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Capela de Santa Cruz
[Situada no sítio das Eiras, em Ventozelo, concelho de Mogadouro] é tradição que foi mandada construir por um dos ascendentes dos Távoras que, andando em batalha contra os mouros(40), pediu a Deus que o auxiliasse, e se ganhasse a batalha iria, depois dos mouros serem expulsos de Portugal, todos os anos visitar Jerusalém.
Ganha a batalha, derrotados os mouros em toda a linha e expulsos de Portugal, começou ele a cumprir a sua promessa. Foi visitar Jerusalém um certo número de vezes, mas por fim, já velho e cansado com o peso dos anos e trabalhos da vida, não pôde acabar de cumprir a sua promessa. Prometeu então que, em recompensa, mandaria construir um templo no termo de Mogadouro, onde os cristãos pudessem visitar tudo quanto tinha visto de grandioso em Jerusalém(41).
(40) Foram os Távoras uma das famílias mais antigas e nobres de Portugal. Segundo alguns registos históricos, moldados ou diluídos em relatos lendários, têm a sua origem numa mulher moura, de nome Zahara, convertida ao cristianismo. D. Ramiro II de Leão, repudiando a sua esposa, Dona Urraca, raptou Zahara, a qual se fez cristã e obteve por baptismo o nome de Artida. Desta relação nasceu Alboazar Ramirez, cujos filhos viriam a ser ferozes inimigos dos mouros. Um deles, chamado D. Rausendo, foi o progenitor dos Távoras. Ao vencer os mouros, em 1037, nas margens do rio Távora, afluente do Douro, terá nascido aí o nome por que se tornou conhecida esta família (Pereira, 1908: 150). Deste D. Rausendo, a memória oral conserva igualmente o relato alusivo à criação da vila de Santa Marta de Penaguião, no Alto Douro, que é também apresentado neste trabalho.
(41) São famosas as esculturas do interior desta capela, representando os passos de Cristo até ser pregado na Cruz, num registo aproximado dos motivos que o fundador da capela teria observado em Jerusalém.
Fonte: PEREIRA, José Manuel Martins, As Terras de Entre Sabor e Douro, Setúbal, J.L. Santos, 1908, pp. 105-106.