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Os Açores são um verdadeiro pasto para poetas e escritores. O relato de um cronista em férias

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Os Açores são um verdadeiro pasto para poetas e escritores. O relato de um cronista em férias
Estas duas semanas em que estive afastado desta coluna — na verdade, desta coluna e de tudo o resto — passei-as nos Açores. Tinha lá ido algumas vezes, em pequeno, mas a primeira viagem de que me lembro bem foi em agosto de 1996. Há 25 anos, portanto. O meu pai, assíduo frequentador da Mesa Doze do bar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, liderou uma expedição às ilhas com os habituais convivas dessa mesa. Todos, ou quase todos, professores de artes e de letras. A que se juntaram maridos, mulheres, namorados/as, filhos/as e mais alguns apêndices, de formações mais tecnocráticas (como engenheiros e economistas) que os artistas das Letras. Éramos 32. Mais de 25 nunca haviam posto os pés nas ilhas.
Começámos no Pico, daí fomos ao Faial e São Jorge, passámos pela Terceira. Depois das ilhas do “Mau Tempo no Canal”, estivemos ainda vários dias em São Miguel. Cada uma tinha as suas particularidades e cada um de nós as suas preferências. Mas todos concordámos que o Pico era outra história, outra conversa. A imponente e inexorável montanha nas suas várias cores, a forma de mama descoberta, muitas vezes oculta por uma nuvem que se dissipava com o anoitecer.
Viajar com gente das artes e letras é uma experiência. Aquelas ilhas inspiram. Uns fizeram poemas. Outros aguarelas. Até uma sessão de flauta tivemos, protagonizada por uma das viajantes. Houve um que ficou tão esmagado pelo seu primeiro encontro com o Vulcão dos Capelinhos, no Faial, que procurou um café nas proximidades, tendo passado lá a tarde a beber chá. Outro não quis visitar São Jorge, o pano de fundo das vistas das nossas casas em São Roque do Pico: queria manter a distância e preservar o mistério daquela ilha, adensado pelas nuvens e pelas luzes noturnas. Raciocínios e explicações poéticas a que um simples economista não está habilitado a responder.
O João Luís Oliva — poeta, entre tantos outros ofícios que seria fastidioso enumerar — e Pirouz Eftekhari, poeta, pintor, especialista em literatura francesa e naturalizado português poucos anos depois desta viagem, produziram um pequeno livro, “Os Caminhos do Pico”, feito das suas notas da viagem em forma de poemas, textos e pinturas. Edição única de 32 exemplares, distribuídos pelos 32 passageiros.
Uns anos antes, em junho 1989, o então Presidente Mário Soares dedicou uma Presidência Aberta aos Açores. O meu pai foi convidado e, entre várias outras coisas, participou num jantar oferecido pela presidência, no Hotel Monte Palace, na Vista do Rei, em São Miguel, de onde se vê a Lagoa das Sete Cidades. Mota Amaral, presidente do governo regional dos Açores, seu amigo muito próximo, pois haviam sido bons colegas de liceu, quis apresentá-lo ao então primeiro-ministro, Cavaco Silva. Uma apresentação muito efusiva, descrevendo o meu pai como um representante maior da literatura açoriana, a par de Natália Correia ou Vitorino Nemésio — podem, naturalmente, dar o desconto que a amizade merece. Logo depois, pisgou-se, deixando Cavaco Silva e o meu pai sem saber o que dizer um ao outro. Mais experimentado, o primeiro-ministro quebrou o silêncio: “Já reparei que, nos Açores, há mais escritores por metro quadrado do que no continente por quilómetro quadrado…” [In Cristóvão de Aguiar, “Relação de Bordo II”, Campo das Letras, pág. 26]
Não sei como responder a estas contas, nem como fazê-las, na verdade, mas Cavaco Silva terá razão. Como descrevi, os Açores são um verdadeiro pasto para poetas e escritores. Se as cabras num pasto verde, cor de limão, inspiraram Camões para escrever um dos seus mais cantados poemas, imaginem as vacas nos montanhosos pastos açorianos.
Podemos mesmo dizer que também Cavaco Silva, entretanto promovido a Presidente, tentou fazer poesia quando, numa visita à ilha Graciosa, contou ter reparado “no sorriso das vacas, satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante”. Mas não o acompanho. Sempre achei que as vacas tinham um olhar triste e melancólico. Mas isto também devo ser eu com elucubrações poéticas.
Vinte e cinco anos depois, o que surpreende nesta viagem de 2021, e em várias outras que entretanto fiz, foi como os Açores se têm preservado e renovado apesar da crescente pressão turística e de preocupantes ilhas de pobreza — que se descobrem facilmente, basta sair das vias principais. No Pico, encontro as mesmas poças de água azul (piscinas naturais, quase em mar aberto), mas mais bem cuidadas. Vulcões e caldeiras bem tratados (até com novos caminhos pedestres). Piscinas e cascatas de água vulcânica. Golfinhos e baleias sempre ali por perto. Hortênsias com mais de dois metros de altura.
Lembro-me de, algures no início dos anos 90 fins de 80, ter lido um artigo de opinião de um colunista maravilhado com os Açores. Apelava a que todos os autarcas açorianos viessem ao continente, em especial ao Algarve, para aprenderem o que não fazer e que os continentais visitassem os Açores para perceberem o que se tem quando não se estraga.
Estendo o convite a todos os portugueses. Mas, se for, não vá com pressa. Na verdade, nem adianta. Por mais urgência que tenha, não se consegue despachar. Como diz João Oliva, no tal livrinho de que falei, “os caminhos do Pico são caminhos de-vagar.”
(Luís Aguiar-Conraria – Professor de Economia da Univ. do Minho – Expresso de 10/09/2021)
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Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL