OSVALDO CABRAL A PANDEMIA INVISIVEL

A pandemia ‘invisível’
A pandemia trouxe uma série de problemas sociais, alguns dos quais estão a passar ao lado das autoridades e dos partidos, ocupados que estão com a propagação incontrolável do vírus.
Um deles é o chamado desemprego ‘invisível’, fenómeno que atinge também a nossa região, possuindo uma legião inexplicável de trabalhadores precários.
Desempregados ‘invisíveis’ são os que deixaram de figurar na população activa, mas também não constam nas listas do desemprego.
São trabalhadores que, provavelmente, deixaram de acreditar na procura de emprego, alguns dos quais estarão a viver à custa de trabalho precário sem registo (os incontornáveis “biscates”).
No país devem rondar os 40 mil e nos Açores há quem tivesse detectado, no terceiro trimestre do ano passado, cerca de 7 mil.
O fenómeno é transversal, mas mais detectado no sector do turismo, que sofreu um abalo no ano passado (irá fechar o ano, com toda a certeza, perto dos 80% em queda) e que já vislumbra mais este primeiro trimestre de 2021, no mínimo, completamente perdido.
Em Março do ano passado, quando começou a pandemia, havia 2.292 trabalhadores ao serviço nos hotéis da região, que foram diminuindo de mês para mês, até chegar a Novembro passado com 1.565 trabalhadores.
Os custos com pessoal caíram para metade, mas os proveitos totais foram um desastre: de 100 milhões de euros em 2019 para apenas 25 milhões até Novembro do ano passado.
Se juntarmos a estes números a restauração e todas as actividades dependentes do turismo, já se pode imaginar o enorme trambolhão em que estamos metidos.
Está toda a gente à espera de um milagre, mas por mais fundos comunitários e outros apoios que possam chegar, é inevitável o dominó de falências e despedimentos que vamos assistir já a partir deste trimestre.
Ninguém aguenta uma pancada desta envergadura, por mais medidas que se possam implementar.
Mesmo os que sobreviverão, vão levar anos a normalizar as suas contas e não será fácil regressar ao ritmo pré-pandemia.
A saúde está primeiro, mas se não olharmos rapidamente para os outros problemas sociais que começam a surgir, sobretudo nas populações mais frágeis, vamos ter uma catástrofe ainda maior.
****
SE A MADEIRA QUISESSE… – O autonomista e jornalista José Bruno Carreiro escreveu um artigo no “Correio dos Açores” em 1922 que ficou famoso, como impulso para o movimento autonomista de então, intitulado “O mal insulano” e que tinha como subtítulo “Se a Madeira quisesse…”.
Era um apelo à Madeira para se juntar aos Açores numa frente comum contra o centralismo lisboeta, a que os madeirenses responderam “A Madeira quer”.
Agora é a Madeira que nos ultrapassa em matéria de dinâmica autonómica, ao propor aos Açores uma plataforma comum entre os dois parlamentos na defesa dos insulares.
E os madeirenses vão mais longe: acabam de propor uma revisão da Lei de Finanças Regionais, face ao marasmo do parlamento açoriano, que nem conseguiu, numa legislatura inteira, produzir uma reforma da Autonomia.
O PS da Madeira acaba de produzir um documento interessante sobre esta matéria, que parece ter o consenso genérico do PSD, esperando-se que, no parlamento açoriano, faça-se alguma luz, também, sobre o mesmo.
No essencial a proposta apresenta um aumento do diferencial fiscal, igualdade de tratamento entre as duas regiões, capitação do IVA e alterações aos limites de endividamento e transferências do Fundo de Coesão.
O PSD madeirense quer ir mais longe e propõe a criação de um sistema fiscal próprio.
Havendo um consenso insular entre tantas forças políticas, esta é a hora de se avançar com um projecto concreto, arrojado e sério.
Como já desafiava José Bruno há quase 100 anos, basta as duas regiões quererem…
****
FISCALIZAÇÃO – O que se está a passar com a fiscalização das localidades com cercas é só mais um exemplo da nossa incapacidade autonómica, sem instrumentos legais para utilizarmos as forças armadas ou os recursos da PSP.
É uma velha discussão que nunca iremos vencer, a julgar pelas mentes preconceituosas no Terreiro do Paço, a começar por Marcelo e António Costa, que vieram, mais uma vez, com a história patética da “continuidade territorial”.
Há que recorrer a todos os meios para a defesa da nossa saúde pública, mesmo que isso implique um estado de desobediência aos iluminados centralistas, como fizeram os históricos autonomistas centenários.
São as nossas vidas que estão em jogo. Haja mais coragem.
(

Osvaldo Cabral

– Diário dos Açores de 20/01/2021) — with

Osvaldo José Vieira Cabral

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  • O Sr Secretário do emprego resolveu atribuir o apoio a liquidez sem a condicionante das empresas manterem os postos de trabalho

ANTÓNIO BULCÃO DUAS COISAS

Duas perguntas
Há algumas semanas que se tem vindo a notar um acréscimo de participações de pessoas ligadas ao PS nos jornais. São muitos, a publicar quase todos os dias.
Artigos sobre Educação, sobre Saúde, sobre Solidariedade Social, outros pura e simplesmente a deitar abaixo pessoas ligadas ao actual governo regional, crescem as opiniões, sobretudo de deputados socialistas.
Gente que nunca escreveu antes para os jornais, ou que participou muito esporadicamente nos mesmos, surge agora impulsionada por uma febre de protagonismo, por uma necessidade inadiável de marcar presença.
Nunca acreditei em acasos. Tudo na vida tem uma razão para acontecer. E esta torrente de opinião ou maledicência é certamente estratégica. Concertaram, entre eles, que louvar a governação de 24 anos e deitar abaixo a governação que nem tem dois meses é a melhor táctica para derrotar o inimigo. Eles faziam tudo bem, os outros fazem tudo mal. Eles eram muito bons, nalguns casos até os melhores, os outros são muito maus.
Tratando-se de estratégia, só mais tarde será possível concluir se é boa ou não. Como teria sido a Batalha de Aljubarrota se tivesse falhado a táctica do quadrado? Se antes da peleja alguém tivesse perguntado ao próprio Nuno Álvares Pereira se aquilo ia dar resultado, ele certamente não confessaria as suas dúvidas, mas não deixaria de as sentir.
Será que o povo vai apreciar os socialistas a malhar constantemente nos ora governantes? Ou, pelo contrário, não vai gostar de tanta azia e ódio?
Só o futuro o dirá. Mas a estes cronistas de um reino com punho fechado, gostaria de fazer duas perguntas simples. O que queríeis? O que quereis?
Queríeis em outubro nova maioria absoluta, para continuardes a ser os donos disto tudo? Tendo mandado durante vinte e quatro anos, metade do que durou a ditadura em Portugal e um terço da esperança de vida de um cidadão, queríeis ficar no poder eternamente?
Se era esse o desejo, tenho de vos informar que há uma coisa chamada democracia. E a verdade é que a maioria do povo estava cansada da vossa forma de governar, dos vossos processos, abandonos e clientelas. A democracia, a alternância no poder, a necessidade de mudança, não são boas apenas quando vos dá jeito. Portanto, se queríeis mandar nestas ilhas para sempre, temos pena, mas não é possível.
Quanto ao que quereis, a resposta será igualmente simples. Quereis instabilidade política, a queda do governo o mais depressa possível, para terdes de novo o que tivestes durante praticamente um quarto de século.
Por que não deixais este governo fazer o seu trabalho em paz, sem estardes a minar constantemente, em público ou na sombra? Por que não esperais para criticar políticas, demonstrardes que estão erradas, apresentardes propostas na vossa opinião certas, e depois deixardes o povo decidir? Tendes assim tanto medo de que a mudança traga políticas certas, ou que se vá descobrindo com o tempo o quanto as vossas eram erradas e os custos desses erros? Temeis tanto pelo vosso futuro, se tiverdes de voltar às vossas vidas, muitos de vós procurardes emprego, porque nunca trabalharam na vida?
Não espero que me respondam. Durante 24 anos escrevi cartas, fiz perguntas, sem que qualquer de vós tivesse o espírito democrático (ou a coragem) de responder. Talvez fosse estratégia, ignorar o Bulcão. Mas agora que mudastes de estratégia e passastes a fazer das páginas dos jornais receptáculos de propaganda, talvez venha algum, quem sabe todos, explicar o que queríeis, o que quereis.
Não estará nas minhas mãos satisfazer os vossos desejos de poder. Mas estará nas mãos do povo, o soberano julgador. E, pelo que ouço por aí, o povo começa a ficar muito cansado das vossas birras…
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
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Do cerco à liberdade

