José Gabriel Ávila · Contradições (Crónica Rádio Atlântida)

Contradições (Crónica Rádio Atlântida)
Em política é muito usual os governantes tenderem a realizar, logo que assumem o poder, as promessas feitas ao seu próprio eleitorado.
À partida é um bom princípio, desde que se respeite a equidade e se satisfaça os direitos de todos os cidadãos, sobretudo dos mais desprotegidos.
Vem tudo isto a propósito do acordo a que chegou o Governo e a empresa proprietária de um centro de radioterapia na Terceira.
O titular da saúde, afirmou tratar-se de um compromisso eleitoral muito importante que garante um tratamento de proximidade a quem precisa.
Não deve ser levada a sério esta declaração, pois no setor da saúde, há outras situações mais ou tão urgentes – direitos fundamentais – que não garantem um tratamento de proximidade a quem precisa.
Recordo o encerramento noturno de centros de saúde no Pico, os quais, apesar das promessas eleitorais para o funcionamento 24 sobre 24 horas, mantêm as portas fechadas às urgências noturnas.
Nesta e em tantas outras situações, está provado que a proximidade dos eleitos aos eleitores é meio caminho andado para resolver os problemas, desde que haja força política e uma comunicação social que persistentemente denuncie.
Quando, por ausência de denuncia, os problemas não chegam à secretária dos detentores do poder, nada se consegue, porque as situações ficam longe e não as sentem na pele.
E há tantos problemas cuja resolução não entra na agenda dos políticos, mas incomodam, e muito, quem por eles passa.
A nível da saúde, a proximidade da resposta é uma salvaguarda do bem-estar das populações, pois a doença é malina e não previne quando chega.
Tenho repetidamente afirmado que enquanto a saúde não proporcionar serviços com respostas aceitáveis, o despovoamento e o envelhecimento das ilhas mais pequenas ou de segunda ordem, agravar-se-á.
Continuar a defender o rodopio diário dos picoenses no canal Pico-Faial para consultas de especialidade e exames de diagnóstico no Hospital da Horta, obrigando os doentes e famílias a penosas deslocações e estadias prolongadas em residências, é manter o status quo – a trilogia ex-distrital tradicional que só trouxe a desunião e o fosso entre as três grandes mais crescidas e as outras pequenas ilhas mais pobres.
Governar não é resolver apenas os problemas ao pé da porta, para agradar aos amigos, aos vizinhos e aos “companheiros”, dando-lhes uma importância parcial que não serve o todo.
E quando se vem agora referir as visitas estatutárias anuais às 6 ilhas sem governantes, é minimizar os problemas de populações envelhecidas, cansadas de esperar .
Razão têm os transmontanos quando afirmam: para lá do Marão, mandam os que lá estão. Por cá, muitos açorianos ainda acreditam, para mal dos seus pecados, como é uso dizer-se – que os senhores do mando, vão entender a dureza da vida em ilhas sem condições básicas e satisfazer as suas pretensões.
Os mais novos e incrédulos, porém não acreditam, e abalam para outras latitudes. Os que ficam, terão de resignar-se, e morrer à mingua, por falta de cuidados básicos de saúde.
Construir instalações para acolher doentes deslocados, ou instalar mais centros de tratamentos de radioterapia, só ajuda as ilhas maiores, porque as outras 7 terão sempre de deslocar-se, apesar de terem os mesmos direitos que as demais.
Uns dirão: é a vida! outros dirão: é a morte da democracia e da autonomia.
José Gabriel Ávila
11 abril 2021
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  • Bom dia Amigos. Perfeito. E os novos que por aqui ficam, contentam-se, infelizmente com um “cabaz” de fraldas, um litros de leite,uns euros, etc… Isto só dá votos aos “presidentes” ( grupinhos ), já presidentes das Autarquias e no fundo não é medida …

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obrigado NUNO E LUÍS FILIPE BORGES

cdn-images.rtp.pt/EPG/imagens/38804_57667_39153...

ainda não acabei mas revelou-se uma agradável surpresa…eu a pensaar que ia ser chato de ler, pois faltavam as imagens, mas os mal-amanhados amanharam bem a as conversas dos episódios entremeados de notas e testemunhos que tornam a leitura fluida e fazem reviver os momentos mágicos dessa série de documentários que jamais esquecerei por retratarem tão bem estas 9 ilhas que conheço e adotei como minhas nestes 16 anos que levo de arquipelágico ilhanizado

José Gabriel Ávila · O negócio das vacinas (Crónica Rádio Atlântida)

