01/06, 13H30: “O tempo é de arregaçar as mangas e, mais uma vez, pôr de pé a Região”, afirma Vasco Cordeiro – COVID-19 – Açores

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ILUSTRES AÇORIANOS

ILUSTRES DESCENDENTES DE AÇORIANOS (III)

Eurico Gaspar Dutra (1883-1974) – Marechal e 16º Presidente da República Federativa do Brasil (1946-1951)

Eurico Gaspar Dutra é descendente de açorianos da ilha do Faial – Açores, nasceu em Cuiabá, a 8 de Junho de 1883, Estado do Mato Grosso – Brasil. Filho de José Florêncio Dutra e de Maria Justina Dutra.

De Janeiro de 1946 a 1951 foi eleito presidente (16.º) da República Federativa do Brasil.

Militar de profissão, assumiu o lugar de ministro da Guerra (actual Ministro da Defesa) de 1936 a 1945, e, com Getúlio Vargas, instaurou o Estado Novo.

Como político era extremamente conservador e ficou conhecido pelo seu anti-comunismo militante.

Faleceu a 11 de Junho de 1974, no Rio de Janeiro, com 91 anos de idade.Foi o único presidente do Brasil oriundo do Estado de Mato Grosso.

@ Ryc

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AÇORES CONSUMIR REGIONAL POR OSVALDO CABRAL

Consumir regional como?

É nas grandes crises, agravadas com o encerramento de fronteiras, que países e regiões se voltam para dentro e dão de caras que descuraram com uma prioridade estratégica para a sua sobrevivência: uma reserva alimentar soberana.
Por estes dias estamos a ser bombardeados com uma campanha regional para consumirmos o que é açoriano, regra básica que deveria fazer parte de cada um de nós o ano inteiro e não apenas nas crises, mas a grande questão, ao mesmo tempo, que todos enfrentamos é óbvia: consumir o quê, se muito do que necessitamos não temos e algum do que temos é, geralmente, economicamente menos acessível?
Isto para não falar no tão badalado “mercado regional”, que não existe, porque não temos um sistema interno de transportes capaz.
O sector agro-alimentar tem sido o parente pobre das muitas políticas e directivas europeias, com uma Política Agrícola Comum desequilibrada, onde imperam os países mais poderosos a invadir de produtos os mais vulneráveis.
O défice global do sector alimentar português, segundo o INE, ultrapassa os 3,7 mil milhões de euros, sendo que somos auto-suficientes apenas em produções de leite, azeite, vinho, ovos, arroz e tomate para a indústria, importando todo o resto dos produtos agrícolas.
Nos Açores sabemos da nossa forte dependência do exterior e nunca nos preocupamos em constituir uma reserva alimentar estratégica, apesar dos inúmeros alertas (e propostas concretas) de pessoas ligadas ao sector.
Dos únicos dados fiáveis e mais recentes que conseguimos do SREA, ficamos a saber que, por exemplo, apesar do apelo ao consumo de produtos regionais, as grandes superfícies comerciais importam muito mais e inundam as suas prateleiras com os produtos de fora, do que com produtos regionais (apesar de alguns progressos).
No ano passado, por exemplo, as grandes superfícies comerciais – as maiores catedrais de consumo, como se sabe – compraram apenas 28% dos produtos alimentares nos Açores (49 milhões de euros) e foram buscar ao Continente e Madeira 67% desses produtos (115 milhões de euros), para além dos restantes 5% no estrangeiro (cerca de 8 milhões de euros).
Os produtos açorianos com maior peso no cabaz alimentar adquirido por essas grandes superfícies é a carne fresca (78%) e peixe (83%), que não dão para equilibrar o défice agro-alimentar.
Num terra historicamente de grande exportação de fruta, hoje somos altamente dependentes do exterior, a julgar pelas grandes superfícies comerciais.
Ela compra apenas 29% de fruta regional, enquanto que importa 70% do Continente. Ou seja, 5 milhões de euros contra mais de 12 milhões!
Este ano, até Março, em toda a região, importamos produtos de agricultura, da produção animal, da caça e da silvicultura no valor de 7 milhões de euros e exportamos apenas 1 milhão.
Em contrapartida, exportamos 6 milhões de euros em produtos de pesca e importamos apenas 14 mil euros.
Também somos bons na exportação de madeira, quase meio milhão de euros até Março deste ano, contra a importação de apenas 20 mil euros.
Até no leite e derivados, em que somos excelentes produtores, as grandes superfícies comerciais compram mais no continente (50%, equivalente a 11,6 milhões de euros) do que nos Açores (46%, equivalente a 10,7 milhões de euros).
Do mesmo modo, as grandes superfícies compram mais pão, pastelaria, bolachas e biscoitos ao continente (59%, quase 7 milhões de euros) do que nos Açores (34%, cerca de 4 milhões de euros).
Até na carne, em que, segundo se diz, temos a melhor do país, as grandes superfícies adquirem no continente produtos à base da carne, como miudezas, salsichas, croquetes, empadas e refeições à base de carne em cerca de 55% (5,4 milhões de euros), enquanto que nos Açores compram 45% (4,4 milhões de euros).
Onde somos mesmo bons é nos ovos, pois abastecemos as grandes superfícies em 92% (1,4 milhões de euros), enquanto os restantes 8% vêm do continente (118 mil euros).
Se observarmos a balança comercial no sector alimentar é fácil perceber que, de ano para ano, estamos a importar cada vez mais.
Em 2018 importamos 249 mil toneladas de produtos alimentares, bebidas e tabaco por via marítima, subindo no ano passado para 284 mil toneladas.
No Comércio Internacional (intra e extracomunitário), no primeiro trimestre deste ano, temos 28 milhões de euros de exportações e 33 milhões de importações.
A lista poderia continuar, mas estes exemplos – incompletos e que não dizem tudo – são uma boa amostra para nos alertar que nos devíamos preocupar mais com a concepção de uma estratégia interna para combater o nosso forte défice de produtos alimentares.
Temos de ser mais arrojados a planear – coisa praticamente inexistente nesta terra – e avançar com uma reserva estratégica agro-alimentar que nos ajude a depender menos do exterior, com a vantagem de criar mais empregos e de nos tornarmos mais competitivos e auto-sustentáveis face às crises nos mercados de abastecimento.
Campanhas bonitas de marketing são sempre bem-vindas e ajudam a despertar o consumidor, mas se não fizermos o trabalho de casa no incentivo à produção e à mão de obra (para não falar na roda viva dos preços finais), não haverá produto regional que nos salve.

