SANTOS BARROS autor a descobrir

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Um texto do picoense Tibério Silva (hoje Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça), que foi um dos nossos nesses anos 70 de Lisboa, do Grupo de Intervenção Cultural Açoriano, d’A Memória da Água-Viva (onde publicou, entre outros textos, um longo ensaio sobre Dias de Melo).
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J. H. SANTOS BARROS
Passou, na RTP-Açores, um documentário sobre Santos Barros. Viu-o porque para isso me chamou a atenção o

Urbano Bettencourt

. De outro modo, teria perdido a oportunidade de ver um precioso trabalho, que me fez recuar aos primeiros tempos de Lisboa, altura em que tive o privilégio de conviver com Santos Barros, grande poeta e animador cultural, alguém muito à frente do seu tempo e que, tendo nascido em 1946, foi ceifado por uma morte mais que prematura, em 1983, num acidente de viação, em Espanha, juntamente com sua mulher, também poeta, Ivone Chinita, deixando duas filhas gémeas, então com 9 anos de idade. Se não há justiça na morte, este é um caso clamoroso de injustiça e que nos traz a raiva à flor da pele. Mas também há uma tremenda injustiça no esquecimento a que Santos Barros tem sido votado. Sabemos que tal não acontece só com ele, num país que, em termos culturais, é, cada vez mais, um país de telenovela, dominado por uma mentalidade “pimba”, que foi tomando conta de tudo. Mas importa combater isso e, assim, para quem não conheça Santos Barros, aqui fica um dos seus poemas, com a firme sugestão de que o leiam, porque essa é a maior homenagem que se pode fazer a quem foi (é) grande, pelo que fez em vida e pela obra que nos deixou.

«FAZER VERSOS DÓI
Pregar um prego, lavar pratos, cortar a erva
custa. Mas nunca nada me custou tanto que
carregar um verso das coisas mais difíceis. A fazer
do outro lado da literatura os nós do mundo.
E a desfazê-los. Para os refazer simples
andei por missas, por mares e por selvas —
fossem as puras florestas do desejo ou caves de prédios muito altos.
Nunca rezei por vós nem por mim porque Deus não estava,
mas em todos os sítios encontrei poesia
e dei-me a fazer versos e a fazer amor como quem se imola
e não se amola com a melancolia dos vizinhos
a ver-me apanhar o autocarro ou a chegar
da vida burocratizada que é a profissão
de organizar processos de velhice
para os que vão morrer daqui a pouco.
Pregar um prego custa, se custa! E mais deve custar
oito horas diárias de cadência bruta nas fábricas da loucura:
(eu te digo isto, operário por quem não choro nem rezo
nem te desprezo ao ponto de cantar as glórias do teu amanhã que não há
porque sei que tu sabes ser a Obra tua).
Mas apalpar o verso disso também custa. A mim,
não é tanto a dor explorativa que dói mas o verso que explode
dolorosamente por trás e pela frente e em diagonal
no poema. Agora que começo a escrever a minha morte,
sabem-me os versos aos verões da infância que não houve
sabem à humidade das mesas frias onde vi
os poetas outonais que não conheço fingir que choravam
e recebiam das damas, através dum lenço
a notícia rendilhada da sua condenação à morte.
É certo: tudo aborrece quando já não há canções
iludindo a aspereza da voz que primeiro as cantou
quando se morre como o Ruy Belo de fazer versos.
Venham-me com cantigas!
Digam-me ainda o «mar» é «português»
o Senhor aguarda os «corações» que se elevam ao «alto»
as selvas servem de pulmões do mundo e não há buracos
nos lugares onde deixei bombas e me mataram
e vi a «morte com um sorriso nos lábios»!
Há um frio real nestes dedos e o verso de fevereiro não os aquece.
(“In” “Alexandrina , como era”/Todos os Poemas, Imprensa Nacional, 2018, pp. 273-274)
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  • Grande poesia! Ignorante que sou (era) ela se me fez revelação. Já sei onde comprar o livro. 👌