O negócio das vacinas (Crónica Rádio Atlântida)
O rolar do tempo trouxe-nos a mudança de estação.
Com receios mais que fundados, a Primavera surpreendeu-nos com perfumes da natureza, desabrochando e florindo. Bem precisamos de novos ares, pois confinados a regras pesadas, os benefícios sanitários estão difíceis de surtir efeito.
O certo é que o rolar dos dias não pára. Os que temos mais idade, enclausurados em quatro paredes e a alguns milhares de passos ao ar livre, perdemos o gosto em visitar as ruas da cidade, em tomar pulso ao dinamismo social, em poder visitar amigos, em conviver e alimentar a amizade e a esperança, não vá o diabo tecê-las e enviar-nos para uma enfermaria do hospital.
Esperávamos que a primavera deste ano nos trouxesse os frutos do trabalho aturado de tantos cientistas que, dia e noite não descansaram para encontrar uma vacina, para combater o maldito vírus que atacou a nossa vida.
A descoberta aconteceu, mas foram, por ironia do destino, esquecidos os homens e mulheres que tanto investigaram para que milhões de pessoas pudessem resistir e salvar-se…
Em seu lugar, fala-se à boca cheia, dos laboratórios e das empresas que produzem as vacinas já aprovadas e que vão ganhar milhões e milhões com as patentes…
Enquanto milhares e milhares de pequenas empresas sucumbiram face ao sars-cov-2, e milhões de desempregados perderam o emprego, aí está o maior negócio dos anos 20 deste século – o negócio das vacinas.
Em volta dele desencadeiam-se guerras comerciais, “fake news” -falsas notícias, sobre graves efeitos secundários desta ou daquela vacina – como se qualquer medicamento não tivesse efeitos secundários negativos…
A guerra das vacinas no seu melhor, em benefício dos grandes laboratórios de medicamentos, em prejuízo da saúde dos povos mais vulneráveis.
Já se percebeu que este tempo cavará um fosso ainda maior entre ricos e pobres, entre países desenvolvidos e sub-desenvolvidos, sem capacidade para investirem na saúde da suas populações.
A nível global, se não funcionar a solidariedade internacional reclamada pelo Secretário Geral da ONU António Guterres, às pequenas comunidades tarde ou nunca chegarão as vacinas.
Nós por cá aguardamos que as migalhas caiam da mesa dos ricos, e mesmo sendo região ultra-periférica da União Europeia, poucos farão caso da nossa pequenez e indigência.
É que não passamos de um pontinho, quase invisível no mapa no meio do Atlântico e só valemos como porta-aviões, quando os poderosos aliados o querem.
Tem sido sempre assim, durante os 500 anos de vida nestas ilhas.
Pergunto: não haverá remédio para esta terrível doença do isolamento que atrofia a grande dimensão da nossa zona económica exclusiva? Ou o mal está em nós que nos habituámos a estender sempre a mão, como agora acontece com as vacinas, e não lutamos para defender e reclamar os nossos direitos e a nossa dignidade, junto seja de quem for?
Como Ciprião de Figueiredo dizia: Antes morrer livres que em paz sujeitos!
José Gabriel Ávila
jornalista
22 março 2021
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osvaldo cabral, duas festas de há 5 anos

duas festas de há 5 anos
Segunda-feira passada completaram-se 5 anos sobre o compromisso do Ministério da Justiça em construir a nova cadeia de Ponta Delgada.
Foi a 15 de Março de 2016 que o Governo de António Costa assumiu o projecto, acolhido nos Açores com grande festa política, incluindo a vinda da ministra, quando já muita gente desconfiava que era apenas mais um dos números em que essa gente é perita, que é atirar os foguetes e apanhar as canas.
Passaram-se 5 anos e o que temos é um monte de bagacina, do tamanho do mistério que envolveu todo este negócio, a ser removido ao ritmo de um caracol que carrega toda uma história de trapalhadas, sempre que se trata da intervenção do Estado nas Regiões Autónomas.
Não há Ministério Público nem Representante da República que nos salvem destas negociatas e destes processos nebulosos de política barata, a coberto de muita gente responsável que faz que não vê.
Pelo andar da carruagem, nem daqui a outros 5 anos teremos, neste caso da cadeia, a “coesão territorial” a funcionar…
****
– Nem era preciso a informação agora disponibilizada acerca do negócio ruinoso do A330 da SATA, vulgo “Cachalote”.
É outro negócio de 2016 (má sina, esse ano…), fazendo na próxima semana, dia 23 de Março, 5 anos de mais uma festa política, desta vez em pleno aeroporto de Ponta Delgada, com cantora internacional a apadrinhar, e os discursos de hossanas a um novo tempo luminoso na aviação açoriana.
Cinco anos depois o que temos de bíblico é o monstruoso prejuízo deste negócio, nenhuma explicação dos responsáveis envolvidos, contratos escondidos e, mais uma vez, o enorme cheiro a sucata política, paralisada numa qualquer placa paga a peso de ouro com os nossos impostos.
Bastava seguir os alertas dois anos depois para que o assunto ficasse esclarecido.
Já então se questionava sobre quem foi que autorizou este negócio, quem assinou o contrato, quem esteve envolvido e quem passou o cheque.
Preferiu-se esconder tudo, chumbaram a abertura de um inquérito, ninguém teve a ousadia de enviar o assunto para o Ministério Público e só agora, 5 anos depois, alguém se põe a mexer como deve ser.
Com tantos requerimentos e artigos de opinião, não há ninguém no PS com coragem para ver este assunto esclarecido?
****
Ó – O “Chega” chegou ao parlamento regional sem saber como.
Foi festa de pouca dura.
O fenómeno nasceu numa conjuntura própria, influenciada pelo líder nacional, carregada de novidade que já não existe hoje. O pior que podia acontecer ao “Chega” dos Açores é o que está a acontecer a poucos meses de eleições autárquicas.
Em vez de se apresentar como uma força política estável, confiante e credível, faz tudo ao contrário, expondo-se à instabilidade e à luta interna entre dois deputados que só têm tudo a perder em próximas eleições.
Políticos que só criam instabilidade, já bastam os que grassam no palco nacional.
Desse vírus, também não o queremos cá.

