o fim da mama do leite???pt2

  • e eu que há 9 anos critico isto resumidamente transcrevo do livro chronicaçores o seguinte texto
. ILHA DA AUTONOMIA, 6 JUNHO 2012

Como bem disse Mariano Larra, escritor e jornalista espanhol dos inícios do século dezanove:

“Um povo emudecido é um povo de atordoados e medrosos, a quem um prolongado costume de calar entorpeceu a própria língua.”

 

Da “falsa” a janela do meu “castelo” desabrochava sobre o mundo. Enxergo mares. Lobrigo montes. Diviso nevoeiros que desaparecem sem rasto. Entrevejo vacas fiéis ao destino ruminante sem desfraldarem queixumes. Fantasio que a verdadeira autonomia se abaterá sobre o arquipélago criado a ferro e fogo. Aí se vislumbrará a tal ínsula nova. Quando a vir, clamarei o direito a dar-lhe denominação. Designá-la-ei Autonomia. Ia jurar tê-la visto já por entre um belo arco-íris que ia da Lomba da Maia à semiencoberta Bretanha.

Enquanto não advém, os vaqueiros prosseguem a sua lufa, levantam-se trevas cerradas, continuam a acamar-se na escuridão, cansados noite após noite. Rotinas entrecortadas pelas festas, romagem, procissão. Sem queixumes pela má sorte que lhes repete destinos ingratos. Resignação amargurada, lobrigada nas comissuras de peles rugosas, encarquilhadas e sequiosas, tragando um copo de três ou um abafado. Os campos continuam a ser arados. As vacas mungidas, chova ou faça sol, feriado, dia santo de obrigação ou fim de semana. A terra e as vacas são os únicos meios mensuráveis da riqueza. Estes vaqueiros só mourejam. Jamais ouviram falar da semana-inglesa. Quase todos andam nas vacas. Ou as têm ou trabalham-nas para terceiros, (todo os dias, meses, anos). De tantas em tantas horas estão a mungi-las, levá-las de um pasto para o outro que todo o inverno a ilha se mantém verde. Os rendimentos são inferiores aos ibéricos (a que muitos chamam o Continente) mas há sempre mais subsídios para rações, para produção de mais leite e sabe-se lá que mais que os burocratas de Bruxelas inventaram ou a que os de cá forçaram com a sua insistência inesgotável, e as suas queixas diárias de que vão todos falir ((nota de 2020: aos anos que ouço a mesma ladainha, dia após dia na RTP Açores). ….

Hoje, as ilhas transformaram-se em vacaria, uma imensa leitaria. O quotidiano, fora das pequenas urbes, é similar à escravatura de antanho. Cuidar de vacas doutrem a troco dum soldo miserável, sem direito a férias, doenças, feriados é servidão. A gleba cumpre horários sagrados sem calendário, religiosamente acatados por homens e mulheres. Apesar de poucas, também por aí andam. Supõe-se que interrompam as lides aquando da gravidez. Para 2015 antecipa-se o fim das quotas leiteiras, um remate anunciado há muito para essa riqueza artificial. Em 2020 constato que ainda nada ou muito pouco foi feito para a reconversão desses milhares de famílias que vivem do “leite” num ciclo vicioso de maiores produções para “sacar” maiores fundos europeus (houve há dias finalmente o anúncio da primeira criação de carne Wagyu em S Miguel…

Originária do Japão, a raça Wagyu é a Louis Vuitton das carnes, com preço do quilo a 50.00 € é criada com dieta regada a cerveja, massagens e sessões de música. São vacas pretas, de aspeto franzino e ossudo, mais semelhantes às leiteiras do que às tradicionais raças de carne. A kobe, cuja fama é proporcional ao preço, considerada a melhor do mundo, deve-o à quantidade de marmoreado ou gordura intramuscular que a raça produz, com sabor e macieza diferente e carateriza-se por ser insaturada e muito rica em ómega 3 e ómega 5 .

Os mais pequenos foram comprados pelos grandes, dentro da evolução darwinista da economia de mercado. Quem sabe se não poderiam converter as vacas leiteiras em produtoras de carne da melhor qualidade para exportação? Podiam usar a tecnologia existente e a mão-de-obra local seria sujeita a uma apropriada componente de atualização de formação e desenvolvimento pessoal?

