Luís Filipe Sarmento

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Quis sonhar o dia. Sem a calamidade da proibição de conhecer. Que tivesse o esqueleto de uma outra realidade. Mas manipular o dia não era tarefa fácil, senão mesmo impossível. Um dia sonhado como um novo arquétipo da eternidade não deixa de encerrar em si ocultações, mistérios, enigmas, que lhe dão um grau de parentesco aos dias de pesadelo e chumbo que agora queria apagar com o sonho de um novo dia. Um dia sem as feras da cidade selvagem. E sem falsos arcanos. Um dia à oposição dos dias. Um dia sem a magia negra dos mercados obscuramente brancos. Sem o simulacro das gravatas nem o insinuante sorriso das espias que deflagram a quietude instável dos condenados ao pesadelo da magreza. Um dia sem astros artificiais. Um dia deslocado do mundo. Um dia manifestado sem a opulência metafórica dos deuses. Sem a mácula dos contrabandistas da morte. Um dia novo. Sem os apêndices poluidores da civilização que tem descivilizado a natureza do bem-estar. Um dia como apoteose da liberdade. Um dia para existir sem fronteiras. Sonhar o dia para se sonhar na dimensão plena de uma nova existência. Contra a angústia da velhice abandonada em parques de hospícios fechados. Contra a obscuridade lucrativa da fraude. Um dia contra o medo do dia seguinte. Contra as previsões demolidoras dos pactuantes da exploração eterna. Sonhar um dia contra a mágoa do que se perdeu às mãos dos agiotas do desfalque. Sonhar com um dia a favor do ar que respiraria sem gases artificiais. Um dia sem o cimento armado de exércitos de destruição recorrente. Um dia sem clandestinidades absurdas. Um dia sem as falsas lotarias dos usurários. Sonhar com um dia sem a hipermoderna escravatura dominada e negociada pelas sinistras associações de falsos empresários, de falsos empreendedores, de falsos investidores. Sonhar com um dia sem falácias governativas. Um dia contra os touros sagrados da economia do saque a olho nu. Sonhar com um dia de vergonha. Um dia contra a impostura moral dos sacerdotes do dinheiro divino. Um dia contra a vertigem da miséria em promoção nos contratos de escravidão. Um dia de festa dos plebeus como se a eternidades lhes pertencesse sem o sofrimento que as castas dominantes e usurpadoras da história lhes impuseram como uma inevitabilidade do destino. Sonhar com um dia em que testemunhasse a resolução de todas as cores. Um dia tão singular como uma obra de arte. Um dia com as ferramentas para se reinventar no dia seguinte. Um dia sem a predestinação dos assassinos. Um dia contra os pusilânimes fortificados em caixas fortes da avareza institucional. Sonhar um dia contra a histórica assimetria dos povos condenados à exploração. Um dia sem os labirintos perigosos da sobrevivência. Um dia sem pus nem cavernas bancárias. Um dia sem metástases nem destruições químicas. Um dia, um só dia que fosse, sem exércitos nem confrontos pelo poder do que a todos pertence. Sonhou com um dia espiritual sem o peso nefasto das religiões. Sonhou sem deuses nem anjos. E acordou em plena crença do sonho.
Luís Filipe Sarmento

, «Rouge – Éclatant», 2020

Foto: José Lorvão
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  • Entre o acordar e o sonhar , uma existência!! Belíssimas palavras!! 🙏🙏
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  • Uma boa tarde

    Luís Filipe Sarmento

    !!!! Bjs

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