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José Martins Garcia
LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Um Querubim, reconciliado com a matéria, subiu a uma árvore e pôs-se a cantar. Um Revolucionário, que andava por ali a escutar, mostrou-se ao Querubim e disse:
– Que lindo cântico o teu, ó Querubim! Só é pena não escolheres uma boa letra para essa esplêndida música. Desce daí e vamos ensaiar juntos uma canção.
O Querubim, sentindo-se bem naquele poleiro, replicou:
– Eu canto as letras da minha autoria. E é assim que entendo a liberdade.
– Não tens razão – volveu o Revolucionário. – Na hora grave que atravessamos, temos de optar pelo trabalho de equipa.
– Certo, certo! Mas eu não quero formar equipa contigo. Sempre disseste que eu não sabia cantar…
– É falso! – gritou o Revolucionário. – Eu acho que a tua música é a melhor do Universo. E, se pus restrições quanto à letra…Bom, vejamos, és ou não és pela liberdade de expressão?
– Eu, sim! Tu, não!
– Enganas-te! Desce daí e vamos discutir esse problema. Juntos, faremos uma obra imortal…
O Querubim não se mexia. Então o Revolucionário jogou o grande argumento:
– Vês?… Afinal, quem é que recusa o diálogo? Desce daí, vamos entender-nos. Ou será que vocês, democratas, não ouvem a opinião alheia?…
Lentamente o Querubim veio descendo, disposto a um debate democrático. Mal o apanhou a jeito, o Revolucionário cortou-lhe a língua.
(COMPANHIA DAS ILHAS, 2019)

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