TIMOR CRÓNICA NOSTÁLGICA quinta portugal

A QUINTA PORTUGAL- crónica nostálgica
Parte 1
Quem pelos anos 60 do século passado esteve por Aileu, em Timor Leste, certamente conheceu a Quinta Portugal. Ficava antes de chegar à vila, vindo de Díli, estendendo-se por alguns hectares de café e mata ao lado da ribeira. Poiso obrigatório nalgumas tardes de sábado ou domingo, passeio agradável de mota ou a cavalo e a oportunidade de visitar o seu proprietário, que invariavelmente nos oferecia um saboroso e bem escuro café.
Aqueles dedos de conversa trocados com ele, sentados no abrigado alpendre, eram relaxantes, até pela boa disposição e humor com que o Alferes Abrantes narrava velhos episódios da sua longa vida na Meia Ilha. Lá chegara nos finais dos anos 20 como sargento, acabando por se reformar no posto honorífico de alferes. Com as suas economias, construíra a quinta, a que deu o nome da sua pátria.
Ainda ouço a parlar pausadamente e como experiente velhote a filosofar sobre a vida, prognosticando futuros sempre incertos. Sentado num cadeirão de rota e de pijama vestido, com um grande copo de aguardente a seu lado, ia bebericando, enquanto sentenciava sobre os mais variados assuntos. Eu acompanhava-o num café que o diligente e também idoso mainato servia. Seu servidor há longos anos, emprestava-lhe amizade, com algum distanciamento. Lá repetia a ladainha sobre o café, argumentando que já tinha dito ao “preto” que não o torrasse demasiado, ao que ele não obedecia e era a razão por se beber não café, mas cinzas de café…
À pergunta feita se alguma vez fora a Portugal, confessou que pouco antes da guerra visitara a sua aldeia de Vessadas, no concelho de Mangualde. Fora durante o inverno – e o gelo, neve e o frio da serra, a que já não estava habituado, provocavam-lhe um mau estar que nem mesmo o incentivo dos seus velhos companheiros de infância, para beber uns tragos de aguardente como aquecimento, produziam efeito. Respondia-lhes que já tinha emborcado uma série de copos da bem forte, mas sem resultado: “- até já tenho os fígados queimados, mas nada resulta”. Não volto a ir à Metrópole, lá é muito frio!
…Um dia, mandou um seu netito ao meu encontro ao quartel para me entregar um bilhete, onde solicitava urgentemente a minha presença, já que não podia aceder a todas as nonas que tinha – e solicitava a minha ajuda para partilhar ao menos uma… Era a forma humorística que tinha para querer que o fosse visitar. Assim fiz e, no domingo após o almoço, lá me meti na mota e rumei à Quinta Portugal. Satisfeito por me ver, logo me disse que a nona já fugira com outro, mas que deixara uma prenda que era, nem mais nem menos, um saco de vinte quilos de café, ainda por torrar. Que bela prenda!
Na verdade, o café que cultivava era de boa qualidade – e o ambiente onde o saboreava davam-me um grande prazer. Aliás, nas minhas frequentes visitas, acabei por conhecer parte dos seus familiares. A mulher timorense com quem vivia nunca cheguei a saber se era a mãe dos seus dois filhos conhecidos: um, funcionário na Administração de Aileu, e outro, com dois ou três filhos, vivia ao fundo do grande terreiro da quinta, numa pequena casa isolada. Casado com uma macaísta, andara em novo por Aveiro a fazer que estudava, tendo a certa altura recebido ordem de marcha do pai para regressar a Timor. Ajudava o pai nas tarefas agrícolas. Era um bom conversador de pequenos nadas, mas não se sentava connosco nos colóquios com o seu progenitor.
José Pais Abrantes teria já uns setenta e alguns anos quando o conheci. A sua referência aos governantes era bem expressa numa carapaça de tartaruga que adornava a parede exterior da sua casa, onde se inscrevia um viva a Marcelo Caetano. Quando ocorreu o 25 de Abril, talvez o seu filho, que era funcionário público, tenha retirado esse louvor, pelo que por debaixo apareceu uma antiga loa de tudo pela nação, nada contra a nação – Salazar; e ainda sob esta legenda colada em papel, lá se encontrava o escudo português bem pintado na casca do réptil marinho.
