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O NORUEGUÊS E O BURRO
Antes de aparecer a Internet e os sistemas de busca Airbnb, Booking ou outros parecidos, os viajantes e os turistas que chegavam à ilha do Faial e que procuravam um sítio para ficar, era no Peter Café Sport que na maioria das vezes encontravam a solução, porque estávamos abertos durante muitas horas todos os dias da semana, e porque sempre fomos um local de resolução de problemas. Tínhamos uma lista de quartos e apartamentos que nos era fornecida pelo Turismo, e éramos nós que fazíamos os contactos, sem nunca termos ganho nada com isso, a não ser a amizade do cliente por termos resolvido o seu problema. Tínhamos prazer em enviar os turistas para essas casas particulares, por sentirmos que era uma forma de ajudar os seus proprietários.
Na lista de contactos tínhamos as nossas preferências, fosse pelos que ao serem contactados nos atendiam prontamente, ou fosse pelos que recebiam boas apreciações dos clientes acerca dos serviços que lhes eram prestados.
Naquela noite, já tarde, perto da meia-noite, com o Café quase a fechar, entrou um homem que trazia calçadas umas galochas de madeira que me faziam lembrar as galochas dos tripulantes dos rebocadores holandeses. Veio falar comigo, e não sendo o seu inglês extraordinário, disse-me que era norueguês e que procurava um quarto barato para dormir. Àquela hora eu já não gostava de incomodar as pessoas que faziam parte dos meus contactos habituais, mas telefonei à pessoa a quem enviava mais gente, a Sra. Zélia, na Rua do Meio. Pedi desculpa pelo adiantado da hora, mas ela que, como sempre, era compreensiva, disse que sim, que arranjava um quarto.
Pedi a dois dos meus funcionários, o Carlos e o Ruben, para levarem o estrangeiro à casa onde iria ficar, mas fiquei surpreendido ao verificar que ele não tinha nem saco, nem mochila, nem mala de viagem.
Algum tempo depois de terem saído do Café, o Carlos e o Ruben voltaram e contaram o que se tinha passado: a meio do percurso o indivíduo, que até então os tinha acompanhado, tinha ficado ligeiramente para trás. Tinham parado e viram-no a olhar para o céu e um deles tinha comentado: “Está a ver as estrelas!” Logo depois tinha rodopiado e caído redondo no chão. Chamaram a ambulância, que o levou para o hospital em estado de inconsciência.
No dia seguinte, após o almoço, apareceu no Café o já notado norueguês, e com curiosidade dirigi-me a ele e perguntei o que lhe tinha acontecido. Então ele explicou-me que estava desempregado na Noruega e por causa disso ia recebendo um subsídio mensal. Por estar aborrecido com a vida tinha decidido ir a uma agência de viagens, comprado um bilhete de avião e vindo para os Açores apenas com a roupa que tinha vestida. Já tinha estado em duas ilhas antes de chegar ao Faial, mas embora o custo de vida fosse barato nos Açores, era mais caro do que ele tinha imaginado. Começou a pensar que não teria dinheiro para chegar à data do subsídio seguinte, e por isso tinha começado a comer cada vez menos, dizendo: “Estou a tentar viver sem comer”.
Contei-lhe então a história do homem que tinha tentado ensinar o seu burro a viver sem comer, e por isso tinha-lhe começado a dar cada vez menos comida, até que depois de estar vários dias sem comer, deixando o seu dono muito feliz, o burro tinha morrido. Perguntei sorrindo, se ele conhecia esta história, ao que ele respondeu que não, sem sorrir, mas espantado com a mesma.
Por perceber as dificuldades que ele teria para pagar um sítio para dormir, passei a disponibilizar a minha carrinha, cobertores e uma almofada todas as noites para que ele lá ficasse. A carrinha ficava estacionada no local onde hoje é o Hotel Canal, debaixo dumas árvores de modo a criar alguma sombra para evitar o sol pela manhã.
Dez dias passados, o norueguês apareceu no Café, mantendo o traje inicial e trazendo dois cobertores enrolados debaixo do braço, que tinha comprado por já ter recebido o seu subsídio. Disse-me que ia continuar a viajar pelas ilhas, sendo a seguinte a ilha do Pico, e que ia tentar arranjar sítios para ficar a dormir sem pagar, daí ter comprado os cobertores. Desejei-lhe boa viagem, e disse-lhe: “Não te esqueças do burro! “ Desta vez ele sorriu…
Outubro 2020
José Henrique Azevedo

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