O MAL DE ACORDO COM DOSTOIÉVSKI

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O MAL DE ACORDO COM DOSTOIÉVSKI
Notícias, Cultura
200 anos: O mal de acordo com Dostoiévski
Antonio Fernandez Vicente, professor de Teoria da Comunicação, Universidade de Castilla, traduzido por Cezar Xavier Mancha
Para Dostoiévski, o mal era um segredo indizível. Disse em Subssoil Memories que existem segredos que confessamos a poucos, outros que não confessamos a ninguém e que nos atormentam escondidos, e aqueles que, como o mal, povoam as mais profundas e ocultas profundezas da alma.
Humilhação e orgulho
Em grande parte, o mal e o ódio vêm da ofensa e da humilhação, do orgulho ferido. Escrevendo sobre Dostoiévski, o escritor André Gide reconheceu que “a humildade abre as portas do paraíso; a humilhação as do inferno ”.
O orgulho implica o desejo de superioridade e é o núcleo moral do narcisismo, do qual brota a indiferença para com o sofrimento dos outros e o desprezo. A ferida no orgulho desencadeia frustrações e ressentimentos que corroem a consciência.
Sofrer humilhações e ver a dignidade ser retirada pode ser o prelúdio para o surgimento da vergonha e da ruína. Uma sociedade que humilha multiplica os males entre os humilhados. O ódio alimenta o ódio e a miséria material pode levar à miséria moral, como lemos em Humilhados e Ofendidos .
Em O Diabo, Giovanni Papini observou que “quem é mais alto também está mais sujeito ao orgulho”. E se Lúcifer foi punido por seu orgulho, “enterrado e confinado na escuridão ilimitada da solidão e do ódio”, o que pensar do desejo ilimitado de ser cada vez mais alto? Para basear nossas vidas no sucesso, na ambição e na inveja do parasita, e teme o fracasso mais do que qualquer coisa?
O desprezo
Em Crime e Castigo, arrogância e deificação significavam que Raskolnikof não tinha escrúpulos em matar uma velha porque a considerava um obstáculo em seu caminho.
Para o mal, os outros nada mais são do que instrumentos que se opõem aos seus fins, coisas que devem ser sacrificadas para alcançar o sucesso. Eles são desprezados porque não são reconhecidos como seres humanos, mas como objetos que nos servem. E quem despreza se sente superior, experimenta um prazer voluptuoso em exercer a dominação.
Mesmo a maldade e o desprezo absoluto dos outros podem ser banalizados e feitos todos os dias. O mal pode se tornar uma rotina a seguir, como a filósofa Hannah Arendt explicou sobre o paroxismo do mal que era o nazismo.
E esse desprezo excessivo era também o que, na história, Vlas fazia dois camponeses lutarem pela façanha de cometer o crime mais vil. O que os movia era “a necessidade de chegar ao limite, de almejar fortes sensações que conduzem ao abismo”.
Tédio e liberdade
Se não tivéssemos a liberdade de decidir como somos, o mal não existiria, nem a virtude. Nos personagens de Dostoiévski, a batalha interior sangrenta que surge da capacidade de escolher nosso destino é travada.
E às vezes a infâmia é escolhida, mesmo que seja para sair da rotina. Talvez seja essa necessidade de quebrar a monotonia que nos leva a lutar com os outros. Talvez seja assim que se justifique nossa tendência a rejeitar o descanso e a tranquilidade. Talvez porque muito do mal nasce do tédio, porque preferimos a oportunidade de fazer o mal a não fazer nada. E talvez seja por isso que Blaise Pascal disse: “Todo o mal humano vem de uma única causa, a incapacidade do homem de ficar quieto em uma sala.”
Escolhemos o abjeto seduzido pelo fascínio da transgressão, daquilo que contraria a norma e a lei. Lemos em Os Irmãos Karamazov : “Não há nada mais sedutor para o homem do que o livre arbítrio, mas também nada mais doloroso.”
Nesse sentido, os personagens de Dostoiévski estão relacionados à filosofia existencialista de Jean Paul Sartre :“Estamos condenados a ser livres.”
Amor e ódio
Os personagens de Dostoiévski nunca são planos ou superficiais. Vislumbramos neles a dualidade profunda e paradoxal do ser humano, sua complexa contradição, pois em uma mesma pessoa convergem dois personagens opostos e indissolúveis: o bem e o mal.
É assim que em Os Demônios, o personagem de Stavróguin aponta que ele sente a mesma satisfação em querer fazer uma boa ação e em desejar o mal. Os extremos se encontram e a beleza acaba se fundindo com o grotesco.
Em Dostoiévski, virtude e mal são simultâneos. É assim que o lemos em Doctor Jekyll and Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson: em uma única pessoa encontramos a contradição do céu e do inferno, a luz e a sombra do claro-escuro de Rembrandt.
É sobre a oposição entre uma inclinação para a união e o desejo de destruição. É o que Sigmund Freud chamou de Eros e Thanatos: pulsão de vida e morte.
Acima de tudo, Dostoiévski buscava realização, vida infinita. Por isso mesmo, era insuportável para ele deixar de lado sua dimensão perversa e degradada. Teria sido algo como retirá-lo de uma de suas partes fundamentais. Seus personagens são lançados no precipício moral, na crueldade e na libertinagem do mal. E então o escritor Stefan Zweig avisou : “Viver bem significa para ele viver intensamente e experimentar tudo, o bom e o mau ao mesmo tempo, e em suas formas mais intensas e inebriantes.”
Dostoiévski explorou esses abismos de maldade em toda a sua crueza. Revelou a verdade secreta do mal, aquele lado que ninguém quer ver cara a cara. Sua leitura não é fácil nem confortável, requer o comprometimento afetivo do leitor. Pode ser que o que ele nos descobre não seja de fato do nosso agrado, que até nos enoja. Mas, como Kafka observou, “um livro deve ser o machado que quebra o mar congelado dentro de nós”. E Dostoiévski sem dúvida provoca uma agitação interna em quem ousa lê-lo.
Um sonho
Lemos em seu romance O Idiota, nascemos para fazer o outro sofrer. No entanto, em O sonho de um homem ridículo , talvez a mais bela de suas histórias, um homem à beira do suicídio sonha com um mundo de harmonia desprovido de baixeza desumana. E embora seja uma ilusão utópica, um paraíso inatingível dada a nossa natureza, aquele “homem ridículo” que não ligava para nada e ninguém acaba dizendo: “Eu não quero e não posso acreditar que o mal é uma condição normal das pessoas”.
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Assim vão os CTT em Portugal!!

