contra a ocupação pré-Portuguesa dos açores

Views: 0

“Grupo de investigadores liderado por Alexandre Monteiro da Universidade Nova de Lisboa contradiz argumentos sobre presença Viking nos Açores
Luís Lobão
Atlântico Expresso, 15-11-2021
No passado mês de Outubro um grupo de investigadores, liderado por Pedro Raposeiro e Vítor Gonçalves, publicou um artigo científico em que é defendida a presença duradoura de populações humanas e de gado doméstico nos Açores cerca de 700 anos antes da chegada dos portugueses.
A fundamentação desta tese assenta na descoberta, em lagoas da Região, de matéria carbonizada, pólen de centeio e de biomarcadores fecais em registos sedimentares anteriores ao ano de 1427.
Perante esses factos, este grupo de investigadores aponta, portanto, para a presença humana de povos nórdicos no arquipélago.
Numa entrevista concedida na edição da semana passada a este jornal, dois desses investigadores (Santiago Giralt e Sergi Pla) admitiram que esta descoberta pode levantar alguma polémica, já que “mudar a história é algo difícil”. Os investigadores espanhóis revelaram que o estudo e o trabalho sobre esta matéria “são para continuar” e que, numa próxima fase, “vamos procurar a colaboração de historiadores e arqueólogos e queremos abrir esta investigação a outras disciplinas (…) Temos a convicção de que os nossos resultados são bons”, referiram.
Santiago Giralt e Sergi Pla avançaram igualmente nesta entrevista concedida ao Atlântico Expresso que esta presença humana aponta para os povos nórdicos (vikings) por “serem o único povo que navegava pelo Atlântico nessa época (…) Fizemos um modelo de circulação atmosférica para perceber a direcção dos ventos nessa época. Vinham de Noroeste e pensamos que são os vikings porque eles eram os melhores marinheiros daquela época e sabiam navegar em água abertas”.
CONSÓRCIO DE INVESTIGADORES REBATE ARGUMENTOS
Num documento a que este jornal teve acesso, um consórcio de investigadores doutorados em ecologia, estudos vikings, história, arqueologia, com vasta experiência nos Açores e liderado por Alexandre Monteiro, do Instituto de Arqueologia e Paleociências da Universidade Nova de Lisboa, refuta a tese apresentada.
Estes investigadores, “partindo do principio que as datações estão bem feitas e que a identificação dos esporos e compostos orgânicos foi também exemplar”, afirmam peremptoriamente que não foram, “até à data”, apresentadas “evidências arqueológicas ou outras de ocupação humana no arquipélago anterior ao povoamento português.
Persistem especulações sem qualquer base científica que enviesam por completo uma interpretação sobre a ocupação do arquipélago, recorrendo muitas vezes a elementos geológicos, desrespeitando tanto a interpretação arqueológica como as próprias formações geológicas”.
O consórcio liderado por Alexandre Monteiro destaca que o artigo “cita apenas uma publicação de pseudoarqueologia, surgida num jornal predatório, de uma editora chinesa, onde os proponentes de artigos “podem recomendar os seus próprios revisores”.
Relativamente aos biomarcadores encontrados, o documento refere claramente que o estudo está equivocado porque “tanto o coprostanol (5β-colestano-3β-ol), o 5βstigmastanol e os esporos de fungos coprófilos (Sporormiella, Sordaria e Podospora) não servem, por si só, para identificar actividades humanas, quer as próprias, quer as relacionadas com a introdução de mamíferos herbívoros de grande porte” e afirmam ainda que “existe basta bibliografia que indica ser normal a presença daqueles compostos orgânicos, e daqueles esporos, em fezes de aves”. Sendo assim, consideram que “a fonte destes esporos e compostos orgânicos fecais poderá perfeitamente ter sido a avifauna, nomeadamente aquela onde se incluem as aves herbívoras nidificantes em zonas húmidas, das quais, nos Açores, existem ainda 8 espécies”.
“(…) Um exemplo possível destas colónias é o da Coturnix coturnix, da qual existe uma subespécie endémica dos Açores e em cujas fezes estão presentes estes esporos”, avançam. Os investigadores, referindo-se concretamente à ilha do Pico, defendem que “é muito pouco plausível que eventuais colonizadores alto-medievais se tenham dado ao trabalho e incómodo de, no Pico, subir até uma altitude de 870 metros, por terreno acidentado, para desbravar um terreno inóspito e mais que provavelmente inçado de densa vegetação de porte arbóreo e arbustivo, só para criar pastagens quando, à superfície do mar, existiam terrenos planos, altamente irrigados por ribeiras – mesmo que estas aportassem, à altura, menor caudal, como sugerido pelos investigadores para acautelar precisamente este tipo de contra-argumentação”.
