moçambique, cabo delgado e a história esquecida

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Nada como ler aquele que é certamente o maior conhecedor da complexa teia cultural do norte de Moçambique para compreender como ali a estruturação social de hoje é ainda amplamente dominada pela herança dos caçadores de escravos islamizados.
“Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a mercadoria humana suplantou o comércio do marfim. No tráfico estiveram envolvidos todos os chefes suaíli do norte de Moçambique, assim como dos centros muçulmanos de além Rovuma: Quíloa, Pemba, Zanzibar, e também das Ilhas Comores e dos centros islâmicos do noroeste de Madagáscar e ilhas adjacentes. Todos estes entrepostos islâmicos se relacionavam numa estruturação mercantil em rede. (…) O sultanato de Angoche conheceu nessa época uma estrutura e organização política poderosas, tendo chegado a dominar todas as ilhas koti e uma vasta área continental, avassalando por períodos os xecados de Sangage, Quinga, Larde, Moma, Naburi, Moebase e Pebane. Os negreiros de todos estes centros islâmicos mantinham relações com Kilwa, Zanzibar, Comores e Madagáscar, manifestando-se pouco receptivos aos contactos com os portugueses, embora negociando com negreiros lusos, brasileiros, franceses, etc”.
“Em Agosto de 1976 dei-me conta destas estratificações em Angoche e nas Cabaceiras. Na Cabaceira, verifiquei que havia gente que se afastava do caminho quando por ele seguiam pessoas de status diferente. Em todos os idiomas do norte de Moçambique,
quer do litoral como do interior, há termos específicos para designar os «cativos» da linhagem (…)”.
Eduardo Medeiros – «O Islão e a construção do espaço social e cultural macua» – In Representações de África e dos Africanos na história e cultura”. Ponta Delgada: Universidade dos Açores, 2009.
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