Luís Filipe Sarmento

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85.
De mão dada com a minha mãe, em 1960, pelas alamedas do sucesso previsto, que ela vivera, depois de tantos quilómetros em caminhos-de-ferro, prometera-me a luz do sonho, como previra a avó com o seu baralho cigano. Lisboa estava em casa, a música da saleta, os primeiros livros para colorir com água pela mão de minha mãe, que tinha um sorriso tão deslumbrante como o azul quente do céu. Deu-me tanta imaginação para brincar com as palavras em cubos de madeira onde cada face mostrava a estética pueril do pós-guerra. E a guerra continuava nas vozes de San Francisco que eu desconhecia. E eu sonhava com a possibilidade do mistério dentro de cada cubo. Alheio, no interior da minha infância, às guerras que os adultos exibiam com garbo, esquecendo o péssimo exemplo que manifestavam na educação de um novo tempo que urgia. A minha mãe divertia-se quando me animava, nos seus joelhos, que lhe contasse o meu segredo sobre o mistério que escondia o cubo com a letra A. E surgia toda uma mitologia dos brinquedos e de animais selvagens. A civilização ao longe ribombava em guerras fratricidas. As acrobacias das letras dos cubos em voos e cambalhotas que insinuavam outras letras e muitas histórias dos mistérios daqueles brinquedos gigantes e desproporcionados às mãos de uma criança de quatro anos; histórias tão infindáveis como o sorriso de minha mãe antes do dia da operação final em que a terra dos pesadelos a roubou ao meu sonho. Herdei o desenho do seu sorriso e projectei, só, em todas as noites, as infinitas histórias dos mistérios dos cubos de madeira colorido. Pouco depois, comecei a escrevê-las no meu esconderijo de um armazém que guardava os brinquedos de um carrocel de feira. Aqueles eram os meus deuses que tinham guardado a minha mãe na casa distante de outro sonho. Foram anos e anos sem a consciência que os adultos me queriam impor e onde nunca perdi a minha mãe de vista mesmo depois de morta na tranquilidade obscena de um cemitério. Durante estes anos criei em segredo um universo íntimo que fez temer aqueles que se ocupavam da minha guarda, sem perderem a ocasião do insulto fácil e inconsequente, como se eu fosse um ferido perdido no acaso dos dias ou um lamentável acidente familiar. Ao sorriso azul da minha mãe eu respondia-lhe com o sorriso das mãos que nunca cresceram nos meus sonhos. Mãos de cinco anos com a memória transparente que me ilumina desde então o sono para que o sonho aconteça a milhares de sonos-luz de distância, essa medida desconhecida de quem me recusava o sonho. Desde então, vagabundeio às portas do seu sorriso azul solar, esperando o néctar das suas palavras redondas, desenhadas dentro do meu silêncio, como os seus bolinhos de sabor tão bem guardado debaixo da língua. E ao tempo cedi-lhe a minha vocação imaginada já no baralho cigano da avó. Tudo numa época em que tu, Allen, chegavas a San Francisco para anunciar o nascimento vindouro de um tempo na dimensão secreta da palavra liberdade
Luís Filipe Sarmento

, «B.-A.», 2021

Foto: José Lorvão
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