de gárgulas, carrancas e ignorância

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A CARRANCA PORTUGUESA
por Miguel Castelo Branco

O que a Escola devia inculcar, pois que os paizinhos nem sabem que tal existe

Há um imenso obstáculo a superar na relação com a generalidade dos portugueses. A carranca, os repentes de respondismo, a incapacidade para corresponder aos bons-dias e outros cumprimentos civilizados, a ausência daquela afabilidade razoável que permite estabelecer bom ambiente social e a prepontenciazinha dos micro-poderes que aproveitam a circunstância para pisar quem deles se abeira em necessidade; tudo isso diminui-nos.

Afinal, não são os outros [povos] que são simpáticos e diligentes. Nós é que teimamos em ser antipáticos e desatenciosos. Os portugueses são, na generalidade, réplicas vivas das gárgulas.

Image may contain: sky, tree, cloud, plant and outdoor

Miguel Castelo Branco

O que a Escola devia inculcar, pois que os paizinhos nem sabem que tal existe

Há um imenso obstáculo a superar na relação com a generalidade dos portugueses. A carranca, os repentes de respondismo, a incapacidade para corresponder aos bons-dias e outros cumprimentos civilizados, a ausência daquela afabilidade razoável que permite estabelecer bom ambiente social e a prepontenciazinha dos micro-poderes que aproveitam a circunstância para pisar quem deles se abeira em necessidade; tudo isso diminui-nos. Afinal, não são os outros [povos] que são simpáticos e diligentes. Nós é que teimamos em ser antipáticos e desatenciosos. Os portugueses são, na generalidade, réplicas vivas das gárgulas.

para os servos da gleba mais esquecidos

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há poucas décadas ainda era assim, ou já se esqueceram seus pobres novos-ricos burgueses?

 

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Revista Tierra Bella

Throwing food as if they were animals. Colonization in all its splendor

Miranda, a loira falsa que arrebatou todos os famosos por telefone – (notícia própria da silly season)Social – SÁBADO

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Nos anos 80, várias celebridades estavam apaixonados pela mesma mulher – Miranda Grosvenor – sem nunca a terem visto. – Social , Sábado.

Source: Miranda, a loira falsa que arrebatou todos os famosos por telefone – Social – SÁBADO

quando fui hippie – a velhice é feita de memórias como estas de Bali

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a propósito desta música, dos anos 80, que devem ouvir antes de lerem o resto…

https://www.facebook.com/watch/?v=1790156457663031

recordo a minha estadia por Bali, 1974 e 1975, onde comprei um restaurante, vivi e estive quase a ficar a viver para sempre recordo esta descrição poética

467. bali (fev. 10, 1976) (em anexo)

I

tapem depressa esse sol imenso

apaguem o cinzento em todas as nuvens

consumam o ar respirável e grátis

(se ainda restar)

abatam a machado o castanho

das árvores verdes

drenem rios e mares

se ainda impolutos

nas pradarias plantem de concreto

gaiolas de gente

ocultem céus sob ondas esfumosas e azuláceas

(talvez grisalhas)

embalem-nos com místicas melopeias

estrídulos klaxons e apitos

ultra e infrassons

metálicos

mecânicos

como o homem

cantem do aço as palavras

de titânio

e do urânio façam diálogos atómicos

(sem esquecer plutónio, árgon e os outros)

escavem galerias subterrâneas

labirínticas

por fim

(se houver quem o faça)

semeiem cabeças de mulher

nos caules peciolados

o kif

o hash

o peyote

viagens de mescalina ao centro do mundo[1]

delirem com wakeman

os cogumelos mágicos

gigantes do riso

sem vontade nem siso

sensações novas por inventariar

seis horas sob chuva cósmica

celeste mergulho de cadentes estrelas

mil sóis

o ritmo primário

a cadência beat

memória ancestral

poesia mística de pedras por decifrar

o voo atávico

alento último no suor dos corpos

dança da chuva em trajo de circunstância

vindos de nem-eu-sei donde

marte, talvez

fantasmas antigos

soletram segredos esquecidos

castelos sem tempo

alquimias sem espaço

olhos dilatados nas lonjuras

lágrimas aceradas

espadas de gelo

sem medos

onde o cruzeiro do sul?