17 de janeiro de 2021
Do cerco à liberdade
1 – Estamos confrontados com um dilema que é conflituante entre o comportamento do ser e estar das pessoas na sociedade e a necessidade de garantir o respeito pelo semelhante, seja quanto à saúde ou tão só como cidadão.
2 – Este conflito tem de ser entendido pelas pessoas que não podem colocar os semelhantes em perigo, assim como pelos governos que têm de ser criativos nas medidas que adoptam para conter o contágio crescente da pandemia.
3 – O problema reside no comportamento e na responsabilidade de cada cidadão, assim como nas condições de vida das comunidades.
4 – A cultura do direito que acorrenta o modelo social eliminou a responsabilidade cívica de uma sociedade, que levada pelo princípio do “politicamente correcto”, deixou de fazer parte do discurso tanto político como social e até religioso.
5 – Tudo o que se reporta ao procedimento e comportamento das pessoas foi remetido para o poder judicial como descarte do poder político, porque aquele julga, condena e absolve, mas não vai a votos, nem tem necessidade de ficar de bem com todos para merecer depois a reeleição.
6 – E que consequências resultam deste modelo de sociedade que temos?
7 – Começando pela saúde, temos a pandemia como âmago de todos os males, esquecendo todos os outros.
8 – O contágio não se cinge à Covid-19, mas pela forma alarmista como tem sido tratado a nível global pela comunicação social que não consegue largar o osso, fazendo esquecer outras patologias que são vítimas da pandemia, como a ansiedade, depressão, psicose e distúrbios da alimentação que estão a crescer e vão marcar toda esta geração.
9 – Daí o cuidado e o realismo a ter nas medidas que são determinadas para combater a infecção do vírus pandémico.
10 – Pergunta-se qual é a vantagem de cercar nove mil pessoas numa vila, dificultando-lhes a vida, quando não se encerram os centros de contágio que são as tabernas, os cafés e os ajuntamentos de quem não trabalha, porque o mar não deixa, ou quando se mantém a pessoa infectada na mesma moradia, a usar a mesma casa de banho, e a mesma cozinha, onde coabitam entre seis a dez ou doze pessoas?
11 – A medida necessária é testar e isolar convenientemente o infectado, e não cercar uma vila.
12 – Há muito tempo que devia ter sido requerido o apoio das Forças Armadas na Região para ajudar na fiscalização, em zonas onde é difícil acatar as regras, e no caso de Rabo de Peixe, instalar um “hospital de campanha” para acolher as pessoas que não têm condições para ficar confinados de quarentena na própria moradia.
13 – Mas a fiscalização não é necessária só em Rabo de Peixe, porque são vários os cafés em Ponta Delgada, com espaços reduzidos e aparentemente sem condições sanitárias que se mantêm abertos e com clientes aos magotes dentro e fora, sem máscara e sem distanciamento aconselhado.
14 – Apesar da pandemia dominar o momento político, a ela juntou-se uma outra doença nacional que de quando em vez vem à tona de água, lembrando os tempos coloniais em plena ditadura.
15 – Esse espírito ressurgiu novamente com a insistência do Presidente da República em lembrar a forma de Estado Unitário que é Portugal, sem referir “com Regiões Autónomas” como consta na Constituição. Como isso não bastasse, 38 deputados do PS, PSD, PCP e acompanhantes requereram ao Tribunal a inconstitucionalidade da alteração à lei sobre a gestão partilhada do mar, alegando que está em risco a unidade nacional.
16 – Vamos ser claros, as alterações à lei do mar foram um remendo mal feito e pouco ou nada valerão porque o sonho que foi alimentado durante anos sobre a grande riqueza que era possível retirar do mar, além do que ele já nos dá, evaporou-se porque tem custos brutais, que os lóbis interessados preferiram arranjar outro caminho que é a mineração em terra do lítio, que é o novo eldorado.
17 – O problema está tão só no renascimento da mentalidade colonialista, que tem de ser combatida com a unidade entre a Madeira e os Açores pelo aprofundamento e afirmação do regime Autonómico.
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 José Soares A Face da Infâmia

José Soares

A Face da Infâmia

Várias vezes ao longo do mandato de Donald Trump, escrevi neste jornal sobre os perigos da democracia americana eleger um impreparado e mentecapto neopolítico, bem como das apreensões sobre tal personalidade. Todos os nomes que lhe chamei foram poucos diante do que agora se tem vindo a verificar.

O dia 13 de janeiro de 2021, ficará na História dos Estados Unidos da América como o dia em que um presidente foi impugnado pela segunda vez.

Exatamente uma semana depois de ter incitado milhares de pessoas a atacar o Capitólio – o Parlamento americano – quando os congressistas de ambos os partidos estavam reunidos para certificar a sua derrota eleitoral.

Exatamente uma semana antes de sair da Casa Branca, na próxima 4ª feira, 20 de janeiro, data em que Joe Biden, o novo presidente tomará o poder.

As repercussões de tal decisão da Democracia americana vão sentir-se ainda por algum tempo e irão refletir-se na democratização digital que a humanidade tem vindo a usufruir.

Não foi por acaso que a Twitter retirou a conta que Trump utilizou ao longo de todo o mandato. A decisão pecou por tardia, mas ela trás algo de apreensivo. É que agora sabemos que as multinacionais digitais podem deliberar em retirar os seus serviços sem passar por qualquer decisão política, judicial ou mesmo democrática.

Na campanha para as presidenciais no Uganda, o atual presidente do país mantinha várias contas falsas com a Facebook, através das quais denegria os adversários com acusações falsas. A Facebook fechou essas contas e o presidente, unilateralmente, mandou encerrar toda a atividade digital no país, nomeadamente a internet. Já Putin tentou o mesmo na Rússia e ainda não desistiu de ter um sistema informático próprio e independente do resto do mundo. Restrições das redes sociais que agora damos como direito adquirido, podem ser aplicadas a qualquer momento. Um bom tema a debater proximamente.

Por agora temos a capital americana praticamente em estado de sítio em véspera da tomada de posse do novo executivo, com mais de 20,000 militares armados até aos dentes por toda a cidade de Washington e seus edifícios públicos, perante ameaças que os serviços secretos receberam de que uma multidão de trumpistas armados se preparam para boicotar a tomada de posse do novo presidente no dia 20 de janeiro.

Com cerca de 70 milhões de pessoas que votaram em Trump e num país onde ter uma arma é quase um direito constitucional, vamos supor que apenas 1% desses 70 milhões decide invadir a capital, isto equivale a um imparável exército armado de 700,000 rebeldes.

De uma crónica que escrevi e publicada em vários jornais açorianos e da Diáspora em maio/junho 2019 intitulada “In Trump We Trust”, retiro o seguinte excerto:

“… Em 2017, os números indicam que 39,773 pessoas nos EUA perderam a vida por causa de uma arma, de acordo com os mais recentes números do Centro para o Controlo e Prevenção. Quer isto dizer que cerca de 100 pessoas são mortas por dia em toda a nação americana.

Em cada 100 cidadãos americanos, 90 possuem armas. Em 36 dos 50 estados americanos – entre eles Alabama, Alasca e Florida – não é preciso nem sequer registar a arma ou obter uma licença para a posse e o porte. Em 45 estados é totalmente legal exibir armas de cano curto (como pistolas) em público – e em 31 estados não é necessária uma licença para isso. Dezenas de estados, como o Texas, também permitem andar com armamento pesado e armas semiautomáticas. Doze estados, entre eles o Mississípi, também permitem o porte de armas sem a necessidade de licença.

Em 2018, uma pesquisa do projeto Small Arms Survey estimou que existem pelo menos 390 milhões de armas de fogo em poder de civis no país – mais de uma por habitante. O projeto apontou ainda que metade das armas de fogo que pertencem a civis no mundo estão nos EUA, apesar da população do país mal alcançar 5% da mundial…”

O processo de impugnação do presidente em fim de mandato, terá ao menos a vantagem de Trump não poder candidatar-se de novo em 2024, nem nunca. Ficará na História como presidente infame que incitou uma rebelião contra o poder democrático. Esta foi uma amarga lição que custou 5 mortes, sendo uma delas a de um polícia.

