leonel morgado analisa os últimos dados

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Hoje já podemos perceber o efeito da última semana de abril. A partir de amanhã esperaremos ver o efeito da 1.ª semana de maio.
Olhemos primeiro para o número de testes: tivemos mais ou menos tantos como nos últimos 5 dias, mas hoje com poucos positivos. 4% era um valor habitual até há 15 dias, mas ultimamente eram muitos mais. É como se tivesse havido um pontapé nos positivos durante 3 dias. Há várias possibilidades para isso.
Os adeptos das conspirações irão dizer que eram positivos escondidos que foram despejados agora que havia poucos. Como já tive oportunidade de mostrar, essa ideia não colhe: uma análise dos números mostra-os resistentes a análises clássicas de fraude contabilística.
Os otimistas dirão que são apenas alguns casos de muitos positivos concentrados, não algo generalizado. Bem, em parte pode ser: houve dois dias de muitos positivos em Lisboa, após dois dias quase sem positivos, o que pode apontar para um núcleo (Azambuja?) de casos. Mas também houve dois dias forte no Norte. Portanto, essa ideia não explica tudo.
Os pessimistas dirão que é do desconfinamento. Lamento, mas não é: como espero mostrar na amplicação, o “pontapé” corresponde a contágios ocorridos a partir de 26 de abril. O ritmo retomado de hoje corresponde mais ou menos à quinta-feira, véspera de feriado. O grosso do impacte (se houver!) do 1.º de maio e desse fim-de-semana só se espera a partir de amanhã (e se o domingo e segunda-feira forem dias de poucos testes, só lá para terça-feira), pelo que o desconfinamento de dia 3 de maio só se verá lá para 4.ª ou 5.ª-feira.
Outra possibilidade que entrevejo é que haja um fartar, um desacreditar na contenção, devido a uma mistura de cansaço, falsa sensação de segurança e maus exemplos públicos: o não uso de máscaras com muita gente reunida dentro da Assembleia no 25 de abril, os ajuntamentos de mais de mil pessoas no 1.º de maio, a Assembleia que agora usa máscaras mas as tira para falar (não devia ser ao contrário?); os ministros e responsáveis que vão à televisão sem máscaras.
Esta possibilidade tem coisas a favor e contra.
A favor: de facto houve este grande aumento de casos na semana de 26 de abril.
Contra: houve uma estabilização no crescimento hoje.
A favor: ajuntamentos farão contágios, mais gente ativa e descuidada farão contágios.
Contra: usar mais máscaras, ainda que mal e pouco, limita os contágios (não tanto quanto se poderia conter, mas qq. coisa).
A favor: os internamentos estavam a cair a grande ritmo, mas nestes dias do “pontapé” subiram bastante.
Contra: os internamentos em UCI continuam a descer e os internamentos no último dia parecem abrandar um pouco.
Portanto, o que isto nos diz que devemos atentar nos próximos dias é o seguinte:
– ver se há ou não aumento no ritmo entre amanhã e terça-feira (com um dia lento pelo meio, por causa do fim-de-semana);
– ver se há aumento ou não dos internamentos (normais e UCI);
– ver se o ritmo das mortes aumenta a partir de 4.ª ou 5.ª feira ou não (por causa do atraso entre mortes e internamentos).
Se tudo isto for mau, estaremos perante uma situação preocupante.
Se nem tudo for mau, estaremos talvez numa situação gerível.
Mas o indicador das mortes será o decisivo: se não houver aumento de mortes a partir de 4.ª / 5.ª-feira, isso significa que estes novos casos são apenas testes feitos a suspeitos concentrados junto a um caso anterior, não testes feitos a pessoas que apresentem sintomas. Se houver aumento de mortes, isso significa que este aumento corresponde a um aumento de casos graves no terreno, não apenas a efeito de testes.

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