perguntam duas virgens

(fiz-me desentendido)

voguei no vento sobre as areias

ali mesmo

caminhámos séculos

até ao fim das bocas

esperma salgado

púbicas efluvescências

II

Já destruíram a face ao planeta! – exclamo

pássaro algum entoou o cântico da meia-noite

é dia

esquecido de mim

perdido sem lembranças

ou nome

ou nexo

o sexo viril

húmido

pendente

de tuas ancas descarnadas

vagina sem dono

no pomo desta maçã

percorro deltas de fomes infenecidas

farejo bosques que urbe alguma sepultará

cerca da fogueira

teus ossos me ardem

remoçaste um parto louco

sedes irreprimidas

III

ANIMALS!

sussurra incrédulo o gordo careca

agita branco de raiva (ódio?) seu panamá

nasty pigs!

rosna a dona do pekinois rançoso

espojavam-se nas rochas

sem dunas

vasado o sémen no útero peregrino

gemia sussugante wonder alice

nas maravilhas do meu país

nuas órbitas

olhos e phallus

plástico transistor aos sapatos da jovem

sem pés

vozear rítmico do kecak[2]

balinês de nove séculos

woodcarven e batiks[3]

bikinis por vender

pele tostada e suja

ávidos de americanos turistas

o pregão infantil

o coloquial regateio do preço

ridiculamente pequeno

dez vezes menor

o exorbitante exagero do trabalho

dez vezes mais gratuito

duas notas de dólar por mil sorrisos

cheias mãos de antiquário

comprador de almas

sem sonhos

IV

longe o surf

o vulcão silente de kintamani

corais

tubarões

pesca artesana

a sombra supersónica dos jumbos

milhares flutuantes

vómito infrene de gente

esvaziar o bojo e (re)partir

busca antiga de sentir novo

despir dos hábitos a gravata

férias sem rosto

historietas futuras

tédio adiado

burguês camuflado às flores

camisa, shorts e soquetes

chapéu de palha e sombrinha

óculos fumados e charuto apagado

embuste inexperienciado

o juro da alienação quotidiana

salário vitalício

a casa

a sagrada família

esta a pausa breve

fotos instantâneas a três cores

souvenirs de imitação

bagagens de bugigangas

gorjetas também.

V

no colmo da cabana o fumo denso

balbuciar desculpas

correr nu pelo palmar

beber o coco e o leite

shiskebab de formiga[4]

vegetais

soja

chilli[5]

vinho de arroz, chau ming e vantans[6]

ninhos de andorinha

acorda amor!

buddha sticks[7]

ácidos paranoicos

cogumelos azuis

tão só para ti

paola

a chinesa nascida em itália

trincava bikkies[8]

marcello dormia com a heroína

bíblico moisés afagava em tróia

helena

jimmi hendrix em intravenosa experience

bev

a ruiva pintava originais de cetim

dick era ainda um dealer

foragido mas feliz

cérebros vazios

mas cheios

tão cheios

alheios

conversas jamais acabadas

empolgantes

no limiar infinito do genial

corpos balanceando cadenciados

afagos breves

sôfregos e sensuais

bebedeiras de suor sem calendário

cá fora o bailado sagrado de homens deuses

o self stabbing dos kris na carne crua[9]

terrífico ritual sem sangue nem dor

entre o êxtase e o clímax

caiem redondos de morte

atores da vida amadores

sacro licor os eleva de novo

investem frenéticos

descontrolados

oito possantes mãos os sustêm

macabro e belo espetáculo do barong[10]

iniciática peregrinagem

bali – a ilha

banjal tegal-buni o templo

civilização século XI

mescla hindú-nésia

kuta beach a praia

ngaben a cerimónia ao entardecer[11]

liberta do corpo a alma

a procissão

as flores

a grande festa da morte

oferendas na torre crematória

barcos cortejam as cinzas na noite

este o paraíso e já perdido

início?

fim?

