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1º de dezembro na minha historiografia 2011

112. CRÓNICA 112. A ASNEIRA 30 novembro 2011

Caro Daniel [de Sá]

A HELENA não convenceu o Urbano Bettencourt a ir ao lançamento da ANTOLOGIA BILINGUE DE AUTORES AÇORIANOS CONTEMPORÂNEOS, mas conseguiu convencer a Lina (Idalina Ruivo Aires, viúva do escritor Fernando Aires) …e vai lá uma jornalista do Açoriano Oriental que te quer conhecer pois vais ser o primeiro autor açoriano que vai ler – por indicação minha e da Rosário Girão…e chamam-se eles jornalistas…

Parece uma professora colega da Helena que lhe disse que não comprava a Antologia porque nunca na vida tinha lido um livro e não ia começar agora…

Querem formar gente com profs assim?…como sabes a minha mãe é prof primária como tu e tinha criadas (na altura não eram auxiliares técnica de higiene doméstica) a quem ajudou a fazer a 4ª classe.

Algumas delas tinham mais conhecimentos e cultura que alguns destes alegados professores de agora…já desabafei…

t’abraço não do tamanho do mar, mas do tamanho da fossa abissal do Canal do Triângulo…

chega?

chrys

e o Daniel respondia assim

Porquê a surpresa?

A jornalista não leu ainda um autor açoriano porque deve ter tirado o curso na nossa universidade, cujo é de jornalismo e cultura geral.

Onde metes aí escritores açorianos? Quanto à sô pessora, não ler faz parte do quadro mental da maioria.

No máximo, terá lido a “Maria”, que é uma revista altamente recomendável, muito usada por pessoras e advogadas.

Uma vez, abri por acaso uma revista dessas no café que agora é o Sagitário.

Dei logo com a secção de cartas e uma preciosidade.

Numa carta, um rapaz queixava-se de que tinha só um testículo e pedia, claro, um conselho.

Em outra carta, outro rapaz (ou o mesmo com outro nome ou a mesma jornalista com nome alheio) dizia que tinha três testículos e também pedia conselho.

(Já sei que estás a pensar “um dava um dos testículos a mais ao outro”, mas ninguém deu esse sábio conselho.)

Bem fez a Indonésia, há anos, ao impor que os professores deveriam ler um livro por semana.

Lei razoável, se a lista não incluir “Guerra e Paz” ou “O Conde de Monte Cristo”.

T’abraço do mesmo tamanho.

Daniel

Estou mesmo a ver a cena:

– Cara (revista) Maria posso engravidar se tiver sexo oral?

– O meu namorado é gay posso contrair SIDA?

Faz lembrar as anedotas que correm nos jornais sobre um abjeto programa da TVI chamado a “Casa dos Segredos” que mete sexo ao vivo e tudo o mais e no qual uma concorrente disse que a capital de África era Angola ou outra bojardice quejanda.

Mas há açorianos que não desmerecem:

Na escola da Maia um aluno da minha mulher disse que a capital de Inglaterra era a Europa…

Ainda há pouco tempo a revista Sábado fazia entrevistas a universitários que demonstraram uma ignorância atroz.

Disparates a rodos:

Manoel de Oliveira é um maestro,

o autor de ‘Os Maias’ morreu há pouco tempo,

Bush é o presidente dos Estados Unidos – país cuja capital é a Califórnia –,

Quem faz filmes é cinematógrafo,

O símbolo químico da água é PH zero

Leonardo Di Caprio pintou a Mona Lisa –

O teto da Capela Sistina foi obra de Miguel Arcanjo.

Ah, e a chanceler alemã é uma tal de Mércola.

Não se trata só de desconhecimento, pois no final a malta explicou, com orgulho, que de religião, artes, política, informática e cultura geral nada sabe, nem quer saber. Depois dá no que dá, temos um Governo que vai cortar dois dos mais simbólicos feriados civis, o 1º de dezembro (tantas vezes aqui escrevi sobre o tema) que marca o fim do jugo castelhano sobre Portugal pela primeira e única vez na história em que perdeu a independência e o do 5 de outubro que representa a vitória da república sobre a monarquia.

Será – decerto – por ignorância ou por serem maus alunos a história? Por isso, para os ajudar compus umas linhas de homenagem a Natália:

  1. HOMENAGEM A NATÁLIA CORREIA 29 novembro 2011

hoje

decididamente

vou escrever um poema

dedicado aos feriados

que nos roubaram

decreto

que todos os dias

feriados sejam abolidos

os dias da semana

também

e para não esquecermos

tais dias e feriados

se comemorem todas as datas

ao domingo

e seja domingo todos os dias

(e se nos convertermos ao catolicismo

não poderemos trabalhar ao domingo)

***

em homenagem a Natália Correia,

Poema destinado a haver domingo

Deixem ao dia a cama de um domingo

Para deitar um lírio que lhe sobre.

E a tarde cor-de-rosa de um flamingo

Seja o teto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha

Como uma rosa traz abril no seio.

E que o mar dê o fruto duma ilha

Onde o Amor por fim tenha recreio.

In Poesia Completa,

Publicações Dom Quixote 1999

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1º de dezembro na minha historiografia 2009

CRÓNICA 77 – DO IBERISMO AO 1º DE DEZEMBRO – 22-30 novembro 2009

Gostava de ter algumas réstias do meu sempiterno otimismo, mas a minha reserva desoladamente está no seu nível mínimo desde há duas décadas. Mas quando a chuva cai dentro de casa e alaga o chão ou os móveis como se não houvesse teto, ano após ano, tenho de decididamente assumir que estas construções são de péssima qualidade e estes “mestres” de construção não passam de biscateiros incapazes de fazerem uma obra como deve ser.

Mas se vou a um restaurante o resultado é similar com um serviço deficiente a preços de luxo. Se vou a um mecânico automóvel idem aspas. Ou na saúde, na justiça, na ignorância santa dos novos professores e seus alunos, na incompetência dos que governam e mandam. É esta a tradição e não é de hoje, vem de há muitos anos como constatei ao traduzir este parágrafo:

Desde há muito também que se sabe da vinda dos Templários às terras da antiga Lusitânia em 1126, recebendo em doação os terrenos da Fonte Arcada [Póvoa de Lanhoso], por Dona Teresa, mãe de Afonso D. Henriques, sendo seu mestre Guilherme Ricardo.

Dona Teresa também lhes doara o castelo de Soure como primeiro fasto da Ordem. A investida mourisca contra este posto avançado dos cristãos de Coimbra no ano de 1144, foi o grande batismo de guerra dos cavaleiros templários que, então, já haviam transformado esta velha ruína numa fortaleza.

Dizia-se que na convicção templária: «a morte era, de facto, mais bela que a vida comprada com a cobardia». É precisamente este o sentido da divisa ainda hoje utilizada pelos açorianos, que a inscreveram no seu brasão.

Nela é citada a célebre frase de Cipião de Figueiredo e Vasconcelos), conde da vila de São Sebastião (por D. António I) distinguiu-se como corregedor dos Açores durante a crise de sucessão de 1580, tendo governado o arquipélago durante o período conturbado que se seguiu à aclamação nas ilhas de D. António, Prior do Crato como rei de Portugal.

Enquanto a Terceira e as ilhas próximas resistiram ao assalto dos espanhóis à Coroa portuguesa, São Miguel franqueou-lhes a entrada. Estas diferenças tinham que ver essencialmente com o facto de o Corregedor Ciprião de Figueiredo estar sedeado em Angra. Fiel apoiante de D. António Prior de Crato, terá proferido a frase «MAIS VALE MORRER LIVRES DO QUE EM PAZ SUJEITOS».

Por outro lado, a capitania de S. Miguel estava na mão da influente família Gonçalves da Câmara. Além disso, residia nessa altura em São Miguel o Bispo dos Açores, D. Pedro de Castilho, fiel a Filipe II. Além de outros cargos, viria a ser Vice-Rei de Portugal em paga da sua fidelidade à causa castelhana. Mais tarde, o Capitão do Donatário de São Miguel receberia o título de Conde de Vila Franca.

A ele se deve a fortificação e organização da defesa da ilha Terceira que levou à vitória na batalha da Salga.

Foi ele que se negou a entregar os Açores ao poder espanhol, preferindo morrer a favor do Prior do Crato, o último monarca da ímpar dinastia de Avis.

Será simples coincidência de convicção, ou serão mesmo os Açores um dos últimos refúgios da mente templária?

Também em Portugal abundam os que querem fazer esquecer o terror do domínio castelhano e se apressam a entregar o país ao vizinho ibérico. Tal como Miguel Urbano Rodrigues escrevia há apenas três anos:

Os iberistas, ao esboçarem uma Espanha pletórica de energias, de progresso e criatividade, simulam esquecer que o país exibe a mais alta taxa de desemprego da União Europeia anterior ao alargamento. Não aludem sequer ao racismo e à xenofobia que fazem hoje da pátria de Cervantes um dos países europeus onde os imigrantes, sobretudo os magrebinos e os equatorianos e colombianos, são mais discriminados.

Preferem discorrer sobre a localização da capital de uma Ibéria unida, a estrutura institucional do Estado – Federação ou simples transformação de Portugal em mais uma Região Autónoma – e, o papel do Rei D Juan Carlos de Bourbon. …

Nas peculiaridades que diferenciam e aproximam portugueses e espanhóis fala-se do bacalhau, do fado, do flamenco, de marialvas e senhoritos, dos dois idiomas, … longe de serem «muito parecidos», portugueses e espanhóis distanciaram-se progressivamente, exibindo atitudes quase antagónicas.

Trabalham a horas diferentes, transformam o culto do aperitivo num instrumento de convívio, comem a horas diferentes.

O ruído é ali componente da vida, do conceito dos lazeres.

Outra omissão é a falta de referências à colonização económica de Portugal pela Espanha. O processo em curso é avassalador.

Há três décadas a Espanha não existia praticamente como parceiro comercial de Portugal. Hoje ocupa o primeiro lugar nas importações portuguesas.

A invasão do capital espanhol é diluviana. A banca espanhola conquistou uma parcela importante do mercado português.

O mesmo ocorre com a hotelaria e as grandes transnacionais como El Corte Inglês e Zara. As imobiliárias espanholas invadem as cidades, do Minho ao Algarve.

O processo de colonização pacífica, no âmbito do funcionamento do mercado, assume facetas particularmente alarmantes no Alentejo onde capitalistas espanhóis compraram já as melhores terras no perímetro do Alqueva.

Adquiriram milhares de hectares para criação de porcos, instalação de lagares e plantação de oliveiras e vinhas.

Essa invasão do capital espanhol é obviamente festejada pelo Governo de Sócrates e pela grande burguesia como muito positiva. Saúdam os investidores espanhóis como empresários agentes do progresso. Agradecem.

Com a espontaneidade da nobreza de 1383 a saudar D João De Castela e a nobreza de 1580 a alinhar com Filipe II. Essa forma de dominação económica encobre, afinal, uma modalidade de intervenção imperial.

Miguel Urbano Rodrigues, in “Alentejo Popular” (Beja) 02-11-06

Portugal atingiu uma tal irrelevância internacional que ninguém se surpreenderia se fosse uma dependência espanhola, como se de um banco se tratasse e estivéssemos a falar de abrir um escritório na faixa litoral já que o interior está desertificado de gentes e de economias de mercado viáveis.

Por outro lado, despontam a nível governamental várias iniciativas de união ibérica, nem sempre dissimuladas, que pessoalmente me causam engulhos. Porque é um profundo estudioso do assunto e condensou aquilo que se pretende aqui dizer, iremos seguir em duas ou três páginas o que Carlos Fontes escreveu na sua página Lusotopias:

http://lusotopia.no.sapo.pt/indexPTmortedeiberistas.html

O iberismo é um fenómeno típico do século XIX, que emergiu em Portugal e em Espanha, como resposta à teoria das grandes nações então em voga na Europa.

Segundo os seus defensores as pequenas estariam condenadas a serem absorvidas pelas grandes, tal como teria acontecido entre os animais onde os mais fortes extinguiram os mais fracos (teoria darwinista).

O iberismo emerge na sociedade portuguesa como uma manifestação patológica de indivíduos que num dado momento sofreram uma forte influência espanhola ou se assumiram como agentes de interesses espanhóis. Sempre que a situação é melhor no outro lado da fronteira, a integração de Portugal em Espanha surge aos olhos dos iberistas como a solução para resolver a crise, sem trabalho.

Os portugueses consideram os iberistas como elementos degenerados de um povo orgulhoso da sua história e identidade cultural.

A sua atuação em cerca de 9 séculos de História traduziu-se sempre em divisões e conflitos que degeneraram em guerras civis, com um cortejo interminável de mortes.

Alguns assassinatos de iberistas ficaram célebres na História de Portugal. A morte dos iberistas era entendida como um ato de defesa de valores que consideravam fundamentais – dignidade, identidade cultural e liberdade -, mas também uma manifestação de respeito por si próprios.

Um povo que não se respeita a si próprio, nunca será respeitado por outros. Ora, o iberista sempre manifestou um profundo desprezo pela dignidade e liberdade do povo português, agindo de modo a destruir a comunidade que o viu nascer.

É por isso que as razões que os portugueses apresentaram para justificar a morte dos iberistas são em tudo idênticas às apresentadas depois da IIª. Guerra Mundial (1939-1945), para a condenação à morte de nazis e fascistas…existem princípios que não podem ser transgredidos, nomeadamente o respeito que todos os seres humanos merecem na sua dignidade, identidade e liberdade.

As mortes de dois iberistas assumiram uma enorme carga simbólica na história portuguesa, sendo continuamente evocadas: a morte do Conde Andeiro e a de Miguel de Vasconcelos. A morte do Conde de Andeiro, fidalgo galego, foi assumida como o símbolo de liberdade de um povo que recusa as ingerências externas e os jogos palacianos para lhes imporem o que não quer.

Este iberista, um típico traidor castelhano, participou em diversas conspirações ao serviço de Portugal e de Inglaterra. Em Lisboa, acabou por ascender a uma elevada posição na corte, tendo recebido de D. Fernando o título de Conde de Ourém, pondo-se durante a crise de 1383-85, ao serviço de Castela.

Foi assassinado, a 6 de dezembro de 1383, por D. João, mestre de Avis e futuro rei de Portugal.

A sua nefasta ação e de outros esbirros traduziu-se numa violenta guerra civil que só terminou quando os portugueses exterminaram os aliados de Castela.

A morte de Miguel de Vasconcelos exprime simbolicamente a afirmação da identidade cultural de um povo, cuja forte individualidade saiu reforçada após uma opressão de 60 anos.

Este secretário do governo espanhol, ficou tristemente célebre pelo ódio que nutria pelos seus concidadãos.

Em 1634 tentaram-no matar pela primeira vez. Se o tivessem feito, muitas vidas teriam sido provavelmente poupadas. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, quando os portugueses restauraram a independência de Portugal, foi o primeiro a ser morto.

A ação destes iberistas, entre 1580 e 1640, traduziu-se numa brutal opressão da população portuguesa. Após a morte deste esbirro, o povo português travou com a Espanha, durante 28 anos, uma sangrenta guerra na Europa e na América do Sul pela defesa da sua liberdade e dignidade.

Ora bem, como hoje em dia ninguém estuda História, episódios como este perdem a sua força e não são transmitidos de geração para geração, perdendo-se a memória coletiva do povo.”

