RAMOS HORTA, CHRYS E O 25 ABRIL

Estava em Timor em 25.4.1974… Depois do 25 de abril (data da Revolução em Portugal) comecei a publicar artigos que o Comando Militar e, em especial o CEM (Chefe do Estado-Maior Arnao Metello) queriam evitar. Era chamado quase todas as manhãs e simpaticamente mandava o motorista no velho Volkswagen do Estado-Maior buscar-me a casa. Nessa rotina (prolongou-se por bastante tempo e trouxe consequências ao meu serviço militar) lá tinha de explicar porque publicara artigos censurados e considerado material proibido. Uma verdadeira caça ou o jogo do gato e do rato. Ramos Horta viu assim o 25 de abril (entrevista dada ao Expresso em 28.11.2015).

Ramos Horta viu assim o 25 de abril (entrevista dada ao Expresso em 28.11.2015

 

Este ano como em todos os anteriores 48 usarei um cravo simbólico do dia em que a liberdade chegou a Portugal e por mais que me desgoste (hoje) este país injusto onde vivo ainda sou livre para o afirmar.

a história mal contada do 25 de abril

O 25 DE ABRIL CONTINUA A SER UMA HISTÓRIA MAL CONTADA – PAPEL DA OTAN E DOS BILDERBERGERS

Revoluções e Golpes de Estado parecem obedecer a Ordens superiores e os Media compõem o resto

Segundo o livro que abaixo cito e me surpreende, o 25 de Abril foi bem preparado num Portugal subsidiado e subornado pelo estrangeiro! O projecto do general Spínola foi internacionalmente aprovado pelo grupo dos “Bilderbergers” (1) e pela OTAN. Guerras e revoluções precisam de alguns “revolucionários”, mas são preparadas por grandes grupos internacionais que têm interesses e planos a longo prazo sobre o desenvolvimento da História nas diferentes regiões. O golpe de estado do 25 de Abril de 1974 não fugiu a este destino…

…“A intervenção dos “Bilderbergers” na política europeia foi demonstrada na reestruturação democrática de Portugal em 1974… Spínola conduziu o seu golpe como se estivesse a planear uma operação militar. Foi um golpe de Estado educado. Um dos primeiros homens a quem contou em confidência foi Joseph M. A. Luns, Secretário-geral da OTAN. O Luns examinou os seus planos, e o comando naval da OTAN foi, a partir daí, mantido informado. Luns, por sua vez, informou o Príncipe Bernhard, e foi convocada uma reunião Bilderberg em Mégève, França, para 19-21 de abril para preparar a nova situação que iria criar uma mudança de governo em Lisboa. Com o apoio de Luns e Bilderbergers, Spinola deu então os seus próximos passos. Embora já não estivesse ele próprio ao serviço, tinha tomado a precaução de manter as suas ligações com os generais. A 29 de Março de 1974, uma quinzena depois de ter sido dispensado do seu comando por causa do seu livro, pôs os seus apalpões a amigos em Madrid, Bruxelas, Brasil, Cidade do Cabo e Haia. “Que pensa de uma solução como a que esbocei no meu livro?” pergunta ele. (Uma Comunidade Lusitana de Territórios Portugueses.) Na terça-feira 24 de Abril de 1974, unidades navais alemãs, americanas, francesas e britânicas ancoram perto de Lisboa, à vista da costa portuguesa. Os navios de guerra portugueses aguardavam ali as manobras conjuntas da NATO planeadas, cujo início tinha sido marcado para as horas da manhã do dia 26. O país estava assim protegido contra visitantes indesejáveis do Oriente, enquanto Spinola tinha recebido luz verde para o seu projecto. Ao mesmo tempo, o governo de Caetano estava sob pressão devido a esta acumulação naval. Outra questão é se o comandante da OTAN para a Europa, General Andrew J. Goodpaster, sabia do enredo quando participou na reunião de Bilderberg quatro. Goodpaster soube do enredo quando participou na reunião de Bilderberg em Mégève quatro dias antes. Foi oficialmente inscrito na lista de visitantes, não como „americano “, mas como “internacional”. Quanto foi Nelson Rockefeller e Helmut Sonnenfeld, o notório conselheiro pró-Rússia do Departamento de Estado, informados por Luns e pelo Príncipe Bernhard sobre a reviravolta iminente? (3)”

Para se ter uma ideia do envolvimento internacional em momentos críticos nas nações será de recordar os planos de elites que transcendem as nações e as ajudas às forças que implementam as mudanças de regime! Em julho de 1975 os chefes de governo dos Estados da CE em Bruxelas, determinaram uma ajuda económica de 840 milhões de dólares para Portugal na “condição” de que fosse instituída uma “democracia pluralista” (4). Mário Soares recebeu milhões de dólares do SPD. A 25 de Setembro de 1975 a CIA tinha transferido vários milhões de dólares para o Partido Socialista Português e outras organizações políticas nos meses que antecederam este apoio financeiro; “por seu lado os sindicatos da Europa Ocidental serviram de ligação com a CIA para os subornos em Portugal”. O Partido Comunista Português – segundo a CIA, recebia dez milhões de dólares por mês da União Soviética (4).

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo e notas em Pegadas do Tempo, https://antonio-justo.eu/?p=7361

TRIBUNAL BRITÂNICO DETERMINOU A EXTRADIÇÃO DE JULIAN ASSANGE

 

Um tribunal londrino emitiu a ordem de extradição, do fundador do WikiLeaks (1) Assange para os EUA. A decisão ainda tem de ser aprovada pelo Ministro do Interior britânico.

Assange terá que enfrentar uma sentença de prisão talvez perpétua por publicar documentos secretos sobre crimes cometidos nas guerras no Iraque e no Afeganistão. Assange esteve preso durante três anos sem julgamento ou sentença.

Custa a crer que em democracia, alguém que expõe crimes de guerra e violações dos direitos humanos tem que esperar prisão por isso.

De facto, “jornalismo não é crime”! Não foi Assange que cometeu crimes, mas sim os Estados membros da NATO que estiveram envolvidos nos crimes de guerra. O Ocidente perde credibilidade quando condena medidas autoritárias em governos autocratas e em sua casa – a casa da democracia – se comporta de maneira semelhante!

Quem se mete com os poderosos apanha e o mundo aceita!!!

Membro honorário de PEN: https://antonio-justo.eu/?p=6830

Julian Assange: vítima da liberdade de expressão?: https://bomdia.eu/julian-assange-vitima-da-liberdade-de-expressao/

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo, https://antonio-justo.eu/?p=7353

CÚMULO DA PERVERSIDADE

Já notaram a contradição? Andar-se a pedir armas e ao mesmo tempo pedir-se donativos para as vítimas!

Encontramo-nos numa época dos guerreiros, numa época da desinformação e o que é mais triste é sermos amarrados aos interesses políticos e materialistas não nos restando espaço para a mente e menos ainda para o Espírito!

Porque não dedicamos mais tempo a investigar a razão porque andamos a ser manipulados num programa de encurtamento do nosso pensar em termos polares de opostos e não nos interessamos por ver que entre os opostos há a zona do meio.

É verdade que quando olhamos para uma moeda ou para uma medalha geralmente só olhamos para os polos, para as faces (não considerando o cunho ou metal em que as faces estão estampadas). A realidade da moeda é, porém, sobretudo mantida pelo meio, a parte que sustenta as faces! Quem a ignora limita a realidade.

Quando deixaremos de equacionar a nossa vida e o nosso pensamento em termos apenas binários e não em termos trinitários?

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo, https://antonio-justo.eu/?p=7358

 

MANIPULAÇÃO

Quem controla a mente das pessoas tem o poder assegurado! Toda a cautela é pouca!

O neurocientista Henning Beck afirma: “Sabemos que se pode convencer as pessoas a acreditarem mesmo nas coisas mais abstrusas, se as repetirmos com frequência suficiente.” A repetição é interpretada pelo cérebro, como importante e outras informações são cada vez mais desvanecidas.