No século XVIII ninguém pudera prever a data exata do fim da exportação das laranjas. Nos últimos anos aumenta a produção anual de leite sem escoamento possível, sem que haja do Governo, das autarquias ou das gentes qualquer ação, individual ou coletiva, que comece a prevenir o futuro. Claro está que os pastos não se podem converter em terras de cultivo enquanto o Diabo esfrega um olho, mas os trezentos mil animais não se desvanecem num ápice. Nas zonas rurais os filhos, que já não vão abundando, usam a escola nos interregnos da labuta nos campos. Se faltam e não fazem os trabalhos de casa é porque foram às vacas. O açoriano vive do imediatismo. Futuro nunca, mas presente sempre à vista, nada arrisca nem previne. Este açoriano é bem diferente do antepassado que no século XIX com menos estudos, sem universidade nem Novas Oportunidades criou a Sociedade da Agricultura Micaelense, quiçá o movimento mais importante da história dos Açores. O comércio da laranja extinguiu-se vitimado por doença quando a exportação estava numa fase de ampla expansão, tendo atingido o máximo três décadas depois de ter surgido a ideia de criar a sociedade. O que esses antepassados anteviram foi que aquela riqueza não seria duradoura devido aos avanços da produção e do transporte na Europa e, em especial na Península Ibérica.

Ninguém avisou esta geração do séc. XXI de que também as vacas iriam acabar como o ciclo do pastel e o da laranja…ninguém os preparou para outra coisa, as vacas são a única profissão que conhecem, quase nem admitem existirem outras…Não é opção, mas obrigação. Solidariedade familiar. Queiram ou não, cumprem o destino boieiro e a vontade paterna, herdada de séculos, sem sombra de desfortuna. Fatalismo ou destino, nunca se interrogam, apenas o cumprem. Vá-se lá a saber. Os medidores de felicidade são pouco fiáveis.

Em 2008, sete anos antes do fim das quotas leiteiras, abordei o Presidente da Junta da Lomba da Maia propondo uma reunião de esclarecimento onde os locais pudessem discutir ideias (se as tivessem) sobre a reconversão. Nem um se mostrou interessado, decerto pensaram que, um urbano como eu, nada teria para lhes comunicar sobre o ganha-pão deles. Daqui a pouco não existirão fundos europeus para a excessiva produção de leite que se regista nas ilhas (e no resto do mundo) e ficarão sem nada. Depois do fim da gesta heroica e brutal dos baleeiros, que Dias de Melo retratou, aproxima-se o fim da era do leite. Virão dias de fome e de aflição. Nos EUA já há quem aproveite o estrume do gado bovino para produzir energia ecológica…será que estes campos podem produzir biodiesel? Por outro lado, como a terra é fértil, quando se acabarem as vacas gordas leiteiras poderiam diversificar e manufaturar queijos, aproveitar os solos úberes para criarem outros produtos para mercados de nicho e exportar para o mundo.

Infelizmente, não vi nem ouvi nenhum dos técnicos agrários, vulgo engenheiros, propor ou estudar quais os mercados de nicho que as férteis terras poderiam fornecer. Falta visão como quando o chá sucedeu às laranjas. Os políticos insulares, como os congéneres, vivem em torres de marfim condicionados ao ritmo da reeleição e não parece que tenham visão para “imaginar” os Açores daqui a 10, 20 ou 30 anos, tudo é feito pelo imediatismo da próxima contagem de votos, nada fazem nem parece que haja quem o queira fazer.

Reservo-me sempre o direito de emitir opiniões e ser controverso quando afirmo que nos meios rurais, os açorianos seguem escravos, tal como os antepassados. Mesmo sem o saberem. Há quem alegue que esta servidão hodierna é mais humanizada e de matizes mais esbatidos (decerto nunca foram escravos …é como o país de brandos costumes). Seguem fados tradicionais sem os questionarem. O fatalismo insular pode ser explicado pela brutal aspereza dos elementos: o fogo e as manifestações telúricas.

A energia positiva dos vaqueiros é muitas vezes dirigida para ações cotejadas com o culto cristão eivado de paganismos, como as romarias. Existem alternativas, fugir, emigrar, ou então (e de forma mais simplista) mandar a escravidão às urtigas e viver do rendimento de inserção social. É o sistema da “Faixa de Gaza” da Ribeira Grande, lá para os lados de Rabo de Peixe. A maioria das famílias, com excelente taxa de natalidade, jamais empregadas nem empregáveis, vive do rendimento mínimo. Trabalhar é só para os inúteis.