Continuo a fazer minhas as palavras de Carlos Fontes:

Nas duas últimas décadas, órgãos de comunicação social, em Portugal, usando da liberdade de expressão própria de um regime democrático, têm procurado de forma sistemática abrir fraturas na sociedade, aproveitando momentos particularmente difíceis do país.

As personagens são quase sempre as mesmas, ligadas a interesses obscuros e grupos económicos espanhóis.

O seu objetivo é simples:

  1. Mostrar através de “sondagens” encomendadas ou “discussões” públicas que na sociedade portuguesa existe um grupo de iberistas, cujo objetivo é a dissolução do Estado português;
  2. Dar “voz” à hipotética minoria iberista portuguesa. Ao mesmo tempo, a imprensa espanhola mostra a aceitação à possível integração.
  3. Os supostos iberistas não constituem qualquer corrente de opinião, muito menos são um movimento organizado.

A imprensa afeta aos interesses espanhóis trabalha no terreno das hipóteses…descarada tentativa de desestabilizar a sociedade portuguesa, introduzindo elementos de discórdia e desmoralização coletiva.

Oliveira Martins (1845-1894) é o melhor exemplo dos esbirros iberistas. É difícil de determinar a causa do profundo ódio que manifestava pelos seus concidadãos e o país. Ao contrário de outros, não foi um iberista de circunstância, mas manteve um percurso político coerente com esta aberração.

Antero de Quental, em 1869 era um confesso iberista, dois anos depois já nem fala no assunto, e mais tarde abomina semelhante ideia.

Algo idêntico ocorreu com Teófilo Braga.

Oliveira Martins foi um típico vira-casaca: anarquista (Proudhoniano), socialista, republicano, monárquico, liberal, antiliberal. Defendeu a liberdade, mas também a ditadura. Atacou os ditadores, mas apoiou João Franco. É apontado como um dos introdutores das ideias socialistas em Portugal, mas também como um protofascista. Muitas das suas ideias foram aplicadas por ditadores como Sidónio Pais ou Oliveira Salazar.

Tirando partido da crescente debilidade mental de Saramago, o “Diário de Notícias” (15 de julho de 2007), relançou a questão do iberismo. Este velho comunista, a viver em Espanha afirma que em breve Portugal irá transformar-se numa das suas províncias, não porque os portugueses o queiram, mas porque é melhor para eles.

Quem o diz é este adulador de ditadores como Estaline, Ceausescu ou Fidel de Castro.

Como sempre, outros jornais trataram de fazer eco deste insulto ao povo português. Uma educação salazarenta, 45 anos no PCP e 14 em Espanha, a que se juntou o casamento com uma espanhola foram a receita ideal para produzirem um típico iberista.

Para consubstanciar a ação, Saramago cria uma Fundação cujo objetivo será promover a contestação pública em Portugal, tendo à sua frente uma espanhola….

Três dias depois, uma jornalista da agência de notícias espanhola EFE, aproveita para promover a discussão do Iberismo em torno das afirmações de Saramago. O alvo foi o presidente Cavaco Silva que se limita a afirmar que a união entre Portugal e a Espanha era uma “hipótese absurda”.

Durante as eleições legislativas de setembro de 2009 – a TVI -, um canal de televisão português controlado por espanhóis interferiu diretamente na campanha eleitoral, lançando a suspeita de uma possível interferência do governo português na comunicação social.

Sem qualquer respeito pelas leis de Portugal, a administração resolveu afastar a “jornalista” (Manuela Moura Guedes) que desde 2008 promovia uma campanha de propaganda contra o governo socialista. Ao contrário do que se procurou fazer crer, não se tratou do apoio dos espanhóis a um qualquer partido político.

Estamos perante um canal de televisão onde a propaganda pró-espanhola é constante, e onde os noticiários e a maioria dos programas possuem um objetivo muito claro: desestabilizar a sociedade portuguesa, fomentando os conflitos sociais e denegrindo internamente a autoestima da população.

Não deixa de ser curioso constatar que, enquanto estes factos ocorriam, a comunicação social espanhola procurava lançar nova campanha em defesa das teses iberistas, apoiada numa “sondagem” realizada pela Universidade de Salamanca, com a colaboração de alienados no ISCTE (Lisboa).

A razão por que escolhi este tema para a Crónica de hoje é a data que ora se celebra, o dia da Restauração da Independência de 1 de dezembro de 1640, para que os mais jovens nunca o esqueçam e o deixem de tratar como um dia em que se não trabalha ou não há aulas. Infelizmente, é para a maioria, um dia como outro qualquer aqui nos Açores, sem que o povo se dê conta do seu significado:

“…arrebatados do generoso impulso, saíram todos das carroças e avançaram ao paço. Neste tempo andava D. Miguel de Almeida, venerável e brioso, com a espada na mão gritando: — Liberdade, portugueses! Viva El-Rei D. João, o Quarto!”

A ideia de nacionalidade esteve por trás da restauração da independência plena de Portugal após 60 anos de monarquia dualista. Cinco séculos de governo próprio haviam forjado a nação, fortalecendo-a a rejeitar qualquer união com o país vizinho.

A independência fora sempre um desafio a Castela e uma vontade de não ser confundido com ela. Entre os dois estados foram sucessivas e acerbas as guerras, as únicas que Portugal realmente travou na Europa.

Para a maioria dos Portugueses, os Habsburgo eram usurpadores, os Espanhóis inimigos e os seus partidários, traidores. Culturalmente, avançara depressa a castelhanização do País de 1580 a 1640. Autores e artistas gravitavam na corte espanhola, fixavam residência, aceitavam padrões espanhóis e escreviam cada vez mais em castelhano, contribuindo para a riqueza do teatro, da música ou da arte pictórica espanholas.

Dão a impressão errada de decadência cultural após 1580.

A perda da individualidade cultural era sentida por muitos portugueses, com reações diversas a favor da língua pátria e da sua expressão em termos de prosa e poesia. Contudo, os intelectuais sabiam perfeitamente que os seus esforços seriam vãos sem a recuperação da independência política.

Economicamente, a situação piorara desde 1620 ou até antes. Muitas razões que justificavam a união das coroas ficaram ultrapassadas.

O Império Português atravessava uma crise com a entrada em jogo de holandeses e ingleses. Perdera o monopólio comercial (Ásia, África e Brasil) e a Coroa, a nobreza, o clero e a burguesia haviam sofrido severos cortes de receitas.

Os Espanhóis reagiam contra a presença portuguesa nos seus territórios, mediante vários processos, entre os quais a Inquisição. Isso suscitou grande animosidade nacionalista em Portugal aprofundando o fosso já cavado entre os países. D. Margarida, duquesa de Mântua, neta de Filipe II, exerceu o governo de Portugal, de 1634 a 1640, com autoridade de vice-rei e capitão-general.

A situação económica estava longe de brilhante. Os produtores sofriam com a queda dos preços do trigo, azeite e carvão. A crise afetava as classes baixas, cuja pobreza aumentou sem disfarces.

O agravamento dos impostos tornava a situação pior. Para explicar os tempos difíceis e apaziguar o descontentamento geral, a solução apresentava-se fácil e óbvia: a Espanha, causa de todos os males.

A conspiração a favor da independência congregava um grupo heterogéneo de nobres, clientes e funcionários da Casa de Bragança e elementos do alto e baixo clero.

Em novembro de 1640 conseguiram o apoio formal do duque de Bragança. Na manhã do 1º de dezembro, um grupo de nobres atacou a sede do governo em Lisboa (Paço da Ribeira), prendeu a duquesa de Mântua e matou ou feriu membros da guarnição militar e funcionários, entre os quais o Secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos.

Seguidamente, os revoltosos percorreram a cidade, aclamando o novo estado, secundados pelo entusiasmo popular. Por todo o Portugal, metropolitano e ultramarino, as notícias da mudança do regime e do novo juramento de fidelidade foram recebidas e obedecidas sem qualquer dúvida.

Apenas Ceuta permaneceu fiel à causa de Filipe IV.

  1. João IV entrou em Lisboa a 6 de dezembro. Proclamar a separação fora fácil. Mais difícil seria mantê-la. Tal como em 1580, os portugueses de 1640 estavam longe de unidos. As classes inferiores conservavam intacta a fé nacionalista aquiescendo a D. João IV, mas a nobreza, com laços familiares em Espanha, hesitou e só parte alinhou com o duque de Bragança. O mesmo se passou em relação ao clero.

O novo monarca não gozava de uma posição invejável. Do ponto de vista teórico, tornava-se necessário justificar a secessão: longe de figurar como usurpador, reaveria simplesmente aquilo que por direito legítimo lhe pertencia.

Abundante bibliografia (em Portugal e fora dele) a partir de 1640, procurou demonstrar os direitos reais do duque de Bragança.

Se o trono jamais estivera vago de direito, em 1580 ou 1640, não havia razões para eleição em cortes, o que retirava ao povo a importância que teria, fosse o trono declarado vacante.

Todo o reinado (1640-56) foi orientado por prioridades. Primeiro, a reorganização do aparelho militar, com reparação de fortalezas das linhas defensivas fronteiriças, fortalecimento das guarnições e obtenção de material e reforços no estrangeiro.

Paralelamente, uma intensa atividade diplomática nas cortes da Europa, para obter apoio militar e financeiro, negociar tratados de paz ou de tréguas, e conseguir o reconhecimento da Restauração, e a reconquista do império ultramarino.

A nível interno, a estabilidade dependeu, do aniquilamento de toda a dissensão a favor de Espanha.

A guerra da Restauração mobilizou todos os esforços que Portugal podia despender e absorveu enormes somas de dinheiro.

Pior, impediu o governo de conceder ajuda às frequentemente atacadas possessões ultramarinas. Mas, se o cerne do Império, na Ásia, teve de ser sacrificado, salvou a Metrópole de uma ocupação pelas forças espanholas.

Portugal não dispunha de um exército moderno, as suas forças eram escassas na fronteira terrestre, as suas coudelarias extintas, os seus melhores generais lutavam pela Espanha algures na Europa. Do lado português, isto explica por que motivo a guerra se limitou em geral a operações fronteiriças de pouca envergadura.

Do lado espanhol, é preciso lembrar que a Guerra dos Trinta Anos (até 1659) e a questão da Catalunha (até 1652) atrasavam ofensivas de vulto.

Regra geral, a guerra, que se prolongou por 28 anos, teve altos e baixos até se assinar o Tratado de Lisboa, em 13 de fevereiro de 1668, entre Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha, em que este reconhece a independência do nosso País. [1]

Hoje anda aí muita gente com passaporte português a celebrar o 1º de dezembro como se tivesse sido um desastre ou péssimo acontecimento. Esquecem que se tratou da reconquista da liberdade do povo e da nação subjugada pelo poder dinástico dos Filipes de Castela. Mais vale um povo pobre e livre do que rico na gaiola dourada com as cores do reino de Espanha. Assim dizem os galegos que se aproximam das origens portuguesas preservando língua e cultura. Por vezes, a memória dos homens é curta.

Quase ninguém sabe nem evoca o jovem Miguel da Paz (nascido em 1499) que teria sido Rei de Portugal e de Espanha se não morresse aos dois anos.

É verdade, e infelizmente este “se” é desconhecido da maioria dos portugueses, clamem ou não pelo regresso ao trono espanhol. São deveras interessantes os “pequenos detalhes” da História, que vieram legalizar de pleno direito a sucessão de Filipe II ao trono de Portugal (1580), por morte sem descendência do herdeiro varão, cardeal D. Henrique (68 anos), 9º filho do rei D. Manuel I.

A candidatura de Filipe era fortíssima e praticamente indiscutível. Resultava do casamento da filha terceira de D. Manuel I, com Carlos V (I de Espanha), pais de Filipe I de Portugal (II de Espanha).

São estes pequenos detalhes da vida, que determinam o curso da História. Paradoxalmente, antes da candidatura de Filipe ao trono em Lisboa, a situação poderia ter sido invertida, unificando as coroas ibéricas “para o lado português”.

Em 1499, fora proclamado herdeiro das coroas de Portugal e de Espanha, Miguel da Paz, primeiro filho de D. Manuel I com Isabel, filha dos Reis Católicos.

Azar dos portugueses ou conspiração castelhana, o certo é que morreu com 2 anos de idade. Por estas e outras razões os portugueses serão sempre saudosistas, dos espanhóis, de Salazar e do sonho chamado 25 de abril.

— Quem garante que Portugal seria melhor como província espanhola do que independente? (Os galegos dizem que não)

— Quem garante que não seria Portugal hoje uma célula independentista, tipo ETA, (aliada ou não à Galiza)?

E se fosse ao contrário?

Se o Reino de Espanha fosse hoje uma província de Portugal?

Que aconteceria aos Bourbon? Só tinham utilidade nos EUA. Lá emborcam todos os Bourbon que encontram.

Infelizmente, aqui ao lado, entronizam-nos e chamam-lhes Reis.

[1] (Adaptado de Oliveira Marques, “A Restauração e suas Consequências”, in História de Portugal, vol. II, Do Renascimento às Revoluções Liberais, Lisboa, Ed. Presença, 1998, pp. 176-201).

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1º de dezembro na minha historiografia – 2006

CRÓNICA 32. DO PAÍS QUE ÉRAMOS E SOMOS, À EXPULSÃO DOS JUDEUS, AO IBERISMO, E DOS JUDEUS DE VIMIOSO AO 1º DE DEZEMBRO

32.1. DO PAÍS QUE ÉRAMOS…SOMOS. 27 novembro 2006

Nos primórdios do séc. passado, no jornal O Norte, em 1908, o médico e escritor Manuel Laranjeira[1] lamentava que Portugal fosse “um país onde a inteligência não é um capital e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos”. Republicano, médico, poeta, escritor e filósofo, foi o retrato fiel do português pessimista e do pessimista português. Merecia realmente outra sorte. E merecia, por exemplo, que pelo menos na escola a que empresta, sem saber, o nome, alguém soubesse quem ele foi. Porque a maioria não sabe, ninguém explicou.

“Ando na ‘Manuel Laranjeira’!”

“Quem é esse?”

“Um poeta qualquer de Espinho…”

http://boblog.adrianocastro.net/archives/2005/03/02/42/

Miguel de Unamuno, com quem conviveu em Espinho, havia de escrever, em 1913 no prefácio ao volume de cartas organizado por Ramiro Mourão, que Laranjeira era um grande pensador, mas era um sentidor maior ainda. O artista sobrepujava o filósofo, o docente. Desde cedo, Manuel Laranjeira, médico no Porto, exerceu grande influência, no plano intelectual e humano, na evolução do jovem Amadeo, a quem via nos verões da praia de Espinho, onde seus pais tinham casa. As tertúlias no Café Chinês, os passeios e a troca de correspondência tornariam Amadeo seu confidente. Manuel Laranjeira tinha perante a arte um sentimento de raiz literária da Renascença Portuguesa, entre névoas e saudades.

Esta melancolia não afetava Amadeo, antes lhe provocava desgosto pela futilidade da vida que levava; O tédio das cópias a carvão no casarão do Largo da Biblioteca, as caricaturas de professores e colegas, fraca compensação da mediocridade que deixara em Lisboa e Porto.

