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A Assembleia Regional dos Açores precisa de ser repensada.
Sobre isto parece haver consenso popular, mesmo que os principais partidos pensem de forma diferente.
É preciso mudar o sistema eleitoral, aproximando mais os representantes parlamentares dos cidadãos, com outro método de eleição, permitir a candidatura de listas de cidadãos independentes e, se possível, reduzir o número de deputados e elevar a fasquia salarial dos parlamentares.
Com isso ganha-se mais cidadania e mais talentos para a política.
É uma tarefa difícil, mas há que discuti-la, porque manter a situação que temos presentemente é continuarmos a caminhar para o descrédito do parlamento e do nosso sistema autonómico, como ainda esta semana assistimos com alguma intervenções de elevada mediocridade.
A actividade parlamentar não pode continuar a ser olhada como um peso orçamental e um desperdício de tempo e dinheiro, se medida pelo número de leis que aprova em cada legislatura.
Os cidadãos têm o sentimento de que o parlamento é preguiçoso e muitos deputados, em vez de se dedicarem com afinco à actividade, parece irem à Horta apenas para competir sobre quem tira mais fotos da ilha do Pico, através da janela do hotel.
O especialista em Direito Regional e Constitucional, Arnaldo Ourique, publicou ontem, neste jornal, um artigo elucidativo sobre o balanço parlamentar na feitura de leis regionais.
É claro que o parlamento não se resume a isto, mas espera-se dele mais intervenção legislativa e mais regulação regional, em vez de se dedicar apenas à arte da eloquência, que muitas vezes não nos leva a lugar nenhum.
As contas do Dr. Arnaldo Ourique são claras: nos 45 anos da actividade parlamentar foram criados 1.319 diplomas, o que dá o custo de 257.524 euros por cada lei, se dividirmos aquele volume pelo custo anual do funcionamento do parlamento.
No ano passado produziram-se 40 diplomas, o que até é um boa produção, considerando o ano de pandemia, custando cada um 316.225 euros.
Nos últimos anos o custo tem sido maior, atingindo-se o cúmulo em 2017, com apenas 8 diplomas, que custaram cada um mais de 1,5 milhões de euros!
Manter um parlamento com um orçamento anual de mais de 12 milhões de euros para produzir pouco e sem rasgo nem novidade, é sinal mais do que evidente que é preciso mesmo repensar o nosso sistema representativo.
Não se esqueçam disto na tão apregoada reforma eleitoral, que teima em chegar ao fim.
E, mais importante, não se esqueçam de envolver os cidadãos, em vez de uma discussão apenas de gabinete ou de salão.
(Osvaldo Cabral – Diário dos Açores de 16/01/2022)
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  • Ricardo Freitas

    A atividade parlamentar não deve ser medida pelo número de leis que aprova, porque aí estamos a privilegiar um modelo de produção de mais burocracia.
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  • Luís Amaral

    Totalmente de acordo,aumentos salariais com com uma profunda reforma de todo o sistema. Acho que na atual conjuntura parlamentar ganham demais.
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Parlamento Preguiçoso Osvaldo Cabral

LITERATURA AÇORIANA, ESSE PROBLEMA…Ruy Galvão de Carvalho

LITERATURA AÇORIANA, ESSE PROBLEMA…
Problema que tem sido, de alguns anos a essa parte, larga e apaixonadamente discutido; ou seja: a possibilidade de uma literatura de expressão açoriana.
Certo, o Acoriano é dos povos de ascendência portuguesa, aquele que, devido a circunstâncias especiais, entre as quais o factor geofísico, a insularidade, a paisagem que apresenta sempre maravilhosos contrastes, o isolamento plurissecular convidativo ao devaneio e à meditação, a natureza vulcânica do solo actuando na imaginação do ilhéu, o mar oceânico dando-lhe a imagem viva do efémero, o jogo caprichoso das nuvens e dos ventos… ora, como estávamos a dizer, dos povos de raíz portuguesa é o Acoriano aquele que possui uma fisionomia própria e inconfundível. O Açoriano evidencia-se, de facto, de entre a família lusitana pelas suas formas originais de pensar e agir, de vee e sentir as coisas, o meio ambiente, as gentes, o universo…
Conservador no culto do Passado e da Tradição, ele é simultaneamente inovador no seu poder de adaptação, a situações novas, permeável às situações de tudo quanto vem de fora. Daí, por conseguinte, o seu humanismo e universalismo.
Contemplativo e idealista, emotivo e solitário, o Açoriano é, a par, um homem de acção, realista e prático. Finalmente, vivendo no sonho, sente-se no entanto preso à terra-mater, ao torrão natal: é um enraizado debaixo desse aspecto, mas um enraizado que é ao mesmo tempo um cidadão do mundo.
Assim no-lo revelam as suas as suas múltiplas manifestações literárias e artísticas.
Posto isto, importa primeiro perguntar, e este é o grande problema: Será possível pela “matéria prima” de que podemos dispor, criar uma literatura inteiramente nossa, portanto sem influências de qualquer origem, mesmo dos nossos irmãos continentais? Mais ainda: poder-se-á, porventura, dar expressão literária ao “caso” do homem açoriano tornando-o universal? Enfim, estas características que no princípio apontamos serão suficientes para justificarmos a possibilidade de uma literatura de expressão açoriana? Definir, numa palavra, psicologicamente, o viver do homem ilhéu destas plagas atlânticas?