Com o desenrolar dos acontecimentos políticos, logo em 1974, a sua boa disposição começou a mostrar quebra, o seu ânimo já não era o mesmo. Bem o tentava a falar, mas ele acabrunhado só dizia: “prevejo para Timor um futuro muito negro. Sabe, se o timorense não tiver por perto da sua palhota um branco, matam-se uns aos outros…”
Da última vez que o vi, tornou a vaticinar o futuro trágico para Timor e confessou-me que em breve ia morrer angustiado… Não resistiu muito mais e acabou por falecer em Díli nos primeiros meses de 1975.
A sua profecia infelizmente cumpriu-se…
Parte 2
…Contudo, os desígnios da humanidade também surpreendem, e o Timor Português tornou-se um país independente. Regressei a Timor em 1999, na área da cooperação com Portugal. Visitei, logo que pude, a Quinta Portugal em Aileu. Dela restava o sítio. Das casas, mal se distinguiam os caboucos e da viçosa plantação de café, apenas alguns pés já abastardados, perdidos no meio da selva. Que choque!
Uns tempos depois, fui procurado pelo encarregado de uma missão agrícola portuguesa chegado a Timor-Leste, que pretendia que lhe recomendasse um guia para os acompanhar a Maubisse, local onde o Dr.Ramos Horta tinha indicado para implantarem um projecto de dinamização agrícola na área de cafeicultura, fruticultura e silvicultura. Indiquei-lhe um jovem, regente agrícola. Fiz-lhe um pedido: que no caminho para o seu procurado destino passassem pela Quinta Portugal e visse o potencial. O jovem guia que lhes tinha indicado era o neto do antigo colono, que conhecera em criança. Passados dias, fui de novo visitado pelo engenheiro português que, entusiasmado, informou que o melhor sítio para o seu projecto era justamente o terreno da antiga quinta em Aileu. Sei que fizeram contrato de arrendamento com os herdeiros e lá nasceu uma florescente estação agrícola onde se efectuavam alfobres e plantações das mais diversas espécies, e onde os timorenses, de perto ou longe, acorriam a ter formação para transplantarem as novas plantas para as suas regiões. Era um sucesso, constituindo orgulho para a cooperação portuguesa. Local obrigatório de visita.
Em 2010, voltei a sentir uma dor d’alma ao deparar-me com o que vi: uma sombra do que fora escassos anos antes! O renascido sucesso fora definhando assim que os técnicos portugueses, acabado o projecto, tinham deixado Timor. Ao que julgo saber, houve entretanto um apoio da cooperação australiana, que tentou manter a dinâmica, mas acabara também por não resultar
Em 2018, junto à ribeira, à entrada da quinta, ainda lá existia o antigo placard, mas a tela pintada com a bandeira portuguesa recortada, desaparecera.
Soube que há poucos anos surgiu um novo projecto de renovação, denominado Centro Agroflorestal da Quinta Portugal, sendo também local de referência para o estudo e desenvolvimento de acções relativas à problemática da cultura do café, fruticultura, horticultura e cerealífera, promovendo sessões de formação e trabalho, bem como concursos e festivais agro. Tudo isto, possibilitando uma interacção social dos vários pequenos e grandes produtores, tal como distribuidores e consumidores interessados.
Também anda por lá dedo de técnicos portugueses, através do Instituto Camões que, apoiando as instituições timorenses, têm efectuado um trabalho meritório, que é justo assinalar. Oxalá se consiga consolidar permanentemente e por longo tempo tal desiderato e que a quinta contribua para o bem-estar e desenvolvimento sócioeconómico de Timor –Leste!
Em memória do seu fundador e dos bons momentos que muitos portugueses lá passaram e ao excelente trabalho repetidamente efectuado, apraz-me dar um Viva à Quinta Portugal de Aileu!
RBF
Natal 2022
You, Joao Paulo Esperanca, Fátima Hopffer Rego and 16 others
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  • António Serra

