o caso sueco visto por um habitante

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Estamos numa altura de evidente crise e pressão num sector do SNS, que tem nas mãos o aumento de contágios e infeções. Outra parte do SNS está, pelo contrário, não com mais mas com menos trabalho. Com camas e consultas vazias. Há uma evidente descoordenação.
Qualquer debate sobre a pandemia deve estimular a crítica porque há incertezas e porque a ciência não é feita de dogmas. Mais uma razão para não se fazer disto um campeonato com claques mas um debate sério.
Há umas semanas noticiava o DN “na Suécia a festa acabou”, Suécia muda de estratégia. Fui ler a fonte original traduzida pela BBC e era assim “primeiro-ministro diz que festa nas discotecas acabou”. Tudo mantém-se na mesma, – incluindo o não uso de máscaras – mas as discotecas têm limites. Não vou opinar sobre usar ou não máscara. Há muitos estudos científicos contra, outros a favor. Há um grau de incerteza. O que não há incerteza é sobre a qualidade da informação que precisamos em tempos críticos. Hoje o DN volta ao mesmo dando uma notícia de um suposto “arrepiar de caminho” na estratégia sueca. Fui já de novo ler outras fontes – nada do que o DN notícia se aproxima da realidade. O Tiago trabalha há anos na Suécia, escreve muito bem, e explica o que quem, como nós tem acesso a jornais internacionais, e conhece o país, já tinha dito – a Suécia não mudou nada na sua estratégia, álcool já era de consumo muito restrito antes da pandemia. O mundo é que optou pela estratégia sueca em grande medida – com a diferença, grande e preocupante, que nos países que agora optam por tal 1) o fizeram – em alguns países como o nosso – acompanhado de medidas que suprimem direitos, liberdades e garantias individuais e na Suécia não há restrições de direitos, apenas a central educação e pedagogia; 2) escolheram cá medidas ad-hoc (e muitas sem evidências) que estão a arruinar pequenos e médios empresários; 3) no caso português, ainda, não reforçaram cuidados de saúde, perderam ainda médicos. Podemos discordar da estratégia sueca (eu concordo), mas escusamos de publicar notícias inexistentes. Em tempos de internet há centenas de nós que rapidamente têm acesso a fontes primárias. O sensacionalismo na informação é tudo o que não precisamos numa altura crítica destas.
Vale a pena ler o Tiago, ainda por cima tem uma bela prosa.
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Uma vez reconhecida a incapacidade, por saturação acrescente-se, de seguir as notícias, debates, discussões, informação e contra-informação da pandemia que nos assola, resolvi encostar-me no meu canto, confiar nos médicos e cientistas e, simplesmente, fazer o que me pedem. Ao contrário do que pensava há quase um ano, hoje olho para esta pandemia com mais cuidado, preocupação e, obviamente, receio. É esse o efeito que o tempo provoca. E respeito quem esteja a sofrer com a doença, já tenha sofrido ou veja a dor de um familiar. E é exactamente por isso que me abstenho no meio da gritaria. Chegámos a um ponto da discussão em que, sinto eu, ainda tentamos convencer metade da população que isto existe. Há conversas tão surreais que a argumentação está ao nível da campanha eleitoral, quando se explicava a um eleitor do Chega, que beneficiava do RSI, porque é que o voto dele era uma arma apontada para ele próprio.
A comunicação portuguesa, incluindo jornais que já foram de referência, dão palco a qualquer artista que queira dizer umas asneiras e, sempre que possível, estimulam a confusão, o ódio e não raras vezes falham na sua mais básica função, a de informar.
Nesta histeria colectiva, alguém me explicará um dia durante um café, que raio de fixação é esta com a Suécia? Eu sou do tempo em que esta rapaziada era referenciada em Portugal por 3 razões, a saber:
1 – festas de karaoke onde o momento “Dancing Queen” era obrigatório
2 – telefones com toques polifónicos
3 – saltos efusivos lá no terceiro anel, aquele bem alto com cadeiras de cimento, sempre que o Stefan arrancava na esquerda e deixava para o Jonas no meio que, por sua vez, fazia chegar ao Mats para ele atirar a contar
Eram estes os momentos Suécia em Portugal. Quando chegou o IKEA já eu não pedia a bica pela manhã.
Mas durante este ano parece que a coisa mudou, não é ? Entre 200 países com Covid, há uma vibração especial com a Suécia.