Vejamos, a esse respeito, algumas condições que nos parecem essenciais”
Em primeiro lugar, para que um povo possa ter, realmente, uma literatura sua, necessita de uma língua viva que lhe surva de instrumento de comunicação expressiva, de veículo transmissor, quer dizer, que esteja, como opina, acertadamente, o ensaísta José Osório de Oliveira, “em condições de satisfazer as necessidades de expressão”, e que os seus escritores tomem para tema das suas obras material local, ou seja, a terra e o seu habitante, ao mesmo tempo dando-nos “obras vivas autênticas capazes de interessar os outros homens e com possibilidades de ficar como documentos humanos e como criações artística verdadeiras” (in Enquanto é possível, pág 41-42).
Debaixo desse ponto de vista, não há dúvida, temos uma língua viva, a portuguesa, aquela que herdámos dos nossos antepassados, dos primeiros povoadores destes “penhascos floridos”, embora ela viesse a sofrer modificações dialectais e, com o mesclamento de povos estrangeiros, enxertias vocabulares.
Seguudamente, a este elemento, que é indispensável, associam-se os, propriamente, de natureza local.
O Prof. Vitorino Nemésio indica alguns deles: ” Em primeiro lugar, o apego à terra, este amor amor elementar que não conhece razões, mas impulsos; e logo o sentimento de uma herança étnica que se relaciona inteiramente com a grandeza do mar.” Mais abaixo continua continua: “Uma espécie de embriaguez do isolamento impregna a alma e os actos de todo o ilhéu, estrutura-lhe o espírito e procura uma fórmula quase religiosa de convívio de quem não teve a fortuna de nascer, como o logos, na água.” E concluindo, observa ainda: “…a vida açoriana não data espiritualmente da colonização das ilhas: antes se projecta num passado telúrico que os geólogos reduzirão a tempo, se quiserem… Como homens, estamos soldados historicamente ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat a uns montes de lava que soltam da própria entranha uma substância que nos penetra. A geografia para nós, vale outro tanto como a história, e não é debalde que as nossas recordações escritasl insenrem uns cinquenta por cento de relatos de sismos e enchentes. Como as sereias, temos uma dupla natureza: somos carne e pedra. Os nossos olhos mergulham no mar,” (in Insula, Revista 7 e 8 de Julho e Agosto de 1932).
A influência do mar é incontestável, visto o mar ter em parte feito à sua imagem e semelhança o homem açoriano. Afirma-o também Vitorino Nemésio: “a alma do ilhéu exprime-se pelo mar.” “O mar é não só o seu conduto terreal como seu conduto anímico (in Sob os Signos de Agora, pág 140). Antero reconhecia igualmente: “Filhos do mar, como que hidráulicos por constituição ” (in Prosas, vol 1, pág 109).
Outra característica merece aqui ser registada: de mistura com um certo fatalismo, existe em todo o açoriano um fundo místico que o sociólogo brasileiro Gilberto Freire filia na colonização flamenga das ilhas dos grupos Central e Ocidental (cit por Otto Maria Carpeau, Antero de Quental e o pensamento Alemão, in Atlântico. Revista Luso-Brasileira, 3, pág 41).
Em derradeira análise, a insulariedade fez do português dos Açores um homem independente, de mentalidade autónoma, e, sob o aspecto antropológico, como provou Arruda Furtado, um tipo bem diferenciado e bem definido tendo a esta mesma conclusão chegado A. Morelet e o mencionado Gilberto Freire, entre outros.
Porém, literariamente falando, poucas são ainda as obras, em verso e prosa, mesmo em teatro, de essencialidade açoriana.
Daí, por isso, o de não termos propriamente uma literatura nossa. Não só nossa, mas que seja capaz de interessar o homem de qualquer parte do mundo. Tenha, em suma, significação universal.
Infelizmente faltou-nos sempre, ao longo dos séculos, aquilo que é fundamental para a sua formação: tradição e continuidade. Pois uma literatura não se fabrica, cria-se.
A terminar, bosso apelo neste momento é este: que as gerações actuais sejam as primeiras a dar os primeiros passos nesse sentido, tomando por tema o viver das nossas gentes: seus usos e costumes, suas lendas, crendices e superstições, suas tradições e folguedos, suas danças e cantares, seu falar e seu drama quotidiano. Repetimos: Com significação humana e universal.
A regionalização pode ser agora um feliz começo… Oxalá!
Refundido aos 13 de Março do Ano da Graça de 1982
Ruy Galvão de Carvalho
In Poetas dos Açores
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juntos conseguimos ANTÓNIO BULCÃO

Depois de me ter emocionado até às lágrimas com o cartaz do PS, com António Costa e Sérgio Ávila lado a lado, hoje li de relance a frase da campanha:”Juntos pelos Açores conseguimos”. Dá que pensar.
Primeiro, pelo tempo do verbo. Pode ser passado ou com intenção futura, no sentido de conseguiremos.