PS – Quando estava a terminar este trabalho (quinta-feira), recebi a notícia da morte de um grande empresário canadiano, David Tavares. Nascido nas Feteiras, em S. Miguel, David Tavares começou a trabalhar ainda criança. Desempenhou funções operárias nos CTT, emigrou e acabou por fundar a sua própria empresa no Canadá, liderando inovações tecnológicas nas áreas das comunicações. Instalou nos Açores a Globestar Systems e a Connexall onde trabalham quase quatro dezenas de jovens peritos informáticos, sediados no Parque Tecnológico de S. Miguel e na Terceira, gerindo e monitorizando sistemas instalados em vários países, mas em especial nos EUA e no Canadá. Hoje, o Connexall é um sistema líder global em saúde e em outras aplicações. Foram-lhe conferidas várias distinções, inclusive, nos Açores, onde recebeu, em 2009, a Insígnia Autonómica de Mérito Industrial, Comercial e Agrícola, conferida pelo parlamento açoriano sob proposta do Governo Regional. Este governo deve, em nosso entender, passar um voto de pesar na Assembleia Legislativa, com conhecimento à sua Família. Esta é a importância da Diáspora e o responsável político pelas Comunidades, neste caso José Andrade, deve tomar a iniciativa imediatamente.

carlos faria um mundo perigoso

Meu artigo de opinião, de periodicidade quinzenal, publicado ontem no diário da Horta: Incentivo.
2021 A MOSTRAR UM MUNDO PERIGOSO
Os primeiros sinais significativos nascidos já em 2021 apontam que o novo ano não se libertou dos males de 2020, antes pelo contrário, mostram como este mundo está mesmo muito perigoso.
A invasão do edifício do Capitólio em Washington, a sede dos parlamentos dos eleitos pelo Povo norteamericano e por isso a casa da democracia do País, por gente que não aceita os resultados eleitorais para a presidência mostra quanto a democracia pode ruir por ódios e irracionalidades de membros do povo motivados por influentes sem pudor que vendem falsidades como verdades.
A maior virtude da democracia é a liberdade de em sociedade se agir e pensar em cooperação e diálogo, o que permite estabelecer estratégias e optar por modelos ideológicos na sequência de discussões amadurecidas que podem ser depois postos à escolha dos cidadãos para definir o estilo de governação maioritário sob a fiscalização de quem opina de forma diferente.
Infelizmente, amadurecer a discussão só é possível com saber e formação cívica. Caso contrário, apodrece através da desinformação e a mentira que esconde e camufla a verdade com ódios populistas falsos. Há anos que o ocidente passou a confundir liberdade individual e ideias com a expansão de egoismos primários e valorização da ignorância: o que mata qualquer diálogo profíquo que suporte a democracia. Agora, em nome dessa confusão, o outro que pensa diferente é logo rotulado de inimigo da sociedade justa e de antidemocrata e quem procurar consenso entre as partes é desprezado por não integrar um dos rebanhos que se digladiam irracionalmente.
Ao ver esta gente extremada parece-me que todos se deixaram de se importar com a liberdade, talvez por esta estar transformada numa exposição de egoísmos, e passaram a defender que o seu modelo de ditadura é mais justo que o do outro extremo. Só isto explica que após uns meses na sequência do vandalismo em ruas norteamericanas houve gente a criticar e outros a justificar a violência de então, e agora, com a agressão à casa da democracia apenas vi a troca de posições: muitos dos críticos de então passaram a justificadores e vice-versa. Tenho de reconhecer que este comportamento irracional foi muito impulsionado por oportunismo dos político e diálogos primários em redes sociais, por isso grandes populistas de hoje têm os seus faróis no facebook, twitter e outras redes do género para semear condutas extremistas na sociedade. Aí estão os frutos.
O pior é que não é preciso olhar para os Estados Unidos para se perceber que a democracia ocidental está doente. O egoísmo individual transfigurado em liberdade que se impõe ao bem coletivo é um mal que atravessa toda a Europa e deu um contributo muito importante no descontrolo da pandemia COVID-19. Mais responsabilidade individual e respeito pelo outro teria evitado uma aceleração tão acentuada da propagação do vírus que a provoca.
Todos nós temos uma dose de egoísmo e de respeito pelo outro misturada, mas quando o primeiro se normaliza e se confunde com liberdade é muito difícil estabelecer um equilíbrio aceitável onde os pecadilhos individuais se limitariam ao aceitável. No último verão bem se viu a defesa de direitos de liberdade individuais acima de constrangimentos por interesse coletivo. Uma sociedade onde se confunde egoísmo individual com liberdade e depois considera esta um valor acima do risco de vida do outro abre a porta a abusos e não favorece uma conduta que leve ao bom-senso.
Os Governos dos Açores e de Lisboa e certas entidades defensoras da liberdade (ainda bem que estas existem), ainda não foram capazes de perceber como muitos valores hoje estão adulterados e daí o descontrolo da pandemia em São Miguel, na Madeira, no Continente e Ocidente. Os Estados Unidos têm sido farol da democracia, mas não viram o cancro do egoísmo e de interesses de grupo a ocupar o espaço da liberdade. O preço destes erros pode-nos sair muito caro e minar o qualidade de vida e a liberdade futura a que muitos Povos se habituaram. Espero que o Ocidente ainda vá a tempo de se corrigir. Caso contrário, à crise climática global, assistiremos também a crise global da democracia e 2021 não está a dar bons sinais nesta última matéria.
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Osvaldo José Vieira Cabral A euforia dos 50 dias

