heráldica açoriana

Os símbolos heráldicos das famílias nobres açorianas e dos bispos de Angra são o objeto de uma obra inédita em Portugal da autoria de Jorge Forjaz e António Maria Mendes.

Está prevista para setembro a edição do livro “Tombo Heráldico dos Açores”. Pode-se dizer que se trata de uma obra de referência a nível nacional?

Não fica muito bem ao autor “gabar a noiva”, mas, sem falsas modéstias, parece-me poder afirmar que assim será. Logo à partida temos uma circunstância curiosa que merece a pena ser realçada – os dois autores são açorianos, o gráfico (Luís Pamplona) é açoriano, a editora (Caixa Económica da Misericórdia de Angra) é açoriana e a tipografia (Nova Gráfica) é açoriana.
Ou seja, juntaram-se esforços açorianos para produzir uma obra que dirá respeito a todos os Açores, e atravessa a sua história praticamente desde a primeira geração de povoadores até ao dealbar do século XX.
Quanto a ser obra de referência, deixo a palavra ao Presidente do Instituto Português de Heráldica, Miguel Metelo de Seixas, um dos mais autorizados heraldistas portugueses, que nos honra com o seu prefácio: “O presente livro forma um corpus invejável para a heráldica portuguesa (…) pela variedade de aplicações plásticas da heráldica (…), riqueza do património armoriado deste arquipélago atlântico (…) e pela amplitude da pesquisa levada a cabo por António Ornelas Mendes e Jorge Forjaz, (…) é uma obra de maturidade (…) invulgar no panorama editorial português. (…). Daí a importância de livros como este Tombo Heráldico dos Açores: porque o projecto editorial subjacente não se limita a compilar as cartas de brasão de armas passadas em favor de açorianos, mas pretende recensear as manifestações heráldicas existentes neste arquipélago, em todas as suas variadíssimas formas plásticas. Só este género de arrolamento e estudo integrado de fontes permitirá conhecer – fugindo ao império das ideias preconcebidas e ao predomínio de uma visão normativa – como foi a heráldica usada enquanto forma de representação visual e de comunicação das instituições, dos indivíduos e das famílias que compuseram a sociedade açoriana desde a sua fundação até aos nossos dias (…). No seu conjunto, o presente volume afigura-se como uma obra notável: pela vastidão do seu objecto de estudo, pela solidez da pesquisa, pela erudição patenteada, pela riqueza gráfica. Tornar-se-á obra de referência para quantos se interessam pela história dos Açores, mas também para todos os heraldistas portugueses. Na verdade, só a partir de levantamentos metódicos e escrupulosos como este se pode ir construindo um fundamentado conhecimento geral da heráldica, passo essencial para se entender este fenómeno no seu contexto social, cultural, político, artístico. O universo que assim se descobre e constrói mostra à evidência a diversidade do fenómeno heráldico: rico, insuspeito, fascinante… e que este Tombo Heráldico dos Açores ajuda e incentiva a conhecer em profundidade”.

Quais as principais particularidades que se podem destacar na obra que edita em parceria com António Maria Mendes?

Após longos anos de estudo das genealogias açorianas, que deram na publicação de 14 volumes referentes às ilhas Terceira, Faial, Pico, Flores e Corvo, a que se juntam os 6 substanciais tomos de Rodrigo Rodrigues, sobre as ilhas de São Miguel e Santa Maria, e tendo em conta que nos nossos trabalhos demos uma larga atenção às sociedades de São Jorge e Graciosa, na medida em que permanentemente se entrecruzaram com a Terceira e Faial, estava na hora de passar a outro estado de análise da realidade genealógica, histórica e artística, através do estudo dos símbolos heráldicos ligados às famílias açorianas, a que juntámos um largo capítulo sobre a heráldica episcopal. Em teoria, o uso de determinado brasão por uma determinada família era consequência da concessão de uma carta régia – a denominada “carta de brasão de armas” – em que o Rei reconhecia a determinado cidadão o uso das armas da família de quem descendia ou lhe atribuía armas novas, em reconhecimento de especiais serviços prestados à Coroa.
Essa carta de armas constituíam um documento escrito em pergaminho, em que se descreviam as armas concedidas, as circunstâncias pessoais da pessoa que recebia as armas (o “armigerado”) e uma iluminura, mais ou menos rica conforme o artista que as pintava, em que, com as suas cores próprias se desenhava o brasão em causa.
Desde 1503 (a mais antiga) até 1910 (a mais moderna, pouco meses antes do fim da Monarquia), temos conhecimento de 232 cartas de brasão de armas, das quais só conhecemos o original (com a tal iluminura) de cerca de 70.
Para todas as outras, conhecendo o texto das cartas, pelo seu registo na Torre do Tombo, nas câmara municipais, ou por outras vias indiretas, tivemos o cuidado de reconstituir os desenhos segundo o gosto de cada época, dando assim lugar a um livro de grande qualidade gráfica, todo a cores, e impresso num soberbo papel couché silk. Uma obra que será, seguramente, uma referência numa biblioteca açoriana.

Podemos encontrar em “Tombo Heráldico dos Açores” elementos desconhecidos sobre as famílias nobres açorianas?

Na realidade, o estudo das famílias já está feito nas genealogias acima citadas.
O que aqui se apresenta é o estudo dos brasões que essas famílias usaram, alguns deles até agora completamente desconhecidos, ou dispersamente estudados. A sistematização que nos propusemos permitiu ter, pela primeira vez, uma visão de conjunto de uma realidade que faz parte integrante da história social açoriana.

Outra particularidade da obra a inclusão da heráldica e dados genealógicos dos 38 bispos de Angra e dos 16 prelados nascidos nos Açores. Qual a relevância desse levantamento para a história da igreja açoriana?
Pareceu-nos que era também a altura de estudar a heráldica dos bispos de Angra (38) e dos bispos naturais dos Açores (16), já que, aqui a ali, pelos Açores, fomos encontrando referências a heráldica episcopal – uma sepultura aqui ou ali, um quadro armoriado, um sinete ou selo branco.
Tudo redundou num magnífico catálogo dos bispos angrenses e açorianos, com uma riquíssima iconografia – retratos, sepulturas, sinetes e o brasão de armas, desenhados sempre pelo mesmo critério da heráldica familiar, com um pequeno estudo genealógico sobre todos os bispos e uma interpretação da simbologia que cada qual escolheu para seu brasão.

Também aqui fomos pioneiros a nível nacional, pois cremos que nenhuma diocese portuguesa tem um estudo semelhante sobre os seus bispos ou naturais. Por isso nos parece que – passe a promoção, que competirá mais ao editor que aos autores! – cada paróquia dos Açores deveria ter um exemplar desta obra no seu arquivo, e a própria diocese poderia habilitar-se a um lote de exemplares, pois um livro desta natureza constituirá seguramente um presente de grande qualidade quando nos visitam figuras ilustres da Igreja.

in Diário Insular de 26 Agosto 2014

Publicada por Ines Duque à(s) 11:54

Sobre CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção da AICL
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