no dia mundial da rádio matei saudades

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Trabalhei na Rádio Renascença no icónico Página Um de José Manuel Nunes e Adelino Gomes, e no Zip Rádio na década de 60 e inicio dos anos 70, depois em Macau, entre 1997 e 1992 tive uma experiência multifacetada na ERM, Rádio Macau, TDM que jamais esquecerei e aqui ilustro

Tudo começou em 1967. Iniciei a minha longa carreira de jornalista da forma mais casual possível ao fazer uma reportagem (a brincar, para treinar-me) do Circuito Internacional de Vila Real e da Fórmula 3. Vendi um exclusivo à Rádio Renascença e graças a isso, haveria de trabalhar para eles até sair de Portugal em 1973. A história começa de forma bem mais prosaica. Estava convidado em Vila Real pelo meu tio Nóbrega Pizarro, à data Diretor Clínico do Hospital e responsável médico pela prova. Calmamente assistíamos na bancada principal quando se deu um grande acidente com um corredor chamado Tim Cash, segundo a reminiscência que guardo do incidente. Como falava bem inglês, fui com ele para servir de intérprete. Acabei a entrevistar o acidentado, gravando tudo no gravador portátil que já me acompanhava sempre para toda a parte. Quando saí do hospital era lógico que queriam saber o que se passava (o homem salvou-se sem grandes mazelas) e ofereci a venda da entrevista em pela fita (naqueles tempos ainda não havia cassetes).

Foi a RR (Rádio Renascença) que me deu 500$00 (2,5€) pelo feito. Mais tarde, escrevi-lhes, numa clara demonstração de saber aproveitar as oportunidades, e ofereci-me para colaborar em futuras provas. A RR achou que o jovem empreendedor tinha pinta e aceitaram-me como colaborador de automobilismo para a Zona Norte. Fui trabalhar com o célebre programa Página 1 de José Manuel Nunes, com colaboradores como Joaquim Amaral Marques, Adelino Gomes, Pedro Castelo. Era o programa de rádio mais ouvido e logo à primeira tentativa, tinha entrado. Viriam a ser notáveis as coberturas que fizemos dos eventos a norte do país.

Curiosamente, uma das notícias mais importantes que transmiti foi, por mero acaso, a da morte de Otis Redding, num desastre de aviação (10 de dezembro de 1967). Isto porque não se usavam frequentemente telexes (quem se lembra deles hoje?) e eu passava a vida a ouvir estações piratas como a Rádio Caroline, Rádio Luxemburg, onde tinham acabado de dar a notícia.

Nessa altura as notícias do mundo demoravam dias a chegar às redações dos jornais e das rádios. Não só nessa época, em plena década de 1990, enviava os despachos para a Lusa, para a Rádio Macau (TDM, RTP) e, mais tarde, para o jornal Público através de telex. Tinha de os enviar da baixa de Sydney. Chegava a Lisboa e ao jornal, provavelmente, com mais de um dia e meio de atraso. O sistema de reportagem fui-o desenvolvendo e melhorando ao longo dos tempos, sem lições de ninguém porque nunca fora feito antes. Inicialmente não me pagavam, depois começaram a pagar as despesas, gasolina, telefones e alimentação. Por fim, já tinha uma avença e pagava aos colaboradores em cada prova. Era um dos dois maiores sonhos da juventude: advogado – carreira diplomática, ou ser jornalista. Antes, aos nove anos, sonhava ser condutor de táxi para andar de carro todos os dias. Desde os 12 ou 13 anos que sonhava com essas profissões. Esta já cá cantava, da outra desistiria. Viria a não diplomaticamente acabar por dar voltas ao mundo sem ser advogado nem diplomata.

Numa primeira fase fazia a cobertura de eventos motorizados com o meu melhor amigo e piloto de competição em ralis, o Taka e ocasionalmente um primo ou um amigo juntava-se a nós. Íamos ver as classificativas cronometradas mais importantes e seguíamos em busca dum telefone para dar os tempos desse troço cronometrado. A seguir começamos a ter mais de um carro para fazer a cobertura e podíamos ter várias equipas a transmitir os dados à medida que os concorrentes iam percorrendo os vários troços. Era a verdadeira cobertura em direto e ao vivo. Já nessa época se vivia com muita intensidade a febre dos Ralis em Portugal.