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Assim vao os CTT em Portugal!!
A 7 de outubro entrou em Portugal via CTT, uma encomenda, com origem nos EUA e dirigida à minha pessoa! Recebi email para tratar do processo de desalfandegar a encomenda!
Fi-lo com o apoio da linha CTT, sempre bem atendido, pelo funcionário com garantia de que tudo estava perfeito, estranhando o não recebimento da encomenda, voltei à carga, repetimos o processo mais duas vezes, sempre com sucesso e garantia de que ia receber a referida encomenda.
Hoje, como não recebi nada, entrei em contato com a linha de apoio CTT, fui informado que a encomenda foi devolvida à procedência a 28 de novembro!
À minha revolta e indignação, fui informado que encomenda chegou hoje à América e que entre em contato com a origem, para reclamarem junto dos correios lá, para que estes reclamem com os CTT Portugal!!
Está tudo grosso neste país à beira mar plantado!!
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a ESTE PROPÓSITO LEIAM
https://blog.lusofonias.net/voltem-as-caravelas-os-ctt-agradecem-cronica-260-1-6-2019/
Publicado em economia pobreza banca tax Transportes terrestres work emprego-greves-trabalho-labour-escravatura | Comentários fechados em Assim vão os CTT em Portugal!!

VOLTEM AS CARAVELAS, OS CTT AGRADECEM, CRÓNICA 260, 1.6.2019

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18.3. VOLTEM AS CARAVELAS, OS CTT AGRADECEM, CRÓNICA 260, 1.6.2019

 

Emitida a 18 de abril a carta emitida em Lisboa com o respetivo cartão bancário chegou à Lomba da Maia, S Miguel, Açores a 31 de maio, com uma impressionante rapidez de 43 dias que demorou a atravessar o mar adamastor que nos separa de Lisboa, sem notícia de furacões, vulcões ou sismos e menos ainda de greves aéreas.. Quase que batia o recorde de cem dias da carta emitida pela MEEA (Associação de Jornalistas Australianos) em 8 de dezembro na Austrália e que aqui chegou a 19 de março, mas isso justifica-se pelos perigos do Pacífico infestado de tubarões. Nos tempos do infame Estado Novo uma carta do meu pai, do Porto a Díli, Timor, demorava normalmente quatro semanas usando a mala militar, sarcasticamente denominada Carreira das Índias Orientais.

 

Quanto à distribuição local de correio nesta costa norte de São Miguel, ao fim de 15 anos de um dedicado carteiro que até fazia sinais de luzes e me parava na estrada entre a Lomba da Maia e a Maia, para me entregar correspondência, passamos a um novo sistema em que um jovem carteiro voluntarioso usa a sua viatura particular (que ele ou a companheira conduzem), para distribuírem o correio, provavelmente uma vez em cada semana. Não adianta preencher a queixa no livro de reclamações, assim como de nada adiantaram os protestos de alguns deputados na Assembleia da República, foi isto que compraram e é isto que têm, graças a essa generosa venda a privados de uma das companhias de marca e de valor, e que eram os CTT, com uma tradição centenária de bem servir um país que mais parece uma manta de retalhos no que toca à distribuição postal.

 

Claro que, se trouxermos as naus e caravelas de volta estamos certos de que a qualidade do serviço irá melhorar, proporcionando serviços, pagos ao salário mínimo, aos desempregados e aos que recebem o rendimento de inserção social e, que não perderão a oportunidade de vida aventureira nas naus e caravelas, podendo simultaneamente desfrutar do prazer de utilização de smartphones entre escalas marítimas.