Conseguirão o quê? O que antes não conseguiram? Se assim é, é muito estranho, dado que tiveram mais que tempo para conseguir. 24 anos por aqui, pelo menos 10, somando só os governos de Sócrates e Costa.
Depois, pela mensagem política: a República falhou completamente para com esta Região. E Sérgio Ávila falhou ainda mais completamente como governante endividando os Açores com as suas empresas públicas que acumularam dívidas de milhões só para criar e alimentar clientelas.
Assim sendo, como iriam conseguir juntos dado que separados nada conseguiram?
Como mensagem política de campanha é um erro monumental. Resta ser uma mensagem em relação à pandemia… Será um plágio, mas pelo menos ficamos a saber que Costa e Ávila juntos esperam conseguir a saúde… dos dois.

falar micaelense – curso breve

FALAR MICALENSE
A identidade própria do modo de falar micaelense está presente não só no seu sotaque típico, mas também na riqueza de palavras e expressões populares que, juntamente com alguns aspectos gramaticais, como o o uso intensivo do gerúndio, lhe conferem um colorido expressivo único.
Alguém mais atrevido, safado ou velhaco é um corisco, se é desleixado ou desajeitado é mal-amanhado, é um corisco mal-amanhado! Se se trata de alguém de quem não se gosta é um corisco negro, um vargalho, um laparoso e se a intenção é insultar e chamar nomes é um babou,um baboso, um atoleimado, um zabela, um naiã (naião) que o quer é mamá (mamar)! Mas se é um amigo do peito, é um braçado e se é muito querido, é um binsuado (abençoado) ou um sagrado. Diabo é diacho e dianho.
Se alguém está a maçar, está atramoçando ou está cegando e quando não estão para o aturar dizem que não o vão sofrer. Moer a paciência é seringar, meter-se com alguém é intenicar e uma pessoa que chateia é cegona.
Alarmar é desinquietar, andar numa roda viva é andar numa dobadoira e deixar é largar da mão. Se fica calado e sem saber o que dizer fica embatocado, se tem cautela fica na retranca. Ficar de olhos em bico é ficar de olhos arregalados e se se habitua a fazer algo, fica avezado.
Sabedoria é sabedura , palermices e conversas parvas são baboseiras, não ter juízo é não ter tarelo e falta de juízo é destarelo. Do tolo dizem que não é muito discreto, se é discreto e sensato dizem que é arrematado e se dizem que é discreto é porque é esperto e inteligente. Se é parvo e não atina, é palhoco, paspalhão ou patrazana, se é ingénuo é trouxa e se é burro dizem que é arruda da cabeça.
Disparate e falta de propósitos é desarremate, disparatado e impetuoso é desarrematado, e uma mulher d’arremate e da sua porta para dentro é uma mulher sensata, ordenada na sua vida. Quem anda desatinado anda desarido, se está maluco está pegado da cabeça ou cismado, pronto para ir para o Egipto, como chamam ao manicómio.
Em vez de gemer com dores dizem ganir com dores. Palavrão é má-língua, descarado é bispeta, inconveniente é desabusado e mariola é mormo. Quem é sociável é dado e quem é teimoso é teso da verga. Quem é acanhado é bicho do buraco e quem anda triste e abatido anda esmorecidinho de todo.
Pessoa má é ruim e se não te fala está ruim contigo. Se anda mal disposto anda embezerrado e se anda amuado anda de beiças. Um estroina é arrebentado da cabeça e se é cabeça no ar é varela da cabeça. Andar perdido de amores é andar embeiçado e se anda no namoro anda no derriço. Se está metido em trabalhos está encalacrado, e se é bem comportado e educado dizem que é bensinado (bem ensinado). Fazer um mandado é fazer um recado e não ter necessidade é não ter precisão.
As amantes são amigas e se vivem juntos sem serem casados são ameigados (amigados). Ao marido chamam “o meu” e à esposa “a minha”. As sogras são as madrinhas e os idosos são tios e tias. A uma desconhecida chamam “Ti’ áquela” e ir visitar a tia é ir à da tia. Para pedir a benção dizem “Subença!”
Ao baloiço chamam arredouça e quando não sabem para onde se virar andam com a cabeça numa arredouça. Quem anda desconfiado anda malino e quem as faz pela calada é moquenco. Baixar é arriar, agachar-se é amouchar e dar couces é escoucinhar.
Dizem a tenda do barbeiro e do sapateiro, um homem com ofício é um mestre e as ferramenta são os apetrechos. Se não tem jeito é aselha e se é coisa mal feita é emplastro. Trapaceiro é trafulha e se é um patife é um gabiru(um). Surripiar é garimpar, roubalheira é ladroage (ladroagem) e gente que não presta é farelage (farelagem).
Aos problemas chamam molestas (moléstias) e se não há problema dizem que não há moléstia nenhuma. Depressa é numa arage (aragem) , se vai a correr vai na guita, fugir ou safar-se é pisgar-se e de uma só vez é de uma vezada. Um grande transtorno é uma grande espiga, pouco é poucachinho, uma coisinha de nada é uma nisca ou niquinha , muito é podris (poderios) e se está muito cheio, está acaculado (acogulado).