Havia gente em todos os montes e serras, fosse a que hora fosse. Por mais ermo e deserto que fosse o local havia lá gente. Nos primeiros anos o que nos identificava perante os polícias era uma cartolina grossa, retangular, prensada (feita por nós) com a palavra PRESS a branco sobre fundo vermelho. Depois mandamos imprimir autocolantes com a identificação da emissora e programa. Havia um gravador portátil de cassetes e um par de auscultadores de estúdio para as entrevistas, à partida e à chegada, com uns fios esquisitos e uma ventosa que serviam para transmitir o som através do telefone. Reportagem na hora com meios improvisados e inventados por jovens como eu. Uma vida excitante para um adolescente que permitia contactar com os pilotos, organizadores, equipas de assistência, e as jovens atraídas para estes eventos. Que mais podia desejar? e ainda me pagavam para ter a voz na rádio. Foram, anos e anos sempre a correr, vividos intensamente entre ralis e treinos num velho Opel Kapitän 1958 ou num Volvo “Marreca” PV 544 de 1959, percorrendo tudo o que era estrada municipal ou caminho de cabras.

Opel Kapitän P II p Volvo “Marreca” PV544 Escort Lotus velho Estádio do Académico do Porto, numa das primeiras provas do nacional de iniciados 1971 creio que organizado pelo Vigorosa

Uma vez numa florestal, perto de Gondarém (à saída de Viana), saíra uma manada de vacas e quase que embatíamos num pelourinho. Raramente saímos da estrada. Exceção feita ao primeiro rali de iniciados que fizemos. Depois de partirmos de Santa Luzia (Viana do Castelo, de novo) embatemos fortemente contra um penedo. O motor ficou no lugar do pendura e a roda sobressalente veio para o meu lugar. O carro ficou com a frente desfeita. Eu tive leves equimoses e hematomas nas costas, devidamente tratados no hospital de Viana sem serem do conhecimento de ninguém. Tão abalado fiquei com o acidente que imaginei vir em sentido contrário, saí do carro a correr a cantarolar, sem razão aparente, “Corre Nina” do Paulo de Carvalho, para, logo a seguir, voltar ao carro e desligar o corta-corrente com medo de que deflagrasse um incêndio.

Voltando à Rádio Renascença e ao automobilismo, eu e os amigos íamos acompanhando ralis e outras provas de velocidade. As últimas, em cuja cobertura estive, foram os Circuitos de Vila Real e de Vila do Conde 1972, onde, com o Pedro Roriz, ajudara o já falecido José Fialho Gouveia na reportagem para a RTP. Ali tivéramos o, também já falecido, Adriano Cerqueira a ajudar a contar as voltas ao circuito. Sim, porque naquele tempo não se usavam computadores para contar as voltas. Havia cronómetros para calcular os tempos pois a organização não dispunha de meios para facultar tais dados durante a prova. O Adriano havia acabado de regressar de Angola onde fizera o serviço militar e estava desejoso de se meter no automobilismo. Mais tarde seria, durante décadas, a face do automobilismo na RTP e tive a oportunidade de voltar a trabalhar com ele no Circuito de Macau em 1981 e 1982.

 

Cenas a registar deste período de automobilismo para além das provas em que entrei com o amigo “Takatakata” (Ludgero Carvalho de Abreu) no seu BMC Mini 1000, num Cooper S 1300, ou no Ford Escort Cosworth Lotus 1600, existem muitas das quais irei deixar aqui estas: no Minho, na Serra da Cabreira tentei pedir a alguém que me deixasse utilizar o telefone fixo (não havia telemóveis naqueles dias), a resposta foi a de ser recebido com uma carga de tiros de caçadeira que mal nos deu tempo de correr para o carro em fuga apressada. Isso viria a dar-me a luminosa ideia de passarmos a ter telefones de campanha (telefones da tropa) instalados nas provas cronometradas (no início e fim dos troços) o que foi feito, pela primeira vez, nos ralis e provas de velocidade.

Passamos a ter um ascendente enorme sobre os restantes repórteres com o envio em tempo real dos resultados dos troços cronometrados. Foi a primeira vez, no mundo, que se procedeu assim. Ainda neste período (em 1970 ou 1971) no velho Estádio das Antas pusemos, pela primeira vez, um microfone sem fios dentro de um carro, enquanto o então campeão nacional (Francisco “Xico” Santos) dava as suas voltas à oval do estádio. Foi também a primeira vez no mundo que se utilizou um meio de transmissão radiofónica dum carro em prova, hoje banal com as câmaras de vídeo e imagem a serem colocadas em todos os pontos das pistas e nos carros. Talvez tenha sido a coisa mais inovadora que fiz em toda a vida.

 

Como penso já ter dito, comecei na rádio nos anos 60 e entrei em 1977 para a Rádio (ERM – Emissora de Radiodifusão de Macau) e isso ocupava-me mais algum do pouco tempo livre. Durante os primeiros meses escrevia, lia os noticiários e traduzia telexes (alguém se lembra do que eram?), muitas vezes em direto para poder transmitir as notícias mais recentes.