Sobre a descoberta da presença de PHAs e carvões, entendem que isso “não tem que significar fogo posto por mão humanas” a avançam outras duas possíveis causas “bem mais plausíveis para a ocorrência de ignições espontâneas”: os incêndios causados por raios ou até pela actividade vulcânica.
Também sobre o aparecimento de centeio e de Plantago ssp, é referido que “o seu pólen foi ter àquele arquipélago levado pelos ventos em altitude ou a planta vingou no solo graças a sementes transportadas nas penas ou no tracto digestivo de aves, migratórias ou de arribação.
Dito de outra forma, 40% das espécies vegetais dos Açores chegaram com o vento; 58% foram trazidas por aves migratórias, sendo a sua origem tripartida – uma parte mediterrânica; outra parte africana e uma última euro-siberiana”.
Estes investigadores lembram que existem nos Açores “182 espécies de Poaceae, algumas até endémicas dos Açores, como a Agrostis congestiflora oreophila. Se são endémicas, não terão sido introduzidas pelo Homem. Se não foram introduzidas, terão lá chegado pelo mar, pelo ar ou pelos pássaros migratórios.
O arqueólogo Alexandre Monteiro lidera o grupo de investigadores que contesta a tese de que a presença humana nos Açores é anterior à chegada dos portugueses Tal como o centeio”.
Outro dos argumentos contraditados prende-se com os dados genéticos dos ratos. O consórcio de investigadores liderado por Alexandre Monteiro afirma que “um dos estudos citados cinge-se apenas a dados genéticos sobre o rato Mus Musculus domesticus presente na Madeira” e que se sabe, desde 2001, “que a sequência de haplóticos conhecida como D-loop (a linhagem materna D) do M. musculus da Madeira é mais semelhante com as sequências que se encontram no Norte da Europa do que com as que existem em Portugal continental.
No entanto, estes dados são em parte contrariados pela descoberta, pelos mesmos autores,de que o genoma nuclear destes ratos madeirenses é largamente de origem portuguesa”. Por isso entendem que “não nos parece cientificamente correcto utilizar os dados de uma população de um outro arquipélago, a 900 km de distância, para tirar conclusões sobre os Açores”.
Mas vão mais longe e, relativamente a um outro estudo efectuado sobre a população de ratos em todas as ilhas açorianas, salientam que “ao contrário do que ocorre na Madeira, a variedade cladística nos Açores é muito maior, existindo 5 linhagens maternas diferentes nas 9 ilhas açorianas, o que indica variadas origens geográficas para os ratos insulares, estando os ratos das ilhas S. Miguel, Graciosa, Pico, Faial, Flores e Corvo associados a Portugal continental e ao sul de Espanha” e desmentem que “os ratos da Europa do Norte contribuíram significativamente para a pool genética do rato açoriano – quem mais contribuiu significativamente para esta pool foram os ratos de Portugal continental e do sul de Espanha”.
Entrando numa análise de carácter ‘humano’, este grupo de investigadores salienta que as “narrativas medievais estão devidamente exploradas, criticadas e publicadas” e que nenhuma delas “contempla a arribada aos Açores de qualquer um destes povos (vikings, irlandeses ou muçulmanos)”.
Colocando, em tese, a hipótese de tal ter sucedido, questionam a probabilidade de “que se tenha estabelecido durante séculos uma população humana, em nove ilhas distantes do continente europeu, de difícil acesso pela navegação à vela, com orografias muitas vezes intransponíveis e orlas costeiras de difícil acesso, sem recursos naturais ou minerais que suscitassem esse ímpeto?”.
A evidenciar esta linha de pensamento, dizem, “está o que se sabe sobre a expansão nórdica no Atlântico Norte durante a Idade Viking. Feita ao longo dos limites do Círculo Polar Árctico, ela avançou, passo a passo, por massas de terra relativamente próximas: da Noruega e Ilhas Britânicas para a Islândia, da Islândia para Gronelândia e desta para a América do Norte, onde os nórdicos deixaram indícios arqueológicos em L’Anse aux Meadows, na Terra Nova”, voltando a questionar “Se a costa hoje canadiana provou ser demasiado longe, é plausível que os Açores o fossem menos? Mais: se as dificuldades de subsistência levaram ao abandono de L’Anse aux Meadows (e, a seu tempo, das próprias colónias gronelandesas), porque é que os nórdicos não se mudaram para a América, onde as condições seriam mais favoráveis à sua fixação?”.
Por isso, consideram não ser “crível que povoados permanentes, habitados durante séculos, não tenham aparecido até agora no registo arqueológico da ilha do Pico ou do Corvo, especialmente a estas altitudes, em que a espessura de solo que vai da superfície ao fixo geológico é extremamente reduzida. Veja-se por oposição as evidências inequívocas de estruturas e fósseis directores dos povoadores das Canárias – ou aborígenes canários – povos de provável origem berbere, que habitaram o arquipélago até bem depois da colonização ibérica”.