Fernando Pessoa chegava a Portugal e Almada Negreiros tinha dez anos de idade. Amadeo, a quem Manuel Laranjeira vaticinara que «haveria de vencer, haveria de triunfar», desenhou o corpo do amigo enrodilhado numa cadeira de café, abandonado, escorregando, um braço estirado sobre o tampo, outro torcido para as costas da cadeira, as pernas magras torcidas e a trunfa negra saindo do chapeirão enfiado pela cabeça abaixo, boneco desarticulado, só de costas e à deriva do destino…

Que diria hoje, Manuel Laranjeira deste país? Provavelmente concordaria que isto é um país de fachadas, de novo-riquismo republicano a imitar os fidalgos de antanho, falidos, mas vestidos com as suas melhores roupas a passearem na Baixa para inveja do povoléu. O país assiste, impávido e sereno a uma procissão de ministros com motoristas particulares, batedores da PSP, e uma grande parafernália e aparato de segurança, como se as ameaças aqui fossem as do dia-a-dia iraquiano.

Um excesso de funcionários dirigentes cuja missão nunca se descortina bem para além de assegurarem os seus “tachos” e os dos seus e assim poderem usufruir de chorudas reformas, conseguidas instantaneamente, em tempo recorde, sem esforço nem dedicação à ”res publica” e enquanto isso, à glebe pedem – cada vez mais – sacrifícios, enquanto impõem mais cortes na segurança social, na saúde, aumentos nos impostos, nos transportes, no gás e gasolina, e mais esforços para o bem da nação. Simultaneamente, os noticiários televisivos avisavam em outubro que as excursões de férias exóticas no estrangeiro, em paragens paradisíacas, se haviam esgotado para o Natal de 2006… algo está mal e ninguém tem a coragem de dizer que o exemplo deve vir do topo, da hierarquia. Povo de brandos costumes, come e cala, porque quem cala consente, sempre assim foi e neste país e continuará a ser. A revolução que falta fazer nunca mais chega.

O ensino que temos é uma lástima, mas, propositadamente, escolhem-se os professores para bodes expiatórios da crise, e se bem que muitos mereçam ser punidos, a maioria come por tabela. Em vez de se extirparem os culpados, aplicam-se as novas medidas draconianas para os incumpridores e para os outros, os que se esforçam e cumprem, mesmo sem ambiente de trabalho apropriado, sem condições físicas ou materiais para exercerem a sua profissão, e receberem de prémio a honra de serem vilipendiados como prémio da sua dedicação.

Entretanto como os miúdos não gostam de Filosofia, Matemática e outras coisas sem relevância, o melhor que há a fazer é cortar essas disciplinas e o seu peso curricular. Os editores agradecem, pois sempre são mais uns livritos a imprimir para os encarregados de educação comprarem. Depois, em vez de porem as crianças a gostar da língua e da gramática inventaram a TLEBS que é uma coisa muito fina, própria de doutores, esquecendo-se que a TLEBS é boa para os filólogos e estudantes do ensino superior que se dedicam àquela área específica da língua. Vai haver uma certa dificuldade porque no ensino do Francês, Inglês e doutras línguas não se podem ensinar aqueles palavrões porque essas línguas se esqueceram de adotar a TLEBS, claro está que a França e a Inglaterra (como todos sabem) são países de analfabetos que não percebem nada de linguística e ninguém lhes disse que Portugal inventara a TLEBS.

Depois da caça ao funcionário público, que é uma figura muito odiada na sociedade, não pelas suas funções, mas pela inutilidade das mesmas, como sempre foi apanágio de décadas e décadas de governação desde o Estado Novo salazarista, surgem depois umas ameaças veladas de que se irá fazer cumprir a lei fiscal para a banca (que ano após ano vem acumulando lucros fenomenais à custa de todos nós) mas acaba tudo em águas de bacalhau, como convém a um país que vai ter de deixar de comer bacalhau, agora em vias de extinção como as ovas de esturjão, ou o famoso caviar servido nos banquetes oficiais, em vez dos bem típicos e portugueses bolos de bacalhau.

No estrangeiro os nossos governantes impressionam todos com a sua fluência linguística em vez de falarem bom português. Os líderes franceses e ingleses promovem respetivamente a Francofonia e a Anglofonia e nós tememos nesta pequenez mental que se assemelha ao tamanho pequeno do país lutar pela Lusofonia pois as ex-colónias podem ofender-se… Ninguém faz nada com o facto de o português ser a sexta língua mais falada no mundo. A figura do Zé Povinho aplica-se agora ao pacóvio do governante português quando vai à estranja. E de sabujice estamos ditos.

Ainda assim, temos um país que se pensa sempre ser pequeno mas não se mede pelo seu tamanho territorial terrestre, pois é dos maiores se considerarmos a plataforma marinha das ilhas, dantes adjacentes e hoje regiões autónomas, da Madeira e Açores. Além do mais já temos as maiores pontes, os melhores estádios de futebol, a maior pizza, a maior panela de assar castanhas, o maior bolo-rei e tanta outra coisa enorme, maravilhosamente grande, cara e inútil. No verão, por seu turno, chegam os incêndios porque não havia dinheiro para cortar o mato e desbravar caminhos corta-fogo, porque a mata cresceu incontrolavelmente, porque os velhos já não desmatam e os novos emigraram todos e ninguém se deu ao trabalho de tomar as precauções devidas. ano após ano. Depois, quando chove um pouco mais, o continente alaga-se e as pessoas perdem os seus haveres, porque se esqueceram de manter os níveis seguros das albufeiras, de limpar os esgotos pluviais, porque se emparedaram ribeiras, porque os patos bravos construíram e os terrenos passaram a estar impermeáveis. Um país de extremos e nenhum deles aconselhável. Mudemos agora de assunto.

32.2. EXPULSÃO DOS JUDEUS. 27 novembro 2006
32.2.1. HISTÓRIA, JUDEUS

Mudemos de tema e de desgraças minorcas de viver na aldeia. A investigação em Portugal não é deficitária e existem muitas vezes estudos sobre determinadas épocas que permitem avaliações satisfatórias, a quem gosta de perceber melhor o nosso passado, mas poucos os conhecem ou não estão ao alcance de quem deles necessita. Não sendo precisamente o caso vertente, pois aqui o que falta é o ensino destas matérias, sabemos pouco e mal sobre a importância dos judeus na nossa história, esses mesmos judeus que fazem parte integrante da nossa herança genética (sabe-se agora que raro era o membro da Inquisição que não tinha sangue judaico).

Uma das questões que sempre me atraiu e quis entender melhor foi a verdadeira razão que existiu para determinar a expulsão dos judeus de Portugal, que (1º) eram uma “mina” de ouro para a Coroa portuguesa em especial para D. João II, (2º) eram fundamentais para a economia portuguesa. O rei D. Manuel I não queria, tentou tudo para o evitar, cometeu atrocidades ao que julgo saber contra o seu caráter e acabou por fazê-lo. Porquê?

Para os açorianos, D. Manuel foi um divisor de águas. Como donatário, criou os senhorios (ou capitães) que dirigiam as ilhas, resguardando os direitos da Coroa (de vida ou morte sobre as pessoas) e da Ordem de Cristo (a jurisdição espiritual), fundou as vilas de Ponta Delgada, Ribeira Grande, Água de Pau (na ilha de São Miguel) e a vila de São Sebastião (na ilha Terceira), organizou o foral alfandegário, criou Misericórdias no arquipélago, além de vários melhoramentos que alavancaram a economia das ilhas atlânticas.

E como hoje andam todos a celebrar o desastre de 1 de dezembro de 1640 eu resolvi recordar que o jovem Miguel da Paz nascido em 1499 tinha sido Rei de Portugal e de Espanha se não morresse ao fim de dois anos. É verdade amigos, como são interessantes os “pequenos detalhes” da História, que vieram legalizar de pleno direito a sucessão de Filipe II de Espanha ao trono de Portugal em 1580, por morte sem descendência do herdeiro varão o cardeal D. Henrique com 68 anos, 9º filho do rei D. Manuel I. A candidatura de Filipe é fortíssima e praticamente indiscutível, já que resultava do casamento da filha terceira de D. Manuel I, com Carlos V (I de Espanha), pais do “nosso” Filipe. Os tais detalhes da vida que determinam o curso da História…

Paradoxalmente algum tempo antes desse acontecimento a situação poderia ter sido de certo modo invertida, unificando as coroas ibéricas “para o nosso lado” *, pois em 1499 um menino chamado Miguel da Paz, primeiro filho de D. Manuel I com Isabel, filha dos Reis católicos, foi proclamado herdeiro das coroas de Portugal e de Espanha. Só que morreu com 2 anos.

Há quem tenha saudades dos espanhóis, há quem tenha saudades do Salazar e ainda há quem tenha saudades do sonho chamado 25 de abril.

Quem me garante que éramos melhor como província espanhola do que independentes?

Quem me garante que não seríamos hoje uma célula independentista como as da ETA?

Quem me garante que teríamos aqueles magníficos jogadores de futebol? Eusébio nunca teria existido…Figo não era um “pesetero” e Deco não tinha necessidade de arranjar outra nacionalidade porque como o Brasil tinha ficado espanhol ele ia jogar pela Argentina…

E se fosse ao contrário e a Espanha fosse hoje uma província de Portugal? Que aconteceria aos Bourbon?

Só tinham utilidade nos EUA onde eles bebem os Bourbons todos que podem, enquanto aqui no país ao lado entronam-nos e chamam-lhes Reis.

São conjeturas apropriadas de ler num dia destes, mas os jornais não especulam sobre estas coisas sérias, antes se comprazem em ridicularizar os candidatos à Presidência porque um Levanta-se e Não Ri e o outro Ri mas já não se levanta!

Com o advento do Cristianismo, logo começaram a ser aprovadas leis discriminatórias contra os judeus – primeiro, pelos romanos, e depois pelos bárbaros (Visigodos) que invadiram a península em 409 d.C… Entre outras coisas, foram proibidos os casamentos mistos entre judeus e cristãos e até mesmo instituída uma conversão forçada ao Cristianismo (a qual não parece ter surtido grande efeito, visto que outras conversões em massa se seguiram ao longo da História).

Em 711 d.C., tropas mouras invadem a Península Ibérica e derrotam os visigodos. Os mouros até foram inicialmente encarados como libertadores pelos judeus, uma visão até certo ponto correta, visto que Cristãos, Judeus e Sabeus (uma categoria nebulosa que incluía os hindus, por exemplo), eram incluídos pelos muçulmanos no grupo dos “Povos do Livro” (Bíblia, Torá, etc.). Os indivíduos que professavam tais crenças podiam continuar a praticá-las sob domínio islâmico, desde que pagassem uma taxa (a jizya) aos governantes e respeitassem as leis islâmicas.

Com a Reconquista (cristã) da Península Ibérica, os judeus passaram novamente a temer pela sua sorte. Todavia, em Portugal gozavam de relativa liberdade e tinham grande destaque na vida pública, como diplomatas, conselheiros reais, administradores, médicos[2], matemáticos[3], astrónomos[4], comerciantes e banqueiros (embora a maior parte da população judaica fosse composta de pessoas com profissões bem mais modestas: alfaiates, sapateiros, tecelões, pastores e pequenos comerciantes).

Isto criou descontentamento entre o povo, que sentia estar “a Cristandade submetida à jurisdição judaica”. A insatisfação generalizou-se e os judeus começaram a ser vítimas de perseguições e violência por parte de populares. Mais ou menos como a situação de destaque económico dos chineses na sociedade timorense. Ressalvadas as devidas proporções.

Quando D. Afonso Henriques conquista Santarém, em 1147, serve-se (fazem sempre isso quando lhes convém) da comunidade judaica que aí vivia, como colonizadora e povoadora do novo reino que se formava. O conselheiro deste primeiro rei (no tempo de Salazar denominado apenas aio para não dar demasiada importância aos subalternos) chamava-se Egas Moniz e era um judeu sefardita português. Aliás, quando o primeiro rei entrega a Yahia Aben-Yaisch o controlo total da arrecadação das rendas públicas, inaugura a política protecionista que continuará, com maior ou menor significado, até D. Manuel I.

Os monarcas precisavam dos judeus, sobretudo por razões económicas. Estes não só possuíam largas fortunas pessoais que ajudavam a corte a sobreviver, como também estavam obrigados a pagar pesadíssimos impostos e tributos. Por isso ocupavam altos cargos públicos (normalmente associados com assuntos do Tesouro), contribuindo para manter baixa tensão entre a população cristã e a comunidade hebraica.

  1. Diniz, filho e herdeiro de Afonso II e, como este, envolvido em questões com o clero ambicioso, em nada modificou a posição favorável em que se encontravam os judeus em Portugal e na qual se mantiveram até a época de D. Duarte. Não somente os dispensou do uso dos distintivos e do pagamento da dízima à Igreja, como também concedeu privilégios especiais a certos indivíduos e a comunidades inteiras.

Com os judeus de Bragança, naquele tempo em número de 19, assinou D. Diniz um tratado logo após a sua ascensão ao poder em 1279, o que nos fornece ampla visão das condições da época. Bragança tornou-se posteriormente um dos centros de maior efervescência judaica. Através desta cidade entraram em Portugal, em 1492, muitos fugitivos de Castela. Depois da conversão forçada em Portugal em 1497, aí predominaram os marranos, ou Cristãos-Novos.

Mas os judeus mais importantes na época não estavam em Bragança, mas sim na Guarda. Na época da expansão marítima, a judiaria da Guarda, uma das mais abastadas, graças ao labor artesanal e mercantil dos seus membros, foi das mais causticadas e das que mais contribuíram para o espírito de cruzada das expedições e também para a defesa do Reino. Infelizmente, a fanática pressão dos reis católicos de Castela junto de D. Manuel I (futuro genro) levou-o a decretar a expulsão ou a conversão forçada dos judeus, em 1496. Para se fazer uma pequena ideia do que foram as recolhas de dinheiro junto da comunidade dos judeus na Guarda, num período de 40 anos, nessa época, bastara referir as seguintes:

Em 1438, a judiaria da Guarda pagou 30700 reais a pedido de D. Duarte para a expedição militar a Tânger.
Em 1440, a comuna da Guarda emprestava 97600 reais ao regente D. Pedro (irmão do Infante D. Henrique), para a expedição de D. Pedro de Castro às Canárias, disputadas pelos castelhanos.
Em 1479 os judeus da Guarda contribuíram para a defesa do reino com 170715 reais, emprestando ainda à Coroa, 80000 reais.

A Guarda conserva um bairro que mantém o aspeto geral da judiaria, os seus arruamentos e casas, não obstante de ter sofrido alterações, principalmente nos últimos decénios. Desde o repovoamento de D. Sancho I até à expulsão e conversão forçada, (1496), sempre aqui houve judeus. Sabemo-lo pelo foral sanchino, pelos costumes e pelo foral novo de D. Manuel I, de 1 de junho de 1510. As casas da judiaria são baixas, térreas ou de um só andar. As casas sobradadas da gente do Povo eram raras até ao séc. XIV, multiplicando-se a partir de então. As moradias dos mercadores apresentam, normalmente, uma porta estreita e uma larga e esta abria para a loja, para o estabelecimento comercial. A estreita dava para as escadas, que conduziam à residência assoalhada sobre a loja de comércio. Curiosamente, muitas têm as ombreiras e torsa trabalhadas em bisel, quer na porta de entrada da habitação, quer na do comércio.

