Margarita Correia · Evocando João Malaca Casteleiro

Views: 0

Evocando João Malaca Casteleiro
Texto lido durante a Assembleia Geral da APL, em 29 de outubro de 2020
Conheci o Professor Malaca em 1989, quando ingressei no Mestrado em Linguística da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL). Fui sua orientanda de mestrado e de doutoramento, sua assistente e sua colega. Na altura ele era mais novo do que eu sou agora e eu era uma miúda de 28 anos.
João Malaca Casteleiro nasceu em 29 de agosto de 1936, tendo falecido com 83 anos de idade. Eu costumava brincar com ele e com a Maria Tereza Biderman, outra eminente lexicógrafa da língua portuguesa, falecida em 2008, dizendo que o dia 29 de agosto deveria ser instituído nos nossos países como “dia do lexicógrafo”, pois ambos celebravam o seu aniversário nesse dia.
João Malaca Casteleiro foi professor catedrático da FLUL, diretor do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa e membro da classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa (ACL), onde criou e presidiu durante anos ao Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa. Presidiu também durante muitos anos ao Departamento de Língua e Cultura Portuguesa da FLUL, prontamente extinto após a sua jubilação.
Malaca Casteleiro distinguiu-se nos estudos no âmbito da sintaxe, do léxico e da didática da língua, tendo orientado mais de meia centena de teses de mestrado e doutoramento. Participou em vários trabalhos conducentes à unificação da norma ortográfica da língua portuguesa, sendo um dos autores do texto do Acordo Ortográfico de 1990. Deixa vasta obra, na qual se destaca a coordenação científica do Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea, trabalho que não conseguiu atualizar, como pretendia, e o Dicionário de Língua Portuguesa Medieval (a ser publicado), coordenado por si, por Maria de Lourdes Crispim e por Maria Francisca Xavier, nossa colega também recentemente falecida.
Malaca Casteleiro ocupou muitos cargos e desempenhou funções de grande visibilidade e responsabilidade, participou em projetos e ações determinantes para o futuro da linguística e para o desenvolvimento da língua portuguesa. Marcou definitivamente a linguística da língua portuguesa e o ensino de português como língua estrangeira.
Serviu com competência e abnegação as instituições onde trabalhou, a ACL e a FLUL principalmente, a ambas tendo deixado inestimável herança científica e humana, e, no caso da segunda, também pecuniária.
O seu contributo para o desenvolvimento, a difusão e a internacionalização da língua portuguesa foi inestimável. Foi pedra basilar da difusão do português em Macau e na China, granjeando o respeito e a amizade de autoridades macaenses e chinesas, e abrindo o caminho para as muitas formas de cooperação em língua portuguesa hoje em curso. No DLCP, foi responsável pela formação de alguns milhares de estrangeiros, que nesse departamento aprenderam ou aprofundaram os seus conhecimentos sobre a língua portuguesa e as culturas que nela se exprimem; foi também dos maiores responsáveis pela formação de professores de português, como língua materna ou estrangeira ou segunda, espalhados pelo mundo inteiro. Ao orientar dissertações e teses, apoiou os seus alunos cientificamente, profissionalmente e também pessoalmente. Deixou-nos o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, que, apesar dos erros e inconsistências que lhe reconhecemos, é ainda hoje o dicionário estruturalmente mais conseguido, mais moderno e mais científico existente para o português europeu. A última obra que coordenou em parceria, o Dicionário da Língua Portuguesa Medieval, vem preencher uma lacuna significativa na lexicografia portuguesa e fortalecer o conhecimento sobre a história do português. Contribuiu para a proposta de Acordo Ortográfico de 1986, que teve como maior erro o facto de ser fundamentada na linguística mais avançada da época, inovadora e radical, não tendo os seus autores percebido na altura que poucas coisas haverá mais conservadoras, ideológicas e elitistas do que a ortografia de uma língua. Foi um dos autores do texto do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 e um dos responsáveis pela sua aplicação, com a qual a língua portuguesa deu um passo de gigante na consolidação do seu estatuto de língua efetivamente comum de oito países, elo de união de povos de diferentes etnias, culturas e latitudes.
João Malaca Casteleiro não recebeu em vida o reconhecimento e a homenagem que lhe eram devidos, porque foi um homem íntegro, porque nunca foi pessoa de cultivar amizades interesseiras, de bajular, nem de vergar ou de se vender; e porque, infelizmente, as instituições e as pessoas que as dirigem são o que são. Pessoas com a verticalidade e o denodo do Professor Malaca nunca são, nem poderiam ser, consensuais.
A língua portuguesa, una e forte, internacional e pluricêntrica, deve muito à sua visão e ao seu trabalho. Os seus discípulos, entre os quais me incluo, ficam órfãos mas fortes, com o dever indelével de preservar o seu legado e prosseguir a sua missão.
Mas, para mim, não são estas as características que melhor o definem.
O Professor Malaca foi um homem bom e generoso, muito mais interessado no bem comum do que no seu próprio, um homem de ação, que sempre levou por diante os projetos em que acreditou, com coragem e determinação. Costumava dizer que “quem nada faz nunca é criticado” e esta frase define-o como académico e professor, mas também como cidadão e como pessoa.
Foi um homem simples e corajoso. Ao longo da sua vida nunca voltou as costas aos desafios e às criticas (tantas vezes infundadas e injustas), travando as suas batalhas pessoais e profissionais com desassombro, arrojo e até heroísmo. Muito ousou e muito conseguiu.
Sempre me tratou com respeito e consideração, dando-me toda a liberdade para desenvolver as minhas ideias e a minha pesquisa. Sempre me permitiu expressar as minhas opiniões com frontalidade, mesmo quando discordavam das suas, o que era frequente. Sempre me aceitou como sou, como penso, não sem deixar de brincar com as minhas ideias e posições políticas mais radicais.
Unia-nos o gosto pelo léxico, pelos dicionários, pela língua portuguesa. Unia-nos também a crença no papel social e político que os linguistas podem e devem desempenhar.
Profissionalmente e também a nível pessoal construí com o Professor Malaca uma relação alicerçada no respeito mútuo, de aberta frontalidade e franqueza, características que muito aprecio nas relações humanas e profissionais. Sinto por ele profundo respeito, gratidão, amizade e carinho. Para mim sempre será, como sempre foi, “o Professor Malaca”, até no nosso último encontro, no Porto, em outubro de 2019. Aprendi muito com ele, da linguística e da vida. Tenho muitas saudades dele e das longas convesas que tínhamos, mas a sua memória permanece sempre comigo.
Image may contain: 2 people, suit
25
7 comments
Like

Comment
Comments
View 4 more comments
  • Associo-me a essa homenagem. Pessoa de bem, fica sempre em nossas memórias, conheci-o na Fcsh- Nova em uma actividade acerca de lexicografia. Voltei a encontrá-lo na academia no colóquio sobre o acordo. Trocamos impressões.
    • Like

    • Reply
    • 3 m
    • Edited