Já Daniel de Sá escrevera “Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”, Onésimo diria que era a “melhor”, mas havia sempre um ou outro revoltado com a miséria, a falta de futuro, a ausência de presente e o excesso de passado, sempre pronto a meter pés ao caminho. Rumo à verdadeira autonomia, a do dinheiro. A única que permite sonhar. Não há democracia sem capital. Karl Marx nunca o soube. Só com poder de compra se pode ser livre. Sem posses, os pobres não podem almejar a liberdade nem os escravos, a alforria. A emigração é a face visível da verdadeira emancipação açoriana. Lisboa e o Terreiro do Paço são Miguelistas, governam como se nunca tivéssemos saído da monarquia absolutista. Nem os cães ladram quando a caravana passa. Até os cachorros são indolentes. Mimetizam as pessoas, acomodadas e aburguesadas. O insuportável e fedorento colonialismo paternalista de Lisboa manter-se-á até que as turbas saiam à rua. Aí sim, pode haver autonomia. Eu clamava que competia aos açorianos decidirem e traçarem o destino. E arrisco ser, de novo controverso, creio haver regionalismos autonómicos que deveriam ser estimulados. O desprezo constante a que votam os ilhéus é quase tão mau como a forçada desertificação humana no interior profundo de Portugal.

Para os continentais, em 2005 quando se fala dos Açores é quase como discursar de Timor Português quando fui para lá em 1973. Sabiam que eram ilhas e pouco mais. Quase como a anedota da pergunta insólita “a senhora é dos Açores, mas é branca?” Não avisaram que a paisagem é verde, as pessoas não. Depois com as companhias de baixo custo tudo mudou em 2018…e passamos a ser os melhores.

O orgulho em ser-se açoriano é profundo, arreigado ao húmus, mas difuso. Confunde-se com bairrismos de ilha, insularismos de freguesia. É prejudicado pela idiossincrasia micaelense de chamar Açores às outras ilhas. Como se S. Miguel fosse Lisboa perpetuando dependências e vassalagens obsoletas. Fruto da herança ancestral, do obscurantismo de 48 invernos salazarentos e primaveras bafientas da 3ª República entorpecente e anestesiante, alegadamente democrática…

15.1. DA MINHA JANELA, CRÓNICA 128 – 13 MAIO 2013

 

Das ameias do meu castelo, janela aberta sobre o mundo vi muita coisa e continuo a ver um planeta em permanente mudança. São os vaqueiros que passam a cavalo, em carroça ou em carrinha, rumo às vacas e aos depósitos de leite, logo pelas cinco e meia ou seis da manhã em rotinas que se repetem – duas ou três vezes ao longo do dia – até ao anoitecer quando regressam dos pastos pela última vez.

Vejo tratores mais apropriados ao celeiro do Oeste norte-americano, às pradarias, à amplidão dos campos australianos ou aos vastos terrenos da Extremadura espanhola do que ao minifúndio micaelense, depois há uns que são menos gigantescos, mas – mesmo assim – demasiado grandes para estas terras minúsculas, …, mas todos grandes, enormes para as pequenas parcelas de terra aqui na Lomba da Maia. … Não vi lá nenhum dos vaqueiros que às centenas andam nestas ruas nos sete dias da semana, por entre colheitas de leite das vacas, que, na maior parte dos casos nem suas são, mas dos donos. A exploração feudal aliviou-se depois do 25 de abril, mas assumiu novos contornos, nem sempre visíveis a olho nu. Depois do fim das quotas leiteiras, foram dezenas forçados a abandonar a prática das vacas, que ora, mais do que nunca, se concentram na mão de meia dúzia de proprietários na Lomba da Maia.

VIVO NUMA TERRA DE GENTE FELIZ, CRÓNICA 201, 26.6.2018

 

Era uma vez uma terra de gente feliz, vacas felizes, um paraíso à face da terra. A economia ia de vento em popa, havia muitos hotéis, muitos turistas, e tudo parecia bom. O dinheiro corria a jorros da fonte de Bruxelas para as vacas, com algumas esmolas para os pescadores, a Faixa de Gaza ia de vento em popa com o maior crescimento populacional do país, todos a viverem dos rendimentos sociais para compensar desigualdades e injustiças do passado, e o Estado ia finalmente livrar-se do cancro das empresas públicas onde se tinham albergado os imigrantes ilegais dos partidos no poder ao longo de décadas, enquanto aguardavam a regularização do seu estatuto e uma mudança de dinastia.