Cada casa tinha duas portas. Uma para a habitação e outra para o comércio

O largo da judiaria, apesar das adulterações, é um dos recantos mais castiços da Guarda primitiva, na modéstia dos seus edifícios. O comércio e o desenvolvimento agrícola incrementado ao longo dos séc. XVI e XVII, modificaram o ruralismo introduzindo na Guarda a arquitetura pesada quinhentista a que se seguiu a filipina, com cornijas salientes, gárgulas de canhão, pátios e amplas salas.

Havia um arrai-menor, o qual, entre outras funções, determinava os tributos que deveriam pagar os judeus daquela comarca, o que por vezes levantava protestos, como aconteceu nos tempos de D. Afonso IV. Os judeus tinham Sinagoga. Deles se regista a presença numerosa dos nomes mais clássicos (embora não exclusivos) de origem cristã-nova em muitos dos atuais habitantes da cidade (ex.: Mendes, Cardoso, Costa, Pereira, Henriques, Cruz, Dias, Baltazar, Vizinho, Gomes, Ramalho, Nunes, Flores, Franco, Vaz, Pinho, Teles, Faleiro, Elias, Mesquita, Oliveira, Ranito, Benjamim etc.).

RUA DA JUDIARIA NOVA

A situação no séc. XIV em Espanha prenunciava o destino que esperava os judeus portugueses. 12 mil judeus morreram vítimas de perseguição religiosa em Toledo (1355) e 50 mil em Palma de Maiorca (1391).

A Inquisição data de 1478. Milhares converteram-se e outros procuraram refúgio em Portugal. 170 mil foram expulsos de Espanha em 1492 e desses, 120 mil refugiaram-se em Portugal.

Historiadores vários dizem que os judeus constituíam cerca de 25% (¼) da população portuguesa. D. João II instituiu a cobrança de dois Escudos por cada imigrante, para permanecer em Portugal por oito meses. Ao fim daquele prazo, os judeus não conseguiram sair de Portugal (disse-se que não havia navios suficientes para transportá-los), o rei ordenou que fossem vendidos como escravos. As crianças entre dois e dez anos foram tiradas de seus pais, batizadas e levadas para colonizar as ilhas de S. Tomé e Príncipe (os seus descendentes, com extrema resistência cultural, conservam alguns costumes judaicos).

Antes da conversão forçada, com D. Manuel I, são bem identificáveis os judeus portugueses, que aqui nasceram e/ou viveram. Tinham um estatuto jurídico e fiscal distinto dos portugueses e aparecem na documentação do reino, com a indicação de judeus ou da nação judaica. São várias as cartas de privilégio passadas pelo rei a judeus, escusando-os por exemplo de usar o sinal, de pernoitar nas judiarias, permitindo-lhes andar por todo o reino, nalguns casos montados e armados. Podiam mesmo ter a qualidade de vizinhos, como é o caso de Isaque Abravanel, judeu, mercador, morador na cidade de Lisboa, que a 7/10/1472 o rei recebeu por vizinho da dita cidade, com todos os privilégios, liberdades e franquezas, como têm os cristãos vizinhos e moradores da dita cidade.

O casamento entre judeus e cristãos estava proibido, bem como todas as relações carnais, havendo mesmo alguns casos de condenação por isso.

Na sua maioria, os judeus desta época eram mercadores, seguidos dos médicos (físicos e cirurgiões) e dos ourives.

Desempenhavam também ofícios variados, ferreiros, alfaiates e gibeteiros. Aparecem também bastantes tecelões, muitos eram rendeiros, alguns da criação do rei e seus servidores, tendo participado nas conquistas de Ceuta e Tânger, por exemplo.

E muitos desempenhavam funções nas judiarias e respetivas câmaras, como vereadores, escrivães, ouvidores, etc. Globalmente pode dizer-se que a comunidade judaica era mais rica do que o povo e até do que muita nobreza. Sobretudo após o êxodo de Castela…

O estatuto social e económico de algumas famílias judias era muito alto. Nestes casos, os homens chegavam a ter o tratamento de Dom e as mulheres de Dona. E podiam instituir e possuir morgadios, como é o caso, por exemplo, de Gabriel Ben Crespo, morador na cidade de Lisboa, que a 24/9/1450 teve confirmação real da doação de um morgadio, com todos os privilégios, honras, graças, mercês, liberdades, usos e costumes, feita a 31/1/1436 por Abraão Romeiro e Lidiça, sua mulher, que o haviam recebido por morte de D. Mousen Navarro, rabino-mor, que morrera sem herdeiros.

Já D. Pedro I tinha confirmado a Isaac Navarro a administração do morgado de Mousen Navarro e sua mulher, Salva, onde se transcreve a carta de instituição. Certos judeus ou Cristãos-Novos conseguiram mesmo chegar à nobreza portuguesa, como é o caso bem conhecido dos Castro do Rio.

É o caso, também, do rico mercador judeu Jacob Baru, falecido em 1471, cujo filho foi para primeiro para a Holanda e depois para Inglaterra, onde o rei Edward IV o batizou de pé com o nome de Edward Brampton, o armou cavaleiro (documenta-se como Sir) e lhe deu o governo da ilha de Guernsey. Com a morte deste rei, voltou a Portugal, adotando o nome de Duarte Brandão, tendo comprado a lezíria da Corte dos Cavalos, no termo de Azambuja, a D. João de Almeida, e a vila de Buarcos, com as marinas de Tavarede e a dízima nova de Montemor, a Martim de Sepúlveda, tudo bens da Coroa que D. João II lhe doou de juro e herdade a 14 de janeiro e 22 de maio de 1487, sendo então já do Conselho deste rei e continuando a sê-lo com D. Manuel.

Paradigmático também é o caso dos Espargosa e dos Alte, que foram nobilitados, não só eles, mas retroativamente os seus ascendentes. O doutor Cristóvão Esteves de Espargosa, desembargador dos feitos da fazenda de D. João III, e sua mulher Isabel da Pinta, foram senhores da quinta de Espargosa, no termo de Mértola, que instituíram em morgadio (7/6/1543), vinculando-lhe ainda a quinta de Vale da Pinta, no termo de Santarém, a herdade do Moutinho, no termo de Mértola, e casas e a quinta da Silveira, no termo de Évora. Cristóvão Esteves foi nobilitado, adotando no nome da sua quinta (Espargosa), que D. João III privilegiou como solar da família e a quem deu carta de armas novas.

Era judeu e fora batizado de pé, sendo filho de Mestre Estêvão (Isaac antes do batismo), boticário em Beja, e sua mulher Branca Esteves. O Doutor Cristóvão Esteves, que a 29/8/1533 teve de D. João III carta de privilégio que supria o seu «defeito de nascimento», foi primeiro procurador dos feitos da fazenda, pelo menos desde 1518 até 14/9/1521.

Deste Cristóvão Esteves foi irmão o licenciado Bernardim Esteves de Alte, desembargador do Paço, senhor da herdade de Alte, no termo de Serpa, de que tirou o nome e que também foi nobilitado por D. João III e confirmado por D. Filipe I em 1583, sendo pai do doutor Cristóvão Esteves de Alte, nascido na corte de Lisboa, doutorado em Leis pela Universidade de Coimbra a 9/6/1553, onde foi lente (16/11/1551), sendo também chanceler e desembargador da Casa da Suplicação, e do doutor Bernardim Esteves de Alte, lente de Vocações (1553) da Faculdade de Leis da Universidade de Coimbra, desembargador da Casa da Suplicação e do Paço, etc.

O rei fez o dito licenciado Bernardim Esteves «Fidalgo, e nobre como se toda sua avoenga o fora», e como «se o dito sollar fora antigo, e os Pays, Avós, bisavós, e tresavós dos ditos L.dos Bernardim Esteves e Simão Gonçalves (Simão Gonçalves Preto, seu genro) fossem Fidalgos de sollar conhecido».

32.2.2. OS NOMES. 27 novembro 2006[5]

Nomes de família de “cripto-judeus”, prevalecentes, mas não de forma exclusiva, nas regiões da Beira-Baixa, Trás-os-Montes e Alentejo[6]:

Amorim; Azevedo; Alvares; Avelar; Almeida; Barros; Basto; Belmonte; Bravo; Cáceres; Caetano; Campos; Carneiro; Carvalho; Crespo; Cruz; Dias; Duarte; Elias; Estrela; Ferreira; Franco; Gaiola; Gonçalves; Guerreiro; Henriques; Josué ; Leão; Lemos; Lobo; Lombroso; Lopes; Lousada; Macias; Machado; Martins; Mascarenhas; Mattos; Meira; Mello e Canto; Mendes da Costa; Miranda; Montesino; Morão; Moreno; Morões; Mota; Moucada; Negro; Nunes; Oliveira; Ozório; Paiva; Pardo; Pilão; Pina; Pinto; Pessoa; Preto; Pizarro; Ribeiro; Robles; Rodrigues; Rosa; Salvador; Souza; Torres; Vaz; Viana e Vargas.

Nomes de famílias judaicas portuguesas na Diáspora (Holanda, Reino Unido e Américas)[7]

Abrantes; Aguilar; Andrade; Brandão; Brito; Bueno; Cardoso; Carvalho; Castro; Costa; Coutinho; Dourado; Fonseca; Furtado; Gomes; Gouveia; Granjo; Henriques; Lara; Marques; Melo e Prado; Mesquita; Mendes; Neto; Nunes; Pereira; Pinheiro; Rodrigues; Rosa; Sarmento; Silva; Soares; Teixeira e Teles (entre muitos outros).

Sobrenomes judaicos de origem portuguesa na América Latina[8]:

Almeida; Avelar; Bravo; Carvajal; Crespo; Duarte; Ferreira; Franco; Gato; Gonçalves; Guerreiro; Léon; Leão; Lopes; Leiria; Lobo; Lousada; Machorro; Martins; Montesino; Moreno; Mota; Macias; Miranda; Oliveira; Osório; Pardo; Pina; Pinto; Pimentel; Pizarro; Querido; Rei; Ribeiro; Robles; Salvador; Solva; Torres e Viana

ADENDA: Nomes de família citados com maior frequência nos documentos da Inquisição, relativos a “relapsos” condenados pelo “crime de judaísmo”:

Rodrigues___ ______453 pessoas
Nunes_______ _____229 pessoas
Mendes______ _____224 pessoas
Lopes_______ _____282 pessoas
Miranda_____ _____190 pessoas
Gomes_______ ____184 pessoas
Henriques___ ______174 pessoas
Costa_______ _____138 pessoas
Fernandes___ ______132 pessoas
Pereira_____ ______124 pessoas
Dias________ _____124 pessoas

Segue uma listagem (reduzida) de nomes de famílias judias e cripto-judias retirada do Dicionário Sefaradi de Sobrenomes:

A

Abreu Abrunhosa Affonseca Affonso Aguiar Ayres Alam Alberto Albuquerque Alfaro Almeida Alonso Alvade Alvarado Alvarenga Álvares Alvarez Alvelos Alveres Alves Alvim Alvorada Alvres Amado Amaral Andrada Andrade Anta António Antunes Araújo Arrabaca Arroyo Arroja Aspalhão Assumção Athayde Ávila Avis Azeda Azeitado Azeredo Azevedo

B

Bacelar Balão Balboa Balieyro Baltiero Bandes Baptista Barata Barbalha Barboza Barbosa Bareda Barrajas Barreira Baretta Baretto Barros Bastos Bautista Beirão Belinque Belmonte Bello Bentes Bernal Bernardes Bezzera Bicudo Bispo Bivar Boccoro Boned Bonsucesso Borges Borralho Botelho Bragança Brandão Bravo Brites Brito Brum Bueno Bulhão

C

Cabaco Cabral Cabreira Caceres Caetano Calassa Caldas Caldeira Caldeyrao Callado Camacho Câmara Camejo Caminha Campo Campos Candeas Capote Cárceres Cardozo / Cardoso Carlos Carneiro Carranca Carnide Carreira Carrilho Carrollo Carvalho Casado Casqueiro Casseres Castenheda Castanho Castelo Castelo-Branco Castelhano Castilho Castro Cazado Cazales Ceya Cespedes Chacla Chacon Chaves Chito Cid Cobilhos Coche Coelho Collaço Contreiras Cordeiro Corgenaga Coronel Correa Cortez Corujo Costa Coutinho Couto Covilhã Crasto Cruz Cunha

D

Damas Daniel Datto Delgado Devet Diamante Dias Diniz Dionísio Dique Dória Dorta Dourado Drago Duarte Durães

E

Eliate Escobar Espadilha Espinhosa Espinoza Esteves Évora

F

Faisca Falcão Faria Farinha Faro Farto Fatexa Febos Feijao Feijo Fernandes Ferrao Ferraz Ferreira Ferro Fialho Fidalgo Figueira Figueiredo Figueiro Figueiroa Flores Fogaca Fonseca Fontes Forro Fraga Fragozo Franca Frances Francisco Franco Freire Freitas Froes/Frois Furtado

G

Gabriel Gago Galante Galego Galeno Gallo Galvão Gama Gamboa Gancoso Ganso Garcia Gasto Gavilão Gil Godinho Godins Goes Gomes Gonçalves Gouvea Gracia Gradis Gramacho Guadalupe Guedes Gueybara Gueiros Guerra Guerreiro Gusmão Guterres

H/I

Henriques Homem Idanha Iscol Isidro Jordão Jorge Jubim Julião

L

Lafaia Lago Laguna Lamy Lara Lassa Leal Leão Ledesma Leitão Leite Lemos Lima Liz Lobo Lopes Loução Loureiro Lourenço Louzada Lucena Luiz Luna Luzarte

M

Macedo Machado Machuca Madeira Madureira Magalhães Maia Maioral Maj Maldonado Malheiro Manem Manganes Manhanas Manoel Manzona Marçal Marques Martins Mascarenhas Mattos Matoso Medalha Medeiros Medina Melão Mello Mendanha Mendes Mendonça Menezes Mesquita Mezas Milão Miles Miranda Moeda Mogadouro Mogo Molina Monforte Monguinho Moniz Monsanto Montearroyo Monteiro Montes Montezinhos Moraes Morales Morao Morato Moreas Moreira Moreno Motta Moura Mouzinho Munhoz

N

Nabo Nagera Navarro Negrão Neves Nicolao Nobre Nogueira Noronha Novaes Nunes

O

Oliva Olivares Oliveira Oróbio

P

Pacham/Pachão/ Paixão Pacheco Paes Paiva Palancho Palhano Pantoja Pardo Paredes Parra Páscoa Passos Paz Pedrozo Pegado Peinado Penalvo Penha Penso Penteado Peralta Perdigão Pereira Peres Pessoa Pestana Picanço Pilar Pimentel Pina Pineda Pinhão Pinheiro Pinto Pires Pisco Pissarro Piteyra Pizarro Pombeiro Ponte Porto Pouzado Prado Preto Proença

Q

Quadros Quaresma Queiroz Quental

R

Rabelo Rabocha Raphael Ramalho Ramires Ramos Rangel Raposo Rasquete Rebello Rego Reis Rezende Ribeiro Rios Robles Rocha Rodriguez Roldão Romão Romeiro Rosário Rosa Rosas Rozado Ruivo Ruiz

S

Sá Salvador Samora Sampaio Samuda Sanches Sandoval Santarém Santiago Santos Saraiva Sarilho Saro Sarzedas Seixas Sena Semedo Sequeira Seralvo Serpa Serqueira Serra Serrano Serrão Serveira Silva Silveira Simão Simões Soares Siqueira Sodenha Sodré Soeyro Sueyro Soeiro Sola Solis Sondo Soutto Souza

T/U

Tagarro Tareu Tavares Taveira Teixeira Telles Thomas Toloza Torres Torrones Tota Tourinho Tovar Trigillos Trigueiros Trindade Uchôa

V/X/Z

Valladolid Vale Valle Valença Valente Vareda Vargas Vasconcellos Vasques Vaz Veiga Veyga Velasco Velez Vellez Velho Veloso Vergueiro Viana Vicente Viegas Vieyra Viera Vigo Vilhalva Vilhegas Vilhena Villa Villalao Villa-Lobos Villanova Villar Villa Real Villella Vilela Vizeu Xavier Ximinez Zuriaga

Fonte: http://ruadajudiaria.com/index.php?p=77

Os judeus anteriores à conversão forçada são também facilmente reconhecíveis pelos nomes, não só pelos nomes próprios, mas também pelos apelidos ou nomes de família. Percorrendo a longa Chancelaria de D. Afonso V (1438-1481) é possível recolher um vasto conjunto de nomes de família tipicamente judeus, se bem que muitos deles apenas se documentem com os nomes próprios, geralmente antecedidos da designação mosse ou mestre.