Desmaio é fanico, flatulência é flato e com falta de ar é aflatado. Estar constipado, é ter defluxo, vomitar é lançar e ter diarreia é ter soltura. Uma doença pequena pode ser um malzinho e medicamento caseiro é mezinha. Os rins são as cruzes e se tem dor de rins, tem dor nas cruzes. Inchaço é mamelão, uma ferida é uma pisadela se tem a cara arranhada está com a cara esgatanhada. Se está a sangrar, está botando picos de sangue e quando está a magoar dizem que está pisando.
Quem está bem está-se consolando ou arregalando e quando a situação é insuportável dizem que é de arder. Se sabem que alguém não vai bem, perguntam se se está aguentando e se querem dar uma força dizem “Aguenta-te sempre!”. Quando a vida não corre mal, vais-se amanhando ou vais-se safando, mas se dizem que estás bem amanhado é porque estás lixado.
Cabeça é toutiço, e o nariz as ventas. Quando te ameaçam com uma tareia dizem que te vão partir as ventas ou escarolar todo e se te insultam furiosos dizem “Fogo te abrase!”. Bater em alguém é cabedar e levar uma tareia é levar um enxerto. Vara é vardasca e bater com uma vara é verdascar.
Em vez de “haveria” dizem “havera” (houvera) e se o cão morde , dizem que o cão pega. Corrente de ar é vento encanado, ao tempo ruim chamam cadelo, tempo abafado e húmido é mornaça e ao vento frio do nordeste chamam mata vacas. Lama é lameiro e se está enlameado, está enlameirado. Parar de chover é escampar e se está um nevoeiro cerrado dizem que está cheio de neve. Para se abrigarem da chuva põem uma saca pelo capelo.
Surdo é mouco, sorrateiro é lapareiro, malvado é desalmado, atinar é botar sintido (sentido) e pôr-se a caminho é botar-se a caminho, também dizem botar sentido , botar faladura e botar contas à vida. Fazer troça é fazer escárno (escárnio) e do trocista dizem escarnento. Ficar furioso é ficar danado, ter raiva é ter reixa, ter paciência é ter aço e ter preguiça é ter lazeira. Para mandar embora, dizem “Arreda-te daqui para fora!” e para arredar dizem “Foge diante! (de diante)”
À esquina e ao largo chamam canto e uma tribuna é um palanquim. Destruido é esborralhado, cordéis são atilhos e fita é cardaço. Ao pénis chamam blica , à vagina pinta, ao rabo rabichel, às costelas aduelas e os lábios são beiços. Levar uma chapada é levar uma mão de beiços. De pernas abertas é escarrapachado, de pernas amarradas é peado. Coisa fraca, ou pouco resistente é melindrosa e ao toque de finados chamam sinais.
Nas vendas o vinho bebe-se aos meizinhos e vende-se ao quartilho e à meia canada. O álcoool e o azeite vendem-se ao dezasseis. A aguardente, o escachado e o abafado bebem-se aos calzinhos e um calzinho pela manhã é o mata-bicho. A aguardente de vinho da região é aguardente da terra e o vinho é de cheiro, se é vinho do continente chamam-no tinto. Ao mosto chamam vinho doce. Se está borracho dizem que já vai quente. Um maço de cigarros é uma carteira e uma pacote de dez maços uma cabeça.
Chegar perto é chegar rente e se está junto, está apegado. Um ninho é um ninheiro, canicão é erva daninha, as hostênsias são novelãs e os restos de comida para o porco são as lavages (lavagens). Guardar é arrecadar, espreitar é bispar ou espiolhar, estar à espreita é estar à coca e aparecer é assomar. Estar atento é dar fé, empatar é engonhar e destruir é escangalhar. Ir direito a é embicar, estrangular é esganar , apertar é espichar, descascar é esburgar e borbulhar é babujar. Lamber é lambuzar, sujar é besuntar e pegasojo é peganhento.
Em vez de “Ora essa!”, dizem “Ó’messa!” e a uma grande parvoíce respondem “T’á asno!”. “Quem me dera …” é “Quem me caçara…”, “Deus me livre!” é “Pelo’ê!” , “De qualquer forma” é “Assim c’má’sim” e ” Por causa de” é “Por mor de”. Em vez de “Enganas-te!” dizem “’T’ás mal enganado!”, em vez de “Acontece que…” dizem “Segue-se que… e dizem “Olariques!” em vez de “Olaré!”. “ Por exemplo …” é “Em comparação…” , e para perguntarem onde está, dizem “C’á dele?. “Haja saúde!” é uma saudação vulgar, “Filhas credo!” é uma exclamação de surpresa, e “Pois alevá!” de resignação. Exclamam “Pudera!” se é evidente e “Já se sabe!” se a coisa é certa. Se é mesmo a sério, dizem que é mesmo de veras, se não te aconteceu como contavas, dizem que te mijou o cão no caminho. Pintar a manta é pintar o caneco, ir lá-lá é dar um passeio às crianças e ter no sentido é ter na memória.