    Curiosissima “nota histórica”. Obgd. Sou um fã incondicional do projeto e sempre que posso incentivo a sua ” multiplicação “. Parabéns ao UGoh Trindade , o técnico português que reanimou o projeto nos últimos anos.
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    • 9 h

guerra civil timor 1975

1975
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Os Pára-quedistas em Timor Leste \ 1975
Não tendo oportunidade de desenvolver acções do género das desempenhadas em Angola, Moçambique e Guiné, os Pára-quedistas em Timor Leste deram mostras de elevada capacidade, desempenhando missões de alto risco .
Em Portugal estavamos em pleno periodo de instabilidade politica pós 25 Abril , e preparava-se o “verão quente” de ´1975, em termos de cenário internacional, estava-se em plena Guerra Fria.
Em Timor, a falta de disciplina que grassava nas Unidades regulares do exercito, levou o Comandante-Chefe, Coronel graduado Mário Lemos Pires, a enviar depois da autorização do VCEME, ao CEMGFA, General Costa Gomes, um ofício em que exortava à retirada das 3 companhias metropolitanas, “pois estas poderiam pôr em causa o processo de descolonização em curso” e solicitava “o reforço dum pelotão de tropas especiais (Pára-quedistas ou Comandos) por um período de “6 meses, ou até haver uma definição política que conduza à sua dispensabilidade”.
O General Costa Gomes decidiu, no dia 15 de Março de 1975, enviar para Timor o DPT (Destacamento de Pára-quedistas de Timor) inicialmente com 1 pelotão (Abr75), mais tarde reforçado com um 2º pelotão (Jul75) . Conjuntamente com os Pára-quedistas encontravam-se igualmente em Timor-dois Alouette III da FAP (numeros 9315 e 9364).
O DPT recebeu a sua primeira Directiva para actuação em 16 de Maio. Nela se definiam uma Missão e um Conceito que expressavam a intenção de poupar os Pára-quedistas às ingratas tarefas de manutenção da ordem, reservando-os, enquanto força de intervenção do Comandante-Chefe, para utilização em ultima instância.
O ambiente nas Unidades militares metropolitanas encontrava-se minado, para a maioria, o objectivo era regressar o mais rápidamente possivel a Portugal, para além da contaminação pela propaganda e a dificil execução de qualquer missão atribuída que exigisse sacrificio.
Manter qualquer tipo de disciplina e operacionalidade, num ambiente dominado pela politização constante, a muitos milhares de quilómetros de Portugal, revelou-se uma tarefa bem difícil, e aumentando na proporcionalidade que as forças políticas timorenses iam extremando as suas divergências.
Os partidos politicos dominantes, UDT e Fretilin, pressionavam constantemente o Governo de Timor, no sentido de falta de actuação contra o partido rival, à medida que a situação se ia deteriorando no território.
Em 13 Julho, seguiu um relatório para o CEMGFA, do Comandante- Chefe, pedindo mais 1 pelotão e 1 Companhia de Páraquedistas, de modo a completar o efectivo de 2 Companhias vindas expressamente pelos Transportes Aéreos Militares , com estes efectivos pedia-se igualmente um terceiro helicóptero, esta força constituiria uma reserva para dissuasão de acções violentas, previsíveis dado o ambiente de tensão política crescente.
Em Agosto, a situação começa a ter contornos mais graves, de 10 para 11 de Agosto, a UDT desencadeou uma acção que desactivou os telefones, corta a energia eletrica e cerca a PSP.
Do Quartel General fogem 3 soldados com as respectivas armas, existe ainda uma tentativa de assalto à arrecadação de material de guerra do mesmo QG ,desaparecendo um numero indeterminado de armas. A acção concertada da UDT ocupa também o aeroporto onde se encontravam os dois Alouette III.
Sem possibilidade de ligação rádio, os Paraquedistas dirigem-se ao Quartel-General e apercebem-se da existência de pequenos grupos dispersos da UDT, mal armados e revelando medo. Realça-se o ocorrido junto a uma esquadra da PSP, onde um grupo barricado e armado cortara a circulação. Apercebendo-se da presença dos Páraquedistas, os elementos da UDT levantaram imediatamente a barricada e apresentaram desculpas.