Esses nomes de família são os seguintes, por ordem alfabética:

A – Abam, Abaya, Abaz, Abeaçar/Abeaça, Abençall, Abraçar, Abenzamorro, Abenazo, Abete, Abez, Abife, Aboa/a Boa, Abraão / Abraham (sobretudo nome próprio), Abravanel, Abroz, Abudente, Açaral, Adaroque, Adereos/Aderes, Adida, Aidara, Alarbom Albarrux, Albogalim, Albotene, Alcabaz, Alcale, Alegria, Alfaquy/Alfaquem/Alfaquim, Alfeice/Alferce, Almalle/Almalee, Almusas Alzagal, Alravel, Alroz, Alvargo/Allvargii/Allvargy, Alvo, Am/Ham, Amalho, Amanilho, Amigo, Amyz, Anyneu, Arary/Arari, Arrobas, Arte, Azeerim/Azecrim, Azenha;

B – Bacoa, Bagally, Barnabé, Barrocas, Barrobe, Bari, Baru/Barru, de Barbova, Baquis, Beacar/Beaçar/Beatar, Bega, Beiçudo/Beyçudo, Beiro, Belacide, Belhamym, Benafull, Benafaçom, Benazo, Benjamim, Bemzamerro Benziza, Beuafaçom, Bichacho, Bicudo, Bixorda, Brafanez, Bono, Boym;

C – Caçez, Cachado, Çaçom/Saçom/Sacam, Cadaley, Çadiz, Caldeirão, Calimy, Çalleicaa, Calvo, Camacas, Camarinha, Canana, Canfi, Capam, Capaya/Capayo, Catarribas, Catelaão/Catalão, Cardinel, Carrilho, Carraf, Caruchel, Castelão /Castelhão, Catam, Catiell, Cefim, Cerasady, Chaveirol, Cide / Cid, Codilho, Cofeiro, de Colhar, Çoleima, Colem, Colodro, Conciel, Cordilha, Coser, Cosfem, Cosim, do Crasto / de Castro, Crespim, Crescente, Crudo, Cudello, Curuto;

D – Dano, Danom, Delhescas, Donhas, Douo;

E – Eide, de Elhifes, Escalona, Espanom, Espantão, Erguas, Erudo;

F – Falaz, Famiz, Famta, Faquom, Faquim, Faracho, Faravom, Fayham/Fayam, Focem, Folega, Frances, Franco/Franquo;

G – Gabay, Gabril, Gadim, Gaguim/Gaguy, Gaim, Galiote/Galite, Galaje, Galante, Garçom, Gayos, Gedelha (sobretudo nomo próprio), Golete, Gota, Guaryto, Gualite, Graço;

H – Husque;

L – de Labymda, Latam / Latão, Lavanca, Lázaro, de Llescas, de Lestes, Levi, Liam, Lias, de Liscas, de Lixeas, Loquem, Lozora;

M – Maalom, Macaz, Machosso, Maçon, Maconde, Martelo, Marracoxy, Mataro, Matrotel, Mayll, de Medina, Menafem, Mocatel, Mocato, Mofejo, Mosejo, Mollaão, Montam, Motaal, Motal, Muça;

N – Nafas, Nanyas, Naniras, Natam;

P – Papo, Palaçano, Palacho, Patteiro, Peço, Pello, Pernica, Pexeiro, Picorro, Piecho, Picho, Prateiro;

R – Ribaro, Ricomem, Rodriga, de Rogos, Romano, Romão, Romdyem, Romeiro, Rondim, Rosall;

S – Samaia/Çamaya, Sanamel, Saraya, Savarigo, Solega;

T – Tarraz, Tavy/Tovy, Toby, Tolledam/Toledano, Tony, Torigo, Tristam;

V – Vaca, Vallency, Varmar, Vascos, Venyste, Viarcis, Vivas/Vivaz, Vidas, Vidos, Vivallaquero;

Z – Zaaboca, Zabocas, Zaquim, Zaquem, Zarco.

Outros nomes usados por judeus desta época têm a aparência de alcunhas, como é o caso de Crespo, Dourado, Querido, Parente e Ruivo (nome usado por vários judeus de Évora, alguns pais e filhos), podendo também ser o caso de Branco e Preto, nomes que também se documentam em judeus, este último o nome de uma importante família de mercadores de Lisboa. Mas Crespo, que também aparece antecedido da partícula ben, seria por isso um nome próprio. E resta saber se alguns outros nomes de aparência portuguesa não são afinal palavras hebraicas homónimas ou pelo menos homógrafas.

Documentam-se também famílias judias com nomes claramente tirados de cidades ou vilas portuguesas: Murça, de Faro, de Leiria, Coimbra, de Lamego, de Tomar, Penafiel, da Pedreneira, de Cea / Seia, da Vitória (uma família do Porto) e Cascais. Se bem que, quando se documentam, estas famílias vivessem em terras completamente distintas das que ostentavam no nome. Como caraterística geral, os nomes judeus nunca têm patronímicos à portuguesa, se bem que pelo menos os nomes antecedidos por ben o pareçam ser. Como é o caso, por exemplo, de Benafaçom, que significaria filho de Afaçom. Na verdade, só se encontram três judeus com nomes de família que podem ser patronímicos à portuguesa: Marcos, Vicente e Manuel, se bem que este último nome também apareça como Manueell.

Claramente patronímico português só um, aliás associado a um primeiro nome cristão. Trata-se de Álvaro Gonçalves, judeu, morador na cidade de Évora, que a 15/10/1454 teve perdão da justiça régia pela fuga da prisão, tratar-se-ia já de um converso (ou um dos vários que foram obrigados a converter-se), ou então um descendente de judeus de Castela, onde as conversões forçadas começaram em 1391 e desde 1449 estavam em vigor os estatutos de pureza de sangue.

Alguns documentos ainda mantêm registados os nomes originais dos judeus que, ao serem batizados, assumiram nomes tipicamente portugueses. Eis alguns exemplos:

Nome Original Judeu –> Nome Cristão Português

Abraão …? –> Gonçalo Dias

Abraão Gatel –> Jerónimo Henriques

Benyamim Beneviste –> Duarte Ramires de Leão

Eliézer Toledano –> Manoel Toledano

Isaac Catalan –> Rafael Dias

Isaac Tunes –> Gabriel Velho

Icer …? –> Grácia Dias

Luna Abravanel –> Leonor Fernandes

Salomão aben Haim –> Luís Álvares

Salomão Coleiria –> Gonçalo Rodrigues

Salomão Molcho –> Diogo Pires

Samuel Samaia –> Pero Francisco

Santo Fidalgo –> Diogo Pires

…? Arame –> Francisco Martins

…? Cabanas –> Estevam Godinho

…? Cohen –> Luís Mendes Caldeirão

…? Gatel –> Francisco Pires

Costuma-se dizer que os judeus tomavam como apelidos nomes de árvores e animais. Mas, a bem da verdade, esses apelidos já apareciam na antroponímia portuguesa desde que se tornou usual a adoção de um nome de família, não sendo, portanto, de ocorrência exclusiva entre os hebreus. Muitos judeus modernos, descendentes dos expulsos da Espanha e Portugal, que hoje vivem principalmente na Holanda, Itália, EUA e Israel, preservam seus apelidos portugueses, às vezes com grafia já deturpada.

A verdade é que vários judeus se converteram ao Cristianismo muito antes da conversão obrigatória. E este batismo obrigou ao abandono do nome judeu e à adoção de um outro, normalmente o do padrinho. É certamente o caso de Simão Homem, judeu, convertido ao Cristianismo, que a 27/4/1473 teve perdão da justiça régia por ter ferido Yuda, judeu, e pela fuga da prisão, mediante o perdão das partes e tendo pago 400 reais para a Piedade. Isto leva à questão dos judeus, anteriores à conversão forçada, que ostentam nomes de famílias da nobreza portuguesa. Não são muitos, mas são alguns, sendo que esta adoção não pode estar relacionada com a conversão, pois usavam esses nomes como judeus. É o caso típico de uma das mais importantes famílias judias de Portugal, os Navarro. Sendo certo, que no séc. XV existia o nome Navarro em cristãos, como é o caso de Gomes Martins Navarro, morador em Altares, que esteve em Alfarrobeira pelo Infante D. Pedro, bem como uma importante família de judeus alentejanos que usava o nome Pinto.

Documentam-se ainda judeus com os nomes do Crasto / de Castro, Lobo, Marinho, Caldeira, Caldas, de Sá, Amado e Pereira. Em alguns destes casos apenas se encontrou um indivíduo com este nome, como é o caso de Isaque Pereira, judeu, morador na cidade de Évora, servidor de D. Afonso V, que a 9/7/1439 lhe confirma um privilégio D. Duarte de 9/4/1434 que o isentava do pagamento de qualquer imposto régio e concelhio, de qualquer encargo e servidões régias e concelhias, de pagar o serviço real novo em cabeças, do direito das sisas, de nenhum encargo na comuna dos judeus, bem como de trazer na roupa o sinal no peito, concedendo-lhe ainda licença para andar em besta muar de sela e freio.

32.2.3. D. MANUEL I, E OS JUDEUS. 27 novembro 2006

Com a ascensão de D. Manuel I ao trono, em 1495, os castelhanos escravizados foram libertados. Todavia, o casamento anunciado do rei com a princesa Isabel da Espanha colocou os judeus novamente em clima de tensão. Isto porque o contrato de casamento incluía uma cláusula que exigia a expulsão dos hereges (mouros e judeus) do território português. O rei tentou fazer com que a princesa reconsiderasse (já que precisava dos capitais e do conhecimento técnico dos judeus para o seu projeto de desenvolvimento de Portugal), mas foi tudo em vão. Em 5 de dezembro de 1496 assinou o decreto de expulsão dos hereges, concedendo-lhes prazo até 31 de outubro de 1497 para deixar Portugal. Aos judeus, o rei permitiu que optassem pela conversão ou desterro, esperando assim que muitos se batizassem.

Durante esse tempo, D. Manuel não faz preparativos para o embarque dos judeus; manda retirar as crianças judias às suas famílias e educá-las em famílias cristãs; isenta de inquérito ou perseguição religiosa todos os Cristãos-Novos durante vinte anos, o que na prática significava que mesmo depois de batizados poderiam continuar a ser judeus; e, finalmente, no momento do embarque, manda batizar à força os últimos renitentes. Assim, a maior parte dos judeus fica em Portugal como Cristãos-Novos. A comunidade judaica desaparece, enquanto entidade autónoma. Mas os judeus, as suas fortunas e as suas capacidades de trabalho, permanecem no país, ao serviço do reino. D. Manuel pode proclamar a “limpeza”de Portugal e ao mesmo tempo desfrutar do que sempre possuiu.

Os judeus, em grande maioria, resolvem, porém, abandonar o país. O rei, ao ver ir por terra sua estratégia, manda então fechar todos os portos de Portugal para impedir a fuga – menos o porto de Lisboa. Foi ali que se concentraram cerca de 20 mil judeus, que esperavam transporte. Em abril de 1497, o rei manda sequestrar as crianças judias menores de 14 anos, para serem criadas por famílias cristãs, o que foi feito com grande violência. Em outubro desse ano, os que ainda assim resistiram a conversão, foram arrastados à pia batismal pelo populacho, incitado por clérigos fanáticos e com a complacência das forças policiais.

  1. Manuel, assustado com a ideia de que os judeus pudessem esconder as crianças e que a sua decisão tomada em Estremoz viesse a extravasar, determinou que a ação fosse executada no domingo de Páscoa. O país viu-se palco de grandes tragédias. Filhos arrancados dos pais, arrastados com violência, tendo-se constatado inúmeras mortes e suicídios. É de se notar a desigualdade embutida nessa ação, pois os mouros, como os judeus, eram passíveis do decreto de expulsão. Não lhes tiravam, porém, os filhos. Por que razão se haveriam de poupar os mouros? A resposta a esta indagação encontra-se no comentário feito pelo cronista Damião de Goes a respeito do assunto, na sua obra Chrónica de Dom Manuel:

“A causa foi porque de tomarem os filhos aos judeus, se não podia recrescer nenhum damno aos christãos, que andam espalhados pelo mundo, no qual os judeus por seus peccados não tem reinos, nem senhorios, cidades nem villas, mas antes em toda a parte onde vivem são peregrinos e tributários, sem terem poder nem authoridade para executar suas vontades contra as injurias e mal que lhes fazem. Mas aos mouros por nossos peccados e castigo permitte Deus terem occupada a mór parte da Asia e Africa e boa da Europa, onde tem impérios e reinos e grandes senhorios, nos quaes vivem muitos christãos debaixo de seus tributos, além dos que muitos tem captivos e a todos estes fora mui prejudicial tomarem-se os filhos dos mouros porque aos que se este agravo fizera, é claro que se não houveram de esquecer de pedir vingança dos christãos… e sobretudo dos portugueses.”

Assim é que os judeus não tinham quem os protegesse, enquanto os árabes possuíam príncipes e reinos poderosos que não só poderiam pôr em perigo a própria estabilidade portuguesa como vingar-se em eventuais súbditos do país que vivessem em seus territórios.

Damião de Goes, dentro da conceção, na época universal, de que os judeus constituíam uma nação, pois sempre foram chamados “os da nação” ou “gente da nação”, compreendeu que sem impérios, reinos, vilas ou poderosos príncipes que os defendessem, os judeus estariam à mercê de seus perseguidores, que poderiam fazer com eles o que bem entendessem. No séc. XVI, a visão de Damião de Goes já tornava clara a necessidade de que os judeus tivessem um estado ou um reino constituído. Damião de Goes, através da sua sensibilidade, talvez tenha sido um dos primeiros europeus que teve a visão do que mais tarde viria a ser o fulcro do movimento sionista.

Foram desses batismos em massa e à força que surgiram os marranos, ou criptojudeus, que praticavam o judaísmo em segredo, mas professavam publicamente a fé católica. Os “Cristãos-Novos” nunca foram realmente bem aceites pela população “cristã velha”, que desconfiava (justificadamente) da sinceridade da fé dos conversos. Essa desconfiança evoluiu para a violência explícita: o Pogrom de Lisboa ocorreu em 1506. A peste grassava na cidade desde janeiro, fazendo dezenas de vítimas por dia, e em abril, insuflados por clérigos fanáticos que culpavam os “Cristãos-Novos” pela calamidade, o populacho investiu contra eles, matando mais de dois mil deles, entre homens, mulheres e crianças.

