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Regionais 2020
Até agora não me foi possível acompanhar o pós resultados eleitorais do passado domingo, dia trágico a vários níveis, sendo um deles a eleição de dois deputados do Chega. Sobre isso já muito se escreveu até porque já se adivinhava. Mas mais do que “bater” no Chega e em André Ventura, é importante retirar as devidas lições. Cada partido e cada um de nós como parte de uma sociedade que vai apodrecendo na sua própria lama.
Não sou politóloga e toda a análise que se segue parte da minha observação, de conversas com muitas pessoas ao longo dos anos e por conversas que se ouvem por aí meio-sem-querer. Sou apenas uma açoriana que procura estar atenta e que, acima de tudo, quer o melhor para estas ilhas.
1. O acto eleitoral decorreu sem incidentes, com respeito pelas regras sanitárias e a abstenção diminuiu embora ainda com uma percentagem que me envergonha.
2. Parabéns ao novo deputado das Flores, pelo PPM, Gustavo Alves. Que seja um defensor da ilha e dos interesses da região.
3. Felizmente e para bem da sanidade mental doa açorianos não foi eleito Paulo Margato. Continuo sem perceber como é que Paulo Estêvão e o PPM podem dar cobertura a tanto desvario. O PPM elegeu dois deputados mas foi também eleito o partido com a pior campanha eleitoral. A baixaria e a falta de respeito são um mau exemplo para não falar na irresponsabilidade de algumas vídeo intervenções.
3. Este foi um ano difícil para todos nós. Foi também difícil para quem governa. Não há decisões perfeitas. Quem decida erra. Quem não decide acha sempre que tudo sabe. Uma das coisas que mais ne repugna é a falta de gratidão. Vasco Cordeiro teve um último ano de mandato difícil e quanto a mim geriu da melhor forma a crise sanitária num contexto em que ninguém no mundo parece saber qual é a melhor forma de a gerir. Vasco Cordeiro sempre me pareceu um homem sério, honrado e com sentido de Estado. Isso só por si não apaga a erosão de um governo PS com 24 anos, não esconde o mau estar que se percebe nas várias Secretarias e nas guerras palacianas. Também não apaga o dossier SATA nem a Casa da Autonomia.
Um Governo forte precisa de pessoas fortes. Os açorianos, em geral, gostam de Vasco Cordeiro mas não estão a gostar do PS ou de algumas pessoas que estão no PS. O autismo ou a arrogância de não perceber isso paga-se caro e foi isso que aconteceu.
O PS, quanto a mim, deu o primeiro tiro no pé ao escolher Francisco César para capitanear a campanha eleitoral. Em relação à dinastia César muito se fala e demasiado mal, por sinal. Carlos César foi, na minha opinião, um grande preaidente dos Açores. Em 96 eu e tantos jovens fomos contagiados com a sua energia, com o seu sentido autonómico e com a sua capacidade política. César cometeu erros como todos os presidentes de todos os Governos mas ficará na memória como uma figura importante para os Açores. O que Carlos César parece ainda não ter percebido é que já não é o Presidente do Governo Regional. Continua esta figura omnipresente, qual padrinho da mafia que gosta de controlar os seus afilhados e fica sempre à espera que lhe beijem o anel. Carlos César não tem qualquer necessidade disso para se afirmar. Vasco Cordeiro ainda menos.
Em relação a Francisco César não tem culpa de ser filho de Carlos César. Terá certamente muito de que se orgulhar do seu pai e aspectos haverá que não gostará tanto, como acontece com todos nós em relação aos nossos progenitores. Penso que será difícil estar sempre a ser alvo de comparações. Francisco César tem direito a estar na politica e tem direito às suas aspirações pois afinal tudo o que tem feito na vida é dedicar-se ao PS Açores. O que Francisco César não percebe é que a minha geração e as gerações abaixo da minha não querem que ele seja o sucessor de Vasco Cordeiro. Não por ser filho de César mas porque não apreciamos nem o discurso, nem o estilo nem a prepotência. Sublinho que estou a falar em termos políticos pois não tenho qualquer animosidade pessoal contra Francisco César. Além disso, ficamos com a ideia de que Francisco César não tem a noção do que pensam e querem os jovens açorianos, sobretudo aqueles que têm 24 anos, nascidos e criados em governos PS. O que tenho a certeza é que a esmagadora maioria dos jovens açorianos quer não é o mesmo que Francisco César e, por isso, presumo que nunca poderá a próxima opção – porque não sera eleito.
A paródia dos cartazes e dos emojis era excusada mas gostei mais do slogan “Os Açores precisam do seu voto” do que “P’rá frente é que é caminho”. Mais uma vez o cartaz é sintomático: Vasco Cordeiro aparecer sozinho em 2020 vale mais votos do que o PS Açores. É outro aspecto que deveria merecer reflexão dentro do partido.
Outra coisa que me chamou a atenção na campanha, sobretudo nas ilhas mais pequenas, onde há uma tradição de maior valorização do candidato do que do partido a que concorre, foi o facto dos candidatos a deputados pelo PS e pelo PSD “pedirem” votos para Vasco Cordeiro e para Bolieiro em vez de fazerem o tradicional apelo ao voto em si próprios e no seu manifesto. Fora qualquer bairrismo, cada concelho conhece e sabe avaliar o trabalho dos deputados ou a esperança que deposita nos novos candidatos. Em relação à ilha das Flores creio que nesse aspecto os jovens do CDS/PP, PPM e Bloco de Esquerda, apesar da sua falta de experiência, conseguiram ter um discurso de proximidade na abordagem aos problemas e creio que muitos jovens se identificaram mais com isso do que com o discurso de enfileirar pelo partido. Seria interessante analisar o sentido de voto por faixas etárias.
O facto de ter saído esta notícia no jornal Expresso no dia 17 de Outubro foi o segundo tiro no pé do PS Acores. A poucos dias de eleições não se apontam sucessores mas vencedores. O PS deverá deixar de ser uma espécie de seita e voltar a ser o partido plural que foi no passado.
4. O PSD fez uma campanha pela positiva mas continua a faltar algo na mensagem difundida. Incluir Duarte Freitas nas listas foi um tiro no pé. Os açorianos perdoam mas não esquecem.
5. Gostei da campanha do Bloco de Esquerda, sempre combativo e com grande incidência nas questões ambientais. Parabéns à recém-eleita Alexandra Manes, minha conterrânea que sempre assumiu a luta pelos direitos humanos, dos animais e pela igualdade de género.
7. Sigo sempre com muita atenção as proposta do LIVRE que “olha para a defesa das pessoas e da natureza como uma mesma coisa”. Seria bom que todos os partidos escutassem a proposta de sociedade defendida pelo José Azevedo.
8. Em relação às possíveis coligações desejo que impere o sentido de responsabilidade mais do que a ganância dos partidos. Os Açores precisam de um governo forte para enfrentar os grandes desafios dos próximos anos. Um dos maiores desafios será a defesa da democracia. O maior continua a ser o das alterações climáticas, embora não esteja no topo das prioridades de nenhum dos partidos.
Espero que ninguém ceda às tentações do Chega. Quero acreditar que Bolieiro é o homem honrado que sempre me pareceu ser.
Quero acreditar que Vasco Cordeiro terá a nobreza de escolher o melhor para os Açores. Mais importante do que “quem vai ao leme” é saber qual é o rumo a seguir.
Vai ser preciso partir muita louça. É preciso fazer o que tem de ser feito. Isso exige coragem e sabedoria. Precisamos de líderes fortes e com bom coração.
É preciso cuidar do que é nosso. É preciso acabar com a cultura do “coitadinho” e da “preguiça”. Precisamos de uma maior participação cívica, de maior escrutínio e de maior exigência. A democracia não se esgota no momento do sufrágio. A democracia faz-se todos os dias. Espero que todos tenham aprendido a lição.



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