Faltava ainda acrescentar alguns toques à mágica receita da ministra Veronica Skvortsova, ministra da Saúde da Rússia. A fórmula da eternidade: “O aumento da idade da reforma prolongará a vida”.

Embora muitos pais tentem a todo custo evitar que seus filhos tenham frustrações, elas são importantes para o desenvolvimento humano, mas nem assim se evitavam as taxas de suicídio mais elevadas do país na terra das vacas felizes. Os condutores felizes na terra das vacas sorridentes andavam nas estradas sem carta de condução, sem seguro, muitas vezes alcoolizados, a falarem ao telemóvel e a queixarem-se da necessidade de mais subsídios para a lavoura. Não era gente muito dada aos livros e estudos, pois o abandono escolar prematuro era o mais alto do país, mas isso devia-se sobretudo à felicidade de ir lidar com as vacas que sempre são mais interessantes que os chatos dos professores. No setor dos serviços, em especial na indústria hoteleira e afins, havia um enorme amadorismo, má vontade, falta de preparação e desconhecimento de que o cliente é quem paga os salários dos funcionários, e para isso as belezas naturais não chegavam para encobrir o mau funcionamento do setor.

Por outro lado, pretendendo ser um setor virado para o turismo o ano inteiro fechavam-se os balneários exceto de junho a setembro e não havia pessoal nadador-salvador, sempre útil em praias de correntes e contracorrentes, ocultas pelo benigno clima durante a maior parte do ano. Os trilhos, sempre muito procurados pelos amantes da natureza, estavam sem manutenção adequada na maior parte do ano, sujeitos a chuvas, intempéries e derrocadas, além do normal acumular de lixo que se propagava em todos os cantos que nem praga de ratos, que estes também proliferavam nas cidades e campos, tal como as térmitas que iam devastando largas porções do parque habitacional.

O lixo, ah! O lixo para que algumas vozes clamavam pela coincineradora, que a Europa já não propugnava, e nem era solução dada a dimensão das terras. E o povo, como era feliz como as vacas, continuava a mandar tudo para o chão, fosse no dia-a-dia ou nas inúmeras festas que aconteciam em todas as freguesias e lugarejos, sem entenderem que esse lixo e esses plásticos iriam voltar na comida para as suas mesas, fosse misturado com o sal ou no sistema digestivo de peixes e mariscos. A educação cívica ainda constava dos currículos das escolas que eles não frequentavam.

Era um povo tão feliz e sorridente que se mantinha colonizado, sem o saber, sempre atento e venerando às migalhas que os senhores atiravam das ameias aos servos da gleba. Mas agora não usavam chapéus para os retirarem quando agradecessem. E, como atentos e venerandos sempre haviam sido, assim se quedavam, pois sabiam que as migalhas dos subsídios e apoios à lavoura, às artes e literatura secariam se deixassem de o ser

 

17.19. HAVERÁ FUTURO? CRÓNICA 210, 13.9.18

 

O dia está belo sem nuvens e estão a caminho dois furacões, a Hélène e Joyce que talvez cheguem no fim de semana como tempestade tropical. Há mais meia dúzia deles no Pacífico a ameaçar Hawaii e Macau, e outros nos EUA num total de 8 ou 9 em simultâneo, o que só vem servir de arma de arremesso aos que acreditam na manipulação do clima. Martins Goulart (engenheiro eletrotécnico e professor da Universidade dos Açores (aposentado), doutorado em Matemática pela Universidade da Califórnia, e político açoriano. Entre outras funções, foi membro da Junta Regional dos Açores (1975-1976), deputado e líder do Partido Socialista nos Açores (1987-1993), o engenheiro e homem do PS nos primeiros anos da autonomia veio a público falar da ausência e deturpação da mesma nestas 9 ilhas (há quase 20 anos que se mantinha silenciosa politicamente) e não é só ele, muitos se interrogam (mas são ainda poucos) sobre o rumo que as políticas dos dois partidos no poder imprimiram aos Açores em 43 anos de autonomia. A economia cresce, artificialmente inflacionada, por um turismo que já começa a escalavrar as belezas naturais das ilhas e veio dar otimismo desenfreado, em especial na ilha de S Miguel, privilegiada com a maioria dos turistas. A crescer também o número de beneficiários do RIS (rendimento de inserção social, ou qualquer que seja o nome atual) dessa bela ideia que atualmente é usada e abusada até ao limite. O desemprego a baixar, alimentado por milhares de jovens em programas Estagiar qualquer coisa que poucas garantias de emprego estável darão…acabam uns estagiários e outros virão…