A euforia dos 50 dias
50 dias depois da tomada de posse do novo governo regional, a sua actuação resume-se ao sector da saúde.
Clélio Meneses é o único Secretário Regional que põe, todos os dias, a cabeça no cepo e foi o único, até agora, a dar-nos conta do estado do sector nos três hospitais e no Serviço Regional de Saúde.
À parte mais um ou outro, quase todos os governantes parecem confinados, apesar de reconhecermos que ainda é cedo para avaliarmos se algum deles já assumiu, antes do tempo, a previsível irrelevância da sua nomeação para o respectivo cargo.
Mais de um mês e meio de governação é tempo suficiente para virem dar conta pública, como é dever dos nossos governantes, como encontraram o “estado da região”.
Os cidadãos precisam de saber qual é o ponto de partida de cada um dos departamentos governamentais, para que depois não se desculpem, ao longo do mandato, com a herança que receberam do governo anterior.
O Secretário das Finanças, por exemplo, teve uma entrada de elefante no parlamento, sacudindo a sala sorumbática do nosso frágil parlamentarismo, para depois se remeter a um silêncio sendeiro, certamente explicado pela penosa elaboração do Plano e Orçamento a apresentar nas próximas semanas.
Mas era bom que explicasse ao povo como encontrou os cofres públicos, se afinal há superávit ou não, se temos fundos suficientes para enfrentar o que aí vem ou se vamos ter que nos endividar ainda mais.
E, já agora, se o regabofe financeiro nas empresas públicas vai ter continuidade.
Noutra área, já era tempo de sabermos o que está a ser preparado para a recuperação da SATA.
Não era o PSD e os partidos que apoiam agora a coligação, que queriam conhecer, a toda a força, antes das eleições, o Plano de Reestruturação da empresa?
Os primeiros dias de Janeiro já se foram, como tinham prometido, e continuamos sem saber, pelo menos as linhas gerais, do que é que estão a preparar para recuperar a nossa companhia aérea. Sobre a TAP, já se sabe tudo e até a calendarização das acções de reestruturação.
Não precisamos de saber quais os quadros que vão ser dispensados, mas se vai ou não haver redução de trabalhadores, cortes salariais, redução de frota e de rotas, a que tipo de endividamento vão recorrer, se vão continuar com a asneira de esvaziar os balcões dos EUA e Canadá, entregando-os a organizações desconhecidas, num negócio rodeado de algum mistério, se vão continuar a apostar nas operações em Cabo Verde e porquê este súbito amor por negócios naquele arquipélago, se vamos ter e quando as prometidas tarifas a 60 euros inter-ilhas e, já agora, para quando o anúncio das conclusões do estudo sobre o aumento da pista do Pico, encomendado pelo governo anterior.
No plano do turismo, qual vai ser a estratégia neste período de ainda pandemia?
Há operadores e hotéis que vão reabrir já em Março e não sabem com que vão contar.
Vamos promover o destino nalgum mercado ou desaconselhar a vinda de turistas?
Os programas de apoio ao turismo interno vão prosseguir ou não vale a pena incentivar viagens internas?
E a operação dos barcos de passageiros como vai ser?
A solução encontrada para levar combustível ao Corvo foi celebrada com escusada euforia, até classificada como “histórica”, (prontamente corrigida, com puxão de orelhas, pelo deputado apoiante do Iniciativa Liberal), provando que há necessidade neste novo governo de mostrar acções auto-elogiosas, mas descuidando-se do modo como o faz.
Olhando para os intervenientes neste processo, fica a dúvida sobre qual foi o papel do Secretário dos Transportes e se o seu novo porta-voz é o deputado do PPM.
Há uma grande falha na estratégia de comunicação deste novo governo.
Os canais de comunicação são inexistentes ou muito deficientes e até para sabermos o que se passou com a demissão da responsável pela estrutura de missão da Casa da Autonomia, foi preciso a própria vir a público explicar o processo, sob o silêncio das Secretárias Regionais da Cultura e das Obras Públicas, quando já tinha havido decisões tomadas em Conselho do Governo e que não foram reveladas publicamente.
É muito complicado explicarem à populaça como é que este processo está a ser conduzido?
Já agora, quanto custou, a todos nós contribuintes, este capricho megalómano, numa estranha concepção de socialismo, em que primeiro tratamos dos palácios e depois dos problemas das populações?
E vai continuar a chamar-se Casa da Autonomia, designação que pertence, por estatuto próprio, à casa da democracia que é a nossa Assembleia Regional?
50 dias não é nada no tempo de um governo, é verdade.
Mas para quem prometeu rapidez nas decisões, transparência nos processos e proximidade com os cidadãos, já é tempo de sabermos mais um pouco sobre o “estado da arte” em que encontraram cada um dos departamentos públicos.
Gente nas secretarias regionais e nas direcções regionais não falta.
O isolamento nos gabinetes não é bom conselheiro para quem pretende transmitir uma percepção inicial de dinâmica governativa. Até porque ninguém deve querer que fique tudo na mesma.
Em política, como sabemos, não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão.
Quem te avisa…
*****
SOBRE INGENUIDADE – Contado ninguém acredita. Um porta-voz da Diocese de Angra diz que a festa das comunhões obedece a todas as regras sanitárias dentro das Igrejas, mas já no que se passa das portas para fora não é nada com ela.
Assim mesmo. Promove a festa, mas lava as mãos do resto.
Será que na Igreja açoriana ensina-se a cena de Pilatos?!
*****
SOBRE CREDIBILIDADE – Em pleno Verão do ano passado, o Primeiro-Ministro, António Costa, asseverou aos portugueses: “Há uma coisa que sabemos: Não podemos voltar a repetir o confinamento que tivemos de impor durante o período do estado de emergência e nas semanas seguintes, porque a sociedade, as famílias e as pessoas não suportarão passar de novo pelo mesmo”.
Marcelo, como de costume, no mesmo dia veio em socorro de Costa: “Será muito difícil voltar a repetir o confinamento, portanto, tem de se encontrar fórmulas de antecipar e de substituir uma solução radical, prevenindo essa segunda onda.”
Seis meses depois… pela boca morre o peixe.
Janeiro 2021
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-Açores, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)
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antonio bulcao um pedido sentido