Aldeia é freguesia e não dizem “da minha terra”, mas “da minha freguesia”. Quem é do campo é de fora-da-cidade e um amigo de infância é da mesma criação. Quem não tem sotaque de S. Miguel fala à moda, quem é de outra ilha é das ilhas, os do continente são de Lisboa e os Americanos são calafonas. Se é da Água de Pau é donde a porca furou o pico e se é da Vila Franca é da Vila. Os de Santa Maria são cagarros e os da Terceira rabos tortos. Se é bem falante, é uma língua destravada ou cheio de palheta , cheio de graça é cheio de pilera, um fala barato é uma língua destramelada e de quem está sempre a repetir o mesmo dizem que é como a música da Relva, o mesmo e mais forte. Sempre a mesma coisa é o mesmo ramerrão.
Aos terrenos chamam terras e as terras são medidas às quartas, aos alqueires e às varas. De um terreno que confronta com outro dizem que entesta. Trabalhar no campo é trabalhar na terra. Uma enchada é um sacho, mondar é sachar, estrume é esterco e estrumar é estercar. Fazer sementeira de Outono para enriquecer a terra é outonar. À horta chamam quintal, um campo pequeno é um cerrado, uma pastagem é um pasto, as chãs são fajãs, e as vinhas na encosta são as rochas. As ribeiras são grotas, se é uma grota pequena é um grotilhão, os caminhos terreiros são canadas e em vez de pocilga dizem pátio do porco. Ao palheiro chamam cafuão, as tocas são louras.
Transportar é acartar e uma carga é um carreto. Para transportar cargas no burro usam um seirão e para carregar a carroça uma a sebe e fuêros (fueiros). Levar uma fuêrada (fueirada) é levar uma pancada com um pau. Um canguite é para atrelar uma parelha de bois na carroça, uma brocha é para amarrar a canga ao pescoço do boi e os utensílios para atrelar o cavalo na carroça são os arreios. Se montam a cavalo com uma albarda, sentam-se de lado e andam a cavalo numa carroça, numa camioneta ou num automóvel.
As vacas são as reses e aos novilhos chamam gueixos. Um gueixo de cobrição é um toiro, uma vaca ainda não parida é uma gueixa, se está cheia é porque está prenha e se está coberta é porque já tomou boi. Se vão tratar dos geixos, dizem que vão para os gueixos e se vão tratar das vacas, vão para as vacas. Ordenhar as vacas é mamar as vacas. O úbero da vaca é o mojo e uma vaca sem cornos é moucha. Bilha de leite é latão, se é pequena é uma lata. Um leitão é um marrão, um ratinho um morganho, uma doninha uma comadrinha e as gaivotas são garças. Éguas cavalos e mulas são bestas, patos e gansos são marrecos, teias de aranha são paranhos e qualquer pássaro é um melro.
Jardineiras são alvarozes, camisola é suéra, casaco é jaqueta, peúgas são soquetes, boina é pirata , cuecas de senhora são calcinhas e um pano velho é uma rodilha. Asa de brinco é arça, calçado artesanal de madeira são galochas, se são mais simples são tamancos ou tarolas, sandálias artesanais são albarcas (alpercatas), chinelos são sulipas e botas de borracha são botas de cano. O autocarro é a camioneta, o táxi é carro de praça e o motorista é o choufér.
Fardos de palha são malotes, os pés do milho são milheiros e os sabugos carrilhos. As maçarocas são amarradas em manchos e penduradas para secar em toldas, com os milheiros fazem o fescal (frascal) da arribana. Lenha miúda são gravetos e um feixe é um molhe. Tábuas de refugo são costaneira e à serradura chamam farelo de serra.
Se a cor é forte é arregalada, se é cor de laranja é amarelo torrado e se é grenat é cor de cravo. Bodum é cheiro forte a bode, fedor é mau cheiro. Em vez de “Que pivete!”, dizem “Que peste!” e se tem ar de enjoado é fedorento. Entretanto é entrementes, enquanto é imentes e em vez de então dizem entances. Sair do trabalho é despegar o trabalho, trabalhar à jorna é dar dias e o salário é a féria.
Coisa linda é coisa asseada, bem vestido é aperaltado, enfezado é entanguido. Se não está decente dizem que está descomposto e se está está despido está em couro. Se está cheio de fome tem fome negra ou está esganado, mas quando dizem que é esganado é porque é interesseiro ou sovina. Se não tem apetite é biqueiro.
Pessoa gorda é begoucha, um rapazinho é uma nisca de gente, mulher pequena é piorra, se é estouvada é arvela e se é de má fama é um testo. Uma boazona é uma bela fema ou uma bezuga e se é bonita é requinha (riquinha). Uma inquietação é apoquentação, uma zanga e uma briga é uma arenga e uma bulha, uma confusão um deremunho, uma arressaca , um leilão ou um chamatão e um tumulto um alevante.
