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Crónica deste sábado:
Muito estimados fumadores
Por sugestão de um dileto amigo, resolvi escrever-vos, coisa que ainda não me houvera ocorrido, conquanto faça eu parte deste cada vez mais minguado e restrito grupo populacional – mas é assim, quanto mais próxima nos é uma realidade tanto menos nela atentamos, curiosidade que bem serviria de mote a uma crónica, quiçá um dia sobre tal discorra, hoje a vocês, muito estimados fumadores, me dirijo e a vocês algumas palavras endereçarei, as que me parecerem mais justas, ou mais ajustadas.
Bem sabem vocês o que toda – ou muita, muitíssima – gente vos diz: que fumar é profundamente nefasto para a saúde, que nos envelhece a pele, que nos deixa manchas nos dentes e mazelas nas gengivas, que potencia toda a sorte de ataques, desde os cardíacos aos de asma, passando por outros cujo teor agora me escapa, que leva a morte prematura, coisa que muito fará padecer a vossa família e amigos, enfim. Isto vos dizem gentes muito bem-intencionadas e também os maços de tabaco, estes segundos ousada e desrespeitosamente – então gasta um fumador três euros e trinta cêntimos, ou mais, num maço de cigarros e tem de levar com mensagens e imagens deprimentes? Acho mal. E, por tal, não vos direi o que é politicamente correto, senão o que se me afigura acertado. Creio que vão gostar de me ler, muito estimados fumadores – já vai fazendo falta uma outra perspetiva sobre o ato de fumar, não vos parece?
Não negarei o que tantos e tão insignes médicos e investigadores dizem – que o tabaco é nefasto para a saúde. Notemos, todavia, que muitíssimas coisas a que não nos podemos eximir também o são, e ninguém anda a alardear que, por exemplo, não devemos sair de casa porque os gazes dos escapes dos automóveis fazem mal, ou que não devemos comer fruta por causa dos pesticidas nem frango por causa das hormonas que engordam estes bicharocos, ou que não é conveniente falar alto e muito porque faz mal à garganta. Pois é! Parece que o único inimigo da humanidade – medonho e fatal – é o tabaco. E não é, pois não, estimados fumadores e outros que acaso também leiam esta carta? A verdade é que, cada vez mais, embora sempre tenha sido assim, viver é um risco permanente, e estão os nossos dias todos contornados de perigos iminentes, aos quais não podemos isentar-nos, portanto mais vale viver sem preocupações excessivas, até porque essas também fazem muito mal à saúde – o que é que não faz?
Em abono do uso do tabaco – queiram ter paciência, caros antitabagistas que acaso estão a ler esta missiva – direi que, além de ser apenas mais um dos incomensuráveis malefícios que nos cercam, é um hábito – vá lá, vício, se assim o quiserem os antitabagistas – que muito prazer proporciona a quem o tem. Qual de vocês, estimados fumadores, não sente um sensual frémito ao puxar do cigarro, acendê-lo, absorver o fumo vagarosa e intensamente, despejá-lo numa longa baforada? Ah, pois é! Os antitabagistas não sabem deste prazer, verdadeiramente intenso, praticamente erótico. Não fazem ideia do que estão a perder, é a verdade, mas não queremos influenciá-los, pois não estimados fumadores? O que queremos é que nos deixem em paz com o nosso prazer, que, para mais, tanto pode ser solitário como comunitário. E ainda relaxante. Muito mesmo. Só nós o sabemos. Portanto, estimados fumadores, deixemos os cães ladrarem enquanto a caravana passa, resistamos a modismos, sejamos fieis aos nossos cigarros. Isqueiros e cinzeiros, tendo sempre o cuidado de não conspurcar nem chão nem os cidadãos que connosco convivem.
Deixo-vos um beijinho muito solidário