açores as ilhas inventadas

Açores. As ilhas inventadas
Há quase cem anos, Nemésio criou a palavra “açorianidade” para denominar a personalidade específica das suas ilhas natais. Mais nenhuma região do país suscitou necessidade semelhante; nenhuma outra é vista tão claramente como um território único. Porquê? E o que há nisso de real e de invenção literária?
“Só isto:
O céu fechado, uma ganhoa
pairando. Mar. E um barco na distância:
olhos de fome a adivinhar-lhe, à proa,
Califórnias perdidas de abundância.”
O poema é do açoriano Pedro Silveira, de 1952. Um quase haiku que outro açoriano (e emigrado nos EUA), Onésimo Teotónio de Almeida, citou na introdução que fez para a edição americana do livro – Gente Feliz com Lágrimas – de outro açoriano ainda, João de Melo. Texto no qual tenta dirigir o leitor daquele país ao lugar Açores e à sua mística. A mística de um lugar misterioso e raro, melancólico, longínquo, escondido – um lugar que de alguma forma vive na e da literatura. “Prefácio, ou uma curta introdução a um mundo desconhecido” começa com a expressão da dificuldade da tarefa, assumindo o olhar do americano que passa de avião e de quem, em metáfora, “as proverbiais nuvens do anticiclone suspenso sobre o arquipélago” escondem a visão das ilhas. O americano que pode ser qualquer alguém, incluindo português, não açoriano.
“No entanto tanto está sob essas nuvens”, garante Onésimo. “Muito disso está por escrito, mas permanece escondido na língua portuguesa que, como escreveu Aquilino Ribeiro, é o mausoléu de uma grande literatura.” E prossegue: “Os açorianos viveram mais de 500 anos de isolamento do resto do mundo, assolados por tempestades, vulcões, terramotos.
Inevitavelmente, tudo isso teria de deixar uma marca nestes ilhéus quase perdidos, ou meio abandonados, no meio do grande e selvagem oceano Atlântico. Alguma da sua história foi representada por ficcionistas e grandes poetas. Pedro Silveira, um desses poetas, e um dos que, como outros, viram a emigração para a América como a única saída possível, capturou a solidão do arquipélago em cinco linhas na tentativa de definir a “ilhanidade”. O poema tem o nome “Ilha”.
Os Açores como um mundo desconhecido, a “ilhanidade”, e a específica açorianidade, termo cunhado por outro açoriano, Vitorino Nemésio, num texto de 1932, como um lugar e um ser de difícil tradução para quem não o habite, sinta ou seja. Mesmo quem como Onésimo desconstrói a ideia em entrevistas, demonstrando que, longe do essencialismo, a identidade é posicionamento, reação e reflexão – “Quando fui para a Terceira percebi que era micaelense. Na Madeira, senti-me açoriano. Em Lisboa, vi que era insular. Em Espanha, reconheci-me português. Em Paris, já era ibérico. Nos EUA, europeu. Na China, achei-me decididamente ocidental. Se um dia for a Marte, hei-de sentir-me terrestre” (Público, 2014) -, não resiste a reificá-la. Porque é bela, porque é literária. E porque quando se quer falar do lugar donde se é, de quem se é, se acaba inevitavelmente por convocar, procurar ou mesmo inventar contrastes, diferenças, peculiaridades – aquilo que permite dizer alguma coisa.
Paula Cabral, micaelense – de São Miguel, a maior das nove ilhas, com cerca de 55 mil habitantes (quase um quarto da população do arquipélago) – autora de Crónicas da Minha Terra (2017), sobre a sua freguesia natal, Pico da Pedra, hesita se lhe pedem esse labor. “É difícil. É uma pergunta difícil. Até porque é um conjunto de ilhas, e há uma diferença muito grande entre elas. Aqui em São Miguel, apesar de ser a ilha maior, somos mais ensimesmados, mais fechados. E estamos mais virados para a terra, enquanto as ilhas do grupo central estão mais viradas para o mar. Mas creio que o isolamento é o que mais nos define.”
“Uma embriaguez do isolamento”
No texto em que cunha, em analogia com a hispanidade de Miguel de Unamuno, o termo “açorianidade”, Vitorino Nemésio falou sobre “uma espécie de embriaguez do isolamento” que “impregna a alma e os actos de todo o ilhéu, estrutura-lhe o espírito (…). A geografia, para nós, vale outro tanto como a história, e não é debalde que as nossas recordações escritas inserem uns cinquenta por cento de relatos de sismos e enchentes. Como as sereias temos uma dupla natureza: somos de carne e pedra. Os nossos ossos mergulham no mar.”
Paula, 53 anos, ensina Português ao terceiro ciclo e já esteve colocada numa escola na outra ponta de São Miguel. “Levava uma hora a atravessar a ilha, e isso dava-me diariamente noção da amplitude. Sentia-me a viver numa jaula.” Um sentimento que contrasta com outros. “Aos 18, 19 anos trabalhei como guia de turismo. Um turista perguntou-me “o que significa o mar para si?” e fiquei sem resposta. Só muito mais tarde percebi o significado, quando na viagem de finalistas fui para Marrocos. Não se via o mar e isso criava-me ansiedade. Mas só percebi que era isso quando cheguei a Casablanca, porque ali havia mar. Entendi a importância de ver o mar na linha do horizonte, que preciso disso.” Outra coisa que lhe causa ansiedade, conta, é ir ao continente e “sentir que passo anónima. Porque aqui estamos sempre a ver pessoas conhecidas.” Conclui: “Prisão, ninho. São sentimentos contraditórios.”
A terceirense Carlota Cunha, 30 anos, estudante de Psicologia e vendedora numa loja, transitoriamente de regresso a casa “para ver se consigo, com isto da pandemia, passar aqui o Natal”, sabe dessa contradição. “Sempre que aterro na Terceira fico com lágrimas nos olhos, e quando oiço uma música dos Açores fico sempre com o coração nas mãos. Mas ter saudades disto começou há pouco tempo. Porque até sair daqui para estudar em Lisboa, isto para mim era prisão – passar a minha adolescência num sítio pequeno e rodeado por mar…” Ir deu-lhe outra doçura ao voltar. “Quando ganhei mundo percebi as coisas boas que isto tem. O tempo aqui não passa, não tens trânsito, as pessoas são simpáticas umas com as outras, toda a gente se conhece.”
Admite que talvez “os açorianos sejam mais calmos”, mas lembra: “Temos também muita violência doméstica, muito alcoolismo. As pessoas gostam de dizer que os açorianos são completamente diferentes dos outros portugueses – não sei a que ponto isso é verdade.” Noutro ponto da conversa, porém, fala da meteorologia – e de como condiciona o temperamento. “Temos as quatro estações num dia, e temos as quatro estações dentro de nós. Se calhar temos mesmo uma personalidade diferente.” A música das ilhas, diz, espelha essa personalidade. “Há uma música, a Chamateia, que fala ‘desta bruma que me quer vencer’.” A voz treme: “Temos uma bruma dentro de nós, muito influenciada pelos tremores de terra, pelos desastres naturais, que faz que sejamos pessimistas, mas também esperançosos, com muita crença no Espírito Santo e no Nosso Senhor.”
A invenção de um pedigree
Em Açorianidade: Literatura, Política, Etnografia, capítulo de Etnografias Portuguesas 1870/1970 (2000), o antropólogo João Leal reconhece num “conjunto significativo de intelectuais açorianos do período que medeia entre 1870 e 1940” o estabelecer de “factos e argumentos susceptíveis de fundar os Açores como um espaço marcado pela peculiaridade e pela diferença”, gradualmente “inventando ou imaginando a identidade dos Açores.”
Leal fala de “mitos” ou “narrativas de identidade provincial”, da tentativa de reconstituição de um “pedigree étnico”. Em certos momentos, escreve, “a região tende a ser vista como uma ‘pequena pátria’ indissociável da ‘grande pátria’ que é a nação e triunfa uma visão dos Açores como ‘quintessência de Portugal’. Noutros momentos, pelo contrário, a região deixa-se ver como um espaço a partir do qual é colocada em causa a adequação das narrativas ‘unificadoras’ da identidade nacional à totalidade do território e os Açores tendem a ser vistos como uma espécie de ‘Portugal diferente'”.
O primeiro exemplo que dá dessas narrativas é o do naturalista Arruda Furtado (1854-1887), que em 1884 publica Materiais para o Estudo Antropológico dos Povos dos Açores. Observações sobre o Povo Micaelense. Debruçando-se exclusivamente sobre os habitantes da ilha de São Miguel, defende que a separação destes do continente “na época gloriosa da história portuguesa”, quando “uma corrente de novas e grandes ideias circulava no país”, teria tido uma influência negativa, resultando “num povo sem instrução”, de “inteligência curta” e “excessivamente manhoso” – “condição que acusam imediatamente no falar ronceiro, mastigado, e respondendo sempre vagamente ao que se lhes pergunta. Sem dúvida, como por toda a parte, encontra-se inteligências notáveis nos nossos cavadores, mas é extremamente raro e o camponês micaelense é essencialmente cabeçudo”.
Naturalmente, a observação tão pouco amável de Arruda Furtado é minoritária entre os intelectuais açorianos seus contemporâneos – sobretudo entre o movimento autonomista do final do século XIX. Aí dá-se por exemplo importância à ideia de que o arquipélago teria sido povoado não só com portugueses mas com flamengos (também há quem fale de bretões, o que parece não ter fundamento) e que haveria a marca do relacionamento com outros povos, especialmente devido à emigração. Mas é sobretudo em Luís Ribeiro, “fundador e primeiro director do Instituto Histórico da Ilha Terceira, e, posteriormente, do Museu de Angra do Heroísmo”, “usualmente considerado como o etnólogo por excelência dos Açores”, que se constrói um discurso sobre o arquipélago e os açorianos que se prolonga em Nemésio e que com este cristalizou a ideia da peculiaridade.
No plano da argumentação etnogenealógica, explica João Leal, a especificidade dos Açores é vista por Luís Ribeiro “não como o resultado da mistura do elemento português com elementos de outras proveniências, mas como o resultado da fixação no solo açoriano de um tipo português específico: o português de Quatrocentos, isto é, o português da grande epopeia dos Descobrimentos, o português no auge das suas faculdades criativas como povo”.
Mais corajosos, mais tristes, mais portugueses
Citando Ribeiro: os açorianos descenderiam “daqueles valorosos soldados que um século antes, cheios de patriotismo, haviam firmado com sangue a nossa independência, cobrindo-se de glória em Aljubarrota; portugueses da época mais notável da nossa vida nacional; portugueses fortes e leais, ainda não depauperados pelas conquistas nem corrompidos pelo oiro do Oriente; portadores de todas as virtudes da nossa raça, de todas as grandes qualidades que tomaram gloriosa a nossa história. Fortes de corpo e alma, leais em extremo, amantes da honra e desprezadores da vida, cheios de fé em Deus, tendo por ideal a constituição de uma pátria maior, enriquecida e gloriosa, tais foram os nosso avós, os primeiros colonos do arquipélago.”