Um pedido sentido
Podeis rezar para que o mau tempo não deixe os barcos chegarem ao Corvo e a sua população ficar sem luz ou víveres.
Podeis rezar para que os infectados pelo vírus continuem a ser mais dia-a-dia.
Podeis rezar para que as escolas fechem e os pais e encarregados de educação se revoltem e peçam demissões.
Podeis encher as páginas dos jornais com artigos sem sentido, para denegrir políticas, ou governantes.
Podeis telefonar para funcionários públicos a assegurar-lhes que tenham paciência, pois estais quase a voltar, que este governo está por um fio.
Podeis fazer tudo e mais alguma coisa para voltardes ao poder e continuardes a fazer o mal que fizestes durante 24 anos.
Podeis reunir apaniguados para encherem o facebook com bocas de oposição a tudo, ou criar perfis falsos para difamarem pessoas de bem que só querem dar o seu melhor.
Podeis fazer tudo isto e mais alguma coisa.
O que não podeis é dizer que amais estas ilhas. Não podeis dizer que pondes os interesses do povo açoriano acima de tudo.
Porque quem deseja que o povo da ilha mais pequena deste arquipélago passe faltas para ter lucro político, ou prefere que a Covid continue a lavrar nas freguesias, fazendo política com o bem mais precioso depois da vida, ou quer que as crianças e jovens açorianos deixem de ter um professor na sua frente e o vejam substituído por um computador, ou escreve sem saber escrever e sem ter ideias, ou tenta minar a Administração Pública e os funcionários como se seus empregados fossem, ou usa as redes sociais para vomitar ódio, merece todo o desprezo das pessoas de bem, que, graças a Deus, continuam a ser a maioria deste povo açoriano.
Tentai activar uma coisa que antecede a moral e a ética, e que se chama consciência. Voltem para os vossos empregos, aqueles que os têm. Cumpram horários de trabalho, recebam ordens, vivam com os salários que merecem. Os que nunca trabalharam procurem emprego, inscrevam-se no centro que trata disso, aprendam o que custa a vida.
Mas deixem de sabotar. Porque só vos fica mal.
Publicarem artigos nos jornais sobre educação, sem ideias, sem sentido, apenas para mostrar serviço, quando antes de ocuparem cargos de deputados nada disseram, nada lutaram, ou tentarem crucificar um homem só porque não gosta de touradas, ou fazerem visitas a hospitais para depois serem desmentidos pelos Conselhos de Administração dos mesmos, fica-vos muito mal.
Se não quiserem honrar a ideologia do partido onde militam, pelo menos tentem respeitar a democracia. Porque, desesperados como andais, só provais que a democracia apenas é um regime quando vos dá jeito, e cargos, e poder.
E se não quiserem honrar o socialismo, nem respeitar a democracia, ao menos tenham vergonha.
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
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OSVALDO CABRAL , PAGA O JUSTO