 

Desta forma poderiam evocar a memória de Pedro da Silva, o imortalizado carteiro português que ficou célebre no Canadá no século XVII, como Pierre da Sylva. Batizado na Igreja de São Julião em Lisboa em 1647, deixou Portugal em 1672 e chegou à Nova França, casando em 1677 e gerando 14 filhos. Em 1681, mudou para Sault-au-mattlot no Quebeque. A documentação revela que em julho 1693 recebeu 20 sols (20 libras), para transportar um pacote de Montreal para Quebeque e em dezembro 23, 1705 recebeu uma carta assinada por Jaecques Raudot, declarando-o o primeiro correio do Canadá. Depois, receberia permissão para transportar cartas de entidades privadas, sendo sempre pontual e cumpridor, diligente e leal, auferindo o privilégio de ser o mensageiro regular de mercadorias e de correspondência oficial do Governador-geral da Nova França, entre o Quebeque a Trois Rivières em Montreal. Pedro da Silva efetuou o transporte de correio e mercadorias pelo rio São Lourenço durante a guerra entre a França e os iroqueses, que apoiavam o império inglês, o que terá contribuído para que o rei francês Luís XIV o tenha nomeado como Mensageiro Real na Nova França. Em 2003[1] foi emitido um selo comemorativo e houve outras homenagens.

 

 

 

[1] Há um documentário histórico de homenagem ao primeiro carteiro do Canadá, realizado pelo produtor e realizador Bill Moniz, a biografia histórica assinada pelo investigador lusodescendente Carlos Taveira, ou a iniciativa dos Serviços Postais canadianos que lhe dedicaram no princípio do séc. XX um selo.

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Depois de ‘Bacalhau à Brás’, há mais um prato português em destaque no ‘Masterchef Austrália’ – SIC

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Consegue adivinhar o que é?

Source: Depois de ‘Bacalhau à Brás’, há mais um prato português em destaque no ‘Masterchef Austrália’ – SIC

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cambalachos – AEROPORTO EM ALCOCHETE Pau Para Toda a Obra

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Source: cambalachos – Pau Para Toda a Obra

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FERNANDO MAMEDE PROVA DE V IDA