É, como frisa João Leal, um discurso darwinista, no que se encontra com o de Arruda Furtado, mas de sinal contrário: se num o isolamento permitiu conservar as “boas qualidades”, no outro contribuiu para as perder: “vistos primeiro – em Arruda Furtado – como portugueses “atrasados”, e depois – com os ideólogos autonomistas – como “portugueses etnogenealogicamente problemáticos”, os açorianos passam agora a ser vistos como “mais e melhores portugueses”. Para além de conservar em sal os “descobridores”, insularidade operaria também, na visão de Luís Ribeiro, “em razão da proximidade do mar e da suavidade do clima temperado e húmido”, uma alteração psicológica – os açorianos seriam mais brandos e sonhadores, mais marcados pela melancolia e saudade, o que se aferiria nas suas canções tradicionais, marcadas por “um movimento mais lento, com um excessivo predomínio da nota sensível que lhes imprime demasiada sensualidade”.
Nemésio pega nestas ideias num ensaio de 1929, O Açoriano e os Açores – “Os Açores são (…) um Portugal requintado porque receberam dele a forma e o pensamento quando Portugal (…) era uma força em marcha” – para depois, em 1932, no já citado Açorianidade, aliar no desenho da personalidade açoriana a geografia à história. Ideias que Em Subsídios para Um Ensaio sobre a Açorianidade, de 1936, Luís Ribeiro desenvolve, sistematizando, nas palavras de João Leal, “as particularidades da psicologia étnica açoriana”, sobre as quais dá especial ênfase ao “vulcanismo”, o qual, diz, “provoca no homem e até nos animais uma impressão de incerteza e dúvida, um sobressalto constante, que deixa fundos sulcos no seu moral”, e que responsabiliza pela “extrema religiosidade do povo das ilhas”. Outro fator muito valorizado é a humidade, que associada à nebulosidade contribuiria para uma espécie de “torpor”, a “indolência peculiar dos açorianos”, assim como para “um tom sombrio, que é, quanto ao espírito, coisa semelhante à indolência física”. Em suma: “No ambiente morno [dos Açores], todas as energias se quebram.”
Estava criado o molde literário, mítico, do arquipélago, ao qual é muito fácil aderir, até pela espantosa e algo taciturna beleza da paisagem, a convidar a uma introspeção contemplativa que se tem a tentação de colar aos seus habitantes. Os Açores como lugar outro, espécie de paraíso intocado na sua pureza, mais perto da espiritualidade, do céu. A um tempo essência e fronteira, fuga para outro lugar.
De “fronteira de inemigos” a miragem da América
Por algum motivo, nenhuma outra região do país – incluindo as outras ilhas, Madeira e Porto Santo – suscitaram estas reflexões e construções, talvez “puros fantasmas”, numa expressão de Eduardo Lourenço a propósito da “questão entre Portugal e os Açores”.
Certo é que a história das ilhas – cujo nome terá nascido de um equívoco, o de se haver confundido um milhafre com um açor, e que em vários dos primeiros relatos conhecidos são umas vezes nove outras sete, como se a bruma que as caracteriza fizesse delas um território imaginário, ou se expusesse assim simbolicamente a evidência da perspetiva como determinante do real – tem particularidades muito interessantes. Lembrar por exemplo que não só a Terceira foi um centro de resistência ao reinado dos Felipes de Espanha como será no início do século XIX fundamental para a vitória da revolução liberal, palco de uma batalha em que as forças absolutistas foram derrotadas.
O historiador José Damião Rodrigues, que viveu nas ilhas, onde lecionou na universidade (fundada em 1976) uma parte considerável da sua vida, descreve-as como “uma região de fronteira” que durante muito tempo foi uma zona de guerra – “uma fronteira de inemigos”, disse-a Bartolomeu Ferraz ao rei D. João III em 1543 – devido aos ataques muito frequentes dos corsários, os quais por vezes raptavam uma parte muito considerável da população. Também pelo que isso implicava de tenacidade e capacidade de adaptação, aventa Damião Rodrigues, “os ilhéus foram o recurso do poder central para povoar e defender outras periferias do império: no século XVIII, açorianos, mas também madeirenses, foram enviados para o Sul e para o Norte do Brasil; no século XIX, o planalto de Huíla, em Angola, seria ocupado graças também ao contingente madeirense. A mobilidade torna-se, assim, uma característica fundamental deste espaço de fronteira, moldando a demografia das diversas ilhas até à atualidade. (…) Desde cedo, ainda no século XVI, deparamos com indivíduos das ilhas açorianas nas mais variadas partes do império. Ao serviço de Deus ou do rei, encontramos açorianos nas praças africanas e na Índia, nos navios de navegadores e de exploradores, na “missão” de difusão da fé cristã ou, simplesmente, como colonizadores e militares.”
A saída para o império é sucedida, a partir de finais do século XIX, para a demanda das “Califórnias de abundância”. Mas esta característica de peões, de carne para canhão e de emigrantes impulsionados pela pobreza, de uma população em geral iletrada, convive com uma produção intelectual surpreendente, como assinala o historiador: “Os Açores sempre tiveram grandes nomes da cultura, e jornais muito importantes. O jornal mais antigo do país é o Açoriano Oriental [fundado em 1835, está entre os dez mais antigos do mundo]. E é interessante verificar que há ali, apesar da distância, um grande cosmopolitismo. Muitas pessoas das elites açorianas a corresponder-se com intelectuais estrangeiros, a frequentar o estrangeiro.”
A primeira versão integral do manifesto do futurismo foi publicado num jornal de Ponta Delgada, lembra o escritor e poeta Urbano Bettencourt, nascido na ilha do Pico em 1949. “Estamos longe mas não estamos perdidos; as ilhas são plataformas e pontos de passagem de muitas coisas. E a afirmação de uma identidade, ou de marcas identitárias interiores, passa também pela atenção ao exterior. Aquela açorianidade de que falava Nemésio – da embriaguez do isolamento – já não faz sentido.” Alguma vez fez? “O que ele fez foi tentar interpretar uma visão ou um modo de ser. Não se pode definir ou identificar as coisas no sentido circunscrito que ele tentou. A minha açorianidade já não é essa, é outra. Definir hoje um perfil do açoriano? Não sei o que meta lá.” Ri-se. “Também se perdeu em certa medida a miragem da América, que foi desde finais do século XVIII e até muito recentemente a terra prometida, e o lugar de onde vinham os dólares, as roupas, os medicamentos. Hoje é muito mais visível o dinheiro que vem de Bruxelas.”
“Mas a beleza disto paga-se”
Nuno Costa Santos, jornalista, dramaturgo e escritor, recém-regressado aos Açores, onde cresceu e de onde são os pais, trocando a ilha onde viveu até partir para Lisboa, São Miguel, pela Terceira, crê que há “uma base real” naquilo que Nemésio formulou. “Mas ele era um intuitivo, não andou a fazer sondagens – é literatura. O que ele e outros captaram foi uma parte da realidade que existe ainda nas zonas rurais. Só que os Açores não podem ser só vistos como uma realidade neorrealista, a ideia do açoriano contemplativo, poeta.”
A questão da identidade açoriana, confessa este organizador do festival literário Arquipélago de Escritores (que teve em 2019 a segunda edição), é porém algo que “anda a escavar”. “Acho, por exemplo, que existe uma literatura açoriana, com muitos escritores desconhecidos, porque só vingaram os que foram viver para o continente.” De resto, sublinha, a ideia de que os Açores são “um território outro” está longe de ser apenas dos açorianos: “Muita gente do continente quando aqui vem diz “lá em Portugal”.”
Algo que se dirá também na Madeira, e que advém de toda uma estruturação do pensamento que para os mais velhos se fundará por exemplo nos mapas pré-25 de Abril, em que ao Portugal continental se somavam os territórios ultramarinos e “as ilhas adjacentes”. Parte de Portugal, sim, mas “ao lado”, como extensão. Em todo o caso, não se criou para a Madeira uma noção de “madeiridade”; por que será? Nuno reflete: “Há desde logo uma coisa que nos diferencia – o açoriano apresenta-se como açoriano. O Herberto Helder, por exemplo, é madeirense, mas muita gente não sabe.”
Outra característica que marca as suas ilhas é “serem um apeadeiro, um lugar de chegadas e partidas”: “À pessoa que vem cá e é de cá pergunta-se quando chegaste e quando partes.” E depois, prossegue, “há esta paisagem que não tem comparação. Mas a beleza disto paga-se – a lagoa das Sete Cidades foram vulcões. Por exemplo, ainda agora há um ano o furacão Lorenzo destruiu o porto das Flores. Uma amiga que vive lá, a Gabriela Silva, dizia-me há dias “isto da pandemia não tem comparação com o que nós sofremos”.
A ideia de abandono e distância ainda está então presente – até no facto de a região ser aquela onde o risco de pobreza e exclusão social é mais elevado, a percentagem da população a viver do rendimento social de inserção 10,2%, mais de três vezes a do resto do país (3%), a taxa de abandono precoce da educação 27%, quase o triplo da geral (11%). O que contrasta, nomeadamente, com a percentagem de famílias com internet ser 86%, cinco pontos acima da de Portugal – “É giro, e faz sentido”, comenta o escritor. “O isolamento aluga a curiosidade. Eu, por exemplo, cresci em São Miguel a ouvir música pop independente que mandávamos vir da discoteca Contraverso, no Bairro Alto lisboeta. Quando fui para Lisboa percebi que sabia mais de música do que muitos lisboetas.”
É preciso atualizar os termos do Nemésio, conclui. “Criar uma ligação entre as festas do Espírito Santo e o festival Tremor [lançado em 2013, é um festival de música em São Miguel; a edição deste ano foi cancelada devido à pandemia]. Há muitos estrangeiros a viver nos Açores e já fazem parte da identidade das ilhas. É preciso tentar acrescentar novos conceitos. Sinto-me numa linhagem de pessoas que escrevem sobre os Açores numa tentativa de criar uma unidade.” Uma empresa para a qual se sente particularmente vocacionado por “vir com uma espécie de frescura de quem é de cá mas vem de fora, um olhar estrangeiro”. O olhar que alia o delírio da descoberta ao conhecimento íntimo: isso a que se chama paixão.
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Daniel Pavão,Prémio Nobel da Economia