viagem louca

a fome gelada de katmandu

o desprezo total em goa

lentos estádios da libertação

ardentes delírios tropicais

desconexa a fluente discursividade

arrastando da febre o esqueleto

comer sem fome

o gado-gado[12]

shop-suey

cap cay[13]

VI

janine a louca se masturba no térreo adobe da prisão

contrabando de narcóticos

denúncia premeditada

despeitado amante javanês

regressará num bemo[14]

quinze lugares sentados

três os meses em atraso

amigos em trânsito

ávidos dentes nos perama’s cakes[15]

árida sede dos Pernod’s à Poppies[16]

joe cocker era tema no estrado

a dutch princesa olhava altiva

sotaque rolado

juntos entoamos hinos odiosos

à europa distante

brian parodiava liverpool mineiro

chegando bliss e o seu petiz-lord

(made in grosvenor – londres

em buckingham um queer

marido e M.P. [17])

vestia 1920’s com capeline

abominava libras sem ouro

como quem despreza

katut lembrava o mote

alguns saíam em curta trip[18]

“please! no gettin’ loaded on poppies!”[19]

serviam um meat taco[20]

pineapple sundae[21]

sorriam-me “cum çtáz amigu”

e mais não sabiam

george encolhia ombros

lembrando a posse

resignada e terna joanne

dezoito apenas

brisbane [22]no início

topless e scarf [23]ao vento

rãs coaxavam no lago de nenúfares

ginsberg (alan) incómodo e desconhecido[24]

barry bongo[25] a tiracolo na guitarra

gestos adocicados

lenço cache-nez

kebaya antígua[26]

púrpura e cetim

barry mckenzie

vinte filmes épicos

dez mil cervejas

uma austrália de compêndio

alice springs e o deserto vermelho[27]

clare declamava shakespeare sem saber

VII

mais tarde houve luar em legian

margret falava de sindicalismo ACTU[28]

petiscando friend noodles[29]

éramos como jovens e ingénuos

helen ansiava banguecoque em reforços

vinte quilos de thai

bob hope cocada[30]

todos pintávamos em silêncio

infernos de dante

o allighieri

viver num losmen[31] é regressar

à amizade original

ao sabor de início de mundo.

VIII

noutra qualquer manhã

domingo

javanese dudes[32] excursionavam

pele alvar

kamera ao peito

flashes ao pôr-do-sol

como japoneses que não eram

anette a vegetariana

fugia da praia

imaginando-me russo branco

num curto intervalo de calendários

amor com caráter de despedida

ao canto chorava um xilo(bambu)fone

uncle sam perdia ao xadrez

desatento espreitava-nos.

IX

quando as chuvas voltaram

fomos a bangli

no sopé do vulcão

o lago e a negra lava

fazia frio

disfarçados de turistas

ma non troppo

ouvíamos um classical[33] tão americano

arengava anticomunismo[34]

anti-isto

anti-aquilo

(não mais me falaria

odiava desertores

antes isso!)

lascivo

comia os cabelos encarnados

do último tango em paris[35]

zanguei natalie f.

um nome francês e sardas verdes

xaile nos ombros nus

unhas lilás e preto

e branco e azul ou

saudades de torremolinos

olé!

julie

hospedeira pan-am

fornicava no lençol de flanela

intenso aroma evolava do chilum[36]

um casal de múmias ocidentais regateava estatuetas falsas

clapton matava o sheriff[37]

na esquina em frente um teatro de sombras

big fatty mardej mercadejava sarongs[38]

a pequena dayú comia babi kecap[39] em molho doce

karen acenava um adeus

até à coroação no nepal[40]

(e do futuro

uma voz gritava

era assim naquele tempo)

amarelecido retrato

tombou a meus pés

incomodado levantei-me

e saí.

[1] Rick Wakeman’s “Voyage to the centre of the earth”

[2]Kecak peça do folclore típico balinês (Bali, Indonésia) pronuncia-se kétchak

[3] woodcarven, arte escultural em madeira talhada e lavrada minuciosamente

batik, tipo de impressão a cores em tecidos, própria de Bali.