Assim se iniciava nova diáspora judaica, tendo rumado para o norte da Europa, onde fundaram comunidades nos Países Baixos, sul de França, e Médio Oriente. Após a expulsão dos judeus da Espanha (1492), o mundo árabe acolheu boa parte deles e deu-lhes – tal como aos cristãos – o estatuto de dhimmi, inferior ao dos muçulmanos, claramente mais favorável que o de seus correligionários na Europa, preservando-os das perseguições recorrentes que sofreram na Europa.

Judeus portugueses seguiram com os holandeses para Nova Amsterdão (posteriormente Nova Iorque), onde fundaram uma das mais antigas comunidades judaicas.

No Brasil, chegaram juntamente com os holandeses a Belém do Pará, embora houvesse judeus convertidos na expedição de (Pedro Álvares) Cabral que “descobriu” o Brasil em 22 abril de 1500. Muitos dos judeus sefarditas portugueses fugiram para as montanhas das Beiras Alta e da Beira Baixa tornando-se criptojudeus. Os que se converteram ao Cristianismo passaram a ser chamados “marranos” (de porcos) ou “conversos”, ou Cristãos-Novos.

Só por ironia do destino, não se deixe de salientar, que os Cristãos-Novos portugueses, que se estabeleceram no sul da França nos séculos XVII e XVIII eram conhecidos por “Messieurs les portugais” . Português como sinónimo de judeu.

Com a expulsão dos médicos sefarditas portugueses assim como dos vários eruditos judaicos, Portugal sofreu uma perca terrível de valores intelectuais e até à data ainda não conseguiu recuperar desse desespero, o que nos trás de volta à citação de início.

Portugal arruinou-se (e muito) com a Inquisição, mas as outras nações ganharam com a inteligência e qualidades profissionais dos judeus sefarditas portugueses. É depois da Inquisição que passamos a ver nomes famosos de médicos sefarditas portugueses em todos os países da Europa, não só como professores das faculdades de medicina, mas até médicos privados dos chefes do governo, reis e rainhas. Assim vemos nomes de médicos portugueses em lugares de destaque, tais como Costa, Da Costa, Bueno, Cardoso, De Castro, Da Silva, Fonseca e Nunes.

João Rodrigues Castelo Branco também conhecido por Amato Lusitano (Amatus Lusitanus) além de um bom médico foi botânico em Antuérpia e chegou a ser professor de medicina em Ferrare. Chegou a ser o médico que tratou do Papa Julius III.

Daniel Fonseca fugiu para França e depois foi médico do Príncipe de Budapeste. Judah Abravanel foi para Nápoles, Génova e Veneza tornando-se um médico famoso.

Filoteu Montalto depois de fugir de Portugal foi para Florença chegando ser médico particular do Duque Frederico. Depois foi chamado para tratar da Rainha Catarina de Médicis, em Paris, França, que sofria de enxaquecas e ele receitou-lhe pó de tabaco que naquele tempo “eram as ervas milagrosas”.

Jacob Martinho foi para a Itália onde chegou a ser professor de medicina na Universidade de Roma e médico do Papa Paulo III. Rodrigues da Fonseca foi professor de Medicina em Pisa e Pádua.

Fabrício de Água Pendente foi professor de anatomia em Bolonha e descobriu as válvulas nas veias profundas das nossas pernas e coxas.

Rodrigo de Castro foi para Hamburgo (Alemanha), chegando depois a tratar da Rainha Cristina da Suécia.

Uma grande parte dos judeus sefarditas portugueses fugiu para Amsterdão, onde construíram a maior Sinagoga que há no mundo. É nesta cidade que encontramos muitos nomes de médicos sefarditas portugueses como Fernando Mendes, que depois foi para Londres chegando a ser médico particular da Rainha Catarina de Bragança, mulher do Rei Carlos II, que sofria de gota e este médico judaico sefardita português receitou-lhe, pela primeira vez na Inglaterra, a colquicina, medicamento que ainda se usa hoje no mundo inteiro para o tratamento do ataque de gota!

Foram os judeus sefarditas portugueses que ensinaram os ingleses a fritar peixe, porque levaram com eles o azeite português! Foi a Rainha Catarina de Bragança que ensinou os ingleses a beberem o “chá das cinco” e levou também com ela o uso do garfo para a Casa-Real Inglesa, e até as tangerinas! Foi esta Rainha que deu o nome ao maior Bairro da Cidade de Nova Iorque que se chama hoje “Queens” em sua honra!

A Primeira Rainha de Bristol era 100 % Portuguesa porque no primeiro mapa das ruas de Bristol (1680) aparecem ruas com o nome de “King” (em honra de Carlos II) de “Queen” (em honra da Rainha Catarina de Bragança) e ainda outra rua que dá seguimento a esta que tem o nome de “Catarine Street”.

Os judeus sefarditas portugueses emigraram também para os Açores, Madeira, Cabo Verde, Guiné e Brasil, envolvendo-se na indústria (do açúcar) e nas outras profissões incluindo a medicina. Mesmo da Holanda deram o salto para o Recife, no norte do Brasil, porque os holandeses tinham roubado a Portugal este território. Seguiram depois para Curaçau e Nova Amsterdão que mais tarde mudou o nome para Nova Iorque, quando os ingleses a conquistaram.

Nas listas de processados pelo Santo Ofício, por serem judeus ou Cristãos-Novos, encontram-se milhares de nomes e apelidos genuinamente portugueses, causando mesmo estranheza que nomes hebraicos raramente sejam mencionados. Analisando essas listas, nota-se que qualquer apelido português poderá ter sido, em algum tempo ou lugar, usado por um judeu ou cristão-novo. Não escaparam ao uso apelidos bem cristãos, tais como “dos Santos”, “de Jesus”, “Santiago”, etc. Certos apelidos, porém, aparecem com maior frequência, tais como “Mendes”, “Pinheiro”, “Cardoso”, “Paredes”, “Costa”, “Pereira”, “Henriques”, etc. O de maior incidência, no entanto, foi “Rodrigues.”

Os historiadores sempre assinalaram a nítida diferença com que a Inquisição tratava muçulmanos e judeus. Na verdade, o número de processos por conta de seguidores da religião de Maomé é diminuto e totalmente desproporcional ao do julgamento dos criptojudeus considerados apóstatas da igreja católica por retornarem à prática judaizante.

A maior comunidade judaica encontrava-se em Lisboa, onde havia diversas judiarias. A mais antiga situava-se no bairro da Pedreira, entre os conventos do Carmo e Santa Trindade, e uma mais nova no bairro da Conceição. Desde 1457 existiu uma terceira judiaria perto do Portão de Pedro, chamada judiaria da Alfama. Depois de Lisboa, as maiores comunidades e, portanto, as maiores judiarias, ficavam em Santarém, Lamego, Bragança, Guimarães, Évora, Alcácer, Coimbra, Viseu, Porto, Chaves, Leiria, Trancoso, Alvito, Guarda, Alenquer, Elvas, Estremoz, Faro, Covilhã, Beja, Penamacor, Vila Marim, Castro Marim, Miranda, Porches, Cacilhas, Mesão Frio, Barcelos e Vila Viçosa.

Além disso, parte dos judeus viviam dispersos por várias localidades, faltando-lhes os dez adultos necessários para o serviço divino regular. Esta situação explica a pergunta dirigida por judeus portugueses ao rabino de Barcelona, Salomon Adreth, sobre se dois meninos de 13 anos podiam completar o número de adultos necessários para o serviço divino. A resposta do rabino foi negativa. Os judeus em Portugal precisavam pagar muitos impostos ao Estado. O mais antigo foi provavelmente a juderenga, capitação fixada em 30 dinheiros, como em Castela, onde fora introduzida por Sancho II em 1295, era cobrada pelo fato de Judas ter denunciado Jesus aos romanos pela mesma soma.

Na mesma época, talvez simultaneamente com a introdução do rabinato, estabeleceu-se, sobre este uma taxa que revertia para a Coroa. Também a taxa corporal não era desconhecida em Portugal. Em Beja, por exemplo, cada judeu que nela ingressasse pagava um maravedi como tributo corporal. Além disso, estavam sujeitos a um tributo para o incremento da marinha. Desde o reinado de Sancho II, que fora o primeiro a favorecê-la, tiveram os judeus que fornecer, para cada nau que o rei equipasse, uma âncora e uma amarra com comprimento de 60 côvados ou pagar a soma equivalente de 60 libras.

Cada judeu ou judia recolhia anualmente um “serviço real”. O rapaz de sete a 14 anos, cinco soldos. A menina de sete a 12 anos, dois soldos e meio. As moças maiores de 12 anos, enquanto fossem solteiras, pagavam meio maravedi. O dobro pagava o solteiro que vivesse na casa paterna. O homem ou a mulher, solteiros ou casados, eram taxados respetivamente em 20 e dez soldos. Colheitas agrícolas e transações comerciais também estavam sujeitas a taxações.

No reinado seguinte (Afonso V), a situação dos judeus em Portugal era extremamente favorável. Nenhum dos monarcas anteriores tanto os protegera, parecendo que todas as leis canónicas e restrições vigentes tivessem sido repentinamente suspensas. Viviam fora das judiarias, não usavam distintivos, pavoneavam-se sobre cavalos ricamente enfeitados com custosos arreios, envergando longas túnicas e finos capuzes, com coletes de seda e espadas douradas. Exerciam cargos públicos. Como burgueses livres, também negligenciavam muitos de seus deveres religiosos. Uma descrição contemporânea sobre o comportamento durante o culto, que condiz com as censuras de Abraão Saba (o qual viveu mais ou menos 80 anos depois), é-nos transmitida num pequeno livro por Salomão Alami, que viveu na mesma época do rabino Simão Duran.

As liberdades que Afonso V concedera aos judeus nunca foram bem vistas pela massa ignorante da população e pelo clero corrupto. Isso estimulou novamente, e agora em grau mais intenso, o ódio da plebe. Num auto-de-fé em Coimbra, em 1718, saíram mais de 50 nativos de Bragança, continuando esta cidade a prover, nos anos seguintes, nove décimos do total das vítimas do Tribunal da Inquisição do Norte. Nos registos publicados do Santo Ofício, figuram 805 pessoas da cidade de Bragança.

Uma questão que sempre me atraiu foi a verdadeira razão para determinar a expulsão dos judeus de Portugal, que eram fundamentais e uma “mina” de ouro para a Coroa portuguesa. D. Manuel I, não queria, tentou tudo para o evitar, cometeu atrocidades contra o seu caráter e acabou por fazê-lo. Porquê?

Para Eduardo Mayonne Dias (Universidade of Califórnia, Los Angeles) na sua obra “Os criptojudeus da Faixa Fronteiriça Portuguesa” na realidade D. Manuel não tinha qualquer interesse em expulsar esta comunidade, que então constituía um destacado elemento de progresso nos setores da economia e das profissões liberais. A sua esperança era que, retendo os judeus no país, os seus descendentes pudessem eventualmente, como cristãos, atingir um maior grau de aculturação.

Para os açorianos este rei, foi um divisor de águas. Como Donatário, criou os senhorios (ou capitães) que dirigiam as ilhas, resguardados os direitos da Coroa de vida ou morte sobre as pessoas e da Ordem de Cristo, fundou as vilas de Ponta Delgada, Ribeira Grande, Água de Pau, organizou o foral alfandegário, criou as Misericórdias nas principais povoações do Arquipélago, além doutros melhoramentos que alavancaram a economia das ilhas atlânticas.

32.2.4. JUDEUS NO BRASIL

Marcelo Miranda Guimarães interroga quem foram os brancos portugueses que vieram colonizar o Brasil? Viriam eles atraídos só pelas riquezas e maravilhas da terra Pau-Brasil? A grande verdade é que muitos historiadores do Brasil colonial ocultaram uma casta étnica que havia em Portugal denominada por cristãos-novos, ou seja, os Judeus! Em 1499, já não havia judeus em Portugal só cristãos-novos. Naquele momento de crise, perseguição e desespero, uma porta se abriu quando uma grande esquadra descobre o Brasil em abril de 1500.

O judeu Fernando de Noronha, primeiro arrendatário do Brasil, demanda trazer um grande número de mão-de-obra para explorar seiscentas milhas da costa, construindo e guarnecendo fortalezas na obrigação de pagar uma taxa de arrendamento à coroa portuguesa a partir do terceiro ano. Assim, milhares de judeus fugindo da chamada “Santa Inquisição” e das perseguições do “Santo Ofício” começaram a colonizar o novo país.

Em 1531, Portugal obteve de Roma a indicação de um Inquisidor Oficial para o Reino, e em 1540, Lisboa promulgou o primeiro Auto-de-fé.

Daí em diante o Brasil passou a ser terra de exílio, dos réus de crimes comuns, bem como daqueles que se diziam cristãos-novos, mas continuavam a professar a fé judaica.

Em 1591 um oficial da Inquisição foi designado para a Bahia, então capital do Brasil. Em 1624, a Santa Inquisição processava 25 judaizantes brasileiros. Nomes extraídos do Livro: “Os Judeus no Brasil Colonial” de Arnold Wiznitzer, pp. 35, Pioneira Editora, Universidade de S. Paulo com base nos arquivos da Inquisição da Torre do Tombo, Lisboa:

Alcoforada, Ana; Antunes, Heitor; Antunes, Beatriz; Costa, Ana da; Dias, Manoel Espinosa; Duarte, Paula; Gonçalves, Diogo Lasso; Favella, Catarina; Fernandes, Beatriz; Lopes, Diogo; Franco, Lopes Matheus; Lopes, Guiomar; Maia, Salvador da; Mendes, Henrique; Miranda, Antônio de; Nunes, João; Reis, Ana; Souza, João Pereira de; Teixeira, Bento; Teixeira, Diogo; Souza, Beatriz de; Souza, João Pereira de; Souza, Jorge de; Ulhoa, André Lopes.

É importante ressaltar que nesses processos os sobrenomes abaixo receberam a qualificação de “judeus convictos” ou “judeus relapsos” em alguns casos. Citam-se apelidos ou sobrenomes:

Abreu; Álvares; Azeredo; Ayres; Affonseca; Azevedo; Affonso; Aguiar; Almeida; Amaral; Andrade; Antunes; Araújo: Ávila; Azeda; Barbosa; Barros; Bastos; Borges; Bulhão; Bicudo; Cardoso; Campos; Casado; Chaves; Costa; Carvalho; Castanheda; Castro; Coelho; Cordeiro; Carneiro; Carnide; Castanho; Corrêa; Cunha, Diniz; Duarte; Delgado; Dias; Esteves; Évora; Febos; Fernandes; Flores; Franco; Ferreira; Figueira; Fonseca; Freire; Froes; Furtado; Freitas; Galvão, Garcia, Gonçalves, Guedes, Gomes, Gusmão , Henriques, Izidro , Jorge , Laguna; Lassa; Leão; Lemos; Lopes; Lucena; Luzaete; Liz; Lourenço; Macedo; Machado; Maldonado; Mascarenhas; Martins; Medina; Mendes; Mendonça; Mesquita; Miranda; Martins; Moniz; Monteiro; Morais; Morão; Moreno; Mota; Munhoz; Moura , Nagera; Navarro; Nogueira; Neves; Nunes, Oliveira; Oróbio; Oliva, Paes; Paiva; Paredes; Paz; Pereira; Perez; Pestana; Pina; Pinheiro; Pinto; Pires; Porto , Quaresma; Quental, Ramos; Rebello; Rego; Reis; Ribeiro; Rios; Rodrigues; Rosa; Sá; Sequeira; Serqueira; Serra; Silva; Silveira; Simões; Siqueira; Soares; Souza, Tavares; Telles; Torrones; Tovar; Trigueiros; Trindade, Vale; Valença; Vargas; Vasques; Vaz; Veiga; Velez; Vergueiro; Vieira; Villela.