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O REGRESSO – Agora que vamos regressando ao “novo normal”, está visto que há a tentação à solta da política tomar conta do espaço da pandemia.
É inevitável, porque a natureza humana não resiste à virologia do aproveitamento das conjunturas. De um lado os que já vão entoando hossanas ao sucesso até Outubro, como a entrada do Rei em Jerusalém, do outro vão ressurgir os esconjurados, afastados e exorcizados do palco nestes últimos meses, ávidos para acertarem contas da pandemia.
Ambos os casos fazem lembrar a terceira esconjuração de S. Cipriano: “Dou fim a esta santa oração e darão fim às moléstias nesta casa pela bichação dos espíritos malignos”.
Ainda se o bicho da política matasse o outro bicho…

(Osvaldo Cabral – Diário dos Açores de 27/05/2020)

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açores, seguramente doente por osvaldo cabral

“Seguramente doente”

O Governo dos Açores encomendou uma campanha promocional, com um excelente video, para incentivar os açorianos ao consumo de produtos e serviços regionais, denominada “Seguramente açoriano”.
É uma iniciativa louvável, que nem precisava de ser recordada, pois o consumo de produtos açorianos deveria estar sempre na prioridade de cada um de nós.
Agora, deveria criar uma outra campanha explicando aos açorianos doentes, as famílias mais frágeis por estas ilhas fora, sobre como vai reprogramar milhares de consultas e cirurgias que ficaram suspensas durante esta primeira fase da pandemia.
São impressionantes os relatos de muitos doentes a necessitarem de actos médicos e que ficaram abandonados à sua sorte.
Percebemos todos que o Serviço Regional de Saúde esteve focado, nestes meses, no combate ao novo coronavírus, mas a Secretaria da Saúde falhou ao não criar um plano rápido e eficaz de acompanhamento dos milhares de doentes a necessitar de muitos actos terapêuticos e da habitual actividade assistencial nos hospitais e centros de saúde.
Empresários, sindicatos, associações, federações e muitas outras instituições organizadas tiveram palco mediático e atenção governamental na reivindicação de apoios, pacotes, medidas e moratórias, mas os doentes das nossas ilhas não tiveram um porta-voz, como os líderes associativos, para justificarem as suas debilidades.
É inconcebível, mesmo agora em período de desconfinamento, que a Secretaria da Saúde ainda não tenha desenvolvido um plano de recuperação para atender rapidamente à situação emergente de muitos doentes, à semelhança do que já está em andamento no resto do país.
Ninguém compreende que em ilhas, há muito limpas do contágio, os doentes continuassem abandonados, sem um único contacto para reprogramar consultas e cirurgias, enquanto que se oferecia a dispensa de quarentena a alguns profissionais de outras actividades, que não os do sector da Saúde.
A negligência foi ao ponto de submeterem uma autêntica violência às grávidas do Pico e de S. Jorge, que atravessavam o canal para consultas no Hospital da Horta, obrigando-as a quarentena obrigatória no regresso, mas dispensando os assistentes de saúde que as acompanhavam!
Foi um dos piores momentos da Autoridade de Saúde, agravado pela declaração de que “não sabia que havia tantas grávidas do Pico para o Faial”…
Neste regresso à normalidade possível é urgente que o Governo Regional olhe com mais atenção para os doentes mais frágeis das ilhas onde não existem hospitais nem tão pouco deslocação de médicos especialistas, que certamente não estarão interessados em se sujeitar a quarentenas absurdas, quando já é possível controlar eficazmente as deslocações, com maior intensidade de testes.
Tudo isso é um pouco sombrio numa Secretaria Regional que nem tão pouco nos informa qual é a situação destes doentes, pois “apagou” por completo da página do velhinho SIGICA o número de consultas e cirurgias dos três hospitais, desconhecendo-se qual é a grandeza dos atrasos e suspensões desses actos médicos.
No país sabemos que esta fase da pandemia obrigou à redução de 320 mil consultas médicas em cuidados de saúde primários, 360 mil consultas de enfermagem e 9 mil cirurgias programadas, que agora vão ser restabelecidas com um plano de emergência, como se impõe numa situação destas.
Nos Açores não sabemos de nada, como também não sabemos porque não foi activado o “grande investimento da medicina moderna na região”, que é a telemedicina, mais um projecto falhado, pelos vistos, depois de tantos milhões investidos.
A Pediatria do HDES provou como as novas tecnologias são um instrumento essencial nestas situações de crise, ao promover mais de 200 teleconsultas durante esta pandemia. Porque não funcionou noutros serviços de saúde por estas ilhas fora?
Dentro do contexto epidemiológico específico de cada unidade hospitalar é preciso começar a fazer um levantamento sobre a capacidade de resposta para situações destas, para que, numa eventual segunda fase de pandemia, não sejamos outra vez apanhados desprevenidos.
Façam os pacotes de medidas e moratórias que a economia exige, mas não se esqueçam dos doentes e das populações mais frágeis desta região, que também merecem um “pacote” de atenção redobrada.
Se nós, saudáveis, já nos assustamos tanto, imagine-se os que não têm saúde.
Haja saúde!

Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores 24-05-2020)

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consumir açores jose soares

Peixe do meu quintal José Soares

Consumir AÇORES

“A qualidade dos nossos produtos, hoje em dia, está comprovadamente assente em muitos mercados nacionais, estrangeiros e na nossa Diáspora.”

A nossa consciência coletiva sobre questões ambientais nas nossas Ilhas está muito mais educada e sensibilizada do que há apenas duas décadas atrás. Por essa altura, escrevi algumas crónicas no decano ‘Açoriano Oriental’ (uma delas a 14 de maio de 2002) e que foram publicadas no meu livro “Crónica dos Regressos/Barcos de Palha” (Calendário de Letras, 2014), que chamava a nossa atenção para a forma agressiva como tratávamos o nosso lixo nas Ilhas. Desde então muita coisa melhorou neste campo.

