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O português Wenceslau de Moraes andou muitos anos pelo Oriente e de lá enviou vários relatos que foram sendo publicados ao longo dos anos. É o caso de uma nova reedição que surge agora passado meio século sem estar disponível: O Bon-Odori em Tokushima.
Source: Novas Edições – Regressa a descrição total do Japão pelo olhar de Wenceslau de Moraes
Regressa a descrição total do Japão pelo olhar de Wenceslau de Moraes
Oportuguês Wenceslau de Moraes andou muitos anos pelo Oriente e de lá enviou vários relatos que foram sendo publicados ao longo dos anos. É o caso de uma nova reedição que surge agora passado meio século sem estar disponível: O Bon-Odori em Tokushima.
Certo de que os seus conterrâneos desconheciam expressões como as que fazem este título, Moraes ocupa as primeiras páginas a a explicá-los. “Bon-Odori. Estranha frase japonesa; mais do que estranha – incompreensível -, para leitores da minha terra, aos quais, naturalmente, estas páginas se destinam.” O que é Bon-Odori? “Há no Japão, em cada ano um período, geralmente de 13 a 15 do 7.º mês do ano lunar, durante o qual se festejam todos os mortos”, responde. Estranhamente, como se estivesse a prever o seu fim de vida, faz questão de deixar escrito neste relato que decidiu ir conhecer essa cerimónia realizada em Tokushima devido aos muitos comentários que tinha ouvido sobre ela, até a de que era a melhor de todas as que se realizavam naquele país com o mesmo objetivo.
Descreve-a como “portentosa”, mas a natureza dificultou-lhe a visita ao obrigar Wenceslau de Moraes a enfrentar uma grande tempestade nessa primeira visita. Promete então que voltará ao Bon-Odori por mais um ano, dois ou três, findo o qual adivinhava ter morrido e que ficaria assim em bom lugar para as “comemorações piedosas”. A verdade é que o autor acaba por morrer mesmo em Tokushima, a 1 de julho de 1929, confirmando as “previsões”.
Moraes era oficial da Marinha e esteve colocado em Moçambique, Macau, Timor e no Japão. Macau foi o seu primeiro grande contacto com o Oriente, onde deu aulas no então estreado Liceu de Macau. Aí conheceu Camilo Pessanha e casou com uma chinesa. Cinco anos depois, viaja até ao Japão e não mais deixará de se interessar pela sua sociedade. O exercício dois anos depois da atividade de cônsul em Kobe e o casamento com duas japonesas, ocupam-lhe as três décadas seguintes de vida, tempo em que irá escrever a vasta bibliografia sobre o Japão que se lhe conhece.
Bon-Odori em Tokushima é um desses relatos, em que o autor se propõe escrever impressões íntimas, mas avisa logo que o fará sem método. É assim que os autores japoneses costumam fazer, justifica-se, desde tempos distantes, criando deste modo alguns dos “trechos mais sedutores da prosa nipónica”. Moraes considera que o diário e o livro de impressões recomendam-se, pois apanham ideias soltas no ar, proporcionam monólogos para a descoberta da alma humana e permite reviver o passado. Só depois de elencar muitas das suas visões sobre o Japão é que o título se materializa em páginas que descrevem a famosa comemoração dos mortos em Tokushima, não sem antes descrever a sua ambiência: pesca-se muito por ali, as hortas são fartas, há muita tecelagem, comércio, mosquitos, e uma harmonia arquitetónica que não a diferencia de outras localidades. Estamos em 1914, situa, e refere que só as muitas peregrinações aos vários templos de outras tantas religiões é que se contrapõe à conhecida indolência do povo.
Diga-se que Wenceslau de Moraes não tem pressa em chegar à matéria em causa e gosta de provocar com opiniões como esta: “Os europeus acharão isto pouco e detestável; os japoneses acham isto delicioso.” Mas é este estilo que, ao terminar estas 250 páginas, inteira o leitor sobre o Bon-Odori em Tokushima. Curiosamente, as últimas páginas comentam a preocupação com a aproximação da I Guerra Mundial.
PA