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Cenouras eleitorais
A política socialista, por cá e em todo o lado, baseia-se na premissa de tirar a todos via impostos diretos, indiretos e contribuições (aos quais se somam as transferências da República e da União Europeia nos Açores) de modo a que possam ser distribuídos por aqueles que poderão garantir uma maioria eleitoral. Com o dinheiro no bolso, o PS só tem de se basear no princípio de que a abstenção será elevada, em 1996 elegeu 24 deputados com 51 880 votos (45,8%) e em 2016 elegeu 30 com 43 266 (46,4%). Se a percentagem de votos é similar, o número de votantes e deputados eleitos é significativamente diferente. Tem sido mais do que suficiente deixar a maioria dos que votam, felizes e contentes com a redistribuição, com os recursos retirados a todos, principalmente aos que trabalham e se esforçam diariamente, e simplesmente ignorar a larga maioria dos que não votam. Por mais teorias que os abstencionistas possam ter sobre cadeiras vazias no parlamento ou “sinais que devam ser lidos”, a realidade mostra-nos que simplesmente não são tidos nem achados nas lógicas eleitorais.
A máquina que se elogia
A sociedade açoriana prefere acreditar no mito da máquina do partido socialista. Eu prefiro acreditar que a sociedade açoriana está errada. A matemática não engana e, pelo que se vê, nem é preciso convencer todos os abstencionistas para mudar o rumo da Região. A larga maioria dos Açorianos, cerca de 134 971 simplesmente não quiseram saber das eleições regionais de 2016. O Partido Socialista (mais uma vez) está a apostar fortemente nos números da abstenção. Se a estratégia falhar avança-se para uma geringonça à regional. Os pretendentes são muitos. Provavelmente (!?) apenas o PSD e o PPM não cortejarão a mão madrasta que lhes poderá dar acesso ao poder. E os restantes? Irão deixar-se arrastar para o abismo da bancarrota açoriana?
Que PS e que Socialistas?
Metade não tem uma profissão de registo e a outra metade nem sabe o que é uma profissão. Há quem comece a fazer as contas e conclua que não compensa ir trabalhar todos os dias e descontar para quem não o faz ou, simplesmente, vive na sombra de uns direitos e serviços que deveriam estar acessíveis a todos. Afinal, é nisso que se tem votado nos últimos ciclos eleitorais e é o que se propõem nos próximos. Numa Região pequena, pobre e desinformada como a nossa, a mão governativa tem demasiado alcance e poder, o que dificulta em demasia a alternância política. A somar a isso temos a incapacidade de pensar que é sempre possível algo maior do que a simples esmola. Levamos 24 anos de governação socialista e continuamos na cauda do desenvolvimento social e económico. A lógica de que poderíamos estar pior sobrepõe-se à logica de que poderíamos estar muito melhor. A pobreza e abandono secular nunca deram asas à ambição de querer chegar mais longe. O lema açoriano, “antes morrer livres do que em paz sujeitos”, há muito que deixou de ecoar na Região.
Nota Final
O Prémio Nobel da Economia já foi atribuído este ano e, por incrível que pareça, não premiou Sérgio Ávila. De modo a que o possam premiar no próximo ano sugiro que comecem a traduzir para sueco, e com retroativos, as crónicas diárias do GACS.
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açores doentes digitais osvaldo cabral

