timor e saara ocidental

Paralelo entre Timor-Leste e o Sahara Ocidental
Semelhanças entre o Sara Ocidental e Timor — mas com desfecho oposto
29 mar 2022
Opinião por Francisco Sena Santos
O Sara Ocidental é um território grande como todo o Reino Unido, mas com apenas 600 mil pessoas. Está situado no território de deserto de areia e pedra na África logo abaixo do nosso vizinho a sul, Marrocos. O Sara Ocidental é a única colónia africana que ainda não teve direito à autodeterminação. Está cada vez mais longe de a conseguir. É no desfecho que diverge de Timor-Leste, com quem tem um processo de libertação muito semelhante.
O Sara Ocidental, território rico em fosfatos, ferro, petróleo e gás, foi abandonado pela Espanha e ocupado pelo Reino de Marrocos em 1975. Foi o mesmo ano em que o território de Timor-Leste, negligenciado por Portugal, então na grande convulsão política revolucionária, foi invadido e ocupado pela Indonésia.
A história anterior de Portugal com Timor era marcada pelo abandono que alguns tentam explicar através do pobre argumento da distância geográfica. Em 1942, no decurso da II Grande Guerra, tropas japonesas invadiram Timor — que era território português. A resistência portuguesa a essa invasão foi a de um punhado de generosos combatentes – como o tenente Pires, encarregado português em Baucau – que fora de qualquer enquadramento do Estado português se juntaram a patriotas timorenses e a um batalhão australiano (a Austrália sabia que Timor era o último muro antes de os japoneses lá chegarem) para travar o avanço do Japão alinhado com a Alemanha de Hitler. Isto foi em 1942.
Em 1975 o território de Timor-Leste voltou a ser invadido, desta vez pela Indonésia. Djacarta ocupou o vazio deixado por Lisboa naquele tempo em que a tensão política em Portugal era de confronto máximo entre revolucionários e moderados e em que na complexa agenda da descolonização Timor pareceu uma irrelevância.
De facto, naquele novembro de 75 teve início a brutal e repressiva invasão indonésia de Timor. Portugal denunciou na ONU esta agressão indonésia, mas a diplomacia portuguesa foi impotente para reverter o quadro.
Nos anos 80, a questão de Timor passou a estar nos discursos internacionais dos presidentes de Portugal. Mário Soares incluiu Timor em todos os discursos perante outros chefes de Estado. Mas nada evoluía e a Indonésia continuava a tentar absorver Timor, apesar de tenaz resistência local.
Em 12 de novembro de 1991 aconteceu o sangrento massacre no cemitério de Santa Cruz, em Dili. Tropas indonésias abriram fogo de alta intensidade sobre os cerca de dois mil timorenses que participavam na romagem à sepultura de Sebastião Gomes, um jovem da resistência abatido uma semana antes. Está contado que ali, em volta do cemitério, 271 timorenses foram mortos pelos disparos da tropa indonésia. Umas dezenas mais vieram a falecer nos dias seguintes.
Este massacre mudou tudo para o destino de Timor. A câmara de filmar do recém-falecido repórter Max Stahl captou e gravou tudo. Estas imagens passaram em ecrãs de todo o mundo. Toda a gente ficou a saber o que era a crueldade indonésia em Timor.
Caiu o muro de silêncio que antes cobria a questão timorense. Em 96 o Nobel da Paz foi para a luta de Timor através de José Ramos Horta e do bispo Ximenes Belo.
Intensificaram-se as negociações diplomáticas na sede da ONU, entre Portugal e a Indonésia, com sucessivas rondas. Na primavera de 99, Jaime Gama arrancou do indonésio Ali Alatas o acordo para consulta ao povo timorense sobre o destino que queria. Em agosto os timorenses, em referendo, votaram de modo maciço pela independência, que foi proclamada vai agora fazer 20 anos, em 20 de maio de 2002. Então o povo de Portugal mobilizou-se de modo extraordinário em apoio ao povo de Timor.
O referendo é o que falta ao Sara Ocidental, no paralelo com Timor-Leste.
A Espanha de 1974, no ocaso de Franco e quando fervilhavam as emoções pela revolução portuguesa com a descolonização a avançar, chegou a propor um referendo no ano seguinte no Sara Ocidental. Este cenário surgiu meses depois de ter nascido a Frente Polisario a agregar os movimentos de libertação do Sara Ocidental nascidos nos anos 60.