[4] espetadinhas de formiga assadas na brasa.

[5] especiaria muito picante à base de piri

[6] chau ming, massa alimentar chinesa, mais fina que esparguete

van tan, folhados fritos, típicos aperitivos chineses

[7] marijuana enrolada em pauzinhos atados e dopada em ópio

[8] diminutivo australiano para biscoitos

[9] Kris – adaga longa e recurvada. self-stabbing – autoflagelação com adaga.

[10] peça do folclore místico de Bali, séc. IX-XII

[11] cremação

[12] gado-gado, pronunciado gádú-gádú, salada vegetal típica da indonésia

[13] shop suey e cap cay (pron. tchá- tchái) comida típica chinesa, pequenos aperitivos feitos de legumes e vegetais em fogo forte.

[14] pronunciado bímo, transporte colectivo: pequena carrinha motorizada, com caixa fechada para passageiros, com capacidade de 6 a 15 pessoas, num espaço mais conducente ao transporte de quatro adultos.

[15] bolos de banana típicos do restaurante Perama.

[16] Poppies, bar mais conhecido e mais internacional de Kuta Beach, Bali, no início da década de 70. Arrasado em 1980 para dar lugar a mais um complexo turístico.

[17] queer – homossexual. M.P. membro do parlamento inglês.

[18] viagem em jargão de droga

[19] por favor não fiquem ‘pedrados’ no poppies.

[20] meat taco, enchilada, pão com carne á moda mexicana

[21] espécie de gelado ou sorvete de ananás

[22] importante urbe na costa nordeste da Austrália, capital do estado da Queenslândia

[23] topless – sem a parte superior (top) do bikini. scarf – lenço para o cabelo, cachecol, véu.

[24] alan ginsberg, poeta norte-americano, controverso e radical, famoso a partir dos anos 50.

[25] personagem típica de filmes australianos da década de 70, personalizando um australiano, mediano, e diferente dos restantes, europeizados.

[26] cabaia típica, originária da índia

[27] única cidade do interior desértico da austrália, no território norte, em pleno grande deserto vermelho.

[28] a central sindical australiana, Australian Confederation of Trade Unions

[29] massa alimentar chinesa, tipo esparguete que pode ser liso e chato ou muito fino, e servido em tipo sopa com vegetais, carne ou mariscos ou como prato principal acompanhado por vegetais, mariscos ou carnes

[30] thai , bob hope, dope – droga, marijuana da tailândia enriquecida com coca, ou mesclada com ópio

[31] losmen, casa comunitária: espaço habitacional aberto onde residiam os turistas mais económicos em bali, na década de 70

[32] saloios da ilha de java.

[33] típico, no pior sentido.

[34] a norte-americana e sul-vietnamita saigão cairia em 1975 nas mãos dos vietcongues, e estava assediada naquela época da guerra

[35] alusão sexual ao filme de marlon brando e maria schneider “o último tango”

[36] cachimbo cónico para fumar marijuana

[37] Eric Clapton “I shot the sheriff” LP 461 Ocean Boulevard

[38] vestido típico, tipo saia indiano e balinês

[39] pronunciado bábi kétchap carne de porco frita

[40] 11 fevereiro 1975, coroação milenária do rei do nepal

bali (doc word)

 

I’VE BEEN TO BALI TOO 1974-1975 e o Francisco Sarsfield Cabral tb…

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Always good to remember this tune! good to remember but I was in Bali back in 74 and 75, tooooooo..

I’VE BEEN TO BALI TOO
https://www.facebook.com/watch/?v=1790156457663031

a propósito desta música, dos anos 80, que devem ouvir antes de lerem o resto…

 

recordo a minha estadia por Bali, 1974 e 1975, onde comprei um restaurante, vivi e estive quase a ficar a viver para sempre recordo esta descrição poética

467. bali (fev. 10, 1976) (em anexo)

