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Rico cardo
Sou português.
Daqueles que gostam do hino e da bandeira. Dos que choram quando vêem o Carlos Lopes ou a Rosa Mota entrarem sozinhos no estádio olímpico, depois de 42 quilómetros corridos. Quase mergulhava no ecrã da televisão para entrar nas pernas deles, dar-lhes mais força nos últimos metros. Como se eles precisassem…
Mais lágrimas a tingir a bandeira que drapejou por cima do peito de todos os nossos atletas medalhados. E pelo Nobel de Saramago. E pelos irmãos Sobral, quando amaram por dez milhões. E pela seleção de futebol no dia em que vergou a França no seu próprio estádio e se sagrou campeã da Europa.
Sou também açoriano. Que é uma forma muito especial de ser português. Não é impunemente que se escorrega nos limos da maré baixa por os olhos voarem para o horizonte. Ou se apanha um peixe-rei com ova de lapa. Ou se esgravata na areia dos Capelinhos para tirar uma pedra ainda quente que veio de dentro da Terra. Ou se vibra com cada golo do Pauleta.
Sou um português que nasceu nos Açores.
Por isso lutei contra a FLA, quando houve açorianos que queriam deixar de ser portugueses. Com poucas armas. Apenas com palavras. As mesmas que deixo nas páginas deste jornal todas as semanas. Naquele tempo, no “O Telégrafo”, da Horta.
Claro que a gargalhada de Tato Borges era evitável. Ele próprio o sabe. Mas saiu-lhe. Acontece a qualquer um.
Mas não ouvi a gargalhada de um “português”. Ouvi sim o riso de um médico conceituado, que sabe da sua arte, perante um leigo tonto que disse uma daquelas coisas populistas que muitas vezes repetiu ao longo da vida. Estivesse Ricardo no consultório de Tato a julgar ter uma gripezinha e ele a dizer-lhe que afinal estava com Covid, e nem Tato riria, nem Ricardo lhe chamaria “português”. Agradeceria a competência, escutaria o médico, agradeceria o diagnóstico, pediria conselhos para se curar.
Deixem-me contar-vos uma história. Faz em setembro dois anos que fui fazer uma ecografia de rotina aos rins. O médico da especialidade disse-me logo que tinha visto uma mancha no rim direito. Enxuguei o suor da testa na manga da camisa e perguntei se era um tumor. Ele respondeu-me que não podia dizer nada sem uma tac.
Saí da clínica da Praia com passos de procissão do Senhor dos mesmos. Quando estava a chegar ao carro, ligou-me o Dr. Rui Bettencourt, meu Amigo, antes de ser médico. Perguntou-me se ainda estava perto, pediu-me para voltar à clínica. Era para fazer a tac imediatamente. No fim do exame, ficou claro: tinha de ser operado para me tirarem o rim. O Dr. Rui Bettencourt levou-me para o seu consultório e afiançou-me que seria tratado como se fosse da família. Fiquei honrado, embora soubesse que trata assim de forma amiga todos os seus doentes.
Em novembro seguinte fui operado pelo Dr. Raul Rodrigues, na presença e apoio do conceituado Dr. Rui Lúcio, que implementou a laparoscopia no nosso hospital, vindo todos os meses da Fundação Champalimaud. Correu tudo tão bem que aqui estou.
Quatro continentais, médicos conceituados, a me valerem e a ficarem ou a permanecerem meus amigos. E nem me passou pela cabeça perguntar-lhes onde tinham nascido, eu que não sabia ao tempo se iria morrer. Graças a Deus o meu bicho era benigno.
Não me dá vontade nenhuma para rir a razão pela qual Ricardo Rodrigues foi afastado do cargo de Secretário Regional há muitos anos. Nem me deu para gargalhar quando o vi a roubar gravadores a jornalistas, cometendo vários crimes pelos quais foi condenado. Nem sequer sorri quando o vi a tratar de forma reles vereadores da oposição, em reunião que dirigia como Presidente da Câmara. Fiquei até muito sério quando o vi constituído arguido em vários processos.
Mas estalo em gargalhadas quando o ouço chamar “português” a Tato Borges, depois de ter sido deputado na Assembleia da República.
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)