(

Osvaldo Cabral

– Diário dos Açores de 17/03/2021)

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ANTÓNIO BULCÃO, O ENFERMEIRO TIAGO

Tiago: YOU have a problem…
Estava minha mãe grávida de mim e rebentou um vulcão. Bem sei, parece coisa de filme, mas foi exactamente assim. Eu a formar-me e os Capelinhos a rebentar.
Durante meses aguentei sismos seguidos, protegido com colete uterino, dizem que mais de dois mil só num dia. E não consigo deixar de pensar que a tal tremedeira se deverá este feitio irrequieto, esta inquietação constante, que não me dá um segundo de descanso.
Nos primeiros anos da minha vida muitos foram os passeios de carro ao vulcão, vendo bombas de pedra espalhadas pela areia, casas só com o tecto de fora, o farol sem luz, também ele afogado. E ganhei medo àquela força tremenda.
Em 1973, já grandinho, vinha do liceu e começou tudo a tremer. Corri para casa e subi pelas escadas exteriores das traseiras. Não via a Espalamaca. Nem via o Pico. Um nuvem de terra tudo cobria, e eu refugiei-me na casa que meu avô dizia que, quando caísse, a cidade já estaria toda no chão. Casa grande, que levou todos os familiares cujos lares tinham ficado rachados, e os rapazes a dormir em colchões espalhados pelos sobrados dos quartos, sentindo os mesmos a ondular de vez em quando, quase duvidando das sólidas certezas do avô.
Depois veio 1980 aqui, 1998 de novo no Faial, estes muito grandes e mortais, para além das centenas espalhadas pelos outros anos, mas que só davam para a pergunta que ainda hoje dura: sentiste?
Tenho muito medo de sismos. Porque o frio, sinto-o, mas combato-o com cobertores. O calor também o sinto, e lá vão ventoinhas para cima do lombo. Vento fecha-se as portadas. Raios e trovões já são mais perigosos, mas a gente conta a distância e reza para que se afaste o ribombar. Foram poucos os estalares que vieram logo a seguir ao clarão, na minha já longa vida. Mas tremores de terra a gente não vê, nem pressente. Só ouve, aquele arroto terrível da terra a mover-se, paredes a oscilar, coisas a cair e rezas para que pare depressa. Mas, enquanto dura, que impotência aflita…
Nunca imaginei vir a sentir medo semelhante por causa de um vírus. Novamente uma coisa que não vejo a tolher-me os movimentos, a atrapalhar-me a liberdade. Claro que a máscara. E as mãos lavadas. E o gel desinfectante. E a distância. E o ficar em casa, sem ajuntamentos. Mas há sempre a dúvida. Onde pus a mão há bocado? Levei-a ao nariz por dentro da máscara para acabar com uma das tais comichões que a todos ataca nas horas mais impróprias?
Medo nos olhos dos meus alunos no ensino à distância, depois nas aulas dos rostos azuis presos com elásticos brancos. Medo, porque a gente não vê o bicho e ele pode estar em qualquer lado.
Nunca perdoarei a quem faz política sobre este medo. Sempre a criticar os que trabalham todos os dias para conter uma praga para a qual ninguém estava preparado, tentando dar o seu melhor. Sempre a instigar ao ódio e à denúncia.
Prove-me o enfermeiro que, com ele a mandar, não teria havido segunda vaga, nem terceira, nem sei lá quantas mais virão. Prove-me que, se tivesse continuado a ser ele a vir televisivamente a todas as casas, não teriam nascido novas estirpes. Prove-me que, com ele director ou secretário regional, já estaria tudo vacinado. Prove-me que, com um pulôver novo todos os dias, o corona fugiria de mim.
Se não puder provar nada disto, que se cale. Depois de ter jurado que não estava nos seus planos seguir uma carreira política, segue-a da pior maneira. Atribuindo culpas. Por falta de comunicação. Por falta de planeamento. Pela inteligência do bicho.
Meu avô andou a acarretar gente do Capelo para fora do inferno de lava, nas suas camionetas, senhor enfermeiro. Ninguém esperava um vulcão, como ninguém esperava esta doença. Mas sei bem o que faria meu avô, se lhe aparecesse um rapazinho de barba aparada a dizer-lhe que, em vez de seis viagens por dia, deveria ter feito dez. Talvez se o senhor enfermeiro tivesse nascido por aqui desse mais valor aos nossos medos e não brincasse com eles, com analogias de Apolo 13. Mas nem quero imaginá-lo nas páginas dos jornais da sua terra em 1755. Porque o Marquês do Pombal tinha ainda menos paciência que meu avô…
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
You, Urbano Bettencourt, Diana Silva and 35 others
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