I

tapem depressa esse sol imenso

apaguem o cinzento em todas as nuvens

consumam o ar respirável e grátis

(se ainda restar)

abatam a machado o castanho

das árvores verdes

drenem rios e mares

se ainda impolutos

nas pradarias plantem de concreto

gaiolas de gente

ocultem céus sob ondas esfumosas e azuláceas

(talvez grisalhas)

embalem-nos com místicas melopeias

estrídulos klaxons e apitos

ultra e infrassons

metálicos

mecânicos

como o homem

cantem do aço as palavras

de titânio

e do urânio façam diálogos atómicos

(sem esquecer plutónio, árgon e os outros)

escavem galerias subterrâneas

labirínticas

por fim

(se houver quem o faça)

semeiem cabeças de mulher

nos caules peciolados

o kif

o hash

o peyote

viagens de mescalina ao centro do mundo[1]

delirem com wakeman

os cogumelos mágicos

gigantes do riso

sem vontade nem siso

sensações novas por inventariar

seis horas sob chuva cósmica

celeste mergulho de cadentes estrelas

mil sóis

o ritmo primário

a cadência beat

memória ancestral

poesia mística de pedras por decifrar

o voo atávico

alento último no suor dos corpos

dança da chuva em trajo de circunstância

vindos de nem-eu-sei donde

marte, talvez

fantasmas antigos

soletram segredos esquecidos

castelos sem tempo

alquimias sem espaço

olhos dilatados nas lonjuras

lágrimas aceradas

espadas de gelo

sem medos

onde o cruzeiro do sul?

perguntam duas virgens

(fiz-me desentendido)

voguei no vento sobre as areias

ali mesmo

caminhámos séculos

até ao fim das bocas

esperma salgado

púbicas efluvescências

II

Já destruíram a face ao planeta! – exclamo

pássaro algum entoou o cântico da meia-noite

é dia

esquecido de mim

perdido sem lembranças

ou nome

ou nexo

o sexo viril

húmido

pendente

de tuas ancas descarnadas

vagina sem dono

no pomo desta maçã

percorro deltas de fomes infenecidas

farejo bosques que urbe alguma sepultará

cerca da fogueira

teus ossos me ardem

remoçaste um parto louco

sedes irreprimidas

III

ANIMALS!

sussurra incrédulo o gordo careca

agita branco de raiva (ódio?) seu panamá

nasty pigs!

rosna a dona do pekinois rançoso

espojavam-se nas rochas

sem dunas

vasado o sémen no útero peregrino

gemia sussugante wonder alice

nas maravilhas do meu país

nuas órbitas

olhos e phallus

plástico transistor aos sapatos da jovem

sem pés

vozear rítmico do kecak[2]

balinês de nove séculos

woodcarven e batiks[3]

bikinis por vender

pele tostada e suja

ávidos de americanos turistas

o pregão infantil

o coloquial regateio do preço

ridiculamente pequeno

dez vezes menor

o exorbitante exagero do trabalho

dez vezes mais gratuito

duas notas de dólar por mil sorrisos

cheias mãos de antiquário

comprador de almas

sem sonhos

IV

longe o surf

o vulcão silente de kintamani

corais

tubarões

pesca artesana

a sombra supersónica dos jumbos

milhares flutuantes

vómito infrene de gente

esvaziar o bojo e (re)partir

busca antiga de sentir novo

despir dos hábitos a gravata

férias sem rosto

historietas futuras

tédio adiado

burguês camuflado às flores

camisa, shorts e soquetes

chapéu de palha e sombrinha

óculos fumados e charuto apagado

embuste inexperienciado

o juro da alienação quotidiana

salário vitalício

a casa

a sagrada família

esta a pausa breve

fotos instantâneas a três cores

souvenirs de imitação

bagagens de bugigangas

gorjetas também.