Outra questão urgente agora, mais do que nunca, é consumirmos os nossos produtos.

No primeiro de outubro de 2002 eu escrevia sobre o assunto, igualmente no mesmo jornal acima referenciado:

“Aqui, nos Açores, cada cidadão deve dar preferência aos produtos regionais, sempre que estes igualem ou superem a qualidade dos similares importados. Essa preferência faz criar empregos, alimenta milhares de famílias açorianas, aumenta a produção, fortalece a economia e todos vivemos cada vez melhor.”

Com o passar dos anos, houve uma tomada de consciência por parte dos políticos e governantes açorianos. Hoje podemos constatar as campanhas em boa hora lançadas pelo governo insular na comunicação social. Assistimos a belos spots das nossas Ilhas através da RTP/Açores, patrocinados pelo Governo Regional, que muito tem dispensado – e bem – a favor da divulgação dos produtos açorianos.

É conhecida a qualidade excecional de muitos dos nossos produtos. Por exemplo: Fará algum sentido comprar leite importado, só porque custa alguns cêntimos menos, quando o nosso leite é de reconhecida qualidade, muito procurado nas cidades portuguesas, onde está quase sempre esgotado devido à sua limitada produção.

O mesmo se pode dizer de tudo o que produzimos nas nossas Ilhas. A qualidade dos nossos produtos, hoje em dia, está comprovadamente assente em muitos mercados nacionais, estrangeiros e na nossa Diáspora.

Por outro lado, ao consumirmos os nossos produtos – que são ótimos – estamos a fortalecer a nossa economia e todo o sistema à volta. Desde as carnes, do leite como já referi, passando pelos já famosos queijos, manteigas, legumes e hortaliças, frescas de algumas horas, o peixe e mariscos, a água cuja qualidade jorra para o mar em quantidade, bebidas, cerveja, espirituosos, enfim, todo um manancial paradisíaco o qual merece toda a nossa atenção.

A partir de agora, o mundo estará preocupado na recuperação económica global, a qual sofreu um duro revés com toda a problemática viral que nos assolou.

Qualidade até nos sobra. Enquanto nas grandes metrópoles do globo, os bens de consumo do dia-a-dia percorrem milhares de quilómetros até ao consumidor final, nas nossas Ilhas eles estão mesmo ali ao lado, frescos e apetitosos.

Temos todas as razões, habitantes destas frutuosas Ilhas e a responsabilidade de contribuir todos e cada um, para que essa recuperação se faça o mais rápido possível. Cabe a todos e a cada um participar nessa recuperação económica. O nosso bem-estar coletivo depende dessa nossa decisão de consumir o que é nosso: CONSUMIR AÇORES.

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mais uma vez um programa de TV que não é cómico é insulto

Homens Livres
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Laura Tavares

Tamanha estupidez. Desconhecia esta capacidade do ser humano, de ser portador de uma estupidez, maldade e insensibilidade assim tão grande.
Isto de engraçado não teve nada. Foi simplesmente ridículo. Reles. Estúpido. Ofensivo. E não me digam que foi uma mera brincadeira. Não foi. Foi uma tentativa de humilhação. Mas isto não é uma vergonha para nós, é uma vergonha para vós, porque fica-vos mal tamanha arrogância, tamanha estupidez. Nem sei como é possível passarem este tipo de conteúdo em plena televisão. Vergonhoso. A gozarem com o próprio povo português? Sim, porque nós somos tão portugueses quanto vocês.
Isto foi muito além do ridículo e maldoso. Só vos ficou pessimamente mal.
Faltou-vos conteúdo e foi isso que se lembraram de fazer? Absurdo. Aconselho-vos a aproveitarem o vosso tempo para se dedicarem a serem pessoas melhores e a estudarem, talvez, um pouco sobre Comunicação Social.

A Nossa Tarde lamento que tenham eliminado a publicação ou que a tenham restringido de alguma forma, mas fica aqui o registo.