Guardam a água em talhões, a banha em boiões, salgam a carne e as pimentas em balsas e os chouriços e as morcelas são fumados em sarilhos. gua espalhada pelo chão é alagariça, uma torneira é uma fonte, um balde de madeira uma selha, os fósforos são palitos, acendalha dos candeiros e dos esqueiros é torcida, as molas de roupa pregadeiras e passar a ferro é correr roupa. Aos desenhos animados chamam macaquinhos, às histórias casos e às mentiras petas,
Cacos são testos, os afazerers são os terminos, uma forma para bolos é uma pana, uma esfregona uma mapa e à arca congeladora chamam friza. Os charros assam-se na sertã. Bolos de massa frita são malassadas, as vísceras dos animais é a fressura, caçoula é guizado com as miudezas do porco (bofe, coração, fígado, baço) , debulho é cozinhado de sangue de porco, figado, cebola, salsa e condimentos, as batatas escoadas são cozidas com pimenta e sal, ao chá de Lúcia-lima chamam Maria Luísa, às papas de carolo também chamam papas de cachão, papichas são as bolas de farinha para as couves com massa, uma carcaça é um papo-seco, banha é graxa, gordura é unto e barrar o pão é untar o pão. Ao tubérculo do jarro do campo chamam serpentina e comem-nas cozidas com àgua e sal ou esfarelam-nas para fazer papas de serpentina. Dizem frigir em vez fritar, sopas de pão é pão migado e conduto é o que come com o pão. Pastilhas elásticas são gamas, rebuçados são candiles,
Sótão é falsa, toucador é psiché, mesinha de cabeceira é escaparate mesão de cozinha é pial, portinhola de ripas é cancela, trinco de madeira é tramela e um lavatório de ferro é uma aranha. Ao penico chamam bacio, à chupeta bico e a uma esteira capacho. Dormir no chão é dormir a lastro, um travesseiro é um cabeçal, a uma cama de ferro chamam barra e a uma cama de rede esporim. O balcão de um estabelecimento comercial é o mostrador.
Atirar é aboar, trepar é guindar, constar é zoar, congeminar é indrominar, tropeçar é dar topadas e correr desenfreadamente é correr como um desalvorado. Arranjar é amanhar, mas se diz que precisa de se ir arranjar é porque precisa de ir à retrete. Se anda com grande vontade, anda deserto ou está com ganas e se gosta muito de uma coisa pela-se por ela. Às danças chamam balhos, à gaita charamela e as cantigas dos populares são modinhas.
Confissão é desobriga encosta é ladeira, acima é arriba e em vez de além do mais, dizem ainda por riba. Ir em frente é ir adiante, comprar é mercar, andar à procura é andar à cata. Dar cabo de alguma coisa é escarolar, desaparecer é sumir-se, esconder-se é encafuar-se, inventar é enjorcar. Em vez de pensar dizem cuidar, se não acerta dizem que não encarreira e se está mal dito ou mal pronunciado, está estropiado
Ao Epírito Santo chamam simplesmente O Divino e ao símbolo na bandeira a Pombinha. As festas do Espírito Santo, as mais populares dos Açores, são os Impérios e quem as organiza são os mordomos. Ao cortejo do Espírito Santo e à cerimónia de concessão da graça do Espírito Santo na Igreja chamam Coroação, ao almoço do mordomo chamam Sopas do Espírito Santo, as ofertas do espirito santo (carne, massa sovada, pão e vinho) são as pensões e os grupos de cantares do Espírito Santo são a Folia. O sorteio das domingas do Espirito Santo são as sortes, mas ir às sortes é ir à inspecção para a tropa. Aos foguetes chamam roqueiras, os que têm um rebentamento mais forte são bombãs, e ao fogo de artifício chamam roqueiras de lágrimas. Se a festa é grande é de mandar peso.
Ao escudo chamavam pataca, cinquenta centavos eram seis tostãs (tostões), vinte centavos uma serrilha, dez centavos seis vintãs (vinténs). Assim o diz estas quadras populares:
Menino se sabeis ler/ Fazei-me bem esta conta/ Quatrocentos guardanapos/Seis vinténs em cada ponta.
Ó minha rica menina/ Sou embaixador das ilhas./ Quatrocentos guardanapos/São oitocentas serrilhas.
Há também uma enorme variedade de palavras e expressões populares que são fruto de deformações linguísticas oriundas da língua falada. São exemplos: aguentar, aguerrar, ajuntar, alembrar, alevantar, alomear, amandar, esmirrar, arrebentar, arrecear. arreceber, arrecuar, assuceder, assentar, assoprar, assubir, estralar
açucre, amarcano, impanho, intances, inté, papeles, selada
Muitas destas palavras e expressões estão presentes nas modinhas do folclore local, como nestas sextilhas humorísticas do Pezinho da Vila:
Fui à Água de Pau
O vinho não era mau
Sete vezes molhei o bico
Diga lá T’i Maria
Se foi nesta freguesia
C’a porqca furou o pico.
Nasci numa sexta-feira
Com bigode e cabeleira
M´ás parecia um anti-Cristo
Qu’inté o Sr. padre cura
Qu´é home de sabedura
Nunca tal havera visto.
Minha sogra tem-me reixa
Que de mim foi fazer queixa
À vila da Povoação
Por eu ter chamado à filha
Papo-seco de serrilha
Bom petisco da manhã.
Eu fui à beira da rocha
De sapato e uma galocha
Ver se o mar estava manso
Encontrei uma garoupa
Toda enrolada em roupa
A dormir no seu descanso.
A filha da tia torta
Que não entra, fica à porta
Foi ter comigo ao moinho.
Atirei-lhe uma palanca
Acertei-lhe certo na anca
Vai-te burra p’ró caminho.
Eu venho lá dos Arrifes
A comer pão com bifes
E tamã galinha assada
Rapá não m’atramósses
C’agora só tanh’é ossos
Tu daqui não levas nada.