V

no colmo da cabana o fumo denso

balbuciar desculpas

correr nu pelo palmar

beber o coco e o leite

shiskebab de formiga[4]

vegetais

soja

chilli[5]

vinho de arroz, chau ming e vantans[6]

ninhos de andorinha

acorda amor!

buddha sticks[7]

ácidos paranoicos

cogumelos azuis

tão só para ti

paola

a chinesa nascida em itália

trincava bikkies[8]

marcello dormia com a heroína

bíblico moisés afagava em tróia

helena

jimmi hendrix em intravenosa experience

bev

a ruiva pintava originais de cetim

dick era ainda um dealer

foragido mas feliz

cérebros vazios

mas cheios

tão cheios

alheios

conversas jamais acabadas

empolgantes

no limiar infinito do genial

corpos balanceando cadenciados

afagos breves

sôfregos e sensuais

bebedeiras de suor sem calendário

cá fora o bailado sagrado de homens deuses

o self stabbing dos kris na carne crua[9]

terrífico ritual sem sangue nem dor

entre o êxtase e o clímax

caiem redondos de morte

atores da vida amadores

sacro licor os eleva de novo

investem frenéticos

descontrolados

oito possantes mãos os sustêm

macabro e belo espetáculo do barong[10]

iniciática peregrinagem

bali – a ilha

banjal tegal-buni o templo

civilização século XI

mescla hindú-nésia

kuta beach a praia

ngaben a cerimónia ao entardecer[11]

liberta do corpo a alma

a procissão

as flores

a grande festa da morte

oferendas na torre crematória

barcos cortejam as cinzas na noite

este o paraíso e já perdido

início?

fim?

viagem louca

a fome gelada de katmandu

o desprezo total em goa

lentos estádios da libertação

ardentes delírios tropicais

desconexa a fluente discursividade

arrastando da febre o esqueleto

comer sem fome

o gado-gado[12]

shop-suey

cap cay[13]

VI

janine a louca se masturba no térreo adobe da prisão

contrabando de narcóticos

denúncia premeditada

despeitado amante javanês

regressará num bemo[14]

quinze lugares sentados

três os meses em atraso

amigos em trânsito

ávidos dentes nos perama’s cakes[15]

árida sede dos Pernod’s à Poppies[16]

joe cocker era tema no estrado

a dutch princesa olhava altiva

sotaque rolado

juntos entoamos hinos odiosos

à europa distante

brian parodiava liverpool mineiro

chegando bliss e o seu petiz-lord

(made in grosvenor – londres

em buckingham um queer

marido e M.P. [17])

vestia 1920’s com capeline

abominava libras sem ouro

como quem despreza

katut lembrava o mote

alguns saíam em curta trip[18]

“please! no gettin’ loaded on poppies!”[19]

serviam um meat taco[20]

pineapple sundae[21]

sorriam-me “cum çtáz amigu”

e mais não sabiam

george encolhia ombros

lembrando a posse

resignada e terna joanne

dezoito apenas

brisbane [22]no início

topless e scarf [23]ao vento

rãs coaxavam no lago de nenúfares

ginsberg (alan) incómodo e desconhecido[24]

barry bongo[25] a tiracolo na guitarra

gestos adocicados

lenço cache-nez

kebaya antígua[26]

púrpura e cetim

barry mckenzie

vinte filmes épicos

dez mil cervejas

uma austrália de compêndio

alice springs e o deserto vermelho[27]

clare declamava shakespeare sem saber

VII

mais tarde houve luar em legian

margret falava de sindicalismo ACTU[28]

petiscando friend noodles[29]

éramos como jovens e ingénuos

helen ansiava banguecoque em reforços

vinte quilos de thai

bob hope cocada[30]

todos pintávamos em silêncio

infernos de dante

o allighieri

viver num losmen[31] é regressar

à amizade original

ao sabor de início de mundo.

VIII

noutra qualquer manhã

domingo

javanese dudes[32] excursionavam

pele alvar

kamera ao peito

flashes ao pôr-do-sol

como japoneses que não eram

anette a vegetariana

fugia da praia

imaginando-me russo branco

num curto intervalo de calendários

amor com caráter de despedida

ao canto chorava um xilo(bambu)fone

uncle sam perdia ao xadrez

desatento espreitava-nos.