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orgulho e desconfiança Nuno Costa Santos)

(Um retrato perfeito do açoriano em tempo de pandemia, pelo escritor e colaborador do Diário dos Açores, Nuno Costa Santos)

Crónicas do Corpo Santo
Orgulho e Desconfiança

Estreia do filme “A Viagem Autonómica”, no qual um estudante, Gonçalo Cabral, protagonizado pelo actor Frederico Amaral, faz um périplo pelos Açores para conhecer a História do arquipélago e as suas conquistas, ao longo dos anos, políticas, sociais e culturais. Visita locais determinantes para as reivindicações, fala com personalidades várias (mais de 50), vive situações de ficção, partilha, em off, os seus conhecimentos e as suas conclusões.
O Teatro Micaelense cheio nesse dia 2 de Março de 2013. Representantes do Governo Regional, convidados institucionais de diversas tendências políticas, cidadãos comuns, figuras das mais diferentes áreas, atraídas pelo trailer que circulou com impacto na internet.
Vamos sentindo, eu e o meu companheiro de empreitada, Filipe Tavares, sentados ao lado um do outro, que os espectadores seguem o filme com atenção apaixonada. Não sabíamos qual seria o impacto – até porque sabemos da exigência dos açorianos. Partilhamos com palavras breves, ditas em voz baixa, a alegria em perceber que estávamos a tocar as pessoas.
Quase no fim do filme, que o Filipe levou depois a todas as ilhas, um instante inesquecível para todos: cresce sobre a imagem da bandeira dos Açores a versão de António Zambujo e das Vozes Búlgaras de “Chamateia”, canção com letra de António Melo Sousa e música de Luís Alberto Bettencourt, e há um súbito arrepio na sala, assobios de festa, uma comoção que se alastra pela plateia e pelo balcão. Uma manifestação comunitária, sem preparação nem ensaios, do orgulho em ser açoriano (não, aqui não há medo de se usar a palavra orgulho, hoje vítima do dicionário polticamente correcto, em ser-se desta terra). O orgulho ali, naquele momento, não foi manifestado através de palavras. Foi um som festivo com origem em várias vozes, distintas e até nalguns casos rivais, unidas por um mesmo sentimento. A manifestação de uma alegria em ser deste lugar, desta cultura, deste modo basáltico de ser. Em estar apegado a um território que teve se fazer valer antes de mais a si próprio para sobreviver e crescer. A mesma felicidade que ouvi, em modo sóbrio, reflectiva numa pequena história particular, aqui partilhada.
Conto o episódio. Sala de jantar da casa dos meus pais, São Miguel, Livramento. À mesa estão dois amigos deles – antigos, cúmplices de partilhas juvenis e companheiros de encontros semanais há 40 anos. Chego com um livro que documenta, com fotografias e texto, a passagem de Frank Sinatra pelas ilhas dos Açores (Santa Maria e Terceira), em 1945, para subir a um palco, no contexto de uma digressão feita para os militares aliados durante a II Guerra. A amiga comenta, com um sorriso: “Foram tantos os que passaram por cá. E nós ficámos sempre. Já viste?”. Mais do que fixada em teorias e intelectuais elucubrações, ali estava uma verdadeira manifestação da autonomia e da independência de espírito açorianas. Apaziguada e com um travo de ironia. O orgulho calmo de quem, vivendo há muito nos Açores, já viu muita gente pousar e levantar voo. Alguma dela com fama mundial.
Fascina-me esta nossa têmpera e admiro a vocação para não nos deslumbrarmos com as flashadas vindas do exterior, com as novidades fáceis, com os gestos de quem, chegado de longe, aterra com a ideia de que vai impressionar. Não terá sido o caso de Frank Sinatra mas é o de muitos outros. Há uma expressão que um amigo meu emprega e que representa bem a forma como muitos açorianos olham para quem chega às ilhas com a ideia de que vai deslumbrar as gentes. Quem com esta empáfia aterra é classificado como paraquedista. Em ilhas, habituadas ao longo dos séculos à chegada e à partida de tantos, existe essa distância e até essa desconfiança, dirigida a anónimos e figuras públicas.
Essa desconfiança alastra-se – e pude comprová-la na pele – em relação a quem, sendo de dentro, vive fora. Essas pessoas acabam por não ser consideradas de dentro. Vivendo no continente ou no estrangeiro, são, para uma volumosa parte dos que ficaram, paraquedistas Essa condição é, justamente, sentida-julgada ofensiva por quem teve de sair e, muitas vezes, magica com a possibilidade de regressar. Penso que não se alterá com o tempo. O melhor é aceitá-la como uma paisagem emocional que não mudará.
O orgulho, sabemos, revela-se também na forma como são mal aceites os olhares críticos dos de fora. As gentes unem-se contra esse inimigo exterior. É uma manifestação de defesa, de controlo do território, do gesto de proteger a família. Os açorianos – e basta dar uma volta pelo facebook para percebê-lo – defendem-se guerreiramente de ataques externos. Cada crítica é vista como uma invectiva. Mas são ao mesmo tempo capazes de ser demolidores para si próprios. São muito críticos – vulgo “bota-abaixo” – de muitos aspectos da vida açoriana e desunem-se, mesmo dentro de cada ilha, com alguma frequência (veja-se o caso recente da brutalidade de comentários de ódio que tem emergido nesta pandemia) mas, quando vêem alguém de fora apontar um defeito, eriçam o pelo e atacam. Um exemplo: aquando de uma reportagem da TVI sobre o Corvo, o tom neorealista, apenas centrado na pobreza, no abandono e na solidão, teve muitas reacções negativas açorianas. A legendagem do discurso dos nativos é considerada uma ofensa – mesmo que, nalguns casos, possa ser usada por questões práticas, no caso das mais fechadas variações do sotaque micaelense. É a suceptibilidade, filha da paixão, de quem vive no meio do Atlântico.
Percebe-se bem aqueles que, vivendo nos Açores, se querem proteger das ideias feitas de açorianidade pitoresca, com todos os seus clichés. O arquipélago é diverso, plural, está muito para além da imagem que demasiadas vezes se quer vender nos media continentais e estrangeiros (veja-se o caso das reportagens do El País sobre Rabo de Peixe). Se não fosse essa resistencia e esse melindre, se não fosse o amor dos açorianos pela sua terra, as teimosias frequentes, a vontade de afirmação, as reivindicações, o arquipélago não seria o que é. Mesmo considerando o distanciamento cultural entre as ilhas, mesmo questionando o conteúdo real do estatuto autonómico, mesmo assumindo as fragilidades económicas, seriam mais uma terra da interioridade, desta feita atlântica, lembrada de quando em vez a propósito de temporais e turismos. Alguém tem dúvidas sobre isso?