Mas o Reino de Marrocos antecipou-se à proposta espanhola de referendo. Em 1975 entrou com força militar no Sara Ocidental com a intenção de impedir o referendo. A Espanha, com o ditador Franco em agonia, ficou de braços cruzados e o rei Hassan II de Marrocos foi ainda mais longe: desencadeou a “marcha verde” de 300 mil marroquinos que entraram pelo Sara Ocidental, com unidades militares camufladas dentro dessa marcha.
Em 76, a Espanha em transição democrática retirou-se da antiga colónia no Sara Ocidental e remeteu a questão para a ONU.
Ao fim de 15 anos, a ONU decidiu intervir: a maioria das nações aprovou a realização de referendo no Sara Ocidental sobre a autodeterminação do território. Foi mesmo criada a MINURSO, missão militar da ONU para a realização do referendo no Sara Ocidental, que foi marcado para 1992.
Estamos em 2022, passaram 30 anos. Marrocos arranjou sempre pretexto para que o referendo não se concretizasse. O que avançou foi uma guerra de escaramuças entre Marrocos e a Frente Polisário.
Mas a ideia de referendo foi sempre mantida pela ONU e apoiada pela Espanha, antiga potência colonial. Porém, esta posição espanhola nunca foi muito vigorosa, com obvia intenção de não irritar o vizinho do sul em cujo território estão os enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla.
Marrocos apareceu com uma proposta para substituir o referendo: oferece ampla autonomia ao Sara Ocidental, mas sob soberania marroquina. Mas a ONU, com a Espanha, continuou a insistir no referendo.
Em dezembro de 2020, Donald Trump nos últimos dias de mandato, apostado em deixar como herança a promoção da aproximação entre Israel e alguns países árabes, jogou com Marrocos: os Estados Unidos reconheceriam a soberania marroquina sobre o Sara Ocidental desde que Marrocos estabelecesse relações com Israel. Foi o que aconteceu em tempo relâmpago.
Mas na ONU insistia-se em referendo no Sara Ocidental e essa era também a posição espanhola.
O Reino de Marrocos passou a usar outra arma: facilitar a passagem de migrantes para Espanha, quer através do Mediterrâneo, quer para as Canárias. Criou assim forte pressão sobre o governo de Madrid.
Um episódio precipitou os acontecimentos já neste março. No começo do mês, milhares de migrantes africanos abeiraram-se da fronteira de Melilla, com evidente consentimento da polícia marroquina – que antes os barrava alguns quilómetros antes.
Pedro Sánchez, presidente do governo de Espanha, percebeu a advertência que Marrocos lhe dirigia. Nesses dias um enviado de Washington passou por Madrid, Argel e Rabat.
Em 18 de março, a casa real de Marrocos deu a conhecer o texto de uma carta enviada pelo presidente do governo de Espanha ao rei de Marrocos em que é reconhecida a proposta marroquina de autonomia do Sara Ocidental sob soberania marroquina como “a base mais séria, credível e realista para resolução do conflito”.
O presidente do governo de Espanha decidiu uma reviravolta na posição de Madrid em relação ao Sara Ocidental. Fê-lo sem consultar a oposição e até os parceiros Podemos no governo.
Depois de 30 anos a apostar oficialmente pelo referendo de autodeterminação conforme as resoluções das Nações Unidas, Madrid deixa cair o povo saraui e passa a defender que este deve conformar-se com uma autonomia dentro de Marrocos.
Os compromissos assumidos por sucessivos governos de Espanha com a nação frágil que tem sofrido a hegemonia autoritária de Marrocos são sepultados de modo arbitrário por interesses de circunstância.
Após décadas de promessas baseadas na justa doutrina da descolonização, agora mandam os sarauis deixar a fila de espera e que esqueçam a aspiração de Estado próprio.
Também sobra, para além do moralmente insustentável virar de costas ao povo do Sara Ocidental, um sério problema geopolítico: a Argélia é a primeira aliada da Frente Polisário e é rival de Marrocos. A Argélia é a origem de muito do gás natural que entra por Espanha para abastecer toda a Península Ibérica.
Está para se ver se a vontade espanhola de satisfazer Marrocos não irrita a Argélia ao ponto de fazer disparar o preço na fatura ou mesmo fechar a torneira.
Consulte aqui no link o artigo original:
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A Comissão Europeia apoia o direito à autodeterminação do povo do Sahara Ocidental – POR UN SAHARA LIBRE .org – PUSL

