crónica Francisco Madruga

“Aqui dá-se o seguinte”!
Invariavelmente, o sr. Manuel Monteiro, conterrâneo de Vale da Madre, começava assim as conversas com esta frase, “aqui dá-se o seguinte”. Além de agricultor, dava um jeito na carpintaria e era um excelente conversador. Casado com a sra. Maria de “Zava”, assim chamada por ter vindo de Zava. Era uma senhora muito esguia, de cabelos presos e atados com um lenço. Era normal, as senhoras sentarem-se ali, pelo Palaquim, dando umas de treta e fazendo malha. Este local, rivalizava com a rua do Meio, onde funcionava o tribunal local. Mas dizia eu, a sra. Maria de Zava, criava umas pitas e estava sempre pronta, a realizar algum capital, com a venda de batatas, ovos e galináceos para uma boa cabidela.
Ela era o farol da aldeia. Controlava o número de carros dos funerais, dos casamentos e campanhas eleitorais.
Quanto mais carros contava, mais importante era o evento.
Numa das campanhas, perguntou-me se eu tinha contado os carros do PS e do PSD, respondi que não. Ela tinha contado 120 carros de um e 119 de outro, não sabia bem de qual. Perante tanta indecisão, decidi baralhar a cabeça da sr. Maria.
Olhe que eles deram várias voltas à Aldeia, para chamar as pessoas para a Casa do Povo.
Pois, já me vou à Fonte para os contar. Oh Manuel, fica aí que eu já volto. A mim não me enganam eles.
Continuei sentado a aguardar pela volta da sra. Maria.
Então quantos eram?
“Muntos” menos. A maior parte das pessoas são de fora. Trazem os carros cheios, para parecerem muitos.
Uma outra personagem da minha terra, era a Sra. Judite Reis. Sempre disponível, para ajudar em qualquer tarefa, andou anos atrás de mim para organizarmos um Comício lá na Aldeia.
Sem perceber o motivo de tal interesse, perguntei-lhe:
Sra Judite, quer o comício para quê?
Então o comício não é para comer?
Depois de esclarecida, lá se convenceu do contrário. Houve tempo de Sessões de Esclarecimento, de Comícios, de almoços e de jantares.
Havia também o tio Francisco da “Vilariça”, claro está, por ter vindo de lá. Era um dançarino de grande quilate. Havia um problema. Só dançava se o deixasse entrar na adega para beber um copo.
Depois de bebido, passava a palma da mão pela vasta barba branca e ia saltando ao pé coxinho ao som do realejo. Não percebiam nada de política, mas sabiam muito da vida.
Hoje, já não há quem me conte os carros que entram na aldeia em campanha. Restam-me as imagens das redes sociais, devidamente enquadradas e de ângulo favorável. Espero que não façam muito barulho. Eu vou estar por lá e prometo que, se baterem à porta, poderão sempre beber um copo, desde que não seja fora de horas, e não esteja a jogar o Benfica!
Boa campanha para todos!
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