IX

quando as chuvas voltaram

fomos a bangli

no sopé do vulcão

o lago e a negra lava

fazia frio

disfarçados de turistas

ma non troppo

ouvíamos um classical[33] tão americano

arengava anticomunismo[34]

anti-isto

anti-aquilo

(não mais me falaria

odiava desertores

antes isso!)

lascivo

comia os cabelos encarnados

do último tango em paris[35]

zanguei natalie f.

um nome francês e sardas verdes

xaile nos ombros nus

unhas lilás e preto

e branco e azul ou

saudades de torremolinos

olé!

julie

hospedeira pan-am

fornicava no lençol de flanela

intenso aroma evolava do chilum[36]

um casal de múmias ocidentais regateava estatuetas falsas

clapton matava o sheriff[37]

na esquina em frente um teatro de sombras

big fatty mardej mercadejava sarongs[38]

a pequena dayú comia babi kecap[39] em molho doce

karen acenava um adeus

até à coroação no nepal[40]

(e do futuro

uma voz gritava

era assim naquele tempo)

amarelecido retrato

tombou a meus pés

incomodado levantei-me

e saí.

[1] Rick Wakeman’s “Voyage to the centre of the earth”

[2]Kecak peça do folclore típico balinês (Bali, Indonésia) pronuncia-se kétchak

[3] woodcarven, arte escultural em madeira talhada e lavrada minuciosamente

batik, tipo de impressão a cores em tecidos, própria de Bali.

[4] espetadinhas de formiga assadas na brasa.

[5] especiaria muito picante à base de piri

[6] chau ming, massa alimentar chinesa, mais fina que esparguete

van tan, folhados fritos, típicos aperitivos chineses

[7] marijuana enrolada em pauzinhos atados e dopada em ópio

[8] diminutivo australiano para biscoitos

[9] Kris – adaga longa e recurvada. self-stabbing – autoflagelação com adaga.

[10] peça do folclore místico de Bali, séc. IX-XII

[11] cremação

[12] gado-gado, pronunciado gádú-gádú, salada vegetal típica da indonésia

[13] shop suey e cap cay (pron. tchá- tchái) comida típica chinesa, pequenos aperitivos feitos de legumes e vegetais em fogo forte.

[14] pronunciado bímo, transporte colectivo: pequena carrinha motorizada, com caixa fechada para passageiros, com capacidade de 6 a 15 pessoas, num espaço mais conducente ao transporte de quatro adultos.

[15] bolos de banana típicos do restaurante Perama.

[16] Poppies, bar mais conhecido e mais internacional de Kuta Beach, Bali, no início da década de 70. Arrasado em 1980 para dar lugar a mais um complexo turístico.

[17] queer – homossexual. M.P. membro do parlamento inglês.

[18] viagem em jargão de droga

[19] por favor não fiquem ‘pedrados’ no poppies.

[20] meat taco, enchilada, pão com carne á moda mexicana

[21] espécie de gelado ou sorvete de ananás

[22] importante urbe na costa nordeste da Austrália, capital do estado da Queenslândia

[23] topless – sem a parte superior (top) do bikini. scarf – lenço para o cabelo, cachecol, véu.

[24] alan ginsberg, poeta norte-americano, controverso e radical, famoso a partir dos anos 50.

[25] personagem típica de filmes australianos da década de 70, personalizando um australiano, mediano, e diferente dos restantes, europeizados.

[26] cabaia típica, originária da índia

[27] única cidade do interior desértico da austrália, no território norte, em pleno grande deserto vermelho.

[28] a central sindical australiana, Australian Confederation of Trade Unions

[29] massa alimentar chinesa, tipo esparguete que pode ser liso e chato ou muito fino, e servido em tipo sopa com vegetais, carne ou mariscos ou como prato principal acompanhado por vegetais, mariscos ou carnes

[30] thai , bob hope, dope – droga, marijuana da tailândia enriquecida com coca, ou mesclada com ópio

[31] losmen, casa comunitária: espaço habitacional aberto onde residiam os turistas mais económicos em bali, na década de 70

[32] saloios da ilha de java.

[33] típico, no pior sentido.