As 6 técnicas de manipulação mais comuns num relance:

Manipulação através da repetição.

Manipulação através da criação de medo.

Manipulação do pensamento.

Manipulação do comportamento através da linguagem.

Manipulação da informação.

Manipulação das necessidades.

 

O 25 de abril nunca chegará a todos abr2022

Crónica 449 O 25 de abril nunca chegará a todos abr2022

Cuidando do país como se de mercearia se tratasse e escorreitas as contas, o ditador começara a amealhar valiosa fortuna para o país, para a geração pós 25 de abril esbanjar. Tal como o ditador fazia, na sua espartana e sovina maneira de ser, acabaria por nunca investir nem gastar a fortuna, pois o país não precisava de progresso que esse só traz a devassidão e maus costumes. “Estou deprimido” é uma expressão recorrente nesta geração paradoxal. Inconsciência crónica com um excesso de preocupações. Da banalidade despreocupada à angústia paralisante. A propósito convirá recordar que a atual geração não passou por nada em termos de privações familiares comparado com a geração de “baby boomers” a que pertenço, nascida no pós-guerra (2ª Grande Guerra). A geração rebelde que, no fim dos anos 60, se revoltava contra o status quo na França e contra a guerra colonial em Portugal tinha algo contra que lutar. Vivia melhor que a geração dos pais, em conforto e posses económicas, mas era arrastada para projetos militares alienígenas aos quais se opunham. Queria tomar parte na construção da História e não ser arrastada como nota de rodapé como acontecera aos pais.

Depois chegou o 25 de abril e as liberdades misturaram-se, inicialmente, com as libertinagens em que tudo era permitido. Os jovens dos anos 70 e 80 nasceram já com o rei na barriga. Nada era proibido, tudo era permitido e podiam almejar a uma sociedade sem classes em que todos tinham acesso ilimitado a todos os bens, sendo felizes até todo o sempre.

As crises não se fizeram sentir severamente na Europa Ocidental (exceção à crise do petróleo 1972-1974) e a máquina da publicidade assenhoreou-se da televisão e órgãos de comunicação social moldando os jovens que temos em casa ou os que dela saíram há pouco. Por mais que se lhes tenha dito que a vida era feita de sacrifícios, não passaram pelas suas experiências dolorosas, nem as viram nem as sentiram. Frequentar a universidade não era um apanágio de elites, nem mesmo as universidades privadas. Os cursos facilitaram o acesso a canudos com a fama de distinguir entre os que vencem na vida e os outros, embora na prática começasse a ser diferente. As classes sociais esbateram-se e o grande fosso educacional, passou a ser memória do passado.

Jamais esquecerei o que era viver sem liberdade (especialmente de expressão e pensamento). Antes do 25 de abril em Portugal havia uma coisa chamada lápis azul, ou censura, que em 1972 me cortou 70 páginas a um livrinho de poemas adolescentes que publiquei com cerca de trinta páginas… O resto é já história, o 25 de abril trouxe a liberdade de pensamento e de expressão e muita água correu sob as pontes e sou confrontado por uma sociedade mais desigual do que nunca, de falsa fluência consumista.

No que conseguíamos ler e ouvir queríamos a liberdade de um Woodstock americano, das manifs de estudantes de Paris em 68-69 e subsequentes, em vez de viver sob “brandos costumes” que me obrigaram a uma multa de 2$50 (dois escudos e cinquenta avos) por andar descalço no acesso à praia …ou a uma multa (creio que 250$00) por não ter licença de porte de “arma” (neste caso, um isqueiro). Alguns colegas eram “bufos” não só da PIDE mas ao denunciarem o meu uso de isqueiro sem licença ganhavam 50% da receita…

Quando veio o dia de todas as esperanças, 25 de abril (quase sem mortes e com cravos na ponta das espingardas) eu, em Timor, esperei, tardava a chegar (teria ido de barco?) e jamais arribou.