Os negacionistas, com aqueles grupos dos não sei quantos pela verdade, agradecem à Suécia e dizem todos os dias que ali é que é. Nas mentes deste pessoal vive-se um Woodstock 69 e vamos para o trabalho às cavalitas uns dos outros. E por mais que uma pessoa explique que não é assim, que há quem use máscara, que o sector privado meteu o pessoal a trabalhar em casa, que durante algum tempo os miúdos mais velhos também tiveram aulas remotamente, que o governo pediu que os convívios se reduzissem ao núcleo familiar, que há postos de desinfecção por todo o lado, que há horários mais reduzidos, que as marcas para distanciamentos estão presentes em qualquer zona de comércio e por aí fora. Por mais que uma pessoa diga, ao fim de 9 meses a trabalhar em casa, que a Suécia tem e sempre teve medidas de contenção, a mensagem não passa. Não há muito a fazer.
E do outro lado, dos que querem justificar que a teoria portuguesa está correcta, também usam a Suécia como o exemplo errado, embora o governo português tenha optado nesta segunda fase por um conjunto de medidas muito parecidas com as que a Suécia tem desde sempre.
Mas o que verdadeiramente me irrita é a leviandade com que jornais, outrora de referência como o DN, vão a tablóides ingleses e nem se dão ao trabalho de confirmar antes de traduzir o que julgam ser uma notícia. Há 3000 portugueses na Suécia…não era mais fácil pedir a algum deles que faça as transcrições das conferências de imprensa do primeiro-ministro ou do epidemologista chefe ? Não era mais fácil irem à fonte em vez de contribuirem para um circo que costuma ser a praia das CMTVs desta vida? Este é um país onde cada um de nós pode ir ao Google ver se o vizinho tem dívidas ao fisco. Certamente não custará muito descobrir a posição oficial do governo sobre o covid.
Dizia desta vez o DN que Anders Tegnell assumia que a estratégia da Suécia estava errada. É que…o homem não disse nada disso. Disse exactamente o contrário, que iria seguir o mesmo caminho (https://mobile.reuters.com/article/amp/idUSKBN27T2R1). E note-se, eu não estou a discutir qual é o caminho certo. Ao contrário do que vou lendo por aqui, de repente todos somos especialistas em pandemias e vírus, eu não faço a mínima ideia de qual será a saída para isto. A única coisa que me faz pensar é, PORQUE RAZÃO MENTEM, DESCARADAMENTE, ALGUNS JORNAIS PORTUGUESES ? É só isto.
De que forma é que isto ajuda seja quem for? Escapa-me.
A única coisa que Anders Tegnell, e com ele a Suécia, tem dito desde o início é: ninguém sabe nada sobre isto, vamos aprendendo enquanto tentamos combater a doença mas, o essencial é garantir que a propagação do vírus é feita a uma velocidade a que os hospitais consigam responder. Isto parece-me mais ou menos senso comum. Aliás, foi exactamente o que o Costa disse na última conferência de imprensa. Sobre máscaras e confinamentos totais, o que a Suécia defendeu foi, aprendendo com outros países, não notam uma diferença muito grande nos casos/mortos em quem optou por medidas mais severas nesta segunda fase. Tal como a notícia sobre a proibição de se vender álcool depois das 22h. Significa apenas encerrar os bares mais cedo (tal como em Portugal). Nunca foi possível comprar álcool num supermercado mas pronto, a notícia omite essa parte para causar mais fricção. E pronto pá…é isto. Senso comum. Pragmatismo. Nem Woodstock, nem Gulag. Algures ali no meio que é, só por acaso, onde Portugal chegou também. E se estiverem errados, mudam. Sem gritos.
Mas, já agora, se quiserem manter o balanço e continuar com esta fixação nórdica na era pós-Covid, eu ficaria particularmente agradecido e muito menos irritado.
Começavam por distribuir os impostos por quem os paga e não por bancos ou PPPs. Metiam 2 ou 3 creches GRÁTIS em cada bairro e garantiam que o ensino tinha acesso universal. Depois arranjavam forma de entrar no mundo digital e faziam o IRS com um sms ou compravam uma casa sem meterem os pés no banco. O DN poderia continuar a alterar as histórias (por exemplo, 5 creches em cada bairro) só para manter o pessoal da espuma nos comentários. Se é para ficar obcecado com as escolhas dos outros, meus amigos, não sejam pobres a escolher. Não se fiquem pelo vírus. Apontem para cima.
Ps – foto com pessoas ao molho numa das lojas estatais com autorização para vender álcool. Mesmo aqui ao lado de casa. Perto das 5 creches.
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