muitos livros. Levou-me algumas horas durante dois dias a desfazer uma vida que tinha sido pautada pela felicidade, e gostava muitodo meu trabalho com milhares de alunos. Tenho de adicionar isto. Quando chegou à colecção de livros que eu mantinha nas minhas largas estantes fiquei sem saber o que faria. Numa universidade não se queimam livros nem se os manda para o lixo. A minha Presidente da Faculdade entrou no meu gabinete e simplesmente me garantia que iriam todos para o seu próprio espaço de trabalho. Dias depois, tive de entregar a chave da sala que tinha sido o meu desejado reduto de trabalho e alegria. Desci as escadas sozinho com uma lágrima no olho, mas também com o sentido de missão cumprida entre todos que me tinham sido queridos, companhias nos piores momentos de certos dias, meus salvadores quando a inevitável e essencial burocracia me deixava sem habilidade ou saber. A Covid-19 veio-me revelar coisas inesperadas, e muito especialmente momentos de generosidade e cumplicidade.
Agora no plural. Temos a felicidade de viver em ilhas, todos elas, em termos relativos, com baixos índices do Covid-19. Estamos atentos ao mundo, particularmente ao resto do nosso país, e isso provoca-nos muita preocupação. Duas coisas a acontecerem que não nos conforta de modo algum. Primeiro, evitamosviajar para fora, atémesmo para Lisboa ou qualquer outra cidade continental. Segundo, e talvez injustamente, tememos a vida seja de quem for do continente europeu, inclusive do nosso próprio país. Tudo isto está a causar, quanto a mim, e não só, uma certa resistência e desejo de alguns que não nos apareçam por cá. Por certo que o número de casos positivos são menores em todos as ilhas, mesmo em São Miguel, que tem mais de metade da população açoriana. Seja como for, neste momento viajam para as cidades do resto do país quase só os estudantes ou os doentes que lá têm consultas inadiáveis. Quanto aoutros, e volto aqui ao singular, morro de saudades de Lisboa, e principalmente da minha casa na Costa da Caparica. Apesar de ter nascido numa ilha (Terceira) com vivência de quase 30 anos nos Estados Unidos, já me chamaram um “continental” no “exílio”. Exagero, mas nem tanto. Tenho saudades de terra firma e do resto do meu país. Um amigo em Sintra, poeta e escritor, avisa-me que aguente mais uns tempos até que chegue a limpeza desta peste mortífera. Custa-me muito, e logo agora que estou livre para viajar, abrir as minhas outras portas e janelas, ver o céu azul que contrasta com este cinzento quase diário e ameaçador. Para consolo um bocado egoísta, recordo a História e outros séculos ainda muito piores, grafado para sempre no Decamerona meados do século XIV, com todo o humor, riso e “histórias picantes” para se contrapor à morte e terror que ceifou metade da população europeia. Só que não tinham o que hoje temos: o saber científico ou farmacêutico que nos promete salvar a todos em poucos meses.
Como quase todos os outros no mundo, andamos de máscara, que ora tiramos ora colocamos por cima da boca e do nariz. Cenas mais ou menos surrealistas e até cómicas quando amigos íntimos se cumprimentam de cotovelos ou braços. Por vezes confiamos no facto de vivermos em ilhas e quebramos todas as regras. Rimos meio consternados, mas rimos. Tambémtem a ver com confiança no nosso sistema de saúde, tudo tem a ver com uma esperança cega na nossa sobrevivência. Fumo, e por vezes vem a tosse do costume. Tudo mudou. Agora tenho vergonha de me acontecer isso, mas numa terra de desviantes do politicamente correcto ninguém se assusta ou ofende. Diz-me um médico amigo especializadoem pneumologia: já vi tantagente com tantos problemas respiratórios em todas as condições que jã não me preocupo muito. Já agora, avisa-me ele – deixa de fumar para não me dares trabalho ou preocupação no bloco hospitalar a meu cuidado. Yes, doctor. A partir de amanhã será assim. Ele dá à cabeça que sim. Sabe que eu estou a mentir, e manda vir mais um copo, puxa do seu cigarro, e partimos para a política e literatura, futebol e comida regional. Eu cito de imediato o Fernando Pessoa: “Venhao que vier ou não não venha o que não vier”. Viver no medo não só modos saudáveis – nem para a mente nem para o resto do corpo. Covid-19 nos Açores? Tenho muito mais medo dos terramotos vulcânicos ou tectónicos. Esses, sim, são o nosso terror nas ilhas.
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Os Dias Da Peste é um livro internacional do PEN (Poets, Essaysts, Novelists/Poetas Ensaístas, Romancistas), uma associação de escritores mundiais, e que está presente em 145 países temtrês línguas paninas:Inglês, Francês e Espanhol. Nestaversão do livro vai incluir a língua portuguesa. Em Portugal tem como Presidente aescritora Teresa Martins Marques. Foi ela que fez questão em estarem presentes, como membros activos e colaboradores, alguns escritores açorianos. Vai ser publicado em 2021.
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