A Europa cresceu, o sonho da europa unida medrou e cresceu descontroladamente, até ter mais olhos que barriga e ficar desesperadamente obesa na palhaçada que hoje é. Por toda a parte, uma após outra, as ditaduras iam sendo aniquiladas e substituídas por modelos de democracia onde alegadamente o povo e a sua vontade eram representados em parlamentos. Com a queda do Muro de Berlim e a glasnost a dar lugar a uma nova Rússia todos acreditamos que sonhar era isto, quando se tornavam realidade até na América Latina e América do Sul. Já o neoliberalismo da nova ordem mundial tinha disseminado sementes com a Thatcher e o Ronald Reagan, mas não sabíamos que isso iria perverter todo o ocidente. Isto antes da sangrenta invasão russa da Ucrânia.

Há algo que sempre afirmei e reitero, mesmo que já não sirva para grande coisa, o 25 de abril trouxe-me o bem mais precioso: a liberdade de expressão, a mim que sou um individualista nato e jamais conseguiria viver numa autocracia. Dantes, os países democráticos tinham eleições os outros não (nem mesmo as mascaradas eleições do partido único em Portugal o ocultavam).

Hoje assistimos a um novo e preocupante paradigma, a semi-democracia onde existe a aparência de uma verdadeira democracia com eleições e tudo o mais, mas onde a realidade não está representada, com resultados viciados, roubo descarado de votos e tanta manipulação que o resultado é a via autocrática travestidas de democracia oca. O que temos assistido nas últimas décadas é um ataque à democracia, e são as próprias instituições europeias quem mais tem atrofiado o funcionamento dos sistemas democráticos. E até mesmo eu, que sempre me considerei um otimista nato, tenho demasiadas dúvidas, rodeado como estou por autómatos não-pensantes, obcecados com os pequenos ecrãs dos smartphones e impérvios aos atropelos à dignidade, equidade e justiça que acontecem em volta. Quando essa liberdade se perder, de facto só terei de me conformar e aceitar que me implantem um ”chip” para o meu próprio bem, como nem George Orwell (1984 e o Triunfo dos Porcos) nem Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) conseguiram imaginar.

Lembro o checo Thomaz de “A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera (o caso do médico que vira pintor de paredes ao renegar as ordens do partido não é diferente dos que não se adaptam nas profissões no mundo livre). Inspirado na opressão dos regimes totalitários das décadas de 1930 e 1940, o livro de Orwell critica o estalinismo e o nazismo e a nivelação da sociedade, tal como pretendem fazer em Portugal depois do 25 de abril. Uma redução do indivíduo a peça para servir o estado ou o mercado através do controlo total, incluindo o pensamento e a redução do idioma. Tudo isto acontece já e só vai piorar.

Mas termino e agradeço a quem me deu a liberdade que tanto prezo e pela qual lutei nos jovens anos, antes de ser obrigado a ir “defender as colónias” de arma em riste, feito máquina de guerra, eu, que nunca andei à pancada com ninguém. Sem o 25 de abril não haveria essa liberdade e os melhores da minha geração teriam continuado a verter o sangue em África. Sem o 25 novembro 1975, o país dividir-se-ia ao meio numa guerra civil fratricida como a de Espanha, décadas antes, com o Norte e os Açores a recusarem a ditadura do proletariado. Sei que tudo isto é politicamente incorreto mas nesta idade estou-me nas tintas, apenas queria viver os últimos dias de vida em paz e não nesta guerra que a todos afetará e que pode levar à extinção da humanidade como a conhecemos. Por isso creio que 25 de abril nunca chegará a todos.

