Views: 8
O café Majestic fechou por falta de…turistas!
Mas há muitos anos atrás o Majestic foi ponto de encontro dos intelectuais e artistas do Porto. Marginais e outros bem integrados. Fica aqui o testemunho do Júlio Gago em relação aos anos 1965-68, mas há muitas outras histórias nos anos posteriores
As nossas tristezas não estão apenas ligadas aos amigos e familiares que morrem. Nem a tudo o que vamos perdendo ao longo da vida, quer integrantes da natureza ou sonhos perdidos. O gato ou o cão que amámos; o pinheiro cuja sombra procurávamos… Ou um café…
Nesta última segunda-feira o Café Majestic, na Rua de Santa Catarina, no Porto, fechou sem uma data apontada para qualquer reabertura. Há pouco mais de um mês fui lá filmado como um dos clientes com memórias longínquas do Café. No próximo ano completavam-se 100 anos sobre a sua abertura. A data historicamente apontada para essa abertura é o dia 17 de Dezembro de 1921; pesquisas recentes querem apontar-nos outra data! Disto me falaram no dia em que filmaram a entrevista que dei. Desses tempos já ninguém por cá anda.
Fui um frequentador diário entre 1965 e Junho de 1968; o período em que, pela primeira vez, integrei o elenco do Teatro Experimental do Porto, pelo menos a partir da meia-noite ou um pouco mais até fechar pelas duas horas da manhã. A nossa mesa, sempre com à volta de vinte pessoas, era a do fundo do lado esquerdo de quem entra. No Verão ficávamos, por vezes, na esplanada interior. Por vezes prolongávamos a nossa presença até às três da madrugada, com a dona, a D. Beatriz a pedir-nos para que passássemos para a mesa em frente, onde os fiscais que passavam na rua não nos viam. Era uma quarentona solteirona muito simpática para nós; por vezes oferecía-nos um pão com um pastelão dentro, que elogiámos na primeira vez em que fez isso. Depois, começou a fazer-nos novas ofertas iguais muitas outras vezes; a determinada altura já não podíamos ver o pastelão no pão. As mulheres do grupo escondiam nas respectivas malas, por vezes acompanhadas pelas dos homens presentes. Outras vezes, os homens guardavam-nas num bolso da roupa que traziam. Na última temporada em que integrei o elenco do TEP (1967-1968), que terminou em Junho íamos ao Majestic ainda com mais vezes ao dia. Após o almoço, ao final da tarde antes do jantar ligeiro que fazíamos, ou, quando não tínhamos ensaios à tarde era o nosso local de repouso, de leitura, de desenho ou de escrita, de convívio… Como dizia a D. Beatriz: era uma outra casa que tínhamos… tal era a nossa ligação a este café. Saudades dos mazagrans (agora ninguém sabe o que isto era), do café de saco e do primeiro cimbalino que chegou ao Porto, das cervejolas e dos vinhos de mesa que por lá bebíamos, das aguardentes e outras bebidas alcoólicas, de um ou outro bolo ou de uma torrada. Mas, quem era os frequentadores deste grupo? Quase uma centena; mas de uma forma diária uns vinte pelo menos. Do Teatro Experimental do Porto: a Fernanda Alves e o Ernesto Sampaio, o João Guedes (quando não ia ao Ceuta), o Luís Alberto e a Isabel de Castro, o David Silva e a Mulher (que nesses anos foram pelo menos duas), a Alina Vaz e o Orlando Neves, a Madalena Braga e o Jorge Corte-Real, a Glicínia Quartin e o Carlos Neto, o José Barrias, o Manuel Ferreira Dias, os Irmãos Calvário (o José Emílio e o João), o Ernesto de Sousa, o João Luiz, a Eduarda Marina, a Maria Alice Vasconcelos, o Egito Gonçalves e a Fernanda Gonçalves; o António Assunção, o António Montez, o Mário Jacques, a Anamaria Sobrinho, o Fernando Rangel, o Júlio Cardoso, o Fernando Gusmão, o Nunes Vidal, o Gomes Carneiro, o Luís Jacobetty, a Lídia de Sousa, o José Luelmo (depois jornalista), o Rui Branco (depois diplomata), a Maria Emília Correia, o Carlos Avilez (enquanto esteve no Porto, no TEP), eu, enfim… Depois, tínhamos o “exército” das Belas Artes: o Júlio Resende, o Augusto Gomes, o José Rodrigues, o Ângelo de Sousa e a Marina, o Armando Alves, o Jorge Pinheiro, o Manoel Pinto, o Eduardo Dixo, o José Grade, o Jaime Isidoro, a Totó (ou seja a Maria Antónia Siza, que viria a ser Mulher do Álvaro Siza Vieira), a Rosa Ramos, o Pichel, o João Machado, e outros ainda alunos como o Barrosinho (Fernando Barroso), o José Bizarro, etc. Havia, também, o grupo de arquitectos e contavam-se entre os mais assíduos: o Lúcio Estrela Santos, o José Pulido Valente, o Pedro Ramalho, o Jorge Gigante, o Álvaro Siza, o Luís Praça e outros. Escritores e poetas como o Eugénio de Andrade, o António Rebordão Navarro, o Papiniano Carlos. Os mais habituais da música eram o Jorge Constante Pereira, a Clotilde Rosa, o Jorge Peixinho e outros. Os jornalistas eram sobretudo os de O Primeiro de Janeiro que ficava a menos de 100 metros, por vezes acompanhados de gente de outros jornais ou rádios; o Ernesto Balmaceda, o Basílio Sousa Dias, o Manuel Dias, o Júlio Sereno, o Teixeira e Castro, e, tantas vezes, o Emílio Loubet, o Pacheco, o João Arnaldo Maia e a Orquídea, o Djalme Neves, os Vilas Pai e Filho, o Frederico Martins Mendes (o Fred), o Pai e um ou outro Irmão, o Nuno Teixeira Neves, o Machadinho do Diário de Lisboa, e mais uns quantos. Do teatro, vindos de Lisboa, eram também frequentadores o Ruy de Carvalho, o Raúl Solnado e a Joselita Alvarenga, o Carlos José Teixeira, o Curado Ribeiro, a Delfina Cruz, o João Lourenço (enquanto esteve no Regimento de Infantaria da Senhora da Hora a fazer a tropa)… Porque comecei a escrever nomes quando faltam sempre muitos… Muitos destes nomes já morreram; outros andam pelo facebook ou pela vida. Vamos lá a ver se algum reage. E, recebíamos gente vinda de Lisboa; alguns tinham recepção especial. A D. Beatriz não retirou as lâmpadas eléctricas, que estavam apagadas todos os dias e haviam dado o lugar à luz fluorescente, que era mais barata. Mas, quando vinham alguns importantes de Lisboa ela ligava a luz eléctrica e apagava a fluorescente. Tinham essa honra gente como o Mário Cesariny, o Rogério Paulo, o José Cardoso Pires, o Artur Bual (estes aqueles que eu vi com esta distinção da dona do café). Portanto, hoje escrevi nomes que frequentaram o Majestic, entre 1965 e 1968.
Depois chegou um brasileiro de torna-viagem, cujo nome não me recordo, que se casou com a D. Beatriz e lá acabaram por morrer os dois. A vida, entretanto, fez-me afastar do Porto e do Majestic, mas muitas vezes regressei ao meu Café. Muito aprendi nestas tertúlias… Em 1994 o Agostinho Barrias comprou o Café, fez profundas obras de remodelação e na reabertura apareceu com a configuração inicial; os anos vinte do século passado voltaram ao número 122 da Rua de Santa Catarina. Já nos anos dois mil foi considerado o sexto mais belo do mundo. Os turistas estrangeiros passaram a ser a frequência normal e os preços foram acentuadamente elevados. Costumo dizer que nos últimos anos não tinha dinheiro para o frequentar como dantes!… Agora desapareceram os turistas e o Café fechou. Lembro-me que quando lá fui filmado, creio que em Outubro deste ano, muitas mesas estavam já desertas; e eu fui filmado em várias diferentes…
Apesar de tudo: AMO O MAJESTIC, como em Lisboa amei o Monte Carlo. São partes importantes da minha vida. São partes importantes da História da Cultura do século XX em Portugal… O Majestic fechou nesta última segunda-feira sem data para a reabertura. Efeitos da pandemia.

1 comment
Like
Comment
Share
Comments
- Depois lerei o texto todo que me parece interessante – só dizer, para quem vinha do Algarve ao Porto que adoro, via filas na Lello e os preços do Majestic…a ganância também mata. Lamento a situação dos trabalhadores.
- Like
- Reply
- 2 m