[34] a norte-americana e sul-vietnamita saigão cairia em 1975 nas mãos dos vietcongues, e estava assediada naquela época da guerra

[35] alusão sexual ao filme de marlon brando e maria schneider “o último tango”

[36] cachimbo cónico para fumar marijuana

[37] Eric Clapton “I shot the sheriff” LP 461 Ocean Boulevard

[38] vestido típico, tipo saia indiano e balinês

[39] pronunciado bábi kétchap carne de porco frita

[40] 11 fevereiro 1975, coroação milenária do rei do nepal

à esqª com o Francisco Sarsfield Cabral …. – Bali (doc word)

(ver memórias em https://blog.lusofonias.net/2019/08/09/a-velhice-e-feita-de-memorias-como-estas-de-bali/

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BaliBelly

Rewind back to 1984 when this #Redgum tune was an Aussie anthem! 🌴😎🌴who has been to Bali too? 🙋🏻‍♂️🙋🏼

o chef matou a cabra: polémicas vegan e outras (politicamente corretas, claro)

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Joao Paulo Esperanca added 3 comments.
Joao Paulo Esperanca

2 August at 15:23

A malta com os fetiches dos animaizinhos anda cada vez mais alucinada. Alguns só comem erva, outros comem carne mas pensam que esta aparece por geração espontânea nos frigoríficos dos hipermercados, sem que isso envolva a morte de animais.

Do artigo: «(…) também recebeu vários elogios na mesma rede social. ‏”As cabras são pestes, caçamo-las para comê-las diariamente… elas matam as nossas árvores e arbustos nativos se não matarmos algumas”, diz um fã da Nova Zelândia.(…)»

O cozinheiro está sob fogo cerrado nas redes sociais. Uncharted estreia em Portugal em Agosto.
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O cozinheiro está sob fogo cerrado nas redes sociais. Uncharted estreia em Portugal em Agosto.

A malta com os fetiches dos animaizinhos anda cada vez mais alucinada. Alguns só comem erva, outros comem carne mas pensam que esta aparece por geração espontânea nos frigoríficos dos hipermercados, sem que isso envolva a morte de animais.

Do artigo: «(…) também recebeu vários elogios na mesma rede social. ‏”As cabras são pestes, caçamo-las para comê-las diariamente… elas matam as nossas árvores e arbustos nativos se não matarmos algumas”, diz um fã da Nova Zelândia.(…)»

ligação aeroporto Ponta Delgada, finalmente

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Autocarro vai ligar aeroporto de Ponta Delgada à cidade [Vídeo] | Fonte: RTP Açores (clique neste link para ver o video) ….. < Clique na imagem para ler mais > #azorestoday

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QUANDO AS MULHERES PRECISAVAM DE AUTORIZAÇÃO PARA SAÍREM DO PAÍS

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Cá por coisas

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Carlos Eduardo Nunes Diogo

Desta vez a Clara F. Alves acertou em cheio na mouche! Porque a memória é – muito – importante.É para ler. Mesmo.

“Tão felizes que nós éramos

Anda por aí gente com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.Eu não ponho flores neste cemitério.Nesse Portugal toda a gente era pobre com exceção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados. Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia vendia açúcar e farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo.
A fruta vinha da província, onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco uma vez por ano. Batatas, peras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns preciosos pêssegos.
As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era partido em fatias fininhas • para render e encharcado em açúcar e vinho do Porto para render mais. Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as crianças que choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A criança crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos vivos e os mortos era normal. Tive dez e morreram-me cinco. A altura média do homem lusitano andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração. Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal. Os homens embebedavam-se com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título ‘Mulher Mata Marido com Veneno de Ratos’. A violação era comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios ou irmãos mais velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se convertiam em putas. As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid. Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras. O trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos. Não podiam ter passaporte nem sair do país sem autorização do homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido. A grande viagem da família remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas. A fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum.
De vez em quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar se à burocracia do regime que instituíra uma teoria da exceção para os seus acólitos. O suborno e a cunha dominavam o mercado laborai, onde não vigorava a concorrência e onde o corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a quem o servia. Não havia liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores, jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com perseguição e prisão. Havia presos políticos, exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes e se saíssem de Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da soldadesca. A fé era a única coisa que o povo tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente. ”
Clara Ferreira Alves in “A Pluma Caprichosa”, jornal Expresso
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