DO CAIS DO PETER’S – FAIAL

Views: 0

oão Silveira posted in 2 groups.
Image may contain: sky, ocean, outdoor and water
José Henrique Azevedo

Da esplanada do Peter…

Vejo nesta longa praia da baía da Horta Joss Van Huerter, o primeiro capitão-donatário do Faial, desembarcar pela primeira vez. Apaixonou-se por esta ilha, o Faial, pela sua beleza e pelo seu enquadramento: o longo dragão à esquerda, a ilha de S. Jorge, e a montanha perfeita, em frente, a ilha do Pico.

Vejo as caravelas portuguesas a navegarem rumo à capital do reino, Lisboa, vindas do Brasil, da África e da Índia, carregadas de ouro, marfim e especiarias. Vejo navios de piratas a espreitar para se apoderarem destas riquezas.

Vejo naus carregando para exportação, trigo, pastel, urzela, laranjas e muito vinho. Algum deste vinho, o verdelho, vai chegar às cortes russas.

Vejo todas aquelas baleeiras a navegarem para sul, a caminho do Pacífico, numa viagem de 3 a 4 anos, até voltarem a New Bedford, levando muitos açorianos a bordo, que irão assim concretizar o sonho americano. Alguns baleeiros disseram ter visto numa das suas viagens um cachalote branco, a que chamaram Moby Dick.

Vejo no canal vários navios vindos de França, com destino aos Estados Unidos, transportando um presente ainda desmontado, que dizem ser uma enorme mulher, chamada “Liberdade”.

Vejo ali navios dos cabos submarinos, que nos vão ligar a todo o mundo através de mensagens em “morse”, naquela que será a primeira ligação telegráfica do Atlântico.

Vejo o iate “Princess Alice”, com o Principe Albert I do Mónaco a bordo, que veio fazer várias expedições oceanográficas, e ajudar a construir o primeiro observatório meteorológico dos Açores, na Horta.

Vejo ali ao fundo, no canto sul do porto, no edifício redondo, carregar carvão para os navios a vapor que na Primeira Guerra Mundial aqui vieram abastecer-se e fazer reparações.

Vejo o hidroavião “NC-4”, pilotado pelo comandante Albert C. Read, a fazer a primeira travessia aérea transatlântica, e outros “clippers” da Pan America e da Lufthansa a amarar nas águas do porto.

Vejo, a navegarem em direção a Norte, centenas de navios e embarcações de todo o tipo, cujas tripulações tiveram no porto da Horta os últimos momentos de paz, pois iam para a guerra libertar a Europa, na Segunda Guerra Mundial.

Vejo os rebocadores holandeses da “Smith Tug”, os mais potentes do mundo, no meio do porto, prontos a socorrerem os navios em apuros. As suas tripulações ofereceram a tinta azul para pintar a fachada do “Café Sport”.

Vejo a subir a rampa de varagem o jeep-anfíbio “Half-safe” de Ben Carlin, o primeiro veículo anfíbio a dar a volta ao mundo por terra e por mar.

Lá muito ao longe, ainda vejo o veleiro “Spray” do capitão Joshua Slocum, o primeiro homem a dar a volta ao Mundo em solitário.

Vejo o iate de Alain Gerbault, o primeiro francês a dar a volta ao Mundo em solitário.

Vejo o Marcel Bardiaux, a primeira pessoa a dar a volta ao Mundo em solitário, no sentido contrário dos ventos.

Vejo Francis Chichester, o primeiro homem em solitário, a dar a volta ao Mundo só com uma escala.

Vejo Robin Knox-Johnston, o primeiro navegador em solitário a dar a volta ao Mundo, sem escalas, em 312 dias.

Vejo a bordo do seu iate “Vertue XXXV”, Humphrey Barton, fundador de um grande clube de navegadores aventureiros, o Ocean Cruising Club (OCC).

Vejo o grande navegador Éric Tabarly no seu iate “Pen Duik”.

Vejo e ouço o Jacques Brel a tocar violão no seu iate “AsKoy II”.

Vejo no canal um grupo de iates de competição, neles vão: Loick Peyron, Michel Malinovsky, Philippe Poupon, Olivier de Kersauson, Vincent Riou, Jean le Cam, Bernard Stamm, Alex Thompson, Alessandro di Benedetto, Geovani Soldini, Florance Arthaud, a “namoradinha do Atlântico”, e Francis Joyon no seu trimaran a dar a volta ao mundo em 40 dias.

Vejo a navegarem à vela no porto, várias das mais elegantes embarcações do mundo, os botes baleeiros açorianos.

Vejo por fim os milhares de aventureiros, navegadores e iatistas que ao longo dos anos foram passando por este porto, fazendo amizades e criando alegria e história com os três Azevedos do Peter Café Sport: o Henrique, o José (Peter) e o José Henrique.

A todos os que já aqui vieram e aos que estão para vir, brindo com um Gin do Mar e faço votos para que o porto da Horta, a ilha do Faial e as suas gentes, continuem a ser um porto de abrigo!

Bons ventos!

Setembro de 2020
José Henrique Azevedo