Doentes digitais
Muito tempo no poder provoca desgaste, vícios e erosão na criatividade.
O programa eleitoral do PS (à semelhança do PSD) reflecte um pouco isso, sem uma estratégia clara sobre o que se pretende para o futuro das nossas ilhas.
Os maiores partidos acenam com duas bandeiras que trazem despesa e não acrescentam um pensamento de coesão e desenvolvimento para as ilhas e suas gentes.
Um quer tarifas baratas inter-ilhas e o outro quer um “hospital digital”.
O primeiro não explica como nos põe a viajar mais barato numa empresa falida e a precisar urgentemente de dinheiro e o segundo foi recuperar uma ideia velha com mais de dez anos, que já tinha tentado implementar e resultou num desastre.
Para quem não se recorda, conto muito resumidamente.
Em 2004 o Governo Regional decidiu – e bem – que os nossos hospitais e unidades de saúde precisavam de reunir toda a informação clínica dos utentes num único registo, acessível aos profissionais de saúde em qualquer ponto do arquipélago, incluindo também uma vertente administrativa e de recursos humanos, materiais e financeiros, para funcionar como ferramenta de apoio à gestão hospitalar, numa uniformização de todo o Serviço Regional de Saúde. Em resumo, o tal “hospital digital”.
Para tal, foi contratada uma empresa espanhola, a INDRA, por 4,4 milhões de euros, a mesma que, mais tarde, seria contratada pelo governo de Sócrates para instalar o falhado Sistema Integrado de Vigilância, Comando e Controlo.
Pelo histórico da gestão ruinosa dos sucessivos secretários da saúde e da funesta Saudaçor, era mais do que evidente que todo este processo não ia dar certo, tal como a gestão da SATA.
E não deu.
Em 2011 – imaginem, sete anos depois! – o “hospital digital” ainda não estava instalado e o que existia era uma enorme trapalhada entre o governo e a empresa espanhola, que entretanto já tinha recebido 2 milhões de euros.
O secretário de então, um poeta erótico nas horas vagas, mandou a Saudaçor despedir os espanhóis e o projecto ficou no forno à espera de uma nova Brites de Almeida, a Padeira de Aljubarrota, que o recuperasse dos castelhanos.
Pelos vistos, foi ressuscitado agora, nesta campanha eleitoral, à falta de melhor.
Só que, entretanto, os espanhóis voltaram a casa com os bolsos cheios, o secretário foi fazer mais poesia, a Saudaçor foi encerrada, deixando-nos um calote de mais de 700 milhões de euros, o dito hospital digital nunca existiu e todos nós, doentes e contribuintes, fomos engrossar o cheque e as listas de espera para consutas e cirurgias.
Daí para cá o “hospital digital” tem sido um pesadelo, resultando há três anos que os dados de quase todos os habitantes dos Açores estivessem escancarados no ‘site’ da Administração Regional de Saúde do Alentejo!
Antes do “hospital digital” os nossos governantes deviam preocupar-se em investir mais nos recursos – humanos e técnicos – dos três hospitais e das unidades de saúde e numa melhor escolha de secretários da saúde e de gestores hospitalares, em vez do amiguismo e clientelismo habitual.
A começar pelo maior hospital da região, que vem sobrevivendo, clamorosamente, de um enorme subfinanciamento, sem dinheiro para pagar a fornecedores, comprar medicamentos, contratar profissionais de saúde e repor o número de camas que perdeu nos últimos anos.
Nunca como durante esta pandemia se percebeu quão importante é o nosso sistema de saúde e a falta de tantos recursos que tiveram que ser remediados à última da hora, nomeadamente com novas contratações, obras de emergência e muitas doações de privados.
O maior hospital da região – à semelhança dos outros – vive no contexto de um sistema tecnicamente falido e continuamente envolto em problemas de gestão que em nada contribuem para um melhor sistema de saúde.
Directamente, o HDES tem nas suas contas dívidas bancárias da ordem dos 109 milhões de euros, sobre os quais paga taxas de juro que, em média, rondarão os 4%.
Ora, se a Região se financia a 1,5% qual o sentido que faz deixar o HDES ir à banca pagar quase o triplo?
Faça-se lá o saneamento financeiro desta instituição, que tem vindo a ser esmifrada com subfinanciamentos grosseiros, expressos em resultados transitados negativos da ordem dos 273,3 milhões de euros, no ano passado, e um património líquido negativo da ordem dos 216,7 milhões de euros.
Pelo caminho também vão sendo apanhados os fornecedores, que chegaram a 74 milhões a crédito em 2019, mais cerca de 5 milhões do que no ano anterior.
Dos clientes, que estão a dever cerca de 67 milhões, destacam-se a ADSE e uma lista de outros regimes de saúde nacionais, como a PSP ou o exército, sem razões plausíveis aceitáveis.
E é esta a instituição a quem confiamos a nossa saúde, mas não financiamos adequadamente, deixando as coisas a pairar no limbo e mercê da sorte.
É neste triste cenário que querem agora um “hospital digital”.
Para quê?
Certamente para “doentes digitais”, porque os “doentes reais” continuam a engrossar as listas à espera de uma consulta e de uma cirurgia.
Paciência de santo, têm os pobres doentes.
Outubro 2020
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-Açores, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)
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Pierre Sousa Lima, Tomás Quental and 32 others
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  • Amigo tem toda a razão quando em certos Serviços estão a ser governados muitos anos pela mesma pessoa provocam um enorme desgaste a todos os níveis tornam-se donos do poder e até fanáticos do mesmo não deixem que isso aconteça. Um bem haja.

