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O MUNDO ÀS AVESSAS
Um mundo às avessas.
A nova lepra.
Aquele que transporta o vírus: há que isolá-lo. Que ninguém se chegue perto.
Em casa, enclausurado.
( Ele era o inimigo).
Para ali estava numa divisória do apartamento. A cabeça vazia. As dores da alma.
Ele era o alvo. Ninguém mais o ia querer ver. Nem falar ao telemóvel. Podia ser contagioso.
(O virótico não come. Não dorme. Bebe esporadicamente um pouco de água.
Não vê o sol. Não vê a chuva. Não respira.
Tudo lhe é interditado. Contém o mal).
Nunca se vira como o leproso. Mas era.
Fora obrigado a tudo abandonar.
A mulher não entrava no quarto vedado. Deixava à porta os alimentos.
(Nem sequer era de um grupo de risco. Tivera uma vida razoável. Apaixonara-se várias vezes. Foi amado).
Agora era estrangeiro dentro de si próprio.
Como previsível, ninguém telefonava.
No quarto , uma cama pequena, uma televisão antiga, uns livros esparsos.
(Teria sido daquela vez no escritório? O tal lanche?)
Impotente, apetecia-lhe chorar baixo.
Tentara falar com uma psicóloga . Estava mais assustada que ele.
A imanência do mal .
As duas filhas preservadas. A mulher longe.
A estranheza de um vírus demolidor.
Percorria o quarto pequeno dúzias de vezes para não dar em doido.
Quando ia à casa de banho contígua, olhava ao espelho: os olhos cavos , a boca doente, rugoso e pálido.
(Ele era o inimigo)
Ele , que fora sempre saudável.
Ele ,que até ia ao ginásio.
Ele, que não fumava nem bebia.
Crescia-lhe uma revolta.
O caos e a impotência.
A partir de agora ia ver-se livre disto.
E olhava para o piso da rua , do alto do sétimo andar.
Não. Não fazia falta a ninguém. As filhas já encarreiradas. A mulher completamente independente.
Do sétimo andar aquele chão parecia ínfimo. Embalador.
(Pôs diligentemente a máscara antes de saltar).
ceciliabarreira