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PROVA DE VIDA – FERNANDO MAMEDE:
O ALENTEJANO MAIS RÁPIDO DO MUNDO
Não fiques em terreno plano.
Não subas muito alto.
O mais belo olhar sobre o mundo
Está a meia encosta.
Friedrich Nietzsche,
A Gaia Ciência, 1882
Até há minutos, ignorância minha, desconhecia em absoluto quem eram o Éme e a Moxila, um power couple formado por João Marcelo e Mariana Pita que no início deste ano, parece, lançou a música Estocolmo 1984, em cujo refrão se canta, miando:
“Vai Mamede, vai!”
Todo o estádio a cantar
enquanto a mente me trai:
“Vai Mamede, vai Mamede,
vai Mamede, vai!”
O mais enternecedor de tudo é que, no YouTube, onde ouvi estes trinados, destaca-se uma mensagem de @patriciamamede, que diz só isto, entre corações e emojis gratos: “Muita Gratidão em nome do meu pai, Fernando Mamede”. E nós, que ali a lemos, ficamos logo com vontade de lhe agradecer – e muito – este seu gesto de devoção e amor filial por um homem tão especial, Fernando Eugénio Pacheco Mamede, que viu a luz em Beja no dia de Todos os Santos de 1951, na casa paterna da Rua da Casa Pia, sendo o filho único de Joaquim, alfaiate, e de Custódia, doméstica.
Talvez a Patrícia não saiba, mas eu digo-lhe, que, no início da carreira, o seu pai corria de sapatilhas, e que os primeiros sapatos de picos que teve, essenciais à sua prática, pagou-os do próprio bolso, com os escassos tostões que tinha, e vieram da Socidel, de Lisboa, enviados pelo correio. E talvez também não saiba que, noutra fase da carreira, chegaram a oferecer-lhe 750 contos para correr pelo Benfica, mas ele, que à época ganhava uns 300 contos pelo Sporting, disse que não e não, recusou por amor ao clube e à camisola, numa atitude que hoje parece de um outro tempo, até quiçá doutro planeta, sobretudo quando o que agora por aí vemos são artistas-desportistas, já de si multibilionários, irem manchar o currículo e a honra jogando em terras onde se decapitam pessoas, entre outras barbáries máximas.
Por certo saberá Patrícia que o seu pai, atleta das corridas, homem veloz como poucos, “o alentejano mais rápido do mundo”, cometeu a proeza bizarra de chegar atrasado – mais de uma hora! – ao casamento com Alzira (rectius, Alzira da Conceição Ponte Brás), agendado para o dia 5 de Setembro de 1971 na Igreja de São José, em Lisboa, perto da Rua do Passadiço, onde ele morava, pelo singelo e prosaico motivo de que a sua família, vinda do Alentejo, tinha um pavor – comum às gentes da província de outrora -, o de trazer o automóvel para o centro da capital tenebrosa, e, por isso, optou por deixar o carro em Cacilhas, depois vir de barco a Lisboa, depois de táxi até à igreja, sequência em teoria perfeita, mas na prática, claro está, propensa a delongas e imprevistos. Fernando, naturalmente, aguardou a chegada retardada do seu pai, já então vitimado por um AVC, e da mãe, que avalizou o enlace após ter recebido informações seguras sobre o bom porte de Alzira, colega do filho no Departamento de Contabilidade do Sporting (esclareça-se, porém, e ao contrário do que disseram certas más-línguas, que não foi Fernando quem a trouxe para o clube, para onde Alzira entrou por uma outra história prosaica, bem lusitana: quem na altura chefiava a Contabilidade leonina acumulava com um cargo de direcção na Caixa Geral de Depósitos, onde era secretariado por uma rapariga de Algoz, Município de Silves, a mesma terra de Alzira; de resto, era para vir a irmã de Alzira para Lisboa, mas esta já estava tão farta da pasmaceira do Algarve que conseguiu viajar ela para a capital, onde desaguou em 1968). Fernando tinha então 19 anos, Alzira mais cinco do que ele e, como moravam ambos em quartos alugados, namoravam nos bancos dos jardins ou no escuro dos cinemas, lugares que, à época, tinham uma importância erótica de que hoje nem nos lembramos.
Após esperarem pela família do noivo, com o professor Moniz Pereira a acalmar as hostes com gracejos, dizendo que Fernando só tinha ido fazer uma corrida até ao Estádio de Alvalade e voltava já, o copo d”água decorreria num restaurante hoje desaparecido, mas que era frequentado pela equipa de futebol do Sporting antes dos jogos e, como tal, amigo no orçamento. A lua-de-mel foi passada, imagine-se, na Feira Popular de Lisboa, depois de os noivos terem levado os pais de Fernando até Cacilhas, com regresso a Beja no próprio dia. O novo casal foi viver para uns prédios acabados de construir na Calçada de Carriche, mas era tanto o barulho dos carros no sobe-que-sobe a ladeira que Fernando e Alzira tiveram de mudar o quarto para as traseiras de casa, para poderem descansar. A renda mensal, 2100 escudos, correspondia por inteiro ao ordenado dele no Sporting. O resto logo se via.
Fernando chegou a estar mobilizado para Moçambique, com um medo tremendo de pegar em armas ou, pior ainda, de perder a vida, mas o Sporting e a Federação pagaram 15 mil escudos a outro para ir em seu lugar.