O Tenente Branco, do DPT, manifesta ao governador a disponibilidade dos Páraquedistas poderem controlar a situação, mas o Coronel Lemos Pires, manteve sempre a posição de que se tratava de um assunto político que como tal devia ser resolvido. De qualquer modo, foi decidido reforçar a segurança da residência oficial com uma força de Páraquedistas.
Em 12 de Agosto a UDT avança com algumas exigências, de modo a negociar com Portugal uma possivel independência, para tal exige: prisão dos elementos da Fretilin, ocupação das Unidades de Dilí pelos Pára-quedistas (reconhecidos como a unica força com capacidade operacional e dissuasora). No mesmo dia, no Comando Operacional, foi salientada pelo comando do DPT a necessidade de as nossas tropas não só controlarem a área do porto, como de recuperarem o controlo sobre os helicópteros retidos pela UDT no aeródromo de Dili, se necessario pela força, na sequência da acção desencadeada por estes. Após a recusa inicial e sob o espectro da força, a UDT cedeu, e os helicopteros pousaram em segurança no dia seguinte no aquartelamento do DPT.
Entretanto, seguiram-se algumas adesões de oficiais portugueses, com comando de homens, à UDT ; contribuindo para a situação angustiante nestes longos dias de Agosto.
Atendendo ao acréscimo de insegurança que este desenvolvimento introduzia na situação geral já de si preocupante, o comandante interino do DPT dirigiu-se ao Comando Operacional, onde reiterou a necessidade de se tomarem medidas urgentes relativamente à concentração dos efectivos militares portugueses na área do porto. O Oficial Pára-quedista recordou igualmente a necessidade de se equipar o DPT com morteiros, LGF e respectivas munições, sem o que seria impossível garantir capacidade de actuação contra forças (tanto da UDT como da Fretilin) cada vez mais fortes a cada hora que passava, e com a adesão de outras Unidades militares a um ou outro dos referidos Movimentos.
No dia 18 de Agosto, numa missão de observação em Ailéu (zona de predominância da Fretilin) deslocaram-se ali de helicóptero , 2 militares portugueses, além do piloto (Cap. Ferreira Pinto) e mecânico e foram imediatamente feitos prisioneiros, pois a Fretilin já ocupava o quartel.
A noticia só chegou a Dilí quando o segundo helicoptero (que apesar de estar com uma fuga de óleo e portanto considerado inoperacional) , seguiu para Ailéu, e foi ali recebido a tiro, conseguindo no entanto regressar sem ser atingido.
Em 21 de Agosto, face à evidência de que a situação ameaçava descontrolar-se a qualquer momento, o DPT, depois de ter procedido à inactivação de cerca de 500 espingardas G-3 excedentárias, transferiu-se também para a zona neutra, perto do porto, cuja segurança organizou e onde passou a fazer-se a triagem dos refugiados, para evitar que ali se infiltrassem elementos dos Movimentos que já se enfrentavam nas ruas com recurso a armamento diverso. Contudo, apesar de ser unanimemente reconhecida como a única força militar portuguesa com capacidade operacional (foto em anexo), o Destacamento de Pára-quedistas pouco podia fazer num cenário pontuado por tiros e rebentamentos, numa cidade onde além disso se incendiavam casas e onde se faziam explodir depósitos de combustíveis.
Juntamente com os pára-quedistas, o helicóptero sobrevivente também foi deslocado para a zona do porto.
A 22 de Agosto, Lemos Pires, o Governador, envia nova mensagem para Lisboa, solicitando entre outras coisas o auxilio de forças externas ou a resposta positiva ao pedido da vinda de uma Companhia de Páraquedistas. Pela primeira vez, e face à situação da possivel violação da zona neutra em redor do porto, prevê medidas ofensivas.