 

Chrys Chrystello, [email protected]

Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713

[Australian Journalists’ Association – MEEA]

Diário dos Açores (desde 2018)

Diário de Trás-os-Montes (desde 2005)

Tribuna das Ilhas (desde 2019)

Jornal LusoPress Québec, Canadá (desde 2020)

Jornal do Pico (desde 2021)

 

 

 

poesia “Cantar Abril”, no dia 25 de Abril

Amigas e amigos da comunicação social
Venho convidar-vos a assistirem ao espetáculo de música e poesia “Cantar Abril”, no dia 25 de Abril, às 21.30 horas, no Teatro Faialense, conforme o cartaz em anexo.
Segue também, letra e mp3 da canção inédita e original “Poeta Trovador”, com música e interpretação de Filipe Fonseca e letra da minha autoria. Trata-se de uma homenagem que quisemos fazer ao Zeca Afonso e que será estreada ao público no referido espetáculo. Espero que gostem e peço-vos a melhor divulgação. Pode ser?
Obrigado e um abraço de mar.
Victor Rui Dores

lembrando um dos meus mentores Melo Antunes morreu há 22 anos

O Tenente-Coronel Ernesto Melo Antunes, co-autor do programa do MFA, várias vezes Ministro nos Governos Provisórios, membro do Conselho dos Vinte, do Conselho da Revolução e do Conselho de Estado, redactor do Programa de Acção Política e Económica e o Documento dos Nove, morreu em 1999.
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  • Rui Lopes

    Um senhor moderado e a pessoa certa no lugar certo para isto não descambar em guerra civil!
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    ChrysChrystello