Depois veio a tropa, Fernando chegou a estar mobilizado para Moçambique, com um medo tremendo de pegar em armas ou, pior ainda, de perder a vida, mas o Sporting e a Federação pagaram 15 mil escudos a outro para ir em seu lugar, e ele pôde permanecer no quartel em Lisboa, com um horário catita – das 14.00 às 17.00 horas – que lhe dava tempo para trabalhar e treinar no clube, e realizar ao fim do mês um ordenado simpático, cinco contos de réis. Quando se deu o 25 de Abril, confessa, nem percebeu o sucedido, pois ignorava sequer que existiam presos políticos em Portugal, isto apesar de regularmente ir entregar correspondência ao edifício da PIDE-DGS, na Rua António Maria Cardoso. “Passei ao lado do regime”, diz ele, como também diz, logo a seguir, “passei ao lado da revolução, embora naturalmente muito atento e interessado em saber o que se passava. Nunca entrei em qualquer manifestação, porque não tinha grande consciência política” (cf. Jorge Vicente, Fernando Mamede: “O Recordista”, 2.ª ed., Sete Caminhos, 2005, p. 54).
Mamede, um homem que gostava de ordem, paz e sossego, ficou incomodado com a súbita confusão revolucionária que se instalou no seu escritório da tropa, no edifício do Estado-Maior do Exército. Passou à disponibilidade em Abril de 1975, no calor do PREC, e do serviço militar guardou o trauma das explosões: um dia, recorda, estava a treinar em Alvalade, ouviu um estrondo e atirou-se para o chão por instinto, deixando os colegas a tombar de riso.
O medo, aliás, parece ter sido uma constante da sua vida, coisa que Fernando não tem pejo em assumir: quando nasceu a sua filha, em 15 de Novembro de 1973 (um dia depois de ele ter visto George Best a jogar em Alvalade, num Portugal-Irlanda), deixou a mulher em Santa Maria e fugiu dali, com pavor de hospitais. Só no dia seguinte, quando lhe ligaram para o trabalho, soube que tudo correra bem. Atribui o pânico de médicos e hospitais a uma grave doença que teve em criança, e que deixou marcas para todo o sempre: com apenas 3 anos, um problema pulmonar quase lhe ia tirando a vida, com a junta médica que o acompanhou a não chegar a conclusão alguma. Fernando acabou por ser salvo in extremis pelo lendário dr. Pinheiro, a que em Beja chamavam “Nossa Senhora de Fátima” e que se destacaria, anos mais tarde, por ter autopsiado Catarina Eufémia, concluindo que, ao contrário do que rezava o mito, esta não se encontrava grávida.
Ao fazer a retrospectiva da sua existência, Fernando Eugénio Mamede confessa que a maior ambição profissional que teve não foi ser atleta a tempo inteiro, aureolado de glória, mas conseguir um emprego estável num banco ou numa seguradora. Tendo frequentado o Curso de Comércio, que interrompeu no 2.º ano, concretizou o seu sonho e entrou em 1980 para os quadros do Crédito Predial Português. Não por cunha do dr. Lourenço Bernardo, esclarece, mas por mérito e talento próprios, coisa de que não duvidamos. Deixou o trabalho em Alvalade, onde esteve na Contabilidade e, depois, no remanso do arquivo do Departamento de Futebol, e foi integrado na secção de Organização do Crédito Predial Português, por onde passavam todos os comunicados internos do banco. As suas funções consistiam em expedir o correio para as delegações e balcões, além de tirar fotocópias. Refere ele: “Finalmente, atingira mais um objectivo a que me propusera quando deixei Beja – encontrar um emprego estável, que pudesse ser uma salvaguarda de qualquer eventualidade que me pudesse acontecer” (ob. cit., itálico acrescentado).
Três anos depois, em Dezembro de 1983, abriu na Avenida de Roma a loja Mamede Sport, de artigos de desporto, com a preciosa ajuda de António Montez, representante da marca Asics Tiger, que lhe adiantou metade do dinheiro para comprar a loja. “Quando tiveres o dinheiro todo, a loja será só tua”, disse-lhe Montez. Responde Mamede: “E assim foi, saindo-me do pêlo entre Setembro de 1983 e 1984, com as vitórias nas provas de cross e de pista a serem suficientes para conseguir os 6000 contos que faltavam para adquirir a loja”, sita naquela que era, di-lo ele, “uma segunda Baixa lisboeta”, “a zona onde a fina flor lisboeta realizava as suas compras”. Alzira largou a Contabilidade do Sporting, ele passava na loja sempre que podia, ornaram o estabelecimento com as suas muitas taças e troféus. “A loja deu para se sustentar a ela própria, objectivo primordial nos meus últimos anos como atleta”, e depois arrendou-a, “recebendo o dinheiro da renda que é um auxílio precioso para irmos vivendo”.
Por vezes, muitas vezes, esquecemos que o Estado-Providência, além das prestações sociais e dos benefícios que foi dando, teve uma dimensão imaterial colossal, um efeito psicológico de que pouco se fala, ao libertar milhões de pessoas do pavor do imprevisto, do eterno e terrível medo de “qualquer eventualidade que me pudesse acontecer”, como diz Mamede, fosse pela perda do emprego e do salário ou fosse, sobretudo e acima de tudo, por uma doença grave e súbita. Fernando conheceu-a em criança, quando, para proteger os pulmões, deixou de ir à praia e passou a fazer férias no campo, nos pinhais de Fóia-Monchique ou do Barranco Velho, na serra algarvia; como a conheceu mais tarde, e de modo bem impressivo, com a doença e morte do seu pai, falecido precocemente e novíssimo, com 48 anos, em Novembro de 1972. Antes disso, Joaquim tivera uma trombose repentina, que o filho descreve assim: “O meu pai estava a trabalhar no seu atelier de alfaiate e teve um acidente vascular cerebral. Caiu para o lado e nunca mais falou. Julgo que foi pelo excesso de esforço, onde, entre muitas outras actividades, tinha a função de trabalhar com um ferro de engomar muito pesado e a carvão. Ficou inutilizado para o trabalho e também para a sua vida comum, o que nos trouxe vários problemas para o sustento da casa.” Em resultado disso, recebeu uma pensão de invalidez de… quatro escudos por mês.
Hoje, à distância de mais de 50 anos, é difícil alcançar sequer o que a morte e a doença então significavam: mais do que a perda de um ente querido, elas equivaliam, com frequência, à desestruturação completa de um núcleo familiar inteiro, até porque, e para agravar as coisas, a distribuição rígida de papéis de género – Joaquim, alfaiate; Custódia, doméstica – dificultava ou mesmo impedia que um dos membros do casal fosse substituído pelo outro (o que, de caminho, também explica a escassez dos divórcios). Quando morria a mulher ou o marido, sobretudo este, era uma tragédia para todos, muito maior do que hoje. Sem o amparo do Estado, vivia-se em terror permanente.
Não admira, pois, que, à glória dos estádios e das medalhas, a mãe Custódia sempre tivesse preferido a segurança de um emprego e de um curso. “Porque é que te meteste nisto?”, perguntava-lhe ela, sobretudo quando Fernando se via envolvido nas polémicas do desporto. “Nunca reconheceu que fiz a opção correcta, ainda hoje lamentando-se de eu nunca ter tirado um Curso Superior…”, referiu o filho em 2004.
Mamede não terá sido um atleta a contragosto, mas, sem entrar em psicologismos, é fácil perceber que a sua carreira no desporto foi toda feita contra a necessidade de segurança que tanto sentia, e que lhe era dada por um emprego e por um casamento estáveis, pela figura tutelar do professor Moniz Pereira (um “segundo pai”, nas suas palavras), pela tranquilidade do trabalho a tratar de arquivo e a tirar fotocópias, pela garantia de uma pequena loja que, não dando lucros astronómicos, sempre se pagava a si própria, cumprindo no essencial.
Fernando Mamede tem sido recordado como um desistente, fardo e cruz que carregará até ao fim dos seus dias, falando-se até, na psicologia de café, do “complexo Fernando Mamede”, o trauma e sina que levam muitos, à beira da vitória e da meta, a saírem da corrida, largando um triunfo certo. Muito haverá a dizer sobre isto, começando, desde logo, pelo seguinte: antes de o retratarem como um falhado, vejam-lhe o palmarés, extenso de muitas páginas, iniciadas com duas vitórias nos Jogos da Mocidade Portuguesa, em 1968, e terminadas duas décadas depois, como Campeão Nacional de Clubes de Pista, Campeão Nacional de Clubes em Corta-Mato, Campeão da Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato. Ao todo, ficai sabendo, foram 44 internacionalizações como sénior, três internacionalizações como júnior, presença em três Jogos Olímpicos, 14 títulos nacionais de pista, 15 títulos colectivos de pista, 12 triunfos por equipas da Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato, seis vitórias individuais no Campeonato Nacional de Corta-Mato, 16 participações no Campeonato do Mundo de Corta-Mato, uma Medalha de Bronze colectiva no Campeonato Mundial de Corta-Mato, uma Medalha de Bronze individual no Campeonato Mundial de Corta-Mato. Recordes, mais do que muitos: um Mundial, três da Europa e 27 máximos Nacionais nas mais variadas distâncias. Satisfeitos?
Note-se que tudo isto foi conseguido por alguém que aos 3 anos de vida quase a ia perdendo, por doença dos pulmões, alguém que fez toda a carreira a pulso, ou à pata, eternamente dividido entre o apelo das pistas e a ânsia de segurança. Teremos, assim, uma pálida ideia da grandeza dos feitos deste bejense, grandeza que foi também a da gesta, não mais repetida, dos atletas portugueses dos Anos 70 e 80, jovens que treinavam na 2.ª Circular de Lisboa, para onde o professor Moniz Pereira os mandava “irem contar candeeiros”, cheirando o fumo dos carros. É uma história portuguesa, lusitana como poucas: duas semanas antes de conquistar o Oiro em Los Angeles, Carlos Lopes foi atropelado na 2.ª Circular pelo Mercedes de um azarado comandante da TAP, Lobato Faria, salvo por um triz da ira dos populares presentes. Por sorte, o campeão, que só esse ano fizera 12 mil quilómetros em treinos, não bateu com a cabeça, caindo no asfalto sobre a omoplata esquerda. Quinze dias depois, era Campeão Olímpico, Portugal sensacional (parêntesis: para a história das Olimpíadas – e de Portugal contemporâneo – fica também o Ouro de Rosa Mota na Maratona Feminina de Seul, 1988, com os imorredouros comentários de José Galvão na RTP1, começados da Coreia com um solene “Em contacto com Vossas Excelências” e terminados, duas horas volvidas, nos derradeiros metros, aos gritos de “Cospe, Rosinha, cospe tudo, até estou a roer as unhas dos pés!!”, “Vai fazer a curva, já vem a rir, já vem a rir, é nossa a medalha, é nossa, senhores espectadores, já não há pai para ninguém! Podem abrir as garrafas de champanhe, nós aqui precisamos de um bocadinho de água, temos a boca seca, mas podem beber por nós! É nossa a medalha, é nossa!”).