Nuno Costa Santos
Diário dos Açores 21-05-2020

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Comments
  • António Raposo Gosto, claro que gosto. Não, não gosto é dos “paraquedistas” que aterram aqui e acham-se “donos disto tudo, muitos com a “coberturas dos poderes”. Não, não gosto dos discursos miserabilistas de alguns orgãos de comunicação social do continente (também os há por cá…!!!). Não, não gosto das legendas quando entrevistam alguém de um local em que a pronúncia é “mais cerrada”…e não gosto porque no continente também há zonas do país onde também a dicção não é famosa e não vejo legendas aí…!!! Sim gosto, gosto muito da multiculturalidade e da diversidade de ideias, de opiniões ou de pronúncias… Sou duma terra (concelho do Nordeste) onde se consegue identificar quase todas as freguesias com pronúncias diferentes… Como são bonitas e diferentes as nossas pronúncias…!!! É só perguntar ao grande Victor Rui Dores (que também já “andou” por várias ilhas…!!!Vivi no Canadá (alguns meses), em Lisboa 6 anos, em Cascais 4 anos,, na Terceira 2 anos e no Faial 3 anos. Já trabalhei em 5 ilhas dos Açores…!!! Sei o que é ser açoriano ( sim, sim senhor e não é necessário ter nascido aqui…). O importante é o sentimento de ORGULHO EM SER AÇORIANO, claro que com alguma desconfiança em especial dos “paraquedistas” / oportunistas. OBRIGADO NUNO. Aquele abraço…virtual.
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