Neste, o aumento do número de refugiados – alguns deles feridos – implicava acréscimo das dificuldades logísticas e das preocupações com a segurança. No dia 23, na altura em que embarcavam os primeiros refugiados (apenas mulheres e crianças), a UDT e a Fretilin enfrentaram-se aí de armas na mão. Sem hesitações, porque era indispensável afirmar a autoridade portuguesa na zona neutra, uma Secção do DPT tomou posições de combate e disparou algumas rajadas de armas Iigeiras, enquanto um graduado ordenava aos elementos dos dois Movimentos que abandonassem a zona, no que foi prontamente atendido.
Dois dias mais tarde (24 Agosto), tornando-se absolutamente necessário levantar géneros alimentícios na Manutenção Militar, para se poder alimentar minimamente um número de refugiados que não parava de crescer, os pára-quedistas dirigiram-se ao referido aquartelamento e começaram a carregar os mantimentos em depósito. A meio da tarefa, um grupo numeroso e bem armado da Fretilin manifestou a intenção claramente hostil de impedir o dito carregamento. O Oficial comandante da força pára-quedista dirigiu-se ao QG para informar a Fretilin que estava determinado a levar os géneros. Serafim Lobato, qualificado dirigente daquele Movimento, pediu desculpa pelo mal-entendido e assegurou que os pára-quedistas poderiam levar da Manutenção Militar o que quisessem e sempre que necessário.
A evacuação de civis e militares estava extremamente dificultada, pois o unico helicóptero disponível estava inoperacional, ou a propria ida dos Paraquedistas a qualquer local utilizando este meio aéreo.
E finalmente chegou o dia 26 de Agosto, as evacuações dos funcionários civis e da própria população começou. No porto, duas delegações, uma da Fretilin e outra da UDT, assistiam ao embarque e decidiam sobre quem podia ou não ser evacuado! Bastava que qualquer dos grupos dissesse que fulano ou sicrano não embarcava e a sentença estava dada! Não era necessário justificar. Todos os que obtinham autorização, eram despojados de todo o dinheiro que levavam, pela delegação da Fretilin. Tudo isto com os Pára-quedistas a assistir. Mas estes tinham ordens e souberam cumpri-las. Uma intervenção significaria confrontação. Para os pára-quedistas teria sido mais fácil combater. Era para isso que estavam treinados. Difícil era assistir, sem reagir, às cenas vergonhosas que os seus olhos contemplavam.
Segundo Lemos Pires, resolver o problema de descolonização de Timor, com base na força, era irrealista. A força necessária para uma operação dessa natureza, mesmo no campo da segurança interna, envolveria meios muito para além dos existentes em Timor, quer em quantidade, mas principalmente em qualidade e mentalidade; e isso Lemos Pires sabia que nunca chegaria a Timor.
Eis quando de repente, uma explosão enorme atroou os ares! Dentro do porto, em cima de um telhado do armazém onde estávamos encostados, rebenta a primeira granada de morteiro. Pessoas correm em todas as direcções.
Seguida de outras que provocam cerca de 10 mortes e vários feridos civis.
Entre os feridos, 2 Pára-quedistas : os Soldados Américo Sá e Vitor Couto; Américo com um outro soldado depararam com um grupo de mulheres e crianças que procuravam fugir ao bombardeamento e decidiram evacuá-las para uma barcaça. Colocaram-nas a bordo e estavam a empurrar a embarcação para o largo, quando o Américo viu uma rapariga no molhe, voltou atrás e agarrou a criança. Quando regressava à barcaça, uma granada de morteiro explodiu junto deles. A explosão matou algumas das crianças embarcadas e ele foi atingido juntamente com a criança que levava ao colo, a qual teve morte instantânea.
Américo e Couto são levados para a casa do Governador, onde o dr. Ruivo, médico-cirurgião, lhes prestou assistência imediata. Américo estava gravemente ferido (atingido na artéria femural) e tinha de ser operado. Em Dili não havia hipótese, já que o Hospital não oferecia condições. Assim teria que esperar até chegar ao Royal Adelaide Hospital na Austrália. (foto em exnexo).