Palavras, leva-as o vento!Osvaldo Cabral

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Palavras, leva-as o vento!
As centenas de milhões da proposta de Orçamento de Estado para os Açores no próximo ano, mais os milhares de milhões das transferências da União Europeia são boas notícias para todos nós, mas também representam uma cada vez maior dependência da solidariedade do exterior, sem a qual não sobreviveríamos.
Fazer uma festa com o anúncio destes milhões não é muito ajuizado, especialmente se não soubermos aplicar estas ajudas na criação de riqueza e na economia reprodutiva, para ficarmos menos dependentes.
Se as verbas que vamos recebendo continuarem a ser maioritariamente “engolidas”, como até aqui, pelo sector público, esfumando-se nos buracos ruinosos que criamos ao longo destes anos, então é cada vez mais certo que vamos ser sempre pobres e nunca iremos convergir nem com o país, nem com a Europa.
Outra coisa é a execução das verbas para o fim a que se destinam.
Há, no próximo Orçamento de Estado, muitas promessas que já vinham de orçamentos anteriores e que nunca foram executadas.
Já na proposta orçamental do ano passado era garantido que o governo iria proceder, “em 2019, à instalação e à operacionalização do Observatório do Atlântico na ilha do Faial”.
Estamos em 2020 e a história repete-se.
Também era lá assumido que “o Governo assegura a execução do Plano de Revitalização Económica da ilha Terceira, incluindo a efectiva descontaminação dos solos e aquíferos no concelho da Praia da Vitória, tendo em conta a sua consideração como interesse nacional e garantindo o financiamento das respectivas medidas através do Orçamento do Estado”.
Estamos em 2020 e a descontaminação é o que todos sabemos.
Aliás, em 2015, na sequência do anúncio da redução militar norte-americana na Base das Lajes, o Governo Regional apresentou o Plano de Revitalização Económica da Ilha Terceira (PREIT), em que reivindicava uma compensação dos Estados Unidos, na ordem dos 167 milhões de euros anuais, durante 15 anos, dos quais 100 milhões se destinavam à “reconversão e limpeza ambiental”.
Estamos em 2020 e nem um cêntimo se enxerga dos 167 milhões.
Ainda no Orçamento de Estado do ano passado o governo prometeu que iria promover “os procedimentos necessários para a viabilização da antecipação da ampliação da pista do aeroporto da Horta, de modo a garantir a sua certificação enquanto aeroporto internacional, de acordo com as normas da Agência Europeia para a Segurança da Aviação”.
Estamos em 2020 e a proposta do OE volta a repetir a promessa.
No Orçamento de Estado do ano passado era garantido que o governo iria concretizar, “nos termos do procedimento pré-contratual em curso, a instalação da rede de radares meteorológicos na Região Autónoma dos Açores”, tendo por base a resolução da Assembleia da República e a resolução da Assembleia Legislativa desta região autónoma.
Estamos em 2020 e só um radar foi instalado.
E havia ainda, na proposta do OE para 2019, a garantia de que “o Governo dá continuidade aos trabalhos relacionados com a construção de um novo estabelecimento prisional no concelho de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel”.
Estamos em 2020 e ainda estão a retirar bagacina.
Isto para não falar da promessa de António Costa, faz agora exactamente um ano, de que iria alterar a fórmula do subsídio social de mobilidade, porque, segundo ele, “é um esquema completamente absurdo, ruinoso para as finanças públicas, uma despesa que subiu de 14 milhões de euros para 70 milhões de euros, que não beneficia nenhum residente nas regiões autónomas”.
Estamos em 2020 e a fórmula do subsídio “absurdo” e “ruinoso” é exactamente a mesma.
Não vale a pena alongar mais a lista de exemplos.
Isto de Orçamentos de Estado é como o provérbio popular: “palavras, leva-os o vento!”.
E não é que não esteja escrito, porque o provérbio também avisa que, “o que se diz e não é escrito esquece facilmente”.
Estaremos cá para lembrar.
Abuso de poder
A deliberação da Comissão Nacional de Eleições sobre a polémica carta do Vice-Presidente do Governo Regional, distribuída pela Autoridade Tributária, é, somente, mais uma prova do abuso de poder que se apoderou de algumas instituições políticas, desta vez com a cumplicidade do Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Fiscais, o que agrava o escândalo.
Infelizmente, no país político em que vivemos, tudo é permitido e nunca ninguém é responsável por nada.
Ao “puxar as orelhas” ao Governo Regional dos Açores e ao dito Secretário de Estado, sem mais nenhuma consequência, ficamos com a sensação, mais uma vez, de que a CNE é um organismo inútil.
Qualquer departamento público faria o mesmo trabalho.
(

Osvaldo Cabral

– Diário dos Açores de 18/10/2020) — with

Osvaldo José Vieira Cabral

.

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  • Povo de memória curta não chega aprender a lição a arte de saber mentir todos os políticos são formados na mentira

ANTONIO BULCÃO CARTA A LORENZO, PORTO PIM

Ana Franco
8 edStSOspsSicdectobsecoonrs m201or9ecd

Carta a Lorenzo
Não tinhas o direito, Lorenzo. Se ninguém to disse até hoje, digo-to eu.
A baía de Porto Pim é das coisas mais bonitas que temos nos Açores. Não tinhas o direito de entrar por ela dentro com fúria desmedida, fosse mascarado de tempestade tropical, ciclone ou furacão. Ainda mais sem ser convidado.
Vou-te contar umas coisas daquele lugar, para teres consciência do mal que fizeste.
Na maré baixa, a gente anda por aí fora sempre com pé, a água abaixo do joelho. Quem se conseguir afogar lá, merece uma medalha. É de tal maneira que um homem fica com a sensação de que, se continuasse em frente, chegaria às Flores, quando muito com água pela barriga.
Nunca fui grande nadador. Mas no Porto Pim, não tenho medo. Lembro-me de quando a fábrica da baleia estava a laborar. Os cachalotes a serem puxados pela rampa e a ficarem esquartejados. Ai sangueira que descia pela rampa, tingindo o mar de vermelho, ainda Tabucchi não imaginava mulheres por ali.
Os drones não tinham sido inventados. Mas se houvesse um por aqueles céus a voar, no decurso de Verne, conseguiria filmar a minha brancura, a nadar de costas, na linha entre um mar vermelho e outro azul. Uma espécie de bandeira de país por inventar…
Nas areias de Porto Pim joguei à cabeçada até o ardor na testa ser insuportável, quatro montinhos a fazer de balizas. Naquelas areias enrolei corpos de mulher, como se fossem rissóis à espera de piquenique crepuscular.
E apanhei saltão. Não fazes ideia do que é saltão, Lorenzo. Mas eu ensino-te.
Se cavares onde acaba a areia molhada e começa a areia seca, o bicharoco começa a saltar e aprendes logo por que se chama assim. Quanto mais fundo se cava, maiores são. Balde com eles e toca para o Redondo da Doca, quando nos deixavam ir pescar para lá.
O besugo adora saltão, Lorenzo. Deve enfiar-se no anzol pelo rabo, para os cornos ficarem a dar e dar na barba, com ar de desafio. Mas tu queres saber lá disto, deves ter dado cabo do saltão todo…
Conheço aquele areal grão por grão, Lorenzo. Mas a baía não é só a praia.
Na base do Monte da Guia, apanhei carapau que, todo junto, daria para alimentar a ilha um ano. Até me lembro do dia em que levei minha mãe, que adorava pescar, e estava perto um grupo de uns dez alemães, homens e mulheres, todos nus. E minha mãe olho na ponta do caniço, olho nos pirilaus, até que ganhou coragem para me perguntar: “Ó Tomanel, é impressão minha ou aquela gente está toda em coiro?”. Respondi que tínhamos de passar no Nogueira, o mais parecido que havia com um oftalmologista na ilha, para acertar as dioptrias das lentes antes que piorasse…
Mas do outro lado da baía também pesquei sargos. Eu e o Mário, que era dos poucos lugares onde ele podia pescar, na sua cadeira de rodas, com uma maleita que lhe levava os músculos aos poucos, só deixando os ossos e o cérebro brilhante, com o qual contava as cartas todas no Artista, melhor jogador de king nunca vi…
Não tens consciência do que fizeste, Lorenzo? Empurraste o mar até ele entrar por aquelas casas dentro, destruíste salas e quartos, deixaste água salgada dentro dos lustres pendurados nos tectos, caldeaste as fotografias da primeira comunhão com as do casamento nas paredes…
Desalojaste velhos, mães com filhos bebés, fizeste de ruas ribeiras. Não se faz, Lorenzo…
Da próxima vez vem calminho e olha bem à tua volta. Vê o Pico entre o Monte da Guia e o Monte Queimado, olha o sol a nascer atrás da montanha e a pôr-se do lado de cá, para além da Caldeira. Tenho quase a certeza de que te dissiparás perante tanta beleza, que não quererás fazer mais mal em lado algum…
Já nos bastam alguns homens, que querem acabar com a minha ilha. Não precisamos de ti…
António Bulcão
(publicada hoje, no Diário Insular)

