Categoria: sociedade consumidor

  • LOBO ANTUNES E OS POBREZINHOS DA JONET

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    Crónica de António Lobo Antunes sobre os pobrezinhos
    e que foi dedicada pelo escritor à Isabel Jonet cuja vocação é dar esmola aos pobrezinhos. OBRIGATÓRIO LER
    Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
    Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
    – Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
    O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
    – Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
    Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
    (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
    de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
    – Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
    o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
    – Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu
    Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
    – O que é que o menino quer, esta gente é assim
    e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
    Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
    – Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
    e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
    Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
    Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis”
    UMA CRÓNICA DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES
    DEDICADA A ISABEL JONET
    (Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome)
    Os Pobrezinhos | Texto de António Lobo Antunes com narração de Mundo Dos Poemas
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    Os Pobrezinhos | Texto de António Lobo Antunes com narração de Mundo Dos Poemas
    Crónica de autor português. António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. Estudou na Faculdade de Medicina de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria. Exer…
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  • POVOS LOUCOS E IGNORANTES

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    Não há pachorra! Leiam
    May be an image of 1 person and text that says "viral Actriz feminista propone llamar "munda" al mundo La actriz peruana Mayra Couto, señaló que es víctima de amenazas tras sugerir llamar 'munda' al mundo para empoderar a la mujer."
    Mais uma cretina que quer mudar o Mundo.
    Cada vez pior, esta gentinha…..
    🤣😅🤣😅🤣😅🤣😅😎
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  • a estupidez avassaladora

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    Sair ileso desta propagação de estupidez, procurar proteger os nossos filhos desta lavagem cerebral, será, até ao fim dos meus dias, uma trégua sem limites.
    Reconheço que tive muita sorte com os valores intrínsecos na personalidade da minha filhota, obra não só minha, como da sua mãe, Família, professores e a ela própria.
    Espero que continue a pautar-se por respeitar a liberdade dos outros, sabendo deslindar e separar o razoável do estupidamente propagado por esta esquerda lesbiana e leviana (que respeito, mas que me enoja), mas que também deviam respeitar a natureza da espécie humana e animal.
    Para avatares já bastam os que criamos no Facebook e em jogos virtuais.
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    • Ester Silva Borges

      É o que dá a confusão de ideias e ausência de pés assentes na terra à mistura de gente mal resolvida. Agora é colher o semeado, para quem quiser ou então pegarem o touro pelos cornos e dizer basta, porque a escola, melhor dizendo, os professores estão …

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    • Antonio Silva

      O que se chama “não há que fazer” 🙃
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    • Francisco Sousa

      A Agenda 2030 corre,
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  • para quem gosta delas altas…Female Stars Who Are Way Taller In Real-Life Than On-Screen – Parents Dome

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    Sky-high pumps are a red carpet must-have for any Hollywood lady. Or are they? As it turns out, many familiar faces don’t even need them! Stepping back from a planned photo sometimes reveals a taller story. Who secretly towers over literally everyone around her? For some reason, women is expected to be tall, but not […]

    Source: Female Stars Who Are Way Taller In Real-Life Than On-Screen – Parents Dome

  • Eye-Opening Photos of Things That Look Way Bigger Than We Thought | ConstantStories

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    Sometimes our perceptions of sizes are off, and these photos reveal the actual size of things we thought might have been a bit smaller comparatively.

    Source: Eye-Opening Photos of Things That Look Way Bigger Than We Thought | ConstantStories

  • moda de famosos 30 Stunning, Unforgettable Red Carpet Looks

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    With every award show comes a red carpet. Celebrities prepare accordingly by dressing up and getting glam. Over the last 10 years though, we’ve been witness to many red carpet looks…some good, some bad, and some questionable. These are 30 red carpet looks that left a lasting impression.