    UM DOS MEU MENTORES abr – set 1973…
    alguns excertos do meu próximo volume chrónicaçores uma circum-navegação … Estive como aspirante a oficial miliciano, no RAL-4 em Leiria, e nos passeios longos de tertúlia com o (major) Melo Antunes nas margens do rio Lis entre março e setembro 1973 ele dizia que se estava a preparar algo para daí a dois ou três anos (no pior cenário, cinco anos). O resto é já história, o 25 de abril trouxe a liberdade de pensamento e de expressão e muita água correu sob as pontes e sou confron-tado por uma sociedade mais desigual do que nunca, de falsa fluência consumista. Falava-se de vida, de Filosofia, de aspirações e sonhos e vivi o suficiente para ver muitos sonhos con-cretizados. Jamais esquecerei o que era viver sem liberdade (especialmente de expressão). Antes do 25 de abril havia uma coisa chamada lápis azul, censura, que em 1972 cortou 70 páginas a um livrinho de poemas adolescentes que publiquei com 32 pp. (“Crónica do Quotidiano Inútil”). Estive como aspirante a oficial miliciano, no RAL-4 em Leiria, e nos passeios longos de tertúlia com o (major) Melo Antunes nas margens do rio Lis entre março e setembro 1973 ele dizia que se estava a preparar algo para daí a dois ou três anos (no pior cenário, cinco anos). O resto é já história, o 25 de abril trouxe a liberdade de pensamento e de expressão e muita água correu sob as pontes e sou confron-tado por uma sociedade mais desigual do que nunca, de falsa fluência consumista. Falava-se de vida, de Filosofia, de aspirações e sonhos e vivi o suficiente para ver muitos sonhos con-cretizados. Jamais esquecerei o que era viver sem liberdade (especialmente de expressão). Antes do 25 de abril havia uma coisa chamada lápis azul, censura, que em 1972 cortou 70 páginas a um livrinho de poemas adolescentes que publiquei com 32 pp. (“Crónica do Quotidiano Inútil”). …Tenho saudades de Timor, Austrália, Bragança, enleado nos novos amores, súbitos e suicidas pelo Faial, Pico e outras ilhas. Tão pronto, a realidade me confronta com a certeza de estar aqui preso e amarrado, as ilhas, mesmo sendo o Éden, podem ser uma prisão.. Dificilmente sairei deste buraco, bem verde e bonito é verdade. É verde, é bonito. E que mais? É verde, é bonito, por vezes, tão deserto como o Saara. Falta-me gente para dialogar a nível intelectual, falta-me um Melo Antunes, José Augusto Seabra e ou-tros, com quem trocar sonhos e imagens do futuro melhor para o país. Falta-me uma tertúlia, um Cená-culo, falar, ouvir, trocar sonhos e discutir opções de vida. O idealismo poético morre comigo, só, silente…..Pedi licença de casamento e findas as curtas férias, regressei a Leiria (RAL-4, Regimento de Artilharia Ligeira nº 4), onde tinha como oficial superior o major, Ernesto de Melo Antunes (mais tarde bem co-nhecido do povo português) com quem tive longas conversas e passeios à beira rio (Liz) sobre a situa-ção sociopolítica e económica do país. Foi uma amizade profunda e li alguns estudos das mudanças que ele (e outros) preparava para o futuro, e iriam ocorrer nos próximos anos (3 a 5 era a previsão dele). Longos passeios após o jantar na messe, do Castelo, em frente ao quartel, até ao rio a falar e a filosofar. Permaneci ali de abril a setembro 1973. …..A situação nos escalões superiores da hierarquia era de confusão e tensão. A cúpula militar viu oficiais desterrados por, alegadamente, terem tomado parte num abortado mini-movimento para depor o Encar-regado do Governo, Níveo Herdade. Dentre os deportados, um Tenente-coronel, dois Capitães, um Juiz e oficiais milicianos, 25 pessoas. A súbita depuração da hierarquia em tão reduzida comunidade foi enorme e causou ondas de choque. Eu tive sorte e fui excluído do lote ao escrever cartas ao Major Melo Antunes, com quem trabalhara anteriormente, a dar-lhe conta da situação. As cartas enviadas pelo cor-reio militar, sujeitas a censura ou destruição, indicavam que seguiriam por meios seguros, através da Austrália e da Indonésia. Assim fiz de facto ao confiar cópias a “hippies” que faziam de Díli o trampo-lim para chegarem ao paraíso que Bali era. As cartas cheias de descrições sobre tudo o que se passava nos bastidores, e que, muito provavelmente não era conhecido em Lisboa, podem explicar eu não ter sido deportado, como queria o Governador interino, Níveo Herdade, de acordo com documentos secre-tos posteriormente revelados pelo coronel Morais da Silva adiante transcritos. Esta brutal, injusta depor-tação e purga é raramente mencionada nos livros que, posteriormente, se publicaram. O General Ali Murtopo, chefe dos Serviços de Informação Militar revela que ‘representantes de organi-zações políticas de Timor têm dirigido apelos à Indonésia para que auxilie a reintegração do território.’ …Confesso que depois do bem-amado mentor Major Melo Antunes, Vítor Alves era um militar por quem nutria respeito e consideração. Era uma pessoa culta, educada e diplomática… abraço chrysexcertos em chronicaçores
    mais um excerto de 2005 Depois do almoço, os fumadores vieram cá para fora. Estive a conversar com o Tiago, herdeiro da Gorreana (a que sarcasticamente chamava gonorreia por achar os nomes similares). Casa de Chá da Gorreana não é um sítio onde se vai pelas 5 da tarde tomar a “cupoftea” mas onde se planta, trata e vende o chá, uma das duas únicas explorações da Europa, sendo a outra a de Porto Formoso (a 5 km) onde vi tudo sobre a produção. Era sobrinho do Ernesto de Melo Antunes, que conheci como major e a quem devo muita da indoutrinação política quando coabitei em Leiria de abril a setº 1973. Falámos da sua atividade, do primeiro casamento com a irmã da mãe do Tiago e da grande conspiração anti-regime quando aqui esteve exilado. Foi recambiado em março 1974 para cá pelo Marcelo Caetano, pela se-gunda vez. O regime era mesmo estúpido! Escusado será dizer que vim logo ler o livro “Melo Antunes o Sonhador Pragmático” de MªMa-nuela Cruzeiro e Boaventura Santos, ed. Círculo de Leitores e adorei. Nunca me passara pela cabeça que esta terra de gente afável podia ter sido o coio de arrivistas revolucionários do Império. Após o repasto vim para casa, a Nini ficava a ver fazer morcelas, a burra fugia do João e pedia folga