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ANTÓNIO BULCÃO FALAR AOS PEIXES

Melhores ouvintes que certos homens…
Há meses contei-vos do tanque que há no jardim da Secretaria Regional da Educação e dos peixes que nele habitam.
Pensei ser tema esgotado. Só que aconteceu um episódio que merece ser contado.
Como vos tinha dito que faria, vou alimentar os peixes todos os dias. Flocos que cheiram a camarão, juro-vos que ao ponto de me desorientarem a bicha-solitária. Espalho a leve comida ao longo das margens e fico a ver os bichos a comer. Estão cada vez maiores e mais bonitos, as cores mais vivas, nota-se que estão bem mais felizes do que quando só tinham lodo à disposição.
No princípio da semana passada, no entanto, não apareciam. Nem um. Rodeei o tanque várias vezes, a olhar o fundo e… nada. Estranho. Muito estranho. Teriam sido roubados? Por um ladrão tão meticuloso que rapara tudo, nem deixando um para amostra? Armado de escada para ultrapassar o muro, camaroeiro para retirar os animais, baldes com água para os meter? Tudo isto sem ser visto, denunciado à polícia? Muito pouco provável. Mas a verdade é que o tanque parecia vazio…
Já preocupado, decidi pegar no telemóvel e ligar para o Dr. José Humberto. “Os peixes desapareceram todos…”.
“Como desapareceram? Isso não pode ser. Ah, já sei, os meus fazem a mesma coisa no tanque lá de casa. Quando a água está muito fria, escondem-se debaixo dos nenúfares para se aquecerem…”.
“Ah é? Olhe, começaram a aparecer. Obrigado. Um abraço”.
Comecei a tentar entender. Não a causa do desaparecimento, essa estava explicada e bem entendida, fazia todo o sentido. Só não conseguia perceber o que levara os peixes a virem à superfície. A única coisa diferente que houvera tinha sido a minha conversa.
De repente, fez-se luz. Tinha sido a minha voz. Não sei explicar cientificamente a relação de causa e efeito, mas os peixes ouvem. Serão as vibrações da voz na água? Que se propagarão em ondas até às suas escamas e guelras? Será qualquer outro fenómeno que os físicos tomarão como banal mas que, para mim, foi como um milagre?
Decidi testar a minha teoria. Nos dias seguintes, aproximei-me devagar, quase pé ante pé, para não ser visto nem ouvido. Chegado à borda do tanque, disse, em bom som: “Rapaziada, chegou a paparoca!”. As águas, vazias antes, encheram-se de corpos natatórios. Os peixes ouvem, meus amigos.
O padre António Vieira já o sabia. Eu é que não o li bem. Assim sendo, vou convidar o mesmo pregador para dar umas voltas por aí e fazer uns sermões. Não aos peixes, desses já tratou antes e agora trato eu. Quero que ensine umas coisas a um certo deputado, que teima em malhar na Educação deste governo, não hesitando até em distorcer a verdade para tentar convencer não imagino quem…
O melhor ano para todos. Que se vá embora a Covid, em todas as suas variantes. Que certas almas tomem juízo e se convençam de que estas ilhas não têm donos, por muitos anos tenham mandado, convencidos de que eram sua propriedade privada. Os donos destes calhaus somos todos nós. E todos os que vierem por bem… serão bem-vindos.
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
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  • Arminda A Alvernaz

    Desejo que o Ano Novo que está a chegar lhe seja tão gostoso como é para mim ler os seus textos. Simplesmente ADORO! 🌟

OSVALDO CABRAL PRENDAS DE NATAL

!
Prenda de Natal 1 – uma herança pesada
Quais os pais que gostariam de deixar como herança aos seus filhos uma dívida astronómica para pagarem ao longo da vida?
Ninguém deseja isso, mas é o que todos nós, açorianos, estamos a fazer com a galopante dívida da região.
Quem tem crédito bancário sabe como é. Não custa nada pedir à banca, o pior é quando vamos pedindo por sistema, até não podermos pagar, entrando em insolvência ou deixando o calote para os herdeiros.
A nossa região está nesta situação e não faltam vozes a alertar para o péssimo caminho que escolhemos nestes últimos anos, contraindo dívida todos os anos, apenas para pagar desmandos políticos, buracos de empresas públicas e iniciativas não reprodutivas.
O Presidente do Tribunal de Contas veio esta semana aos Açores entregar-nos o seu Parecer sobre a Conta da Região relativo a 2020, e as notícias não são boas, na esteira dos anos anteriores.
No ano passado foram mais 370 milhões de euros de dívida contraída, para juntar à dívida bruta, que já vai perto dos 2,5 mil milhões de euros.
É verdade que a pandemia explica grande parte desta dívida, mas não explica tudo, porque o histórico, antes da pandemia, já sofria da mesma doença.
Os Açores estão a caminhar para uma estrada cada vez mais estreita, praticamente com o mesmo destino da TAP e da CP, que têm dívidas semelhantes à nossa.
Os impactos da pandemia e o esforço financeiro acumulado com ela e com o financiamento da SATA agravaram esse caminho, que é preciso arrepiar logo que haja retoma económica.