    Source: 30 Stunning, Unforgettable Red Carpet Looks

  • TRAGAM DE VOLTA A MINHA GERAÇÃO

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    Ó florzinhas de estufa, ressabiados e Mamadous deste mundo, promotores de ódios fortuitos.. Deixo-vos este belo texto.
    Aceitem que dói menos:
    A nossa geração foi tolerante e muito, sem sequer pensar nisso.
    Vocês sim, inventaram os problemas de género, ódios e fobias.
    Somos de gerações que ouviram e amaram David Bowie, Lou Read e que nunca colocaram problemas às preferências sexuais que eles tinham.
    Não ligamos a isso e ficamos satisfeitos e felizes porque a música deles nos tocou!
    Elton John, Freddy Mercury e George Michael..
    Nós também somos as gerações que amavam Led Zeppelin, Deep Purple, Neil Young ou Eagles, sem criar problemas com as suas letras, hoje consideradas machistas!
    Quando Boy George surgiu, com a sua imagem diferente, não perguntamos se era gay, hetero ou bi! Apenas curtimos a sua música.
    E quando Jimmy Sommerville nos contou sua história de infância, nos emocionamos e cantamos com ele.
    Não havia leis que nos obrigassem a sermos solidários ou a mostrarmos posições publicamente.
    Não existiam ameaças de sanções ou autoproclamados que nos censurassem quando alguém fazia uma piada sobre algum destes assuntos.
    Alyson Moyet era definitivamente gorda, mas ninguém achava que ela valia menos que uma Claudia Schiffer.
    Gostaria de entender o que aconteceu entretanto pois, na minha opinião, todos esses censores têm o único efeito de gerar o que censuram. A tolerância nunca cresce por intolerância, mas sim o ódio e a divisão!
    Não precisávamos de restrições. A educação que os nossos pais nos transmitiram e valores como assistência, empatia, amor ao próximo e tolerância são reais e infracções traziam desvantagens sociais!
    Agora vieram impor-nos um culto de crítica e culpabilização, colocando-nos uns contra os outros!
    De: Inga Grimme
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  • MORREU O BISPO HILTON DEAKIN DE MELBOURNE APOIANTE DE TIMOR

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    Timor supporters in Melbourne and everywhere are saddened to learn of the death today of Bishop Hilton Deakin.
    Uma das vozes mais constantes da Igreja australiana, especialmente em Melbourne, contra a ocupação indonésia de Timor-Leste, o bispo Hilton Deakin morreu hoje.
    Do seu perfil:
    Born in Seymour on 13 November 1932 to Arthur and Ruby, the young Hilton Deakin took up his early education at St Joseph’s Finley (in NSW), St Mary’s Thornbury and Parade College East Melbourne.
    He entered Corpus Christi College Seminary, then in Werribee, in 1951 and was ordained to the Priesthood by Archbishop Justin Simonds on 27 July 1958. Appointments were many – Moonee Ponds; St Patrick’s Cathedral; Box Hill; Glen Iris and Mount Eliza (as the Parish Priest to the new Parish).
    In 1987, Fr Deakin was appointed Vicar General of the Archdiocese. On 30 December 1992, he was named as Bishop for Melbourne (Titular Bishop of Mortlach) and was ordained on 3 March 1993, and appointed an Auxiliary – serving under three Archbishops.
    His ministry to the Archdiocese of Melbourne was broad and rich, and included appointments to the Pastoral Leadership Board, Personnel Advisory Board, College of Consultors, the Diocesan Finance Council, Chair of Catholic Capital Grants, Chair of Mannix College Council, Member of the Priest’s Retirement Fund, and ex-officio Member of the Council of Priests. Bishop Deakin was also appointed as Episcopal Vicar for Migrants and Refugees. He held a great love and interest in Church music, and the special work of the St Patrick’s Cathedral Choir.
    With a focus on the just provision for under-privileged people, Bishop Deakin ministered for more than 30 years for people who suffer economic, spiritual and cultural deprivation.
    During the 1970s he obtained a BA (Hons from Monash University and completed a PhD in Anthropology (Monash) in 1977. These years of study and research, particularly into Aboriginal matters, led to international projects and roles including that of President of Caritas Oceania and Vice President of Caritas Internationalis. He was involved heavily in the affairs of East Timor and the support of the Timorese people at many levels, and did extensive work for the 40th Eucharistic Congress.
    In recognition of this extensive work, Bishop Deakin was awarded a Member of the Order of Australia in 2003 along with the Centenary Federation Medal.
    Bishop Hilton Deakin retired on his 75th birthday in 2007 and was appointed Bishop Emeritus. In 2008 he celebrated his Golden Jubilee – receiving a congratulatory message from His Holiness Pope Benedict XVI, and further celebrated his Diamond Jubilee in 2019.
    After several months of ill health, Bishop Hilton Deakin died peacefully on Wednesday 28 September, 2022 aged 89 years.
    A man who was held in deep admiration for the many gifts he so generously shared throughout his long and dedicated service to God’s people.
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