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Peixe do meu quintal José Soares
Democracia ao domicílio
A sucursal nos Açores da televisão pública portuguesa levou a casa dos habitantes insulares em direto, todos os candidatos e candidatas que se apresentam nas próximas eleições para a Assembleia Legislativa açoriana no 25 de outubro próximo.
Não reconhecendo como democrático o atual regime eleitoral viciado por listas partidárias, devo no entanto e em abono da ética que abraço constantemente, felicitar a televisão pública pela iniciativa, alheia que é à lei eleitoral, limitando-se ao seu cumprimento.
Todas as nove Ilhas apresentaram civicamente os seus candidatos. Todos tiveram a oportunidade de expor aos açorianos e açorianas os seus manifestos eleitorais e programas para os próximos quatro anos. O Povo ouviu e agora decidirá de forma mais lúcida e concreta. A sua decisão irá provocar a escolha do próximo governo para os Açores.
Longe ainda de ser o autogoverno que desejaríamos é no entanto o governo possível adentro dos condicionamentos constitucionais centralistas de Lisboa. Seremos sempre o que Lisboa quiser que sejamos… até um dia.
Mas sejamos francos e sinceros. O que vimos através da televisão insular, não se pode comparar com a extrema pobreza, selvajaria, primitividade, ausência de escrúpulos, xenofobia e racismo e mais que não mencionarei aqui, daquilo que nos foi dado ver a partir dos EUA, no primeiro debate entre os dois candidatos à presidência da grande República Americana. Foi degradante.
Alguns analistas poderão argumentar que o processo eleitoral português imposto aos Açores (o mesmo que em Portugal e Madeira) evita exatamente que candidatos “fora da caixa” apareçam e façam do sistema chacota em benefício pessoal.
Se assim fosse, não teríamos tido vários políticos a contas com a Justiça por corrupção, branqueamento de capitais, tráfico de influência e muito mais.
Sócrates, ex-primeiro-ministro pelo Partido Socialista; João Vasconcelos, ex-secretário de Estado da Industria; Jorge Costa Oliveira, da Internacionalização; Fernando Rocha Andrade dos Assuntos Fiscais; Carlos Costa Pina, secretário de Estado do Tesouro e das Finanças (investigado pelo Ministério Público); Miguel Macedo (PSD), ministro da Administração Interna de Passos Coelho; António Mexia, ex-ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações (PSD) no governo de Santana Lopes; Manuel Pinho (PS) ex-ministro da Economia com a tutela da Energia; José Manuel Canavarro (PSD), secretário de Estado da Administração Educativa no governo de Santana Lopes; José Magalhães e Conde Rodrigues, ambos governantes do tempo de Sócrates, acusados do uso indevido de cartões de crédito do Estado. O Ministério Público investigou o gasto de 14 mil euros em livros por Conde Rodrigues, entre outras coisas; Armando Vara, ex-ministro (PS), ex-banqueiro, bem como vários cargos e funções. Foi ainda agraciado por Jorge Sampaio (21 de abril 2005) com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, tendo perdido este título em janeiro de 2019, por ter sido condenado a 5 anos de prisão efetiva no processo ´Face Oculta´.
A lista poderia continuar, mas não é nossa intenção fabricar aqui um levantamento dos políticos castigados pela justiça.
Existem ainda todos os malabarismos económicos dos partidos que habitualmente exercem e controlam o poder, nas profícuas transferências financeiras para toda uma multitude de projetos e obras públicas, com generosas sobras que terminam nos cofres partidários para alimentar a máquina da contínua manutenção do poder.
O atual sistema eleitoral só continuará a servir as elites partidárias, as castas do poder, deixando de lado o cidadão comum e só a ele recorrendo quando precisam dos votos, bastando descarregar toneladas de promessas vãs e mentiras durante algumas semanas de campanhas eleitorais.
Portugal e as suas neocolónias insulares necessitam de profundas alterações estruturais, que só através da auxiliar imposição de Bruxelas podem ver a luz do dia.
As castas políticas portuguesas jamais serão capazes de governar com a transparência e ética republicana. Está-lhes no código genético a tendência para descambar, honrando as exceções como o ex-ministro do governo de Passos Coelho, o independente Álvaro Santos Pereira, economista, jornalista e romancista, que um destes dias deu uma excecional entrevista no programa “Negócios da Semana”, da SIC Notícias (um dos melhores programas semanais televisivos da atualidade) conduzida com a mestria habitual do jornalista José Gomes Ferreira.
A casta política não se admire se os números da abstenção continuarem a subir. O desprezo do cidadão pelo atual sistema é cada vez maior.
E isto só pode agradar aos agora denominados “populistas” das extremas (direita e esquerda).
A integridade de pessoas como Álvaro Santos Pereira reflete a voz da consciência da esmagadora maioria que tem sido manipulada pelos principais partidos que durante toda a democracia portuguesa preferem não ter a coragem de governar na verdadeira aceção da palavra. Vão empurrando com a barriga, sempre cheia e confortável.
O povo é por todas as causas incentivado a não participar nesses desvarios políticos, nessa mentira democrática, mas sim a ficar em casa.
Tudo acaba por se transformar num verdadeiro atentado à Democracia, exemplarmente espelhado na negatividade política.
Talvez seja tempo de votar, sim, mas em diferentes forças políticas que ainda não sofrem do mortal vírus do poder arrogante.