Talvez sem se aperceber disso, Mamede humanizou as Olimpíadas, mostrou que elas não são uma compita de deuses, mas de seres a nós iguais, os comuns mortais.
Foi em Los Angeles que Fernando Mamede teve a maior desfeita da sua carreira, quando, à passagem dos cinco quilómetros, após 12 voltas e meia à pista, desistiu da prova dos 10 000 metros, deixando-nos a nós, portugueses, todos de cara à banda, colados ao ecrã naquela madrugada infausta de 6 de Agosto de 1984. Falou-se e fala-se de questões psicológicas, refere-se a “Nikefobia”, o medo do sucesso que ataca os atletas, lamenta-se que nos Anos 80 os problemas de saúde mental fossem tema-tabu e, logo, mal diagnosticados e tratados. Mas, por paradoxal que pareça, houve algo de singular e belo naquele gesto do campeão transtagano, tomado na solidão do seu eu, contra um país inteiro. Foi, no fundo, o gesto de um rebelde, de um inconformista, no qual podem entrever-se vestígios de uma atitude antiga, il gran rifiuto de Celestino V, que Dante considerou ter sido um sinal da cobardia, mas onde Petrarca viu um acto sumamente virtuoso e digno. No nosso tempo, Marcuse exortaria à “grande recusa” em face da opressão do capitalismo e da sociedade de consumo, apelo que os hippies seguiram com denodado afinco, e, mais recentemente, Bento XVI invocaria o precedente de Celestino V para justificar a sua renúncia ao papado. Diz-se que, na literatura, a “grande recusa” está presente nas tragédias shakespearianas, com Rei Lear à cabeça, e num belo poema de Kavafis, coisas que decerto não terão acorrido ao espírito do nosso fundista de Beja quando, também ele, recusou as medalhas e a glória contra tudo e todos, contra as enormes expectativas que aos ombros carregava, e que eram acrescidas pelo triunfo ocorrido pouco antes em Estocolmo, quando se sagrou recordista mundial dos 10 000 metros em pista. “Não me peçam uma medalha, pois ninguém mais do que eu quer uma medalha em Los Angeles!”, avisou ele, acusando o toque e recusando a pressão. Depois, desistiu.
Nisso revelou algo de que não se fala, tão ofuscados estamos pela conversa do “complexo Mamede” e das suas fragilidades do foro psíquico. No fundo, e é isso que importa, Fernando Mamede revelou a ele próprio, e ao mundo, que, na sua perspectiva, ganhar as Olimpíadas não era uma questão de vida ou de morte, tendo menos importância, muito menos, do que a felicidade que vivia com a mulher e a filha, do que a lojinha de artigos de desporto na Avenida de Roma, do que o seu emprego num banco, a selar cartas e a tirar fotocópias.
A fama do desporto, e o dinheiro condizente, foram por si colocados no justo e devido lugar, absolutamente secundário perante outros valores mais altos e mais perenes, esses sim os importantes. Talvez sem se aperceber disso, Mamede humanizou as Olimpíadas, mostrou que elas não são uma compita de deuses, mas de seres a nós iguais, os comuns mortais. Com isso, deu uma extraordinária lição de vida a todos quantos no desporto ou nos negócios esbracejam e matam por alguns minutos de fama, sempre efémera e passageira. Mais formidável ainda, lembramo-nos dele porque falhou, exactamente da mesma forma como o recordaríamos se tivesse ganho. Nem mais, nem menos. O vencedor dessa noite, já poucos portugueses conhecem: para que conste, chamava-se Alberto Cova, era italiano e depois reconheceu ter feito “doping de sangue”, prática então permitida. Mas Fernando, esse, será sempre lembrado e falado, sobretudo quando evocamos as nossas próprias falhas, decerto mais graves do que as dele.
Nos últimos anos da carreira, Fernando Mamede teve problemas laborais no banco – não queriam dar-lhe as dispensas por ser atleta de alta-competição. Acabou por sair do Crédito em finais de 1990 com uma pequena indemnização, foi trabalhar para o Sporting, como adjunto de Moniz Pereira, mas depois foi afastado, no tempo de Sousa Cintra, por não o ter apoiado para a presidência leonina. Esteve a trabalhar para a Câmara da Azambuja, regressou a Alvalade e agora, que se saiba, está reformado, não sem antes ter visto inaugurado na sua terra natal o Complexo Desportivo Fernando Mamede, há pouco remodelado. Fala com orgulho da sua filha Patrícia, que cursou Direito e é hoje advogada, sendo delas as gentis palavras que ali vão acima e que, é óbvio e evidente, valem mais que mil medalhas, mesmo que de oiro ou prata.
*Prova de vida (21) faz parte de uma série de perfis
António Araújo, Historiador, in DN
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Carlos Fino