commented on a post from 8 October 2019.

8 edStSOspsSicdectobsecoonrs m201or9ecd

Carta a Lorenzo
Não tinhas o direito, Lorenzo. Se ninguém to disse até hoje, digo-to eu.
A baía de Porto Pim é das coisas mais bonitas que temos nos Açores. Não tinhas o direito de entrar por ela dentro com fúria desmedida, fosse mascarado de tempestade tropical, ciclone ou furacão. Ainda mais sem ser convidado.
Vou-te contar umas coisas daquele lugar, para teres consciência do mal que fizeste.
Na maré baixa, a gente anda por aí fora sempre com pé, a água abaixo do joelho. Quem se conseguir afogar lá, merece uma medalha. É de tal maneira que um homem fica com a sensação de que, se continuasse em frente, chegaria às Flores, quando muito com água pela barriga.
Nunca fui grande nadador. Mas no Porto Pim, não tenho medo. Lembro-me de quando a fábrica da baleia estava a laborar. Os cachalotes a serem puxados pela rampa e a ficarem esquartejados. Ai sangueira que descia pela rampa, tingindo o mar de vermelho, ainda Tabucchi não imaginava mulheres por ali.
Os drones não tinham sido inventados. Mas se houvesse um por aqueles céus a voar, no decurso de Verne, conseguiria filmar a minha brancura, a nadar de costas, na linha entre um mar vermelho e outro azul. Uma espécie de bandeira de país por inventar…
Nas areias de Porto Pim joguei à cabeçada até o ardor na testa ser insuportável, quatro montinhos a fazer de balizas. Naquelas areias enrolei corpos de mulher, como se fossem rissóis à espera de piquenique crepuscular.
E apanhei saltão. Não fazes ideia do que é saltão, Lorenzo. Mas eu ensino-te.
Se cavares onde acaba a areia molhada e começa a areia seca, o bicharoco começa a saltar e aprendes logo por que se chama assim. Quanto mais fundo se cava, maiores são. Balde com eles e toca para o Redondo da Doca, quando nos deixavam ir pescar para lá.
O besugo adora saltão, Lorenzo. Deve enfiar-se no anzol pelo rabo, para os cornos ficarem a dar e dar na barba, com ar de desafio. Mas tu queres saber lá disto, deves ter dado cabo do saltão todo…
Conheço aquele areal grão por grão, Lorenzo. Mas a baía não é só a praia.
Na base do Monte da Guia, apanhei carapau que, todo junto, daria para alimentar a ilha um ano. Até me lembro do dia em que levei minha mãe, que adorava pescar, e estava perto um grupo de uns dez alemães, homens e mulheres, todos nus. E minha mãe olho na ponta do caniço, olho nos pirilaus, até que ganhou coragem para me perguntar: “Ó Tomanel, é impressão minha ou aquela gente está toda em coiro?”. Respondi que tínhamos de passar no Nogueira, o mais parecido que havia com um oftalmologista na ilha, para acertar as dioptrias das lentes antes que piorasse…
Mas do outro lado da baía também pesquei sargos. Eu e o Mário, que era dos poucos lugares onde ele podia pescar, na sua cadeira de rodas, com uma maleita que lhe levava os músculos aos poucos, só deixando os ossos e o cérebro brilhante, com o qual contava as cartas todas no Artista, melhor jogador de king nunca vi…
Não tens consciência do que fizeste, Lorenzo? Empurraste o mar até ele entrar por aquelas casas dentro, destruíste salas e quartos, deixaste água salgada dentro dos lustres pendurados nos tectos, caldeaste as fotografias da primeira comunhão com as do casamento nas paredes…
Desalojaste velhos, mães com filhos bebés, fizeste de ruas ribeiras. Não se faz, Lorenzo…
Da próxima vez vem calminho e olha bem à tua volta. Vê o Pico entre o Monte da Guia e o Monte Queimado, olha o sol a nascer atrás da montanha e a pôr-se do lado de cá, para além da Caldeira. Tenho quase a certeza de que te dissiparás perante tanta beleza, que não quererás fazer mais mal em lado algum…
Já nos bastam alguns homens, que querem acabar com a minha ilha. Não precisamos de ti…
António Bulcão
(publicada hoje, no Diário Insular)

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  • Muito obrigada pelas recordações de infância e pelo seu magnifico texto.