Também apresentava programas musicais após as horas de labuta na CEM. Depois, quando a RTP tomou conta da ERM e se passou a chamar Rádio 7 ou Rádio Macau (ao que hoje é apenas a TDM), os diretores acharam ser um perigo ter um francoatirador nas notícias e meteram-me a fazer programas musicais na área de produção e projetos especiais. Mal sonhavam que revolucionaria a forma como se fazia rádio. Os programas começaram a ser feitos para a faixa etária até então esquecida, dos 15 aos 25 anos, importando discos de Lisboa e da Austrália.

Depois, organizei concertos ao vivo e tardes de dança no hall de entrada da rádio, tendo conseguido que Rão Kyao estivesse lá a atuar uns meses. O sucesso era tanto que havia gritos histéricos ao passar pelo Liceu, como me recordaria (aquando do nosso reencontro no 15º colóquio em 2011) o meu jovem ajudante Ricardo Pinto que em 2011 era diretor do jornal Ponto Final e dono da Livraria Portuguesa de Macau. Os programas envolviam, pela primeira vez, a participação dos jovens ouvintes e satisfaziam os seus desejos musicais (até então totalmente arredados da estação local que transmitia música pirosa, a música pimba não fora inventada, própria de anciãos de uma qualquer aldeia, do Portugal profundo).

Antes do programa Pão com Manteiga que Carlos Cruz celebrizaria no continente português, inventei o meu programa, altamente controverso, “O Whisky e a Cola” com uma introdução de Bette Midler no filme “The Rose” e o separador musical do louco Alice Cooper “We are all crazy”. Era um programa de rock, reggae e de sátira. Pela primeira vez o reggae chegava ao Oriente. Um dia descobrimos que uma estação de Hong Kong nos gravava a música que passava pela idêntica ordem, pelo que nunca mais deixamos terminar nenhuma composição sem que a adulterássemos com falas a fim de evitar o plágio de reprodução. A sátira dirigia-se a assuntos de governação e de corrupção, sendo dados cognomes a personagens do governo e fazendo – sobre eles e elas – histórias interessantes. Os mais velhos e mais críticos da governação ouviam o programa às escondidas e enviavam mensagens (não havia SMS nem telemóveis) para que ninguém soubesse que ouviam.

Muitas foram as “charges” e piadas sobre a governação contornando a difícil área da sobrevivência. Para notícias mais importantes havia outro subterfúgio. Com efeito, desde que chegara, fizera amizade com os jornalistas Nick Griffin da HK TVB e do Ian Whiteley da ATV e usava-os sempre que precisava de mandar notícias sensíveis para fora de Macau. Ainda hoje guardo religiosamente uma declaração de trabalho como correspondente da Hong Kong TVB nesse período.

Um certo dia, fui a Hong Kong. Ao regressar nessa noite ao programa, improvisei sobre o nacionalismo das gentes de Macau que encontrei a fazer compras na vizinha colónia, falei dos passeios largos, de calçadas à portuguesa, e de outras coisas, quando o então Secretário do Governador (Gonçalo César de Sá, mais tarde, seria meu chefe e diretor da Lusa no Pacífico com sede no Japão) me telefona aflito por suspeitar que eu descobrira uma das maroscas das Obras Públicas.

Ele entendera, na minha sátira que eu tinha descoberto que os projetos aprovados pelas Obras Públicas aceitavam os prédios com uma determinada cércea, mas depois os donos das obras e os fiscais ganhavam milhões quando prolongavam a cércea, a partir do primeiro andar até ao limite exterior do passeio…ora bem, isto em prédios de 15 andares ou mais, ao preço do metro cúbico em Macau, era uma verdadeira mina de ouro que iriam cobrar a mais aos potenciais compradores.

Esta a história inventada que – afinal – era real…

Todos suspeitavam e insinuavam que eu estava por detrás das notícias, mas ninguém o podia provar, era óbvio que depois de aqueles dois estarem em Macau surgiam logo reportagens escaldantes, e como ficavam em minha casa, dois e dois facilmente somados eram quatro. Claro que sempre sustentei que ambos eram meus amigos e jornalistas e, que ficavam em minha casa, mas tinham as suas fontes locais até porque o Nick era fluente em cantonense pois vivia em Hong Kong desde bastante jovem. Assim se transmitiram muitas notícias que a censura local e o poder discricionário do governador de Macau tentavam silenciar. Tempos loucos de pouco dormir e muito trabalhar e folgar (Nota do Autor: folgar não significa fazer folgas, mas sim comprazer-se, divertir-se, tomar parte em folguedos).

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