Todos esses judeus brasileiros, foram julgados e condenados pela Inquisição, sendo alguns foram deportados para Portugal e queimados, como por exemplo o judeu António Félix de Miranda, o primeiro judeu a ser deportado do Brasil. Outros foram condenados a cárcere e hábito perpétuo. os judeus desembarcavam na maioria das vezes na Bahia, por ser o principal porto. Grande parte deles dirigia-se para sul, fixando residência no Rio de Janeiro e Minas Gerais. Outros preferiam Pernambuco e Pará.

A influência histórica judaico-sefardita é inegável.[9]

32.2.5. DOS JUDEUS DE VIMIOSO, ARGOZELO, BRAGANÇA, ETC., 27 novembro 2006.

Com uma população de cerca de 1000 habitantes, a freguesia de Argozelo pertence ao Concelho de Vimioso, distrito de Bragança. Presume-se que esta vila tenha sido criada numa data anterior a 1187. A origem da vila teve a sua génese numa troca entre os monges de Castro de Avelãs, que deram ao rei a sua herdade de Benquerença, no local que é atualmente Bragança e em troca a Coroa dava aos referidos monges a igreja de S. Mamede e as suas vilas de Santulhão, Pinelo e Argozelo, na época chamada Ulgusello. Cem anos depois, ainda os Frades de Castro de Avelãs e o arcebispo de Braga andavam às voltas sobre a real posse daqueles territórios.

Em 1290, D. Dinis dava carta de foro à freguesia, que a partir daí ganhava uma independência administrativa relativa. Só em 1319 um despacho do rei D. Dinis viria sanar o conflito e determinava os verdadeiros direitos sobre a posse da atual freguesia, integrando-o no Concelho de Miranda do Douro. A nível populacional, o crescimento maior deu-se, no entanto, a partir do séc. XVI. Com a expulsão dos Judeus de Espanha, e porque Argozelo se encontra perto da fronteira, centenas de pessoas desta religião acorreu à freguesia, aumentando em muito o seu número de habitantes. O traçado atual da povoação apresenta caraterísticas nitidamente judaicas, com ruas muito estreitas e becos sem saída. Este facto comprova bem a sua importância no desenvolvimento da terra. Para saber mais consulte http://eira.espigueiro.pt/gac-argoselo/

Na igreja ainda hoje se mantêm os lugares fixos das famílias sendo alguns referidos como sendo dos Cristãos-Novos. Contou-nos alguém que a sua avó, muito em segredo, tão em segredo que nem ela saberia já porquê, sabia umas rezas diferentes que rezava também em segredo…. Chamam peliqueiro àquele que prepara ou vende pelicas (peles, especialmente de cabrito, curtidas e preparadas). Chamam peliqueiros aos habitantes de Argozelo, localidade do Concelho de Vimioso, no distrito de Bragança. Ao que tudo indica, a tradição do negócio das pelicas em Argozelo tem raízes judaicas. Assim o fazem crer os relatos dos antigos e os vários documentos históricos escritos sobre as origens daquela terra.

Cruz de Argozelo onde se pensa que existiu um cemitério judaico.

A importância do legado judaico revela-se no símbolo da Junta de freguesia de Carção que tem no brasão um mezuzá[10] e uma menorá, o candelabro de sete braços, um dos mais antigos símbolos judaicos.

Em Argozelo é comum dizer-se que foram os Judeus – “finos” para o negócio e com tradições de comerciantes – quem por aquelas bandas deixou a “semente” dos peliqueiros. Na verdade, na região, a compra de peles (bovinas, ovinas e caprinas) está estritamente ligada a Argozelo, daí que os seus habitantes tenham sido apelidados de peliqueiros. Mas, para além dos relatos populares, também o Abade de Baçal escreveu [no Tomo V da Enciclopédia “Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança”, dedicado à presença dos Judeus na região] que “esses emigrantes [Judeus que no séc. XV vieram para o Nordeste de Portugal] estabeleceram-se nas povoações de Vimioso, Argozelo, Carção, Azinhoso, Chacim, Lagoaça e Moncorvo”, acrescentando que “nos lugares de Argozelo e Carção exercem uns a indústria de surradores de peles”[11].

Luís (Francisco de Paula) Mina é também um profundo conhecedor dos usos e costumes de Carção, uma terra que ocupa um lugar especial em toda a História de Portugal e não apenas do Concelho de Vimioso ou do distrito de Bragança, porque ali se abrigaram muitos judeus perseguidos pelos reis portugueses e espanhóis do período da Inquisição. Segundo explicou Luís Mina e vem desenvolvido no livro em referência, a aldeia de Carção esteve dividida, ao longo dos anos, em dois grupos étnicos diferenciados: os judeus, de um lado, e os chamados “cabrões”, do outro, sem que estas alcunhas tivessem a conotação negativa que se lhe dá nos nossos dias. Os primeiros, como se disse, foram ali abrigar-se das investidas inquisitoriais de alguns reis portugueses, dedicando-se sobretudo ao negócio e a algumas atividades de artífices. Os segundos dedicavam-se sobretudo à lavoura.

Apesar de viverem lado a lado, estes dois grupos não se misturavam no convívio nem no casamento, preservando cada um deles a pureza da sua identidade original. Muitos dos usos e costumes relatados na obra do Sr. Francisco Rodrigues já se foram perdendo ao longo dos tempos, mas sobretudo a partir da segunda metade do séc. XX. Por isso, este livro tem, entre outras, a grande virtude de ajudar a preservar na memória dos mais novos e das gerações futuras os usos e costumes dos seus antepassados. As fontes do autor foram a sua própria memória, porque nalguns casos ainda foi testemunha viva dos usos descritos, e o que ouviu aos seus avós, que lhe contaram muitas outras tradições que ele já não pôde testemunhar. (in Carção, suas gentes, usos e tradições Francisco Rodrigues, ed. CM Vimioso Abril 2001).

Em 1497 em Bragança, predominam os Cristãos-Novos. A Sinagoga ainda existia no início do séc. XX como se lia na descrição duma procissão católica” ao subir a Rua Direita os meus olhos fixavam uma “lata” enrugada, dona de verdete, estampada na fachada de um prédio, no qual uma médica-dentista chumbava e arrancava dentes. A dita “lata” em tempo menos abafado e mais livre, indicava ali existir uma Sinagoga”.

Ou então como se lê na atual página da Câmara Municipal de Bragança:

Com a expulsão dos judeus de Espanha pelos Reis Católicos em finais do séc. xv entra um grande contingente nesta região, calculando o Abade de Baçal (idem, XLVIII) em cerca de três mil os que deram entrada em Bragança.

Foi, com certeza, após esta entrada que o ritmo de desenvolvimento da cidade aumentou, alargando-se o leque das atividades.

O nome mais antigo que possuímos para a ponte d’Além do Rio é de Ponte das Tinarias ou Tenarias. Efetivamente, deve datar ainda do séc. XV ou inícios do seguinte o monopólio dos judeus sobre os curtumes, situando-se as várias unidades que existiam em Bragança ao longo do Fervença, e eram chamadas de tinarias ou pelames.

Diz-nos Bivar Guerra que envolviam «… Muito pessoal dado que as peles para serem curtidas tinham de passar por uma grande variedade de tratamentos oficinais que se praticavam em locais separados e por operários especializados em cada uma dessas operações» (1975: 480).

O tratamento das peles implicava operações em que tinham de se manusear excrementos canídeos que eram apanhados pelas ruas por um operário, fazendo com que esta operação fosse pouco cobiçada. As tinarias tinham de se situar obrigatoriamente à beira-rio, de maneira a poderem esvaziar-se e encher-se regularmente sem incomodar o resto da cidade com os maus cheiros.

Portanto, este «bairro» forma-se progressivamente neste local associado a um tipo específico de profissão ou atividade e não porque os judeus fossem empurrados para fora da cidade.

À volta desta operação floresceram a do calçado, a da selaria e a das solas, dando origem a que se mantivesse uma atividade comercial assinalável, tanto nas oficinas como nas feiras, tendente a fornecer a região de produtos acabados. Estas unidades serão arruinadas a partir de meados do séc. XIX, após a industrialização deste setor verificada no Porto e em Guimarães.

A sua Sinagoga, pelo menos até finais do séc. XV, situava-se no interior da Cidadela e aí se deve ter conservado durante muito tempo, mudando de edifício por vezes, até que se lhe perde a pista já no reinado de D. Manuel, com certeza devido à proibição da religião e culto respetivo, e as referências que por vezes aparecem aludem à «antiga casa da Sinagoga».

Já no primeiro quartel de Setecentos, José Cardoso Borges, no seu manuscrito, faz-lhes uma única referência dizendo que «em esta cidade havia antigamente judeus…» (op. cit.: fl. 208v)

Durante quanto tempo esteve Bragança sem Sinagoga? Simplesmente sabemos que no primeiro quartel do séc. XX recrudesce a atividade judaica a nível de todo o País. Assim, em Bragança, foi instalada uma escola judaica onde se ensinava hebraico em 1923 (Alves, 1975 -1989: XI, 348).

Pouco depois, a 22 de junho de 1928, foi inaugurada a nova Sinagoga de Bragança que funcionou num edifício da atual Avenida João da Cruz até à sua transferência para um segundo andar na Rua Direita, hoje com o n.º 23, após a vinda de um rabino do Porto. A este rabino ainda sucedeu outro de origem inglesa, mas a morte prematura do filho que o acompanhava, na década de 30, leva-o a afastar-se de Bragança. Julgamos nós ter sido este rabino o último a oficiar em Bragança.

Como já foi afirmado, relativamente cedo os judeus passam a controlar grande parte do comércio, das finanças (usura) e da indústria da nossa região. As listas inquisitoriais são elucidativas: segundo o Rol Dos Confessados De Santa Maria, de 1737, havia 21 penitenciados pela Inquisição, situando-se dois intramuros, cinco na Rua dos Oleiros (antiga Rua da Mesquita) e catorze na Rua Direita.

Por outro rol da mesma freguesia e do ano de 1744 ficamos a saber que existiam treze penitenciados na cidade e, salvo dois ou três que não indicam a profissão, eram todos comerciantes ou industriais, com certeza descendentes de Cristãos-Novos, morando um na Rua dos Oleiros, onze na Rua Direita e um no interior da Vila (Alves, 1975-1989: X, 338-340). Julgamos estes dados suficientes para definirmos a dinâmica funcional das ruas da cidade nesta altura. A Rua Direita era, de facto, a rua comercialmente mais dinâmica.

Teria sido aqui no distrito de Bragança, perto de Vimioso que teriam nascido as alheiras? Segundo o Abade Baçal, S. Joanico teve o seu princípio numa quinta que daquele lado da Ribeira “houve” a que se lhe deu o nome de S. Joane, a propagação de vizinhos a aumentou de “hua e outra parte, que chegou a ter Igreja Matriz e a poucos anos sacrário”. (Ab Baç p.537).

O sufixo “ico” e não em “inho”, aparece na região, por influência remota do mirandês como se nota em outras palavras toponímicas da mesma, por exemplo: Lagonica (Lhagonica), Colmenica… Todavia, antes teve o seu nome de San Joane. Observação que levou Leite da Vasconcelos a concluir que em São Joanico, bem como em Serapicos, Avelanoso e Campo de Víboras se tenha um dia falado o mirandês.”

Faz ainda parte da história de S. Joanico, quase ignorada e, talvez um dos seus factos mais importantes – a presença dos Judeus em Cabanas “onde assentaram arraiais, durante três anos, aquando da sua expulsão de Espanha, até obterem autorização de El-Rei para se fixarem em Portugal”.

– As “tabafeias” (alheiras) fazem o cartaz turístico e económico de Mirandela; mas, não teriam nos freixos de Cabanas as suas primeiras origens? O termo tabafeia, termo árabe, poderia ter sido trazido para Portugal pelos judeus, quando, no final do séc. XV são expulsos de Espanha pelos Reis Católicos.

Remonta a essa época a entrada em Portugal de certas comidas e respetiva designação.” A “tabafeia” – a alheira – nasceu em Portugal, (em Cabanas?), como alternativa ao fumeiro de carne de porco que os judeus não faziam nem comiam porque tal comportamento os denunciava como sendo judeus, perante a Inquisição. Então, inventaram este tipo de fumeiro de quase todas as carnes, menos de porco.

32.2.6. O FERIADO DE 1 de DEZEMBRO. 27 novembro 2006

A terminar, passemos agora a uma data (que nada tem a ver com judeus) celebrada esta semana, sem que a maioria da população se dê conta dela ou do seu significado. O 1º de dezembro.

Restauração da independência de Portugal (1640) ……arrebatados do generoso impulso, saíram todos das carroças e avançaram ao Paço. Neste tempo andava D. Miguel de Almeida, venerável e brioso, com a espada na mão gritando: — Liberdade, portugueses! Viva El-Rei D. João, o Quarto!” D. Luís de Meneses em História de Portugal Restaurado

Parece não haver dúvida de que a ideia de nacionalidade esteve por trás da Restauração da independência plena de Portugal após 60 anos de monarquia dualista. Cinco séculos de governo próprio haviam forjado uma nação, fortalecendo-a até ao ponto de rejeitar qualquer espécie de união com o país vizinho. Para mais, a independência fora sempre um desafio a Castela e uma vontade de não ser confundido com ela. Entre os dois estados foram sucessivas e acerbas as guerras, as únicas que Portugal realmente travou na Europa. Para a maioria dos Portugueses, os monarcas Habsburgo não eram mais do que usurpadores, os Espanhóis, inimigos, e os seus partidários, traidores. Mas a Restauração carece de ser explicada por grande número de outros elementos.
D. João foi aclamado como D. João IV, entrando em Lisboa alguns dias mais tarde. Por quase todo o Portugal metropolitano e ultramarino as notícias da mudança do regime e do novo juramento de fidelidade ao Bragança foram recebidas e obedecidas sem qualquer dúvida. Apenas Ceuta permaneceu fiel à causa de Filipe IV.

Como “governadores”, para gerirem os negócios públicos até à chegada do novo rei, foram escolhidos o arcebispo de Lisboa, D. Rodrigo da Cunha, o de Braga, D. Sebastião de Matos de Noronha, e o visconde de Vila Nova de Cerveira, D. Lourenço de Lima.

D. João IV entrou em Lisboa a 6 de dezembro, cessando nesta data as funções dos “governadores”. Proclamar a separação fora coisa relativamente fácil. Mais difícil seria conseguir mantê-la.

Tal como em 1580, os portugueses de 1640 estavam longe de unidos. Se as classes inferiores conservavam intacta a fé nacionalista e aderiram a D. João IV sem sombra de dúvida, já a nobreza, muitas vezes com laços familiares em Espanha, hesitou e só parte dela alinhou firmemente com o Duque de Bragança.