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Source: A Comissão Europeia apoia o direito à autodeterminação do povo do Sahara Ocidental – POR UN SAHARA LIBRE .org – PUSL

mais uma vez açorianos discriminados

DESCRIMINAÇÃO !
Não, não fui às urgências mas sim ao aeroporto de Ponta Delgada para embarcar com destino a Lisboa, mas, qual estrangeiro, tive de passar pela “triagem” para poder embarcar !
O centralismo realmente não dorme. Se viajar do Porto ou Faro para Lisboa não sou obrigado a preencher o formulário de localização de passageiro (PLF – Passenger Locator Form), mas se embarcar dos Açores, também território nacional e em voo igualmente doméstico, temos de ir à “triagem” !
Basta !
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Artur Neto, Luciano Melo and 49 others
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  • Artur Neto

    Inadmissível e vergonhoso, isso sim!!! Coisas de Portugal.
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  • Luna Telles Ribeiro

    Já apanhei com essa nova medida
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  • António Teixeira

    “ mas a dita triagem” foi para colocarem a pulseira verde para não passar “pelo martírio”. Qual é o erro desse procedimento?
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    • 56 m
  • Zé Carvalho

    Pierre Sousa Lima , a autonomia é assim.. 😁 governo autónomo, regras diferentes 😅
    Vou embarcar daqui a pouco das Lajes, mas a pulseira é para colocar à chegada, nao à partida. Desse modo, nao tens de apresentar teste à chegada.
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  • Paulo Aguiar

    Não és melhor que os outros
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    • 38 m
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      Pierre Sousa Lima

      Paulo Aguiar não sou nem nunca pretendi ser. Só exijo, como Açoriano, ser tratado de forma igualitária como um Algarvio ou um Nortenho. Afinal não somos Portugal ?
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      • 22 m
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  • Francisco Botelho

    Não entendo. A Madeira informou que não era obrigatório o preenchimento…
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    • 35 m
  • Luis Rocha

    Ainda este verão vi um autocolante da FLA!
    Juntando isso à autonomia governamental é natural que o continente queira o pessoal bem filtrado 😂
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    • 22 m

SARAUI,Frente Polisario.

Crónica de uma vitória anunciada…
Na manhã de ontem o Tribunal de Justiça da União Europeia publicou finalmente a sua decisão sobre a validade dos acordos de comércio e pesca entre Marrocos e a União Europeia. Todos os juristas que conheço esperavam que o Tribunal decidisse a favor da Frente Polisario. Assim foi. Anulou-os.
Em sentenças anteriores o Tribunal já tinha reconhecido o direito do povo sarauí à autodeterminação e independência. Também já tinha reconhecido que a Frente Polisário era o único representante desse povo. Também já tinha declarado que o Sara Ocidental e Marrocos eram dois territórios distintos e separados. Também já tinha afirmado que os acordos iniciais, que não referiam o território sarauí, não se lhe podiam aplicar.
Agora foi mais longe, ajudado pela miopia política e jurídica do Conselho da EU, que firmou novos acordos com Marrocos em que, desta vez, se incluía expressamente o território do Sara Ocidental. Criticou a Comissão por não ter pedido o consentimento dos sarauís e, em vez desse consentimento, ter feito uma vaga consulta à população do território, ou seja, aos ocupantes marroquinos e a um pequeno número de colaboradores sarauís. Considerou irrelevante o argumento dos benefícios que os acordos trariam à população, ou seja, aos mesmos ocupantes.
A anulação dos acordos representa uma enorme vitória para a causa sarauí e foi entusiasticamente festejada nos campos de refugiados de Tindouf e pelos bravos resistentes no território ocupado.
Diferente, claro, foi a reação do ministro marroquino dos negócios estrangeiros, Nasser Bourita, e do responsável da política externa da União, Josep Borrell. Numa declaração conjunta, tentando esconder o seu desespero, afirmaram: “Tomaremos as medidas necessárias para assegurar o quadro jurídico que garanta a continuidade e a estabilidade das relações comerciais entre a União Europeia e o Reino de Marrocos.” Leia-se: vão estudar a maneira de criar outra artimanha legal para continuar a roubar os recursos naturais dos sarauís e a violar o direito internacional.
O pânico do governo de Espanha, que é quem mais lucra com o saque dos recursos piscícolas, manifestou-se de imediato: o novo ministro das relações exteriores, José Manuel Albares, já está a implorar à União Europeia para que recorra da decisão.
E Portugal? Vai o ministro Santos Silva continuar submisso aos interesses da França e da Espanha, negando a verdade evidente de que a questão sarauí é idêntica à de Timor-Leste?
May be an image of text that says "NESTERN SAHARI MOROCCO U5 WESTERN ERN ALGERIA WEST SAH AHARA MAURITANIA NOT MOROC"
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