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“Negociar sim, sem colocar em causa vontade da maioria do eleitorado”
José Gabriel Ávila, jornalista
Como analisa, em síntese, os resultados eleitorais?
A vitória do PS nas regionais de 2020 em número de deputados (25) e em 7 das nove ilhas, quando traduzida em acentos na Assembleia Legislativa Regional que aprova o programa do Governo e os instrumentos necessários à governação autonómica, apresenta uma série de cenários de duvidosa exequibilidade.
Numa leitura imediata, somos levados a concluir que o eleitorado açoriano que maioritariamente (54%) não votou, pretendeu dizer aos partidos políticos que a solução governativa estável deve ser construída com base no PS e no PSD – o chamado Bloco Central.
De contrário, um governo do PS sozinho não conseguirá aprovar o seu programa, pois, à esquerda, os dois deputados do BE e o deputado do PAN não totalizarão os 29 votos necessários.
Do outro lado do hemiciclo, não me parece que o PSD pretenda fazer um governo apoiado pelo CDS (3), pelo Chega (2), pelo PPM (2) e pela Iniciativa Liberal (1), partidos que não permitiriam que J.M.Boleeiro levasse por diante o seu ideário social-democrata.
Seria uma dificuldade permanente conviver com a serenidade dos lideres do PSD e do CDS e o “barulho parlamentar” tão apregoado por A.Ventura.
Não é de somenos importância quer num, quer noutro cenário, verificar que Nuno Barata só concorreu em São Miguel e Terceira.
A sua representatividade regional pode, pois, ser questionada quando, por exemplo, as suas controversas propostas sobre os transportes marítimos de passageiros inter-ilhas forem apresentadas. Também não estou a ver como responderão quer o PS quer o PSD ao seu ultrapassado ideário liberal/neoliberal que contradiz o programa dos dois maiores partidos.
Temo, todavia, que o PS e o PSD para manter ou conquistar o poder executivo, caiam na tentação de abdicar dos seus paradigmas sociais e económicos, muito semelhantes entre si.
Se tal acontecer, o eleitorado não deixará de os penalizar em futuros actos eleitorais -, e com razão!- bem como regime político que fundaram.
A nossa identidade cultural preserva, maioritariamente, princípios sociais e culturais que não se revêem nem em populismos, nem em discursos enganosos que conduzem, habitualmente, à restrição de direitos autonómicos, a ditaduras centralistas, ao favorecimento de classes sociais dominantes, enfim, a restrições de direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. É a História que o ensina.
O que acha que vai acontecer nos próximos 4 anos?
O diálogo democrático não obriga a que, quem governa, tenha necessariamente de aceitar as propostas de forças políticas com representatividade reduzida, que o que pretendem é “fazer barulho” no Parlamento, ou ser “fiel da balança”. Isso dá-lhes um poder desmedido que atenta contra a vontade da maioria.
Negociar, sim, desde que não se coloque em causa princípios, valores e a vontade da maioria do eleitorado.
Temo que nos próximos quatro anos, face ao espectro eleitoral, outros propósitos partidários, publicamente anunciados, condicionem o exercício dos Poderes Autonómicos e a resolução dos problemas socioeconómicos que a pandemia agravou.
O pior que poderia acontecer é que as principais forças políticas, em troca da manutenção ou conquista do poder, não tivessem a coragem necessária para fortalecer a unidade dos açorianos, levando à prática os princípios fundadores da Autonomia: o desenvolvimento equitativo do arquipélago e a liberdade democrática. Espero que os principais líderes políticos tenham isto em mente, e não abdiquem da defesa da Autonomia e do serviço ao Povo Açoriano, em troca de um prato de lentilhas oferecido por um qualquer vendilhão do templo…
jornal@diariodosacores.pt

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