Quando a cultura ignora os talentos regionais

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Quando a cultura ignora os talentos regionais
Em Portugal há um hábito que nos sai naturalmente: dar mais valor a quem vem de fora do que a quem cresce ao nosso lado. Nos Açores, esse hábito ganha contornos quase poéticos, se não fosse tão pouco inocente. Olhamos para o exterior como quem olha para um palco iluminado e, por vezes, esquecemo-nos de acender a luz dentro de casa.
Valoriza-se o artista que chega, o nome que já vem embalado, o reconhecimento que traz selo de aprovação exterior – mesmo que essa aprovação seja, por vezes, superficial ou circunstancial. O talento local, esse, fica muitas vezes em suspenso, como se precisasse primeiro de partir para depois merecer aplauso. É uma lógica estranha, mas persistente: só acreditamos verdadeiramente em quem já foi validado longe. Perto é para abafar, desvalorizar, criticar.
O exemplo recente de Sofia Ribeiro como embaixadora da ilha Terceira ilustra este paradoxo. Não sendo terceirense, representa oficialmente a ilha. Não está em causa o seu mérito, nem o seu percurso. A questão é outra, mais incómoda: o que diz isto sobre a forma como olhamos para os artistas locais? Quantos criadores terceirenses, que trabalham diariamente com cultura, nunca foram sequer considerados para esse lugar simbólico?
O caso torna-se ainda mais gritante quando pensamos em nomes como Nuno Bettencourt. Natural da ilha Terceira e músico de reconhecimento internacional, acaba de conquistar um Grammy e continua a levar o nome dos Açores aos maiores palcos do mundo. Poderia ser ele – entre tantos outros açorianos com mérito, percurso e impacto real – um embaixador natural da ilha que o viu nascer. Em vez disso, escolhe-se quem nasceu longe, como se a proximidade diminuísse o valor, como se o sucesso só fosse legítimo quando vem carimbado de fora. Que mensagem passa esta incoerência? Que raio de lógica cultural é esta que ignora quem já provou, vezes sem conta, ser capaz de representar os Açores de forma ampla, consistente e profundamente enraizada?
Há aqui qualquer coisa de profundamente ridícula. Um certo deslumbramento com o exterior, misturado com desconfiança em relação ao que nos é próximo. O artista local é visto como “um de nós”, o que, paradoxalmente, o torna menos extraordinário. Falta-lhe a distância necessária para ser admirado. Como se o talento precisasse de quilómetros para ganhar valor.
É curioso como se fala tanto de identidade açoriana e tão pouco de quem a constrói diariamente. A cultura não nasce em discursos, nem em campanhas, nem em cargos inventados ou carinhas bonitinhas na TV. Nasce do trabalho persistente de pessoas concretas, muitas vezes invisíveis, que criam apesar da falta de apoios, de público ou de reconhecimento.
Valorizar quem vem de fora não é, por si só, um erro. O erro está em fazê-lo à custa de quem está, ou nasceu, cá. Uma cultura saudável acolhe, mas também sustenta. Convida, mas não esquece. Celebra o exterior sem amputar o interior.
Porque quando escolhemos ignorar os nossos, não estamos a ser cosmopolitas – estamos apenas a ser pequenos e medíocres. E assim continuamos: ilhas cheias de talento, mas vazias de coragem para o reconhecer.
Só lá fora, somos os maiores – parece que quanto mais longe, melhor.
Ao Nuno, parabéns, por levar o nome dos Açores pelo mundo, pelo seu trabalho e por todos os reconhecimentos.
Aos que por cá decidem, talvez fique um resto de vergonha… E não se esqueçam de mudar o nome do aeroporto!
Catarina Valadão
Pedro Paulo Camara

Catarina, é esta a franqueza necessária. É isso.

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