O helicóptero que estava estacionado no cais também foi atingido (foto em anexo).
Os Pára-quedistas que se encontravam no local prestaram auxílio imediato aos feridos(foto em anexo)
Alguns outros perguntam pelos camaradas feridos. Organizaram-se em dois grupos. Tinham sido «mordidos» e não haveria ninguém que os detivesse. Comandados pelos respectivos Tenentes, dirigiram-se à UDT e à Fretilin. O grupo que se dirigiu à UDT não teve qualquer problema. Eles desculparam-se dizendo que não tinham efectuado qualquer fogo sobre o porto e entregaram-lhes mesmo um morteiro . O grupo que foi à Fretilin também não teve oposição. Negaram igualmente a autoria dos disparos dizendo que só podiam ser os da PM. Dirigiram-se à PM. Entraram no quartel derrubando a cancela de entrada. Saltaram dos carros e tomaram posições de combate. Ninguém reagiu. Na realidade tudo indica que os tiros de morteiro tinham partido dali, mas os seus autores tinham-se posto em fuga logo que se aperceberam da aproximação dos pára-quedistas. Estes regressaram ao Comando depois de ameaçarem voltar, caso houvesse mais morteiradas. Na realidade até à saída para Ataúro os morteiros emudeceram.
O radicalismo dos dois partidos, consubstanciado nas exigências apresentadas ao governador- (o da Fretilin exigindo mesmo que os Pára-quedistas se mantivessem apenas a fornecer segurança ao Comandante- Chefe e restante staff), fez com que na noite de 26 de Agosto, saíssem de Dili em meios navais, rumo à ilha de Ataúro, os últimos representantes de Portugal em Timor: Comandante-Chefe e seu Estado-Maior, 8 médicos, 26 elementos da Armada, o Destacamento de Pára-quedistas (64 militares) e o piloto da FAP ( o piloto do 9315 e restantes militares acompanhantes continuavam detidos em Ailéu, só vindo a ser libertados a 8 de Setembro).
A 28 de Agosto, o Governador incumbiu uma Secção de páraquedistas de se deslocar na barcaça Comoro a Oecusse, pequeno enclave no Timor indonésio, com a finalidade de recuperar alguns militares portugueses que ainda lá se encontravam. No regresso, a força deveria aportar a Batugadé, de onde recuperaria outro grupo de militares e civis portugueses. Infelizmente, não foi possível recuperar os últimos, por se encontrarem em poder de uma força da UDT que, entrincheirada na praia, não o permitiu.
Em Outubro, recebia-se de Lisboa, a certeza que brevemente seria feita uma rendição de militaresPára-quedistas, à muito esperada. Fora desgastante a missão após o golpe de 11 de Agosto, pela necessidade que houve em conter a natural predisposição para reagir ofensivamente; o pessoal do DPT encontrava-se frustrado pela saída de Díli e pela missão que lhe estava destinada no Ataúro, de segurança ao Governador. Encontrava-se ainda preocupado com o que se passava na metrópole e os acontecimentos de 25 Novembro e as saídas dos quadros do RCP.
Em 7 de Dezembro ao alvorecer, a lndonésia invadiu Timor.
No dia 8 de Dezembro de 1975, os últimos representantes portugueses em Timor embarcaram na corveta João Roby que os transportou para Darwin.
Fotos:
O próprio General Lemos Pires em comunicação para Lisboa, a 20 Agosto mais um vez, sublinha que apenas controla a Marinha e o Destacamento de Pára-quedistas.
Américo e Couto, os dois Pára-quedistas feridos, no Hospital de Adelaide (foto Boina Verde)
O helicoptero (9364) atingido por estilhaços de morteiro no porto de Dili, ficou completamente inoperacional, e após retirado alguns componentes, foi deitado ao mar. Assim os dois helicópteros que compunham o Destacamento da Força Aerea acabaram atingidos em Timor.
Outros fotos de documentos vários
Fontes:
Relatório de Comando consultado na Torre do Tombo, pelo autor do artigo.
Revista Boina Verde Nº149 , destacável sobre Timor do Coronel Mira Vaz.
Livro “O último voo sobre Timor” do Capitão Piloto Alves Ferreira.
Livro ” Descolonização de Timor missão impossivel” de Mário Lemos Pires
*Sergio Silva