Sobre o facto dos exploradores do norte usarem “habitualmente corvos para os ajudar a localizar terra”, a equipa liderada por Alexandre Monteiro refere que a “única referência ao uso de corvos para localizar terra por parte de nórdicos da Idade Viking encontra-se numa fonte islandesa chamada Landnámabók – o Livro da Colonização.
Nele, o capítulo 5 conta a história de Flóki Vilgerdarson, o qual terá encontrado a Islândia libertando três corvos que levou consigo, sendo que o terceiro voou rumo à ilha”. Estes investigadores consideram ser “um raciocínio de qualidade dúbia” afirmar que esta era “uma prática habitual”, referindo mesmo que “esta é uma extrapolação que deve muito à imaginação e pouco à história.
Mais provável é que os nórdicos, tal como outros povos, estivessem conscientes de sinais da Natureza que indicariam a proximidade de terra, fossem eles correntes, nuvens ou animais. Mas isso é muito diferente de, com base numa anedota (pseudo) histórica, querer estabelecer um uso de corvídeos como instrumento de navegação”.
Este grupo de investigadores lembra que “foi apenas nos últimos dez anos que estas teorias ganharam asas na comunicação social, alimentando-se esta com as mais fantasiosas “descobertas arqueológicas”: povoações megalíticas; columbários e colunas romanas na Terceira; hipogeus fenícios no Corvo; pirâmides em terra, na ilha do Pico e submersas ao largo da Terceira; relheiras milenárias e cerâmicas com 2300 anos. Não faltaram sequer os documentários televisivos a sugerir que os Açores teriam sido descobertos por Atlantes”, ironizam, considerando que “estamos perante um ciclo em que a pseudo arqueologia e a pseudociência alimentam a cultura de desinformação que grassa acriticamente pelos órgãos de comunicação social, e vice-versa, com todos os malefícios que tal acarreta para uma vida em comum”.
A finalizar, a equipa liderada por Alexandre Monteiro, deixa um conjunto de questões:
“Será que, durante os séculos em que decorreu a ocupação imaginada, as pessoas morriam e os seus corpos eram atirados ao mar?
Será que as casas eram feitas de madeira e os buracos dos postes eram cuidadosamente tapados, após estas caírem em desuso?
Será que as pessoas comiam com as mãos e cozinhavam sobre fogo vivo, não utilizando assim quaisquer utensílios ou peças de cerâmica?
Estariam os registos falsificados, escondendo os navegadores Portugueses quatrocentistas que teriam encontrado as ilhas todas colonizadas por descendentes de nórdicos, com as paisagens em altitude cultivadas por extensos campos de centeio?”, perguntam.
A resposta poderá estar, na opinião deste grupo de investigadores, em “algo bem mais prosaico – a evidência que nessas lagoas se reproduziram, nadaram, comeram e defecaram incontáveis colónias de aves”.
Pedro Raposeiro reconhece que existem “questões em aberto e que requerem mais investigação” mas reafirma “segurança nosresultados obtidos”.
O Atlântico Expresso pediu uma reacção ao investigador Pedro Raposeiro, um dos co-autores do artigo publicado. Este investigador começa por referir que “apesar da abordagem multidisciplinar e abrangente adoptada no manuscrito por Raposeiro et al. (2021), e publicado na importante revista científica com revisão por pares internacionais PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), reconhecemos que existem questões em aberto e que requerem mais investigação, nomeadamente na hipótese apresentada relativa à origem dos povoadores”.
Apesar de admitir que “todos os indicadores têm especificidades e limitações”, Pedro Raposeiro considera que “os indicadores chave usados neste estudo (fogo, desflorestação, presença de grãos de cereais e biomarcadores fecais), e que são utilizados globalmente pela comunidade científica para detectar distúrbios humanos, reflectem mudanças múltiplas e síncronas na paisagem em várias ilhas, o que só pode ser explicado por uma causa comum, a presença humana”.
Por isso, o investigador reafirma “a nossa segurança nos resultados obtidos que detectam a chegada síncrona de seres humanos a múltiplas ilhas antes do ano de 1400”.
Lembrando que a “ausência de evidência não é evidência de ausência”, Pedro Raposeiro convida os investigadores que refutam os seus resultados, “a contra-argumentarem em sede própria da literatura científica (na PNAS ou noutros jornais científicos, com revisão por pares internacionais).
O trabalho agora publicado vem levantar questões que deverão ser aprofundadas no futuro, preferencialmente com estudos multidisciplinares entre as Ciências Naturais e as Ciências Humanas, de forma a termos uma visão mais ampla e complementar do que realmente aconteceu no passado”, afirma.
Like

 

Comment
0 comments