mais sobre a descolonização de Timor 1975

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CONTINUANDO…

Vou prosseguir, bisbilhotando uma ou outra passagem do livro, que já referenciei, “Timor, a Verdade Histórica”, ainda que tenha muitas passagens muito longe de a ela (a verdade) corresponderem. Mas tudo ajuda a nos aproximarmos da nossa intenção, impossível, até porque muitos intervenientes já partiram, e penso que nunca confessariam o que esteve, na realidade, por detrás da hecatombe timorense.
Comecemos por um título “A FRETILIN nasceu alguns anos antes da queda do fascismo em Portugal”, denominação que cai imediatamente por terra, não só por aquilo que conhecemos, mas também pela ‘nota’ que ali está, retirada da pág. 28 do livro, “Timor — quem é o culpado?”,de que foi autor António Cravo Cascais, e que é do teor seguinte: “Esta afirmação é falsa. Antes do ’25 de Abril’ não havia FRETILIN”. Já a segunda parte da nota, não pode ser crível e deve ser absolutamente falsa, não se sabendo onde o dr. Cravo Cascais, infelizmente já há muito falecido, foi buscar que “e o Ramos Horta até era informador da PIDE/DGS”. O que é verdade, e de conhecimento geral, é que ele foi durante um ano ‘a ares’ para Moçambique, enviado pelo governo de Valente Pires, a solicitação daquela polícia.
Passemos, então, adiante: “Aliás estas intenções já se vinham revelando, quer pela actuação de elementos radicais da ASDT/FRETILIN, em 11 de Setembro de 1974. Verificava-se, pois, que a FRETILIN enveredou por uma via revolucionária, apologista da violência, o que de modo algum era permitido pelo programa do MFA, tanto mais que em Timor não havia antecedentes recentes de movimentação armada contra o domínio colonial. Nestas circunstâncias, surpreende que o governo local não tivesse tomado atitude semelhante à que a formação da APODETI provocara, decidindo ou pedindo instruções a Lisboa sobre a viabilidade da existência da FRETILIN, com as características que anunciava e praticava já. A surpresa é tanto maior dado que o Comando Militar referiu em documento “a necessidade de actuar energicamente sobre os extremistas da FRETILIN, que visam ser o único interlocutor válido, sob pena de se contrariar o espírito do MFA”. Uma atitude de firmeza expulsando alguns elementos indesejáveis à evolução pacífica do processo de descolonização estava, aliás, prevista nas directivas verbais dadas pelo EMGFA ao encarregado de governo.”
“Um dos aspectos mais importantes neste período foi o diferendo entre o tenente-coronel Herdade, encarregado do Governo e o comandante militar, e o Major Metello, CEM/CTIT e delegado do MFA. Daqui resultou a grande quebra de autoridade e a divisão dos militares, em especial os oficiais, formando grupos de apoio a cada um deles; os oficiais mais conservadores ligaram-se ao encarregado do governo, que representava a linha hierárquica tradicional; o delegado do MFA ficou muito isolado no meio militar (praticamente apoiado pelos elementos da Comissão de Autodeterminação e alguns oficiais milicianos) e civil. Ao grupo que apoiava o encarregado do governo juntaram-se também funcionários civis e elementos conservadores.”
“Esta situação motivou a utilização de ligações directas, fora do conhecimento militar, entre o delegado do MFA e Lisboa e também com as unidades militares locais. A manutenção em Timor de duas entidades altamente responsáveis, durante dois meses, que logo de início revelaram incompatibilidade de processos, agravou substancialmente a “unidade” militar.”
“Houve necessidade, em Agosto, transferir para outro território três oficiais milicianos que desenvolviam actividade partidária a favor da ASDT (posteriormente FRETILIN).”
“Os militares metropolitanos, praças e milicianos, desenvolveram intensa actividade reivindicativa, com reuniões na via pública, visando forçar o seu embarque para a Metrópole. Chegou-se ao ponto de, com conhecimento do próprio comandante militar, os metropolitanos terem entregue uma carta com reivindicações ao Ministro Almeida Santos na altura em que desembarcou em Díli.”
“Esta situação determinou a deslocação do Major Hugo dos Santos a Timor, onde teve prolongadas reuniões no âmbito militar; houve uma certa acalmia mas a situação continuou a considerar-se “potencialmente efervescente”.
“A chegada da COM veio provocar um agravamento importante da já deficiente disciplina no meio militar. A indisciplina demonstrada pelos metropolitanos provocou pânico na população, desenvolvendo a ideia de que “Portugal teria a intenção de abandonar Timor”. A influência também foi grande entre os militares naturais, que viam quebrar-se o prestígio com que se habituaram a considerar os europeus. O agravamento do estado de disciplina obrigou à necessidade de abreviar a timorização das Forças militares, mandando regressar à Metrópole os elementos dispensáveis.”

É PARA CONTINUAR…