Conheci Mamede em Moscovo e, contra a opinião geral, estive do lado dele quando desistiu em Los Angeles.
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Publicado em AICL Lusofonia Chrys Nini diversos | Comentários fechados em FERNANDO MAMEDE PROVA DE V IDA

o médico Eduardo Barroso e as greves

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Uma crónica do cirurgião Eduardo Barroso, numa altura em que os sindicatos dos médicos se recusam a aceitar se façam mais do que 150 horas extraordinárias por ano.
Insustentável.
Quando aceitei colaborar com o DN, escrevendo uma crónica mensal sobre Saúde, não estava nas minhas intenções comentar a actualidade política,
mas sim expressar as minhas ideias sobre variadíssimos aspectos desta área,
baseadas numa vivência de mais de 50 anos de exercício da medicina, quer na vertente pública, em hospitais do SNS, quer na vertente privada.
Isto, porque sendo um fervoroso defensor do SNS, tendo sempre exercido essas funções com total rigor e disponibilidade, nunca o quis fazer em exclusividade.
Recém-formado, logo que me pude inscrever na OM, passei a fazer domicílios na chamada Caixa de Previdência,
assim como uma Urgência semanal nocturna na então Clínica de Santa Cruz para complementar o insuficiente ordenado do hospital.
Um pouco mais tarde, já como interno de Cirurgia, comecei também a ajudar o meu chefe, Câmara Pestana,
que às quartas-feiras à tarde fazia na Clínica da Reboleira, alguma cirurgias convencionadas, e às quintas, na Clínica de São Lucas, os doentes privados.
Ele ia distribuindo essas ajudas por outros elementos do serviço, mas aos poucos percebi que me chamava mais assiduamente.
Quando assim aconteceu, deu para desistir dos domicílios, para apenas me dedicar a actividades extra hospitalares cirúrgicas.
Mas o principal, a actividade mais importante e estimulante, era a que exercia no hospital.
Dava-se o caso que o meu dia de banco obrigatório de 24 horas, onde não me passava pela cabeça ir-me deitar, nem que fosse uns minutos, era às terças-feiras, acabando às quartas às 13 horas.
Como ia ajudar o meu chefe às quartas-feiras à tarde, durante muitos anos, das 8 horas da manhã de terça até chegar a casa pelas 20 horas de quarta, eram 36 ou mais horas seguidas.
Na quinta não folgava, e nessa época trabalhava-se aos sábados de manhã como noutro dia qualquer.
Quando fui progredindo no internato de Cirurgia, e o meu chefe ia tendo mais confiança em mim, era frequente levantar-me às quintas-feiras muito cedo, e ir à Reboleira ver os doentes do meu chefe, e chegar sempre a horas ao hospital.
Dava-me imenso prazer dizer-lhe, no fim da manhã de quinta-feira, que ele escusava de ir ver os doentes da véspera, porque eu já lá tinha ido e estava tudo bem.
Não sei quantas horas trabalhava por semana, não nego que por vezes estava exausto, mas adorava o que fazia.
Claro que o dinheiro das ajudas cirúrgicas era importante para poder viver melhor, mas essas ajudas, também eram fundamentais para o meu progresso cirúrgico, até porque se operava pouco no hospital, a rentabilidade dos blocos operatórios era ridícula.
Quando me tornei especialista de Cirurgia, aos 30 anos, e um ano depois obtive, por concurso público, um lugar vitalício no quadro dos HCL, pude começar a ter consultório privado na Clínica de São Lucas e a ajudar também o dono dessa clínica,
foi esse o meu grande privilégio, dedicar-me apenas à actividade cirúrgica, mesmo que isso implicasse seguramente, mais de 60 ou 70 horas por semana.
Sei que nunca almoçava em casa, e que, pelo menos uma ou duas vezes por semana, não ia sequer dormir a casa.
E tive de acumular com esta vida a preparação para os exames da carreira hospitalar e da Ordem dos Médicos, dois deles de uma exigência tal que obrigavam a perdas de noites sucessivas.
Sem a actividade cirúrgica extra hospitalar, sem as centenas de ajudas em que pude estar envolvido, nunca poderia ter feito a carreira que fiz, nem adquirido as competências técnicas essenciais.
Em 1984 emigrei, fui para Cambridge, Inglaterra para aprender a fazer transplantação hepática, e, até essa altura, nunca participei numa greve médica.
Não porque achasse que os salários fossem justos, mas porque era, para mim, absurdo que a defesa dos nossos interesses pudessem prejudicar os nossos doentes.
E, para mim, seria indigno que, se o fizesse, continuasse no entanto a fazer, nesses dias, actividade privada.
Sempre achei que devíamos exigir melhores condições de trabalho, o que também incluía melhores salários, participei em algumas greves de zelo, mas nunca às que pudessem interromper a assistência aos nossos doentes.
É perfeitamente inaceitável, mesmo para aqueles que achem que as greves médicas se justificam, que elas sejam tão banalizadas e frequentes como estão a ser.
Até porque hoje, com a existência de hospitais privados, a paralisação apenas dos públicos faz com que se atinjam negativamente e com maior selectividade aqueles que a eles não podem recorrer.
Claro que as greves, até hoje, nunca incluíram as Urgências
(mas não serão todas as consultas e Cirurgias Oncológicas situações de urgência?),
mas esta recusa maciça e concertada de não fazer mais do que as 150 horas anuais extraordinárias previstas numa lei absurda e irresponsável, é uma forma ainda mais radical e nefasta do que a greve, que pode ter consequências imprevisíveis; que me aterrorizam e envergonham.
Fazer apelos a que os sindicatos médicos e o Governo se entendam não é suficiente.
Expliquem aos portugueses, ambos os lados, os números do que está em jogo, porque o que dizem é tão radicalmente diferente que não conseguimos formar a nossa opinião.
E o que é mais frustrante é que, mesmo com um possível acordo alcançado, se calhar, continuamos a não ter médicos suficientes, consequência de erros de décadas.
Faltei ao que prometi a mim próprio, abordei o momento actual, mas teve de ser.
PS: Só uma vez fiz greve na minha vida de médico.
Fi-la com angústia, na defesa da nossa dignidade enquanto classe, quando fomos violentamente atacados e até considerados inimigos dos doentes.
E, portanto, não foi apenas o médico “funcionário público” que se sentiu atingido.
Parei também nessa altura tão conturbada toda a minha actividade privada.
Eduardo Barroso (cirurgião).
Jornal Diário de Notícias, 7 de Outubro de 2023.
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