Na agropecuária os subsídios sucedem-se, uns atrás de outros na pedinchice a Bruxelas para manter artificialmente as ilhas das vacas felizes sem se saber por que razão a associação do setor não usa os milhões que tem a render na banca e que podiam ajudar o setor e os associados, mas eles lá saberão …

A maioria das pessoas demasiado ocupadas com os seus umbigos nem pensa em política nem autonomia, desde que o prato de lentilhas seja servido todos os dias, mais umas migalhas atiradas de 4 em 4 anos aquando dos atos eleitorais de promessas mil.

 

ERA UMA VEZ UMA FÁBULA RICA, CRÓNICA 211 – 18.9.18

 

Era uma vez uma terra muito rica, muito rica, sempre e cada vez mais, mais e mais rica. Era tão rica que muitos dos melhores saíam para outros países e nem voltavam. Os mais pobres voltavam todos os anos em procissões várias numa companhia de caravelas das Índias Ocidentais, que andava sempre às turras com ventos e marés e jamais cumpria horários de monção.

Aquela terra que era tão rica foi vivendo pacatamente esquecida do mundo, em mares de bruma e nevoeiros de São João, com ventos mata-vacas, alguns tremores e vulcões quase silenciosos até que um dia os pobres de outras partes do mundo descobriram aquele povo de gente feliz com vacas e desatou a querer ir visitar e conhecer, talvez para aprenderem os segredos que se escondiam por uma governança alternada de duas em duas décadas, em que ora uns ora outros dividiam entre si e os seus as riquezas infindas que a terra proporcionava, sempre com novas riquezas a serem anunciadas. Neste canto da ilha espero que chegue o dia de ver a nova estrada entre a Lomba da Maia e a Maia sem andar nela com o credo na boca à espera que desabe de vez, mas olho em volta só vejo gente rica, feliz como as vacas que a rodeiam….(consta que as obras começaram em junho 2020)

PLANTAR O FUTURO COMO A AVESTRUZ, CRÓNICA 302, 7.12.19

 

Tocam os sinos na aldeia (é freguesia, senhor, chame-lhe freguesia) por mais um que se finou…se os sinos tocassem pelos que nascem raramente se ouviam. Tem sido assim desde há 15 anos… morrem e não são substituídos. Como não há recenseamento atualizado direi empiricamente que mais de 30% da população não deveria constar dos cadernos eleitorais. Isso nota-se todos os anos nas matriculas escolares, e as ruas já não são o que eram, com enxames de pequenos seres ruidosos e saltitantes. Nunca imaginei que a desertificação humana a que assisti em Trás-os-Montes pudesse vir a ser uma realidade nos Açores. Recordo que quando cheguei a primeira coisa que saltava à vista, em contraste com o distrito de Bragança, era a quantidade de jovens e infantes em todas as freguesias que visitei.

O envelhecimento e a desertificação são problemas bem mais prementes do ponto de vista social e económico do que as mudanças climáticas. Estão interligados, interdependentes mas não se excluem. Já não há velhos para cuidarem e plantarem o meu quintal e nisso os novos não estão interessados. Quando morrem os idosos disponíveis para tais tarefas elas ficam por realizar. Assim, quintais e campos irão estiolar à medida que se forem reconvertendo as agropecuárias de produção de leite., condenadas que estão há muito.

A maior parte dos jovens em idade escolar na zona rural onde vivo não sonha com livros nem com estudo, mas sim com vacas, desconhecendo (por não terem estudos nem lerem livros) que esse futuro lhes será vedado e irá desaparecer como se foram os amola tesouras, os datilógrafos, os limpa-chaminés e tantos outros. O ciclo da vaca está tão condenado a desaparecer como o da laranja, do pastel e todos os outros que aqui desapareceram ao longo de séculos.