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  • Joao Luis Lopes

    interessante… a historia do periodo de 74/75 em Timor devia ser levado ao conhecimento de todos e objecto de estudo nos estabelecimentos de ensino, sobretudo nas universidades, para memória futura.

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TIMOR COMPANHIA INDEPENDNETE

WHY I WROTE ‘INDEPENDENT COMPANY’ by Bernard Callinan
It is the 79th anniversary of the Japanese assault on Dili (February 19-20 1942) that began the almost year long Australian commando campaign against the occupying enemy in, then, Portuguese Timor.
The earliest account of the history of the campaign was written by Bernard Callinan and titled ‘Independent Company’ and published in October 1953. The book was reprinted in 1984 and is widely regarded as one of the best of the personal WWII campaign histories genre.
Back in 1966 Callinan gave an insightful address to engineering undergraduates at the University of Melbourne (his alma mater) in which he explained how the book came to be written.
Callinan developed several ‘threads’ in his explanation with the primary one being ‘therapy’ in reaction to ‘the strain of waging a war against an always greatly superior enemy, and of being dependent for our existence upon a large all-pervading population’. He states that ‘We learnt to live with the strain, but there was a pronounced reaction when we were brought back to Australia’.
He goes on to say: ‘Another strand for the thread lies in our success. We had been successful. MacArthur and others had told us so, but much more we knew it; and we knew we had been successful where others had failed – in fact where all others had failed. No other allied troops between the Philippines, Burma, Malaya and Java had met the enemy and survived. We had killed some fifteen hundred enemy for our own loss of less than fifty but, very much more importantly, throughout it all we had remained a cohesive, aggressive fighting force’.
‘Another strand was the desire to get accuracy to the story. I think I am not unusual because I find the part truth difficult to deal with and trying to the patience. This story was front page news when it was released from censorship, many versions sprang up and the emphases were sometimes on the wrong aspects. I wanted to record my version of the true story’.
And finally this tribute: ‘After the Japanese landed there were a few weeks of doubt, but from then on, the Timorese became our supporters and loyal friends. They looked after our wounded, they buried our dead, they fed and housed us’. Over the months I moved, often unaccompanied, along our 60 mile front and I never hesitated to walk into a strange village, ask them to feed me and then lie down and sleep amongst them in a hut. They could have cut my throat without hindrance if they had wished’.
Bernard Callinan was a Captain and second in command of the No. 2 Independent Company on their arrival in Timor and subsequently took over as Officer Commanding in May 1942 with the rank of Major. In November 1942 he was given command of Sparrow Force at the time it was renamed Lancer Force after being reinforced by the No. 4 Independent Company.
Callinan was a peripatetic commander and travelled frequently and extensively visiting the dispersed locations occupied by the Australians. The book reveals that he was an acute observer of the people, terrain and localities over which the campaign was conducted and recorded what he saw with considerable insight and self-deprecating humour. Given Timor’s underdevelopment, especially away from Dili, many of the scenes he describes in his book are still recognisable today.
To see the full post, go to Doublereds: https://doublereds.org.au/forums/topic/286-why-i-wrote-‘independent-company’-bernard-callinan/
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Chrys Chrystello
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RECOMENDO
( assim poderá entender melhor o que se passou nas matas de Timor durante a ocupação japonesa)
O livro foi traduzido para a língua portuguesa pelo ” Comando territorial independente de Timor” do exército português. Tenho cópia que me foi facultada por um oficial superior que cumpriu missão na antiga colónia portuguesa.

Alberto Borges and 8 others

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Quando os japoneses ocuparam Timor. E os portugueses e timorenses que os combateram

Em 1942 a neutralidade portuguesa durante a II Guerra Mundial foi abalada pela ocupação japonesa de Timor, que duraria até ao final do conflito, em 1945. Um episódio esquecido, mas sangrento, da nossa História que uma série de televisão vem recordar. Abandonados, a partir de dia 21, na RTP.