A pandemia COVID e a pandemia das contas da SATA justificam o acréscimo acentuado do endividamento, mas, como diz o Tribunal de Contas, ambas irão condicionar o nosso futuro, pondo em causa a solidariedade intergeracional.
O ano de 2021 vai adicionar mais dívida e vai, naturalmente, agravar este condicionamento.
Nada que não tivéssemos já previsto.
Agora é rezar para que a economia retome, a Lei de Finanças Regionais seja revista e as taxas de juro não subam.
Não é uma bela prenda de natal que vamos deixar no sapatinho das futuras gerações.
Prenda de Natal 2 – um governo caloteiro
Nunca tivemos um Governo da República tão caloteiro como o actual.
Não bastavam as promessas dos milhões para a Universidade dos Açores que nunca chegaram, os apoios aos estragos do Furacão Lorenzo que se transformaram num cheque mais pequenino e a falta de apoio às empresas açorianas, ao contrário das do resto do país, devido ao aumento do salário mínimo.
Agora somos confrontado com mais um calote, socialmente grave, que é a falta de pagamento da majoração de apoios aos ex-trabalhadores da Cofaco, na ilha do Pico, conforme foi aprovado na Assembleia da República e previsto no Orçamento de Estado.
São muitos atropelos seguidos para com a nossa região, que só desmentem a tradicional bonomia do Presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, quando disse, após a cimeira “histórica” com António Costa, que o relacionamento institucional entre os dois governos era “impecável, cooperante e com sentido de responsabilidade”.
Se todos estes ataques da República à nossa Região, como o vergonhosamente desferido, nos últimos dias, com a Lei do Espaço, são “impecáveis e cooperantes”, então o melhor que todos fazemos é arrumar as botas e deixarmo-nos claudicar perante o novo colonialismo republicano?
Não senhor!
Os açorianos devem manter os olhos bem abertos.
É que, como diz, muito bem, Mota Amaral, “o centralismo não dorme”.
Prenda de Natal 3 – de que se queixa o sr. deputado?
O deputado do PPM, um dos partidos da coligação, retirou esta semana a confiança política ao Secretário dos Transportes.
Está no seu direito, como qualquer outro político com responsabilidades regionais.
O problema é que Paulo Estêvão não é um deputado qualquer.
Já demonstrou que tem uma influência – que nos parece exagerada – nas decisões do governo e tem o dever de fidelidade a esta forma de governação, porque assinou um compromisso para esta legislatura.
Teve, inclusivamente, a nomeação de outros secretários e directores regionais da sua área partidária, que até demonstram serem tão ou mais fracos do que o Secretário dos Transportes.
Está à vista de todos o sucesso das reivindicações que o deputado do PPM tem conseguido deste governo, a começar pelo famoso barco de transporte de carga para o Corvo.
Quando se queixa dos transportes, é daquilo que o Comandante Lizuarte Machado diz, que “talvez fosse mais relevante para os açorianos, sabendo-se que os armadores do Tráfego Local regional tinham e têm navios mais adequados a esta operação e mais baratos, saber quem escolheu o navio Thor e porquê. Este navio custa ao erário público regional 115 mil euros/mês mais taxas portuárias e combustível e, ainda, 100 mil euros/ano pagos a um operador local para efetuar a sua gestão comercial. Algumas operações como, por exemplo, vir trazer dois bois ao Pico, tem custos absolutamente escandalosos. São cerca de dois milhões de euros por ano. Mais do que o abastecimento anual de carga contentorizada à ilha das Flores”?
São estas questões que devem ser bem esclarecidas, como aconteceu com a célebre polémica do boi anão.
Não está em causa o êxito ou não das soluções encontradas, até porque os corvinos têm direito à resolução dos seus problemas, como qualquer açoriano de outra ilha.
O que está em causa é o foco dos problemas dos partidos que apoiam a governação, que não se resumem a um único secretário regional e a uma permanente reivindicação como se fossem os únicos com necessidades.
O bom senso é essencial na política.
Para disparates, já bastam os do Chega.
Prenda de Natal 4 – boas festas
As tabelas de retenção na fonte de IRS para 2022 para os Açores já estão publicadas no Diário da República.
Todos os trabalhadores açorianos abrangidos pela Retribuição Mínima Mensal Garantida, com um acréscimo de 5% em relação ao Continente, passam a receber, a partir de Janeiro, 740,25 euros, ficando isentos de retenção na fonte e aumentando, assim, os seus rendimentos.
Como muito bem se regozijou o SINTAP, a forma encontrada vem repôr justiça em relação aos trabalhadores que auferem o ordenado mínimo nacional e também eliminando o efeito injusto criado nos anos anteriores, evitando-se assim que parte significativa da majoração de 5% na Região não fosse absorvida pelo imposto e garantindo-se, desta forma, que todos os trabalhadores da Região que auferem salários até 741,00 euros não perdem qualquer rendimento por via do IRS.
Está de parabéns o Governo Regional e o Secretário das Finanças pela solução encontrada. Isto sim, é política com bom senso.
Uma boa prenda para muitos trabalhadores açorianos.
Boas Festas!
(Osvaldo Cabral – Diário dos Açores de 26/12/2021)
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