O mesmo se poderia afirmar em relação ao clero. O novo monarca português não gozava por certo de uma posição invejável. Do ponto de vista teórico, tornava-se necessário justificar a secessão: o novo monarca, longe de figurar como usurpador, reaveria simplesmente aquilo que por direito legítimo lhe pertencia.

Abundante bibliografia produzida em Portugal e fora dele a partir de 1640 procurou demonstrar os direitos reais do Duque de Bragança.

Se o trono jamais estivera vago de direito, tanto em 1580 como em 1640, não havia razões para qualquer tipo de eleição em cortes, o que retirava ao povo a importância que ele porventura teria, fosse o trono declarado vacante.

Numerosa literatura de pendor autonomista proliferou visando a legitimação da subida ao trono de D. João IV.

Todo o reinado (1640-56) foi orientado por prioridades. Em primeiro lugar a reorganização do aparelho militar, com reparação de fortalezas das linhas defensivas fronteiriças, fortalecimento das guarnições e obtenção de material e reforços no estrangeiro.

Paralelamente, uma intensa atividade diplomática junto das cortes da Europa – no sentido de obter apoio militar e financeiro, negociar tratados de paz ou de tréguas, e conseguir o reconhecimento da Restauração – e a reconquista do império ultramarino. A nível interno, a estabilidade do regime dependeu, antes de mais, do aniquilamento de toda a dissensão a favor de Espanha.

A guerra da Restauração mobilizou todos os esforços que Portugal podia despender e absorveu enormes somas de dinheiro.

Pior do que isso, impediu o governo de conceder ajuda às frequentemente atacadas possessões ultramarinas. Mas, se o cerne do Império, pelo menos na Ásia, teve de ser sacrificado, salvou pelo menos a Metrópole de uma ocupação pelas forças espanholas.

Portugal não dispunha de um exército moderno, as suas forças eram escassas – sobretudo na fronteira terrestre –, as suas coudelarias haviam sido extintas, os seus melhores generais lutavam pela Espanha algures na Europa.

Do lado português, tudo isto explica por que motivo a guerra se limitou em geral a operações fronteiriças de pouca envergadura. Do lado espanhol, é preciso lembrar que a Guerra dos Trinta Anos (prolongada em Espanha até 1659) e a questão da Catalunha (até 1652) demoraram quaisquer ofensivas de vulto. Regra geral, a guerra, que se prolongou por 28 anos, teve os seus altos e baixos para os dois contendores até ser assinado o Tratado de Lisboa, em 13 de fevereiro de 1668, entre Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha, em que este último reconhece a independência do nosso País.[12]

Cremos que as páginas anteriores serviram para lembrar a muita gente algo que devem ter aprendido nos bancos de escola, desta ou doutra forma menos enfática, mas que com o passar dos anos se foi esbatendo e dela só restava uma longínqua memória.

Esta semana poucos celebram o 1º de dezembro de 1640, mas recordo um personagem especial de quem muitos nunca ouviram falar. Em 24/8/1499 Miguel da Paz, primeiro filho de D. Manuel I e Isabel de Castela, filha dos Reis católicos, foi proclamado herdeiro das coroas de Portugal e de Espanha, mas o jovem morreu com 2 anos.

  1. Miguel da Paz de Trastâmara e Avis (Saragoça, 24 de agosto de 1498 – Granada, 19 de julho de 1500) foi um Infante de Portugal, Castela e Aragão, filho do primeiro casamento do rei D. Manuel I com a infanta Isabel de Aragão, então Princesa das Astúrias e presumível herdeira das coroas de Castela e Aragão.

Após a morte da sua mãe durante o parto, Miguel da Paz (como foi batizado, para selar a paz existente entre as três coroas peninsulares) tornou-se o herdeiro conjunto de Castela (onde foi de imediato reconhecido como Príncipe das Astúrias), de Aragão (e como tal jurado herdeiro nas Cortes reunidas em Saragoça) e de Portugal.

Permaneceu em Castela, em Granada, onde foi educado pelos avós maternos (os Reis Católicos) até atingir a idade de dois anos, data da sua morte precoce, que pôs fim ao sonho da União Ibérica na sua pessoa.

Foi enterrado no Convento de Santa Isabel, em Toledo.

Após a sua morte, tornou-se herdeira das coroas de Castela e Aragão a irmã mais nova da sua mãe, Joana, a qual, pelo casamento com Filipe, Duque da Borgonha, traria a Espanha para a alçada dos Habsburgos.

Em Portugal, o seu sucessor como herdeiro presuntivo viria a ser o filho que D. Manuel teve de uma outra irmã mais nova de Isabel, Maria, e que viria a ser o futuro D. João III. Interessantes estes “pequenos detalhes” da História, que vieram legalizar de pleno direito a sucessão de Filipe II de Espanha ao trono de Portugal em 1580, por morte sem descendência do herdeiro varão, o cardeal D. Henrique com 68 anos, 9º filho do rei D. Manuel I.

A candidatura de Filipe é fortíssima e indiscutível, resultante do casamento da filha terceira de D. Manuel I, com Carlos V (I de Espanha), pais do “nosso” Filipe. A situação poderia ter sido de certo modo invertida, unificando as coroas ibéricas “para o nosso lado, se Miguel da Paz tivesse sobrevivido.

Para os saudosistas que pensam que 1640 foi um desastre histórico ouso perguntar:

  • Quem me garante que estávamos melhor como província espanhola do que independentes?

Se fosse ao contrário e a Espanha fosse hoje uma província de Portugal?

Falava-se Português em toda a América do Sul.

Os Bourbon só tinham utilidade nos EUA onde bebem os Bourbons todos que podem em vez de serem entronizados Reis.

São conjeturas apropriadas, mas os jornais não especulam sobre estas coisas sérias.

©Chrys Chrystello 2006

[1] Manuel Laranjeira (1877-1912) nasceu em São Martinho de Moselos, conselho de Vila da Feira, de uma família modesta. É graças à herança recebida depois da morte de um tio brasileiro que Manuel Laranjeira prossegue estudos e consegue formar-se em Medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Dedica-se desde novo à poesia e ao teatro, colaborando em diversas publicações periódicas, como a Revista Nova, A Arte e O Norte. Viaja, entretanto, até Madrid, visitando o Museu do Prado e mostra interessa em fixar-se em Paris onde se encontrava o pintor Amadeo de Souza-Cardoso, seu amigo. Em 1908 conhece Miguel de Unamuno na cidade de Espinho, trocando correspondência. Troca também correspondência com João de Barros, António Patrício, Afonso Lopes Vieira, entre outros. Em 1912, desesperado com a doença (uma sífilis nervosa), suicida-se com um tiro na cabeça. Obras: “Amanhã. (Prólogo Dramático), A Doença da Santidade (1907), Comigo. Versos dum Solitário (1912), Naquele Engano d’Alma, Cartas (1943), Diário Íntimo (1952), A Cartilha Maternal e a Fisiologia, Dor Surda (novela, 1957), Prosas Perdidas (1958), etc.

[2] Abraão Zacuto foi médico do grande rei D. João II. Era também astrónomo e foi ele que como matemático escreveu o “Almanach Perpetuum” e fez as Tábuas de Navegação que, mais tarde, foram usadas por outro judeu sefardita português de nome Cristóvão Cólon quando fez a viagem às Caraíbas em 1492 e também pelo navegador Vasco da Gama. Foi durante a estadia de Zacuto em Tomar – nome judaico que quer dizer montanha – que se construiu a Sinagoga do Arco ou do Zarco que está agora aberta ao público. Outro judeu que fez parte da armada de Cristóvão Colombo / Cólon chamava-se Mestre Luís de Torres e além de ser poliglota era também judeu sefardita português. Isaac Abravanel foi médico do Conde de Bragança, mas como o Conde foi condenado à morte por estar envolvido numa conspiração contra o Rei D. João II, este sefardita português fugiu para a Turquia chegando a ser médico particular do Sultão Mahmud II, o Grande. José Vezinho (de Viseu) foi também médico do rei. Era matemático e astrónomo e trabalhou também nos projetos de navegação da Escola de Sagres. Este judeu sefardita português foi membro da Comissão que reviu o plano de Cristóvão Colombo para chegar à Índia indo pelo ocidente. Até à Inquisição (1497) TODOS os reis de Portugal foram tratados por médicos sefarditas portugueses! Duma maneira geral todos os reis de Portugal trataram bem os judeus sefarditas portugueses porque lhes reconheciam muita capacidade profissional, não só no campo da medicina e da cirurgia, mas também na matemática, nas finanças como banqueiros e no artesanato

[3] Pedro Nunes (1492-1577) de família marrana e sefardita foi cosmógrafo, matemático e um dos mais destacados astrónomos náuticos portugueses. Foi professor do jovem D. Luís. Escreveu: a)” Tratado sobre a Esfera ” (1537), dando início à moderna cartografia, b) “Tratado sobre a Carta de Marear”, c) ” De arte atque rationale navigandi ” – Tratado sobre Dúvidas de Navegação – e d) ” Annotationes “, sobre a teoria planetária de Purbachio. Foi o primeiro observador do ” Coração do Escorpião” em 1541. Foi o primeiro a traduzir parte do “Tratado de Geografia” de Ptolomeu, do latim para o português. Apesar de viver no auge da inquisição, conservou-se secretamente ligado ao judaísmo.

[4] Abraão Cresques (? — 1387) — Nasceu em Palma de Maiorca, Espanha. Foi um dos maiores mestres cartógrafos, descendente de uma família antiga das Ilhas Baleares (Maiorca, Minorca e Ibiza). Recebeu do rei de Aragão o título de ” Mestre dos Compassos e dos Mapas “. Pode-se encontrar na Biblioteca Nacional de Paris, doado ao rei da França pelo de Portugal, o seu famoso “Atlas Catalão”. Mais tarde ao serviço do rei de Portugal, seu filho Judá Cresques, auxiliou no desenvolvimento da ciência cartográfica. Tornou-se chefe do Observatório Náutico de Sagres usando o nome de Jácome de Maiorca.

[5] Genealogia Judaica Portuguesa, Nuno Guerreiro Josué, at 11/12/2003 in Judeus Portugueses e História. Recebi no Correio da Judiaria várias mensagens de leitores que indagavam sobre as suas eventuais raízes judaicas. Por vezes os nomes de família e as terras de origem dizem tudo, e basta uma consulta rápida em dois ou três livros de história ou genealogia sefardita para confirmar uma conversão forçada ao catolicismo ou um julgamento perante os tribunais da Inquisição. Outras vezes é preciso trabalhar mais para conseguir desenterrar o que em muitas famílias portuguesas é o mais bem guardado dos segredos. Há uma extensa bibliografia que pode ajudar a traçar esta geografia da identidade pessoal de muitos descendentes de judeus portugueses. Aqui ficam alguns dos livros que considero fundamentais: “A History of the Marranos”, Cecil Roth; “Sangre Judia”, Pere Bonnin; “Secrecy and Deceit: The Religion of the Crypto-Jews”, David Gitlitz; “Os Marranos em Portugal”, Arnold Diesendruck; “A Origem Judaica dos Brasileiros”, José Geraldo Rodrigues de Alckmin Filho; “Dicionário Sefaradi de Sobrenomes”, Guilherme Faiguenboim, Anna Rosa Campagnano e Paulo Valadares (ver Folha Online – Dicionário viaja ao passado dos Sefaradi – 06/01/2004)

[6] *in “Os Marranos em Portugal”, Arnold Diensendruck

[7] ** in “Raízes Judaicas no Brasil”, Flávio Mendes de Carvalho

[8] *** in “Os Nomes de Família dos Judeus Creolos”, estudo de Arturo Rab, publicado na revista “Juedische Familien Forschung”, Berlim, 1933

[9] (Fontes Bibliográficas: Os Judeus no Brasil Colonial – Arnold Wiznitzer – Editora Pioneira – SP – 1996, Raízes judaicas no Brasil – Flávio Mendes Carvalho – Editora Nova Arcádia – SP – 1992, Estudos sobre a comunidade judaica no Brasil – Nachman Falbel Fisesp – SP. Judaizantes e judeus no Brasil – Egon e Frieda Wolff – RJ.)

[10] Mezuzá (do hebraico מזוזה “umbral”) é o nome de um mandamento da Torá que ordena que seja afixado no umbral das portas um pequeno rolo de pergaminho (klaf) que contém as duas passagens da Torá que ordenam este mandamento, “Shemá” e “Vehaiá” (Deuteronómio 6:4-9 e 11:13-21). O mezuzá deve ser afixado no umbral direito de cada dependência do lar, sinagoga ou estabelecimento judaico como lembrança do criador. Deve ser posto a sete palmos de altura do chão, apontando para dentro do estabelecimento com a extremidade de cima. Os judeus costumam beijar a mezuzá toda a vez que se passa pela porta, para lembrar das orações que estão contidas ali dentro e os princípios do judaísmo que elas carregam. Na tradição, as mezuzot (plural de mezuzá) dos judeus asquenzitas são posicionadas a um ângulo, enquanto os judeus sefarditas posicionam as suas mezuzot verticalmente

[11] Fátima Garcia in ST, 2005-05-11 http://www.diariodetrasosmontes.com/noticias/complecta.php3?id=7006

[12] Adaptado de A. H. de Oliveira Marques, “A Restauração e suas Consequências”, in História de Portugal, vol. II, Do Renascimento às Revoluções Liberais, Lisboa, Editorial Presença, 1998, pp. 176-201.

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1º de dezembro: há muito tempo já se venderam a Castela…

Havia mais gente na Casa do Cônsul dos EUA no 4th of July do que na Praça da Republica Hoje. Caímos no grau menos 1 da política. Este foi um feriado reposto por puro eleitoralismo. Disse.

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Comments

Jacinto Sousa Ou servilismo inconsciente a “satus quo”?.
Para mim, marcante terem havido Conjurados.
Agora, podem já não serem Espanhois ou estrangeiros.
Sucata e entulho da casa.

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1º de dezembro já

Movimento 1º de Dezembro
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT77986·

Estamos a caminho dos 5.000 subscritores, a marcar bem amor dos portugueses por Portugal e pelo 1º de Dezembro, dia em que celebramos a nossa independência nacional.
Mobilizemo-nos a ASSINAR e PARTILHAR, PARTILHAR, PARTILHAR. A petição dará entrada na Assembleia da República a 12 de Outubro.
Restauração imediata do feriado nacional do 1º de Dezembro
O seu apoio é muito importante. Apoie esta causa. Assine a Petição.
peticaopublica.com

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Restauração imediata do feriado nacional do 1º de Dezembro

Já passámos os 1.450 subscritores e queremos chegar aos 5.000.
É para ADERIR E PARTILHAR.
Força! Muito, muito obrigado.
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT77986
Restauração imediata do feriado nacional do 1º de Dezembro
O seu apoio é muito importante. Apoie esta causa. Assine a Petição.
peticaopublica.com

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antes do 1º de dezembro os espanhóis conquistaram Portugal 1580

José Ribeiro e Castro and José Ribeiro E Castro shared a link.

La batalla en la que los Tercios españoles aplastaron y conquistaron a Portugal
Sigue a partir de las 10:30 la narración en directo de la histórica batalla de Alcántara donde Felipe II y…
ABC.ES|BY M. P. VILLATORO/ CÉSAR CERVERA
Continuar a lerantes do 1º de dezembro os espanhóis conquistaram Portugal 1580

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