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    • 13 m

9 ilhas para pastar ANTº BULCÃO

38 m

Pobre Ilha Terceira
Numa das suas edições de Setembro passado, a revista Sábado publicou uma reportagem sobre os Açores.
No seu suplemento, de nome GPS, e sob o título “Açores – 9 ilhas para pastar”, dedica dez páginas ao nosso arquipélago. Cinco dessas páginas são sobre São Miguel. Metade, portanto.
Já no que toca a fotografias, das vinte e quatro dadas à estampa, catorze são de São Miguel. Aqui, como se vê, a percentagem de desigualdade aumenta significativamente.
Pico e Santa Maria têm direito a uma página.
As restantes seis ilhas, apenas mereceram meia página, cada uma delas.
Óbvio que, dispondo de cinco páginas, São Miguel revela-se ao País na sua enorme dimensão. Sobre a ilha verde fica informação longa e detalhada acerca de hotéis, restaurantes, pratos regionais, festas e festivais, Arte, chá, cerâmicas, etc.
Em relação a oito ilhas, há menção a seis hotéis. No que respeita só a São Miguel, contei sete.
Não posso deixar de transcrever a minúscula prosa com que a Sábado, em meia página, brinda a Terceira: “Desde Angra do Heroísmo, a maior cidade da ilha Terceira, são apenas 15 quilómetros até à Serra do Cume, onde a paisagem, do alto do miradouro, é um postal ilustrado de 180 graus. Abarca a baía da Praia da Vitória, de onde se avista a planície das Lajes, a base militar e a famosa Manta de Retalhos, que é o nome dado ao painel de campos divididos por muros de pedra vulcânica. Se tiver tempo, dê a volta à ilha e guarde o miradouro para o fim, a tempo de chegar para o pôr-do-sol”. Ladeia esta pérola literária a menção a um hotel e a um restaurante. E é tudo.
Prezados, ou será mais rigoroso dizer, pesados governantes: parabéns pela vossa obra.
Não me refiro à reportagem, óbvio, até vós talvez conseguísseis fazer melhor. Refiro-me à realidade que lhe está subjacente, isto é, ao que conseguistes fazer da chamada Autonomia. É assim que nos vêem, lá fora…
Devo avisar, pesados governantes, que sou muito avesso a qualificar qualquer acto humano como “natural”. Natural, para mim, é mesmo o que vem da natureza. A água que brota nas fontes, esse tipo de coisas, em que não há intervenção do homem.
Assim sendo, rejeito liminarmente os que diriam que é “natural” este tratamento jornalístico, dado ser São Miguel maior, com mais obras, mais potencialidades, mais gente, mais infraestruturas, etc. Não foi Deus, nem a Natureza, quem fez a maior parte do que é hoje a ilha maior. Fostes vós, sendo da mais elementar justiça o reconhecimento de tal feito. O seu a seu dono, aqui usada a expressão com invulgar propriedade, já que sois os donos disto tudo. E só não digo a César o que é de César porque o César verdadeiro poderá exaltar-se no túmulo e indignar-se por outros com o mesmo nome se terem arrogado ao direito de construírem pequenos e míseros impérios, sem cuidarem da sua pequenez.
Claro que há uma parte natural em São Miguel, de beleza inigualável e extasiante. Mas vós apostastes, pelos vistos com tremendo sucesso, em acrescentar à mão de Deus riquezas tremendas. Nada há de “natural” nas Portas do Mar, chamariz para imensos cruzeiros, nos inúmeros hotéis, nos voos low cost, enfim, em todas as obras que realizastes para que a ilha naturalmente maior crescesse mais e mais ao longo dos anos. Vede (e admito a minha indesculpável ingratidão) que nem vislumbro nada de natural no facto de terdes ajudado com milhões o Santa Clara a ir para a primeira divisão e lá se manter (a perder, mas isso já era previsível, até para vós)…
Direis, e eu terei de admitir a vossa razão pela forma como andais na política: “naturalmente” que tínhamos de investir na ilha que nos dá mais votos, para assim nos perpetuarmos no poder. Claro que isso é “natural” em vós. Pena que os outros calhaus tenham de sofrer tanto para que ainda nos chamemos Açores, e tenhamos “Autonomia”. Atentai que até já tomamos por “natural” o facto de, quando acontece uma coisa boa por qualquer ilha mais pequena, é coisa “açoriana”. Quando acontece uma coisa boa por São Miguel, é coisa de São Miguel. Quando acontece uma coisa má, passa a ser coisa da ilha onde acontece…
Devo dizer-vos, sujeito a que raios e coriscos (desculpem, não foi com intenção) me atravessem: passados estes quarenta anos, centralismo por centralismo, preferia o de Lisboa. Porque o dinheiro que vós custais dava para fazer tanta coisa…
Há três hipóteses, para a produção da mísera reportagem em análise:
– ter sido a própria Sábado a custear na totalidade as viagens, estadias, refeições e divertimentos dos autores. Se assim tiver sido, o que sinceramente duvido, trata-se apenas de mais um exercício de péssimo jornalismo;
– terem sido os hotéis e restaurantes da ilha de São Miguel a albergar e alimentar os “jornalistas”. Aqui também nada a dizer, terão sido os micaelenses a mostrar-se mais intrépidos e empreendedores, na busca de publicidade;
– ter sido o Governo Regional a patrocinar de alguma forma, em parte ou no todo, a reportagem em causa, por exemplo através da Direcção Regional de Turismo. Não seria inédito, pelo contrário, houve casos em que tal prática se revelou corrente, até em telenovelas.
Se a terceira hipótese se tiver verificado, terá sido o gozo supremo: os açorianos de oito ilhas a pagarem impostos para parte deles ser aplicada na promoção turística de uma só ilha.
Exigimos saber, pesados governantes, se houve dinheiros públicos envolvidos nesta brincadeira da Sábado. Não que vá mudar alguma coisa, quer na reportagem publicada, quer na vossa prática. Mas pelo menos ficamos informados…
Não vou falar aqui de tudo o que a Sábado devia ter dito, em relação à ilha Terceira. Da sua importância histórica, do facto de Angra do Heroísmo não ser “a maior cidade da ilha”, ser muito mais que isso, nomeadamente Património da Humanidade, do Castelo de São João Baptista e a sua ímpar área muralhada, do Algar do Carvão, da dimensão cultural (touradas à corda e carnaval), etc, etc, etc. Quem ler a Sábado ficará com a ideia de que esta ilha é a Serra do Cume, sobretudo ao pôr-do-sol…
E a culpa desta triste omissão sobre o que é e representa a ilha Terceira, é certamente da Sábado, dos governantes que ao longo de décadas têm ido furtando até a sua dignidade. Mas é também, perdoem dizê-lo, dos terceirenses que aceitam sem gemer a canga de um centralismo autonomista.
Poderão ter perdão a Sábado e aqueles que se querem manter no poder até ao fim das suas vidas ou, até, deixarem o mesmo poder para descendentes e familiares, como já acontece. Mas não têm perdão os terceirenses que se esquecem que, quando outros se venderam, este povo permaneceu digno e lutador. Até esse legado de orgulho nos tiram, dia a dia.
Quando, há anos, vi Carlos César fantasiado de Ciprião de Figueiredo, senti-me gozado. Porque, já nessa altura, me sentia preso em liberdade, em paz sujeito, sem se quer meios para dar a morte que Ciprião reclamaria pela dignidade. Mas ver os resultados previsíveis das eleições que se aproximam só me deixará ainda mais triste. O que fomos, e no que nos tornámos, bom povo terceirense…
Uma última palavra, para a Sábado. O título da vossa reportagem é “Açores – 9 ilhas para pastar”. Sei que a vossa intenção deverá ter sido “9 ilhas para descansar, sem fazer nada, relaxados”. Mas este é apenas o sentido figurado do verbo pastar. O sentido real de pastar é “comer a erva que ainda está na terra”.
Por aqui, deixamos tal função para as vacas. Mas… e à moda da Terceira:
Aquilo que publicastes,
Não agradou cá à malta,
Se provastes e gostastes,
Vinde, pois erva não falta.
António Bulcão
(publicado hoje, no Diário Insular)