Source: Quando os japoneses ocuparam Timor. E os portugueses e timorenses que os combateram

Morreu ao serviço da GNR em Timor em 2012. Dez anos depois, a família ainda aguarda compensação – CNN Portugal

A família de um militar português que morreu ao serviço da GNR em Timor, em março de 2012, está há mais de 10 anos à espera de receber um seguro de vida de 173 mil euros. A compensação demorou quatro anos a ser calculada e outros seis para ser publicada em diário da república. A família do militar de Coimbra já poderá levar o Estado portugues ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

Source: Morreu ao serviço da GNR em Timor em 2012. Dez anos depois, a família ainda aguarda compensação – CNN Portugal

Palácio de Sintra resolve “enigma” com 200 anos – ZAP Notícias

Uma equipa do Palácio Nacional de Sintra resolveu um ‘enigma’ com 200 anos ao identificar a Casa do Conselho de Estado, que acolheu os tribunais superiores do reino e as reuniões daquele órgão estatal. Após três anos de investigação, a equipa do Palácio Nacional de Sintra descobriu a função origi

Source: Palácio de Sintra resolve “enigma” com 200 anos – ZAP Notícias

JILL JOLLIFFE

Hopefully these books can be found somewhere in libraries in Timor-Leste!
A memoryofallthebookswrittenbyJillJollifferelating to Timor-Leste (let me knowifIhaveforgottenany)
Antonio Sampaio reflects on the life of Jill Jolliffe and why she is so endeared by the people of Timor Leste
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Morreu Jill Jolliffe, jornalista que testemunhou invasão indonésia de Timor
Dili, 03 dez 2022 (Lusa) – A jornalista australiana Jill Jolliffe, que testemunhou as primeiras incursões militares indonésias em Timor-Leste, morreu na sexta-feira, aos 77 anos de idade, afirmou à agência Lusa fonte ligada à família.
A jornalista, que chegou a viver em Portugal, testemunhou as primeiras incursões militares indonésias em território timorense, em setembro de 1975, tendo noticiado a morte de cinco colegas de profissão em outubro daquele ano (Brian Peters, Greg Shackleton, Gary Cunningham, Malcolm Rennie e Tony Stewart), assassinados na localidade de Balibó, tendo ficado conhecidos como os “Cinco de Balibó”.
Os cinco jornalistas foram mortos numa operação clandestina das forças especiais da Indonésia, em preparação para a invasão do território, que era até então uma colónia portuguesa.
O livro que Jill Jolliffe escreveu, “Cover Up – The inside story of the Balibo Five”, inspirou a longa-metragem realizada por Robert Connolly e protagonizada por Anthony LaPaglia, que estreou em 2009 na Austrália.
O antigo presidente timorense Xanana Gusmão lamentou hoje a morte da jornalista australiana.
“É com grande tristeza que soubemos da morte de Jill Jolliffe, uma aclamada jornalista australiana, ativista política e que sempre lutou pela justiça em Timor-Leste. Jill era uma heroína do povo timorense”, afirmou Xanana Gusmão, numa nota enviada à agência Lusa.
“Jill foi uma ativista, uma rebelde, uma lutadora. Expôs de forma persistente a realidade da ocupação militar indonésia e apoiou a luta do povo timorense. Terá sempre um lugar especial na nossa história nacional. Ela é uma de nós”, afirmou.
Xanana Gusmão salientou que a jornalista apoiou a luta de independência timorense, com grandes sacrifícios pessoais, recordando a cobertura que fez em 1975, aquando das primeiras incursões indonésias e do caso dos “Cinco de Balibó”.
“Jill estava em Dili para cobrir a proclamação de independência a 28 de novembro de 1975. Ela tirou fotografias dos nossos líderes, incluindo do presidente Nicolau Lobato, que serão para sempre imagens preciosas e icónicas para a nossa nação”, recordou o antigo presidente timorense.
Para Xanana Gusmão, Jill Jolliffe tornou-se “uma ativista incansável pela causa timorense, trabalhando de forma inexorável para expor os horrores da ocupação [indonésia] ao mundo”.
A jornalista, que publicou o seu primeiro livro sobre Timor em 1978, regressou ao país em 1994, tendo encetado uma viagem clandestina pelas montanhas para entrevistar um dos líderes da resistência, Konis Santana, por forma a expor os abusos dos direitos humanos por parte das forças indonésias no país.
Jill Jolliffe recebeu em 2014 a Medalha da Ordem da Solidariedade por parte do Governo de Timor-Leste.
JGA/ASP // PJA
You, Inacio Moura, John Waddingham and 6 others
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