JOSÉ GABRIEL AVILA RECORDAÇAO DIO DIA DAS MONTRAS

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(Crónica Rádio Atlântida)
Recordações do Dia das Montras
O vírus continua a vaguear por aí, qual ladrão ou diabo ou à solta, intentando penetrar nos mais débeis, molestando os incautos e
imprevidentes de qualquer idade.
Esta convicção amedronta todos, por isso os mais cuidadosos estão confinados entre portas.
Noutros anos, por estas alturas, as artérias urbanas encontravam-se cheias de ávidos consumidores que, num constante chega-te para lá, entravam e saíam das lojas pejados de sacos com prendas.
Tudo o que havia não chegava para calar a febre consumista que o sistema económico foi construindo nas últimas décadas.
Quem não recorda as correrias aos brinquedos do “Manteiga” e da “Lusitana” que desapareciam nos dias seguintes às ofertas do Pai Natal do Dia das Montras; as lojas de pronto a vestir da “Feira da Juventude” do “Armazém Canadá” e do “Armazém Clemente”, e as sapatarias das ruas centrais do velho burgo que concentrava milhares de pessoas na tarde e noite do Dia da Festa da Imaculada Conceição na Matriz.
Ponta Delgada era, então, um enorme centro comercial, animado, em cada esquina, por altifalantes da Agência SPAL, e pela voz
inconfundível de António Horário Borges, nos spots publicitários ou dando conta de meninos perdidos das famílias.

Desde então, operaram-se grandes transformações sociais e comerciais.
A cidade-maior hoje, é um grande espaço arquitetónico triste, pacato, silencioso, vazio de trânsito, com edifícios em recuperação, é verdade, mas à espera que os turistas regressem e ocupem as ruas, esplanadas e restaurantes desertos.
Este sintoma da pandemia alastra-se de forma inquietante e doentia e faz-se acompanhar de estados depressivos que agravam sobremaneira a ausência de afetos, o convívio familiar e social, a vida de todos os dias, e nos impedem de libertar-nos dos males indesejáveis.

Em meu entender, o uso da máscara alterou significativamente os hábitos do relacionamento humano, familiar e comunitário.
Com a cara tapada, é difícil reconhecer pessoas só pelos olhos, ler o seu semblante e as suas reações faciais, o que promove o
individualismo, o egoismo, o isolamento social, contrários à necessária convivência e à proximidade das pessoas.
Se é verdade que “quem vê caras não vê corações”, também é verdade que “O rosto é o espelho da alma”.
A máscara impede a expressão dos sorrisos, da alegria da simpatia, impede-nos de expressarmos afetos, mesmo os mais simples, inibe os enamorados de escolherem as companhias e de manifestarem as suas emoções.
A máscara esconde rancores e sobrancerias, intolerâncias e ressentimentos.
Estes comportamentos vão refletir-se no futuro: nas boas maneiras, na civilidade, no trato humano.
Como se vai refletir também nos natais que serão menos consumistas, menos presenteiros, mais confinados à família, à nossa casa.
Para a História, ficarão destes longos meses dolorosos, temores e afastamentos, cercas e restrições, suspeitas e clausuras
forçadas por máscaras descartáveis que levaram consigo a nossa alegria de viver, o gosto de estarmos juntos e de nos divertirmos celebrando a vida em festa e a festa da vida.
Já sentimos na pele e nos nossos hábitos essa mudança. Que passada a pandemia recuperemos e consolidemos a sã convivência que formou a nossa personalidade.

JGA, 06/12/2
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