Paga o justo…
As novas medidas restritivas para a ilha de S. Miguel eram inevitáveis,
Quem vem acompanhando, atentamente, a evolução epidemiológica nesta ilha e quem conhece profundamente a cultura das nossas gentes, sabia que logo após o Natal vinha o descalabro.
Foi um erro, nos Açores como no Continente, relaxarem-se as medidas durante o Natal, julgando que as populações iam cumprir as recomendações das autoridades sanitárias.
No que nos diz respeito, é sabido que ocupamos os últimos lugares na estatística europeia no que toca à participação cívica.
Apelar ao colectivo para uma série de conselhos cívicos e sanitários, entre nós, infelizmente não funciona com paninhos quentes.
Por isso, há momentos em que é imperioso o endurecimento da obrigatoriedade das recomendações quando o colectivo não responde com o comportamento que se exige.
Devia ter sido assim no Natal e é bom que vão pensando nos próximos dias, em que se aproxima outra tradição de ajuntamentos, como são os dias de Amigos e Amigas e o Carnaval.
Ficar à espera que as pessoas vão respeitar os procedimentos e agir depois do mal estar feito é uma infantilidade.
Agir a tempo em focos localizados, recorrendo, se necessário, a confinamentos selectivos, poderá ser outra estratégia a seguir, tal como aconteceu em Rabo de Peixe com sucesso, mas não se percebe porque não se agiu com o mesmo critério em Vila Franca do Campo.
E atenção: sempre que forem anunciadas medidas duras, como as de agora para S. Miguel, é um erro não serem acompanhadas das medidas compensatórias para as famílias e empresas prejudicadas pelas restrições.
Este Governo já errou, vai errar mais, tal como o Governo anterior também errou várias vezes, pelo que não é com acusações de parte a parte, às vezes roçando a desonestidade e deselegância política, que se consegue unir toda a população num combate que é comum.
Somos 140 mil almas numa ilha a pagar pela permissividade de uma minoria de pessoas entre as 500 infectadas.
É para essa minoria que se deve focar, no futuro, o endurecimento das suas obrigações para com a restante sociedade.
Quando o justo paga pelo pecador é toda uma sociedade que adoece.
(

Osvaldo Cabral

– Diário dos Açores de 10/01/2021) — with

Osvaldo José Vieira Cabral

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