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O CONTINENTAL QUE GOSTAVA DE REGUADAS|
Tenho com Santa Maria, uma pequena ilha no meio do Atlântico, uma relacão umbilical que não pedi mas que, passados 37 anos (já?) de a ter pisado pela primeira vez, não me sai da pele.
Saí de Lisboa sozinho, com uma mala no porão e fui 2 horas a olhar para o mar, pela primeira vez a bordo de um avião da TAP, imaginando que do outro lado estaria o meu pai, à espera, num banco de areia com dois coqueiros e uma rede entre eles. Era assim que os desenhos do Vasco Granja me mostravam uma ilha e era esse o destino que imaginava.
Cheguei a Santa Maria por escolhas de vida que não foram minhas e foi preciso de lá sair para perceber, eventualmente tarde, que ali passei os melhores momentos da minha infância.
Aterrei a tempo de ver o Carlos Lopes a ganhar aquele ouro mítico em Los Angeles e descobri, uns dias depois na escola, que eu vinha de um Continente. Era portanto, um Continental. Mais tarde passei a Português. Só descobri o que era a FLA alguns anos depois mas lembro-me de um colega na escola me explicar, “tu és Português, eu sou Acoriano”. É bom rapaz, entretanto estudou e certamente limou as arestas (da próxima vez que te vir na Maia, pagas tu a imperial).
Lisboa foi e será sempre o meu porto seguro mas, quando o cérebro pede descanso e sinto que não há mais nada para dar, é em Santa Maria que penso.
Não há mar como aquele. Uma ilha tão pequena, com 5000 habitantes e 22 km, se a memória não me falha, na maior distância possível de percorrer entre dois pontos e, mesmo assim, cheia de paisagens absolutamente deslumbrantes, trilhos pedonais magníficos e as melhores praias do arquipélago.
Por ali descobri também, aos 8 anos e na sala da terceira classe, com quem me iria casar. E disse-o, que nessa altura era mais falador do que agora, mas ninguém me levou a sério. Ainda hoje me acusam de levar a vida a brincar. Calúnias.
O meu pai teve que ir à escola umas vezes para a professora lhe dizer que eu respondia a tudo, menos ao que ela perguntava. Julgo que nunca lhe contou das reguadas mas tudo bem, valeram a pena. Dadas em frente à turma, com uma vista desobstruída para a futura senhora Franco. Molin de 50 cm, bem gordinha, foi a minha primeira flecha do cupido.
Em Santa Maria há uma sensacão de comunidade, de pertenca, de não estarmos sós. E há gente muito boa, que me ensinou a ver a vida de outra forma. Portanto, não terei sido eu a escolher ir viver para o meio dos coqueiros, mas jamais largarei, por opcão, uma terra que também considero minha.
E é nesse contexto que comecarei a colaborar, sem amarras nem agendas, com o jornal da ilha, o quadragenário Baluarte (
https://www.facebook.com/jornal.obaluarte/
), o que me enche de particular orgulho.
Para muitos que por aqui passam serão temas distantes e de um mundo paralelo. Para quem sabe o que é uma boa sopa de império, conhece o trilho do forte de São Brás ou o aérodromo que nasceu na praca do munícipio, espero trazer qualquer coisa de novo.
E já agora, muito obrigado pela oportunidade.
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- Verdade! Conto os dias para o meu regresso a Santa Maria
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- 32 m
- E é bom que escrevas, porque escreves muito bem. E isso, pode até nem parecer, mas é cada vez mais urgente. Mesmo que não concordemos com tudo o que é dito, é muito mais interessante discordar de textos bem escritos
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- 30 m
- Parabéns
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- 27 m
- Já pensaste em comprar um motor Volvo Penta para o teu barco a remos? Fazias Lisboa a Vila do Porto num abrir e fechar de olhos, ou o tempo de levar uma réguada.
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- 12 m
- da’ vontade de a descobrir, essa pequena ilha no meio do Atlântico
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- 9 m
- Boa noticia essa
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- 8 m