Pobre Ilha Terceira
Numa das suas edições de Setembro passado, a revista Sábado publicou uma reportagem sobre os Açores.
No seu suplemento, de nome GPS, e sob o título “Açores – 9 ilhas para pastar”, dedica dez páginas ao nosso arquipélago. Cinco dessas páginas são sobre São Miguel. Metade, portanto.
Já no que toca a fotografias, das vinte e quatro dadas à estampa, catorze são de São Miguel. Aqui, como se vê, a percentagem de desigualdade aumenta significativamente.
Pico e Santa Maria têm direito a uma página.
As restantes seis ilhas, apenas mereceram meia página, cada uma delas.
Óbvio que, dispondo de cinco páginas, São Miguel revela-se ao País na sua enorme dimensão. Sobre a ilha verde fica informação longa e detalhada acerca de hotéis, restaurantes, pratos regionais, festas e festivais, Arte, chá, cerâmicas, etc.
Em relação a oito ilhas, há menção a seis hotéis. No que respeita só a São Miguel, contei sete.
Não posso deixar de transcrever a minúscula prosa com que a Sábado, em meia página, brinda a Terceira: “Desde Angra do Heroísmo, a maior cidade da ilha Terceira, são apenas 15 quilómetros até à Serra do Cume, onde a paisagem, do alto do miradouro, é um postal ilustrado de 180 graus. Abarca a baía da Praia da Vitória, de onde se avista a planície das Lajes, a base militar e a famosa Manta de Retalhos, que é o nome dado ao painel de campos divididos por muros de pedra vulcânica. Se tiver tempo, dê a volta à ilha e guarde o miradouro para o fim, a tempo de chegar para o pôr-do-sol”. Ladeia esta pérola literária a menção a um hotel e a um restaurante. E é tudo.
Prezados, ou será mais rigoroso dizer, pesados governantes: parabéns pela vossa obra.
Não me refiro à reportagem, óbvio, até vós talvez conseguísseis fazer melhor. Refiro-me à realidade que lhe está subjacente, isto é, ao que conseguistes fazer da chamada Autonomia. É assim que nos vêem, lá fora…
Devo avisar, pesados governantes, que sou muito avesso a qualificar qualquer acto humano como “natural”. Natural, para mim, é mesmo o que vem da natureza. A água que brota nas fontes, esse tipo de coisas, em que não há intervenção do homem.
Assim sendo, rejeito liminarmente os que diriam que é “natural” este tratamento jornalístico, dado ser São Miguel maior, com mais obras, mais potencialidades, mais gente, mais infraestruturas, etc. Não foi Deus, nem a Natureza, quem fez a maior parte do que é hoje a ilha maior. Fostes vós, sendo da mais elementar justiça o reconhecimento de tal feito. O seu a seu dono, aqui usada a expressão com invulgar propriedade, já que sois os donos disto tudo. E só não digo a César o que é de César porque o César verdadeiro poderá exaltar-se no túmulo e indignar-se por outros com o mesmo nome se terem arrogado ao direito de construírem pequenos e míseros impérios, sem cuidarem da sua pequenez.
Claro que há uma parte natural em São Miguel, de beleza inigualável e extasiante. Mas vós apostastes, pelos vistos com tremendo sucesso, em acrescentar à mão de Deus riquezas tremendas. Nada há de “natural” nas Portas do Mar, chamariz para imensos cruzeiros, nos inúmeros hotéis, nos voos low cost, enfim, em todas as obras que realizastes para que a ilha naturalmente maior crescesse mais e mais ao longo dos anos. Vede (e admito a minha indesculpável ingratidão) que nem vislumbro nada de natural no facto de terdes ajudado com milhões o Santa Clara a ir para a primeira divisão e lá se manter (a perder, mas isso já era previsível, até para vós)…
Direis, e eu terei de admitir a vossa razão pela forma como andais na política: “naturalmente” que tínhamos de investir na ilha que nos dá mais votos, para assim nos perpetuarmos no poder. Claro que isso é “natural” em vós. Pena que os outros calhaus tenham de sofrer tanto para que ainda nos chamemos Açores, e tenhamos “Autonomia”. Atentai que até já tomamos por “natural” o facto de, quando acontece uma coisa boa por qualquer ilha mais pequena, é coisa “açoriana”. Quando acontece uma coisa boa por São Miguel, é coisa de São Miguel. Quando acontece uma coisa má, passa a ser coisa da ilha onde acontece…
Devo dizer-vos, sujeito a que raios e coriscos (desculpem, não foi com intenção) me atravessem: passados estes quarenta anos, centralismo por centralismo, preferia o de Lisboa. Porque o dinheiro que vós custais dava para fazer tanta coisa…
Há três hipóteses, para a produção da mísera reportagem em análise:
– ter sido a própria Sábado a custear na totalidade as viagens, estadias, refeições e divertimentos dos autores. Se assim tiver sido, o que sinceramente duvido, trata-se apenas de mais um exercício de péssimo jornalismo;
– terem sido os hotéis e restaurantes da ilha de São Miguel a albergar e alimentar os “jornalistas”. Aqui também nada a dizer, terão sido os micaelenses a mostrar-se mais intrépidos e empreendedores, na busca de publicidade;
– ter sido o Governo Regional a patrocinar de alguma forma, em parte ou no todo, a reportagem em causa, por exemplo através da Direcção Regional de Turismo. Não seria inédito, pelo contrário, houve casos em que tal prática se revelou corrente, até em telenovelas.
Se a terceira hipótese se tiver verificado, terá sido o gozo supremo: os açorianos de oito ilhas a pagarem impostos para parte deles ser aplicada na promoção turística de uma só ilha.
Exigimos saber, pesados governantes, se houve dinheiros públicos envolvidos nesta brincadeira da Sábado. Não que vá mudar alguma coisa, quer na reportagem publicada, quer na vossa prática. Mas pelo menos ficamos informados…
Não vou falar aqui de tudo o que a Sábado devia ter dito, em relação à ilha Terceira. Da sua importância histórica, do facto de Angra do Heroísmo não ser “a maior cidade da ilha”, ser muito mais que isso, nomeadamente Património da Humanidade, do Castelo de São João Baptista e a sua ímpar área muralhada, do Algar do Carvão, da dimensão cultural (touradas à corda e carnaval), etc, etc, etc. Quem ler a Sábado ficará com a ideia de que esta ilha é a Serra do Cume, sobretudo ao pôr-do-sol…
E a culpa desta triste omissão sobre o que é e representa a ilha Terceira, é certamente da Sábado, dos governantes que ao longo de décadas têm ido furtando até a sua dignidade. Mas é também, perdoem dizê-lo, dos terceirenses que aceitam sem gemer a canga de um centralismo autonomista.
Poderão ter perdão a Sábado e aqueles que se querem manter no poder até ao fim das suas vidas ou, até, deixarem o mesmo poder para descendentes e familiares, como já acontece. Mas não têm perdão os terceirenses que se esquecem que, quando outros se venderam, este povo permaneceu digno e lutador. Até esse legado de orgulho nos tiram, dia a dia.
Quando, há anos, vi Carlos César fantasiado de Ciprião de Figueiredo, senti-me gozado. Porque, já nessa altura, me sentia preso em liberdade, em paz sujeito, sem se quer meios para dar a morte que Ciprião reclamaria pela dignidade. Mas ver os resultados previsíveis das eleições que se aproximam só me deixará ainda mais triste. O que fomos, e no que nos tornámos, bom povo terceirense…
Uma última palavra, para a Sábado. O título da vossa reportagem é “Açores – 9 ilhas para pastar”. Sei que a vossa intenção deverá ter sido “9 ilhas para descansar, sem fazer nada, relaxados”. Mas este é apenas o sentido figurado do verbo pastar. O sentido real de pastar é “comer a erva que ainda está na terra”.
Por aqui, deixamos tal função para as vacas. Mas… e à moda da Terceira:
Aquilo que publicastes,
Não agradou cá à malta,
Se provastes e gostastes,
Vinde, pois erva não falta.
António Bulcão
(publicado hoje, no Diário Insular)