Quando todos parecem obcecados com a crise do clima, antecipo a solução que os políticos vão encontrar, mais impostos sobre isto e aquilo, em vez de enfrentarem o problema pelos cornos. Há formas mais ecológicas de viver e nem todas implicam abdicar do transporte automóvel e de confortos do século XX. Há muito que não atiro o que avaria para o lixo, tento arranjar o que se vai estragando e reciclo em vez de aumentar a pegada de lixo. Muito se pode fazer, desde que haja carpinteiros, eletricistas, canalizadores e profissões que a tecnologia foi empurrando para fora do mercado.

Seria oportuno recordar um conselho de Confúcio: “se tiveres planos para um ano, planta arroz; para dez anos planta árvores; para cem anos, educa as crianças.” Em democracia, isto seria muito difícil de executar pois os políticos que optassem por esta sábia visão não seriam reeleitos. À medida que as catástrofes se multiplicam, como vem acontecendo, não haverá meios para reconstruir o que a natureza destrói, casas, infraestruturas ou meios de produção. Há um limite finito para os impostos que se podem lançar.

E o povo que se habituou ao papel de esmoler de subsídios e apoios, desde que começou a era das vacas, deixou de cultivar os campos preferindo importar os alimentos de que carece (até por ser mais barato) e é cada vez menos autossuficiente, e nas ilhas mais pequenas a desertificação humana levou ao êxodo dos mais jovens e cabe aos mais velhos manter os campos arados.

NÃO HAVIA DINHEIRO PARA TANTO PEDIDO ELEITORAL 6.8.2021

Há dias que venho seguindo um certo fórum onde se colocam as prioridades para Ponta Delgada as quais vão endereçadas aos candidatos autárquicos.

E eu que nem vivo lá, e vou só à cidade quando necessário, acho que grande parte destas preocupações se estende a outras cidades, outras vilas, outras ilhas. Nem vou elencar aqui as necessidades que considero prementes para a minha freguesia da Lomba da Maia. Muitas das necessidades da agropecuária estarão satisfeitas pois os dois últimos presidentes da junta eram donos de vacas, e devem saber o que precisam, embora eu fizesse uma atualização de métodos e gestão pecuária, com computadores e programas adequados a uma maior produtividade, como há anos um professor da INOVA (que tinha um programa em uso na Holanda me dissera ser imperativo meter em prática nas nossas ilhas). Para isso teria de haver cursos de formação para os homens da pecuária, muitos dos quais têm baixas qualificações escolares e mal sabem fazer as contas atuais na vida escrava que levam. Atualmente em muitos países pequenos e médios produtores têm itens como chips, leitores de códigos de barras, etiquetas RFID, painéis de LED, drones, tablets e amplo acesso à internet para rastrear os rebanhos com exatidão e automatizar a fabricação e o fornecimento de rações através de leitura eletrónica. Há inovações de nutrição e de desenvolvimento de técnicas produtivas, de maximização de desempenho. Já nem falo da inteligência Artificial, robótica, biologia sintética, manufatura aditiva e sistemas ciber-físicos, que levam em consideração o conforto animal, que melhoram a atividade dos trabalhadores do campo e a produtividade. Sabemos que a metodologia usada é quase milenar quando se devia pensar na robotização da ordenha. Por outro lado já há colares com sensores que captam online todas as manifestações e anormalidades de cada vaca. O registo é feito em software, que processa as informações e monta relatórios com base nesses dados, permitindo tomadas de decisão mais assertivas ou seja maior produtividade e menor desperdício de recursos.

Era isto que eu gostava de ouvir. Mas o que se vê, todos os dias no telejornal é o inefável “dono das vacas “a pedir mais subsídios (porque choveu, porque está seca e não choveu, porque o furacão estragou isto, a tempestade tropical estragou aquilo, os “lavradores” (donos de vacas, entenda-se) precisam que os apoiem para pagarem o seguro, eu sei lá 1001 pedinchices, por vezes ameaçadoras roçando a chantagem). Não fala em dar formação aos associados, nem a converter as vacarias, só lhe interessam subvenções do governo regional e da UE. Não penaliza os que produzem leite a mais, pede mais subsídios. Os tempos mudaram, cá e na Europa, mas, impérvio, permanece na sua, encravou na gravação. Creio que a única coisa para que não pediu dinheiro foi para compensar o nevoeiro cerrado, mas, cuidado que posso estar a dar-lhe ideias. Devia era formar o pessoal envolvido na agropecuária para o século XXI e novas tecnologias.

 

chrys chrystello

 

 

 

 

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Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL