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  • a minha memória de 50 anos de abril

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  • O MEU 25 DE ABRIL

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    adiante mas desformatado…

    Crónica 523. 50 anos de abril em 2024

     

    Pensei seriamente se devia escrever isto, antes do mais por estar na fase impossível de sobreviver, com sanidade, após a morte da minha mulher e companheira de 29 anos. Além do mais ela fazia as revisões dos meus textos e opinava sobre o seu conteúdo. Depois, ainda estou incrédulo pela cegueira dos dois principais partidos a catapultarem a extrema-direita nas recentes eleições regionais e nacionais. Por fim, lembrei-me de 3 ou 4 factos marcantes da minha vida que se sobrepõem ainda a tudo isto.

    De 1967 a 1972 no TUP (Teatro Universitário do Porto) conheci e trabalhei (entre outros) com o Mário Viegas, Zeca Afonso, Mestre José Rodrigues (da terra da minha mãe, Alfândega da Fé) e comecei a ser politicamente ativo. O Mário leu publicamente um Poema meu de um livrinho em que o lápis azul (da censura) cortou mais de 70 páginas do meu primeiro de poesia (em 1972) Crónica do Quotidiano Inútil, a que se seguiram mais cinco volumes até aos 50 anos de vida literária em 2022.

    Em 1973 passei quase seis meses como Aspirante a oficial-miliciano (subalterno do major Ernesto de Melo Antunes) no RAL-4 em Leiria e soube através dele que algo se cozinhava no seio das Forças Armadas…

    Sobre isto, extraio do volume 5 de ChrónicAçores:

    Longos passeios do Castelo – em frente ao quartel – ao rio Liz a falar e filosofar. Permaneci em Leiria até setº 1973, e dei-me bem com o Melo Antunes (mais tarde bem conhecido do povo português) com o qual tive longas conversas e passeios sobre a situação sociopolítica e económica do país, criando amizade profunda e lido alguns dos estudos da mudança que preparava para o futuro, e iriam ocorrer. Não sabíamos quando… ele dizia que era algo para daí a dois ou três anos (no pior cenário, cinco).

    Falava-se de vida, de filosofia, de aspirações e sonhos. Felizmente vivi o suficiente para ver a maior parte desses sonhos concretizados antes do novo milénio.

    Rezam as crónicas que sou moderadamente otimista há décadas, baseado no princípio de que as coisas podem sempre ser piores, mas também podem melhorar, e, normalmente, a vida convalesce connosco. Acredito piamente que a sorte se constrói com muito trabalho e esforço e creio que o destino não está previamente traçado. Porventura, estará delineado para a carneirada que não pensa nem se dá ao trabalho de agir. Para os restantes, bípedes pensantes, o destino é feito de altos e baixos que vamos construindo e destruindo ao longo das decisões que tomamos. Dito isto, nunca me arrependi de nenhuma, mesmo as que provaram serem um fracasso total, pois na data em que as tomei decerto me pareceram as melhores.

    Posteriormente, tal como sempre tentei fazer, exerci o direito de autocrítica e autoavaliação psicológica das minhas ações e – quando o soube ou quando o pude – fiz as correções que entendi necessárias.

    Nos meus anos mais jovens, entre os 17 e 23 (1967 a 1973), desde que entrei na Faculdade e comecei a ter um interesse ativo e prático na coisa pública e política a vida deixou de ter duas tonalidades (o branco e preto) e adquiriu centenas de tonalidades de cinzento.

    Nessa época qualquer jovem vivia com dois dilemas (caso fosse um ser pensante e havia alguns naqueles tempos). Um, era a espada de Dâmocles da malfadada tropa (o exército colonial português que decepava vidas e esperanças dos jovens ao enviá-los para a guerra colonial que ninguém queria nem entendia), a outra era o facto de não pertencermos à Europa, nem ao mundo, na política do “orgulhosamente sós” a que a ditadura salazarenta se agarrava. Mas havia esperança, a guerra colonial acabaria, tal como a do Vietname e a democracia haveria de chegar, como chegou à Europa após a segunda grande guerra.

    Mas jamais esquecerei o que era viver sem liberdade. Antes do 25 de abril (em Portugal) havia ma coisa chamada lápis azul, ou censura, que e cortou 70 páginas a um livrinho de poemas adolescentes que publiquei com cerca de trinta páginas e isso jamais esqueço ou perdoo… O resto é história, o 25 de abril trouxe a liberdade de pensamento e de expressão e muita água correu sob as pontes mas, hoje, sou confrontado por uma sociedade mais desigual do que nunca, de falsa fluência consumista.

    No que conseguíamos ler e ouvir queríamos a liberdade do Woodstock americano com música das rádios pirata britânicas, das manifs de estudantes de Paris em 68-69 (e posteriores), em vez de viver sob “brandos costumes, no jardim à beira-mar plantado” que me obrigaram a uma multa de 2$50 (dois escudos e cinquenta avos = 0,0125€) por andar descalço no acesso à praia …ou outra (creio que 250$00=1,25€) por não ter licença de porte de “arma” (neste caso, um isqueiro). Alguns colegas eram “bufos” (não só da PIDE) e ao denunciarem o meu uso de isqueiro sem licença ganhavam 50% da receita…

    Hoje no outono (ou inverno) da vida, ainda tenho saudades de Timor, da Austrália, de Bragança. Do meu amor súbito (após 2005) e suicida pelo Faial, Pico e outras ilhas açorianas. Tão pronto, a realidade me confronta com a certeza de estar aqui preso e amarrado para sempre, por vontade própria. Dificilmente sairei deste buraco, bem verde e bonito é verdade. É bonito. E que mais? É bonito, mas tão deserto como o Saara.

    Falta-me gente com quem dialogar a nível intelectual, falta-me um Melo Antunes com quem trocar sonhos e imagens do futuro melhor para o país. Falta-me uma tertúlia, um Cenáculo onde possa falar e ouvir, trocar sonhos e discutir opções de vida (nem mesmo os nossos Colóquios da Lusofonia são talhados para tal). Em tempos chegamos a ter um pequeno grupo que se juntava nos Moinhos de Porto Formoso que imitava tais tertúlias, depois morreu o Daniel de Sá, o Manuel Sá Couto e desapareceram uns tantos…

    O meu idealismo poético irá morrer comigo. Sozinho, silente. Estes mutismos enormes, solilóquios, que ora partilho comigo mesmo, estão a tornar-me cada vez mais árido. A sensatez reitera que os silêncios não são de hoje. Vão sempre desaguar nas feridas por sarar. Cicatrizes por curar. Estigmas. Dentro e fora do SMO. Mas já fiz o último exorcismo, a última catarse em 2019 e esperava, finalmente, ser livre, se bem que envelhecido, a partir daí. Com cicatrizes mas sem estigmas, apenas lembranças, focando-me apenas nas boas e varrendo as más que tanto me consumiram.

    E consegui-o até janeiro (2024) quando a minha companheira cúmplice se mudou para outra dimensão deixando-me só neste mundo que não entendo.

    Escravo sim, mas nunca escravizado, disse, em tempos de desabafo, numa das múltiplas tentativas de catarse. Equacionava constantemente o que fizera, onde estivera, como procedera. Tentava descortinar melhores meios de proceder em situações semelhantes. Insistia na minha introspeção insana, mas terapêutica. Quiçá hedonista, destinada apenas a evitar repetir o sofrimento de outras eras.

    Depois de o exército colonial me mandar para a Oceânia, foi o terror do 25 de abril em Timor (onde nunca chegou). Estive quase a ser deportado para Moçambique (com mais uns tantos) por ser progressista à frente do jornal local “A Voz de Timor”…

    Infelizmente, os efémeros Governos Portugueses, no instável período que se seguiu à Revolução de abril, não se opuseram firmemente, como deviam, às ambições da Indonésia. Incapazes de avaliar ou entender as realidades culturais, económicas e políticas de Timor-Leste, limitaram-se a defender só o direito à autodeterminação. Apregoavam que o povo do território deve “escolher o seu destino, sem opor objeções à integração na Indonésia se essa for a sua vontade livremente expressa,” cometendo um erro bem mais trágico do que se podia prever.

    A Indonésia avançou com o plano de anexação, com o apoio da Austrália, a cumplicidade do mundo ocidental e dos EUA em particular, e uma muito ténue oposição de Lisboa. O primeiro passo é a desestabilização do território, para o qual o presidente Suharto dá ‘luz verde’ em outº 1974, na ‘Operasi Komodo’ dos Generais Benny Murdani, Yoga Sugama, e Coronel Sugiyanto que incluía o recrutamento de agentes de Timor-Leste, propaganda falsa pelas Rádio Kupang e Rádio Atambua (na metade indonésia da ilha) disseminada pela agência noticiosa oficial ANTARA e reportagens alarmistas sobre a situação em Timor, além do aliciamento dos líderes políticos de Timor, com promessas e ofertas (mais tarde, pressões) e a radicalização dos partidos locais através de agentes indonésios infiltrados.

    A segunda fase (‘Operasi Komodo’) no começo de 1975, inclui a preparação da invasão quando é já evidente que há uma rejeição quase total timorense do projeto integracionista. O General Benny Murdani é o principal arquiteto da invasão. Em 18 fevº 1975 um simulacro em Lampung, Sumatra, criava o cenário para a operação em Timor, mas o exercício foi um fracasso total e atrasou a invasão.

    O delegado do M.F.A. em Timor, Major Metello parte em visita oficial a Portugal após dois meses de luta acérrima contra o Encarregado do Governo, Níveo Herdade. A situação nos escalões superiores da hierarquia era de confusão e tensão. A cúpula militar viu vários oficiais desterrados para fora de Timor por, alegadamente, terem tomado parte num abortado mini-movimento para depor o Encarregado do Governo. Dentre eles um Tenente-coronel, Capitães, um Juiz do Tribunal e oficiais milicianos, 25 pessoas. Fora enorme esta depuração em tão reduzida comunidade. Eu saí deste lote de deportados após escrever cartas ao Major Melo Antunes, com quem trabalhara anteriormente, a dar-lhe conta da situação que se vivia em Timor. As cartas indicavam que, além das que seriam enviadas pelo correio militar, sujeitas a censura, iria enviar cópias por meios seguros através da Austrália e da Indonésia. Assim fiz ao confiar cópias a “hippies” que faziam de Díli o trampolim para chegarem ao último paraíso na terra, que Bali era então. Essas cartas cheias de descrições sobre tudo o que se passava (e provavelmente não era conhecido em Lisboa), podem ter sido a razão de eu não ter sido incluído naquele grupo, como queria Níveo Herdade, de acordo com documento secreto posteriormente revelado na Comissão de Descolonização.

    O documento da Comissão de Descolonização (que desconheci durante mais de 25 anos), chegou à minha posse já no séc. XXI, e no qual constato que fui, injustamente, vilipendiado pelo Ten-Cor. Níveo Herdade em 27/9/1976 na Comissão de Análise e Esclarecimento do Processo de Descolonização de Timor, da Presidência do Conselho de Ministros (Relatórios da Descolonização de Timor: Relatório da Comissão de Análise e Esclarecimento do Processo de Descolonização de Timor.)

    O material foi-me gentilmente enviado pelo General José Alberto Morais da Silva (1941-2014), ex-chefe do Estado-Maior da Força Aérea. Ligado ao “grupo dos nove”, exerceu o cargo até 9 janº 1977, tendo, no seu mandato, enfrentado o golpe militar do 25 novº 1975. Em 2000, escreveu com o coronel Manuel (Amaro) Bernardo, o livro Timor, abandono e tragédia, ed. Prefácio, no qual usou extratos do meu livro Timor-Leste o dossier secreto 1973-1975.

    O meu 25 de abril descrevi-o então assim (e Ramos Horta confirmou-o no Expresso em dezº 2015):

    Quando a Revolução dos Cravos aconteceu houve quem recebesse a notícia via telefone. Depois, era uma questão de perder tempo na rádio de ondas curtas. Era hora de jantar e eu estava de Oficial (Ajudante) de Dia no Quartel-general. O idoso Oficial de Dia já estava há muito a olhar para o umbigo, depois da sua rodada habitual (vinho “Periquita” ou outro). Toni Belo, operador da Telecom, Rádio Marconi, ligou para o Quartel-General a dizer-me que ia ter uma chamada telefónica uma hora depois. Chamei o condutor de serviço, mandei-o ligar o Jeep e passados minutos estava em Díli, ansiosamente esperando ‘a chamada’. Pressenti tratar-se de algo muito importante. Acordara com a família que só haveria telefonemas em emergências. Há muito que confirmara que toda a correspondência era sujeita a censura prévia e as chamadas telefónicas gravadas. Então, ouvi quase sem acreditar: Era a REVOLUÇÃO. Embora Timor não dispusesse de telex, desde o ano anterior dispunha de contactos radiotelefónicos com o mundo exterior. Sem perder tempo, pedi ao condutor para passar por casa nos apartamentos da SOTA (Largo de Lecidere), onde comunico aos colegas de habitação (o cirurgião Carlos Prata Dias da Costa e o Eng.º Proença de Oliveira, subchefe dos Serviços de Agricultura) o que ouvira. Pedi-lhes o máximo sigilo, ligo o rádio em ondas curtas e regresso ao Q.G. (Quartel-General) onde anoto que nada havia a assinalar da ‘ronda’ pela cidade. Durante o resto da noite, escuto avidamente os noticiários da BBC, Rádio Austrália e uma série de emissoras (ouvi a Rádio Paquistão, pela primeira vez). Na manhã seguinte, o camarada Freitas, que me ia render, pergunta se havia novidades de Portugal. Sem confiar em ninguém, depois do que se passara com a controvérsia no jornal, respondi-lhe: “Nada, que esperavas?” Os dias que se seguem são caóticos, com todos os rumores a circular e um generalizado sentimento de incredulidade pelos acontecimentos. Os dias passam, e o oportunismo camaleónico é avassalador. Do dia para a noite todos são revolucionários e democratas de nascença. A demissão do Governador Aldeia demora. Torna-se necessária depois do discurso em que, de forma obstinada, se opunha ao novo regime político. Começam a tomar vulto os rumores de que o capitão-tenente Leiria Pinto, Comandante da Defesa Naval, é o nomeado pela Junta. Estes boatos confundem muita gente, pois Leiria Pinto era considerado como tendo ideias extremamente conservadoras. Ao mesmo tempo, há quem afirme que o Chefe de Estado-Maior, Major Arnao Metello, sombrio oficial de carreira, é o homem de confiança da Junta de Salvação Nacional. Metello é conhecido pela sua falta de decisão e falta de garra em tudo o que se reportava à ação colonial. A oposição à continuação do coronel Aldeia no poder cresce de dia para dia. Ameaça tornar-se numa bola de neve, com os militares definitivamente divididos entre os progressistas – maioria de oficiais milicianos, furriéis e sargentos – e a velha guarda dos oficiais de carreira.

    Entretanto em Portugal, o povo anda excitado com a liberdade acabada de aprender. Sobem os barómetros da esperança depois de 48 anos de obscurantismo.

    A situação começa a clarificar-se em maio, embora nem todos os decretos aprovados em Lisboa se tornem extensivos a Díli. O regime caiu porque estava tão podre que estava incapacitado de suster qualquer ataque. A celebrada vitória vem estampada em todos os jornais e revistas que chegam a Timor, mas de uma certa forma, parece estar a anos-luz. Depois do 25 de abril, comecei a publicar artigos que o Comando Militar e, em especial o CEM (Chefe do Estado-Maior Arnao Metello) queriam evitar e me mandava chamar quase todas as manhãs no velho Volkswagen do Estado-Maior. Nessa rotina (prolongou-se por bastante tempo e trouxe consequências ao meu serviço militar) lá tinha de explicar porque publicara artigos censurados e considerado material proibido. Uma verdadeira caça ou o jogo do gato e do rato.

    Ramos Horta viu assim o 25 de abril segundo entrevista dada ao Expresso em 28.11.2015:

     

    Por tudo isto o que resta fazer 50 anos depois? Quase tudo, pois já só temos a liberdade de expressão e ruma-se rapidamente para o revivalismo do 24 de abril. Não esqueço sons que associarei sempre ao 25 de abril e podem ouvir em https://youtu.be/XTSnHxB_z6U e relembro as danças dos grupos Timor Furak e Le Ziaval no 26º colóquio na EBI Maia https://youtu.be/P1tZeYgTfgg e no Teatro Ribeiragrandense https://www.sapo.pt/video/trpZJ6Aj1U2sNzVnDJzm

    Ou ainda estes Vídeos da minha memória de Timor

    https://youtu.be/v2-wg8RlVig 10.38 2018

    https://youtu.be/lyuOl7rCsPs?list=PLwjUyRyOUwOKRIA8XUWpVdMb8qRyjwlPB 18.28 2018

    https://youtu.be/07aSPz-KmoQ 6.46 2017

    https://youtu.be/GU_PzsOoMRE 11.08 2017

    https://youtu.be/ccYFO2HL-KY 8.45 2016

    https://youtu.be/fWq_oma1-VA 8.15 2016

    https://youtu.be/jAl9w97nC4c 17.30 2016

    https://youtu.be/BT3T3xoStrw 8.23 2016

    https://youtu.be/pIGOK7gql34 1.47.56 2014

    https://youtu.be/sYG4loijyeo 49.19 2021


    Poemas de abril e de Timor


    soletras autonomia (lomba da maia, abr 2013)

     

    ilhas de névoas e gaze

    de novelões e conteiras

    do verde e do azul

    ó gente de negro basalto

    quem canta a tua gesta?

    terra de maroiços

    cais de rola-pipas

    mar imenso abraseado

    lacerado por vulcões

    ilhas de bardos e músicos

    republicanos presidentes

    poetas, pintores e artistas

    antero, nemésio e natália

    quem te liberta das grilhetas

    do passado feudal

    da escravatura da fé

    do atavismo ancestral?

    soletras autonomia

    gaguejas liberdade

    titubeias emancipação

    com laivos de insubmissão

    como a irmã galiza

    cicias um 25 de abril

    que tarda em chegar


    demo-cracia, /2014

     

    tanto mar, tanto sal

    tanta dor em portugal

     

    primeiro foi-se o império

    depois finou-se a ditadura

    hoje agoniza a democracia

    sujeita à banca e à usura

     

    e neste recanto da ilha do arcanjo

    sonha-se poesia e utopia

    como se ainda houvesse esperança

    ou o político se vestisse de anjo

    por entre crimes e desgovernação

     

    tanto mar, tanto sal

    tanta dor em portugal


    469.II DIA DE ENGANOS

     

    nesse dia acordou irritado

    logo por azar estremunhado

    notaria a seu lado

    a mulher

    morta há dez anos

    os ossos espalhados pela cama

    pressupunham aqui e além um certo descuido

    mas que diabo!

    voltou-se para a janela

    tentando adormecer uma vez mais

    invariavelmente o fazia em dias como aquele

     

    foi então

    atiraram a bola à vidraça

    o quarto ficou estrelado

    mil sóis recortavam-se no ladrilhado

    esforçou-se por manter a calma

    ocultou a face no travesseiro

    agarrou a almofada

    freneticamente

    num esgar sensual

    ao longe tiniam campainhas

    não havia dúvidas

    iria ser um dia mau

    decidiu-se a folhear o matutino

    recusou-se a acreditar

    limpou os óculos

    estava lá

    sem engano possível

    em título de caixa alta

    em editoriais se consagrava

    o sonho supremo da humanidade

    por decreto presidencial

    dum senhor que ninguém elegera

    ia ser promulgada e publicada

    no diário da governação

    com força institucional

    A DEMOCRACIA

    em termos mui solenes

    o governo advertia

    dentro de 24 horas

    em cerimónia apropriada

    nascia a democracia

    e zás! nem quis ligar a televisão

     

    quieto e calado tresleu

    era demais!

    violento choque!

     

    democraticamente

    sem se dar conta

    caiu para o lado com um baque surdo

    morreu na cama

    e em jejum

    democrata de nascença.


    aviso à navegação, 25 abril 2013

     

    aos saudosistas, salazarentos

    e outros democratas

    de geração instantânea

    nascidos após o 25/4/74

     

    25 de abril é uma data que respeito,

    devolveu-me a liberdade de expressão

    que não tinha ao nascer

    nem no primeiro quartel de vida.

     

    sou sonhador, poeta e utópico…

    e só porque homens e mulheres

    traíram e abusaram esse ideal

    não vou deixar de acreditar nele…

    na minha mente e nos meus atos

    será abril sempre


    Enquanto dormias a nova escravatura chegou, nov 2013

     

    nenhum de nós é livre

    enquanto ao teu lado

    houver fome

    miséria

    desemprego

    hoje são os outros

    amanhã serás tu

    passaram 40 anos

     

    nenhum de nós é livre

    enquanto abril não se cumprir


    cheguei a Timor (díli, setº 1973)

     

    timor cresceu cercado de lendas que a distância empolgou

    o sonho e a quietude

    1001 noites do oriente exótico

    o sortilégio dos trópicos

    para o europeu chegar era já desilusão

    desprevenido sobrevoa estéril ilha

    montes e pedras

    agreste paisagem sulcada

    leitos secos abruptas escarpas

    terra sem marca de homem

    esparsas cabanas de colmo

    será isto timor?

    o avião desce o vazio em círculos

    em vão os olhos buscam a pista

    por trás de um montículo imprevisto

    se vislumbra o “T

    a torre de controlo dos folhetos de propaganda

    nunca existiu assim

    a alfândega é o bar e sala de espera

    sob o zinco e o colmo

    isto é baucau

    aeroporto internacional

    a vila salazar dos compêndios

    que a história esqueceu

    uma turba estranha se amontoa

    à chegada do cacatua-bote[1]

    o patas-de-aço

    esta a cerimónia sagrada do deus estrangeiro

    descendo dos céus

    dia de festa para os trajes multicoloridos

    o contraste do castanho de sóis pigmentados

    cinco da matina e é já o pó e o calor

    o espanto mudo nas bocas incrédulas

    as formalidades aqui com sabor novo

    espera lenta e compassada

    séculos de futuro por viver

    antes que venha

    antes não venha

    num barracão zincado

    uma velha bedford de carga com caixa fechada

    vidros de plástico sob o toldo puído

    pomposo dístico colonial

    carreira pública baucau-díli

    picada em terreno plano, mar ao fundo

    baucau, cidade menina

    por entre palmares densa vegetação tropical

    connosco se cruzam estranhos homens de lipa[2]

    galo de combate ao colo

    entre torsos e braços nus

    das ruínas do mercado se evocam

    desconhecidos templos romanos

    estrada nº 1 até díli

    sulcam-se abruptas as encostas

    ao mar sobranceiras

    e adivinham cristais multicolores

    em lugar de pontes se atravessam ribeiras enormes

    leitos secos convertidos em estradas de ocasião

    pedregoso solo

    cores indefinidas,

    castanhos e verdes

    palapas [3] dissimuladas na paisagem

    imagens tristes de pedras e montes

    baías primitivas e inconquistas

    praias de despojos e conchas

    paraísos insuspeitos

    gentes de sorrisos vermelhos

    assusto-me

    não é sangue nas bocas gengivadas

    masca, mescla de cal viva e harecan[4]

    placebo psicológico da alimentação que falta

    um sorriso encarnado esconde a fome

    súbito, por paisagens que só a memória

    sem palavras descreverá

    eis díli, a capital

    larguíssima avenida semeando o pó nas palapas

    casas de pedra com telhados de zinco

    na ponta leste chinas e timores

    a promiscuidade da pobreza

    díli, plana e longa

    a vasta baía antevendo imponente

    o ataúro ilha

    um porto incipiente

    construções coloniais pós 1945

    da guerra que ninguém quis

    dos mortos que os japoneses quiseram

    da neutralidade do país mãe

    calado e violado

    a marginal desagua no farol

    alberga chefes de serviço

    altas patentes militares

    sem guerras para lutar

    sem movimentos libertadores das gentes

    quinze quilómetros de asfalto

    três casas dantes da guerra grande

    aeródromo em terra batida

    um jipe de afugenta búfalo

    a rua comercial atravessa díli senhora

    de leste a oeste

    espinha dorsal

    o centro, o palácio das repartições, o do governo

    perto um museu cujo nome ostenta o vazio

    riquezas exportadas por patriotas governadores

    colonizadores de séculos com nada para mostrar

    dois sinaleiros nas horas de ponta

    mandriões às portas dos cafés

    – o ócio é o melhor emprego –

    à noite transfiguram-se

    os bas-fond, o texas bar,

    da prostituição às slot machines

    o submundo, a vida underground

    afogar esperanças em álcool

    sonhos há muito perdidos nunca sonhados

    parcos restaurantes melhor comida a chinesa

    bares espalhados pela cidade

    militares e álcool para calar distâncias

    longínquo um portugal dos pequeninos

    cada vez mais esquecido nunca perdido

    1973 numa cidade sem vida

    morrendo nas cinzas próprias de cada noite

    no silêncio a voz triste dos tokés[5]

    o calor putrefacto entre o voo alado das baratas gigantes

    carros poucos, de dia só do estado

    motocicletas pululam por entre viaturas oficialmente pretas e verdes

    esperando mulheres de oficiais

    às portas dos cabeleireiros e do liceu

    militares a pé em berliets ou unimogs

    chineses muitos

    díli é isto, a desolação

    na parte alta o complexo militar

    barracas insalubres sob a sombra dos hospitais

    um civil um militar em fresco e verdejante vale

    triste esta cidade pretensamente euro-africana

    palapas marginando ruas

    nelas vive o Timor sem água nem luz

    dez ou quinze filhos que importa

    a miséria é só uma e a mesma?

    (josué de castro, o ciclo do caranguejo)

    esta “a terra que o sol em nascendo vê primeiro”

    aqui as imagens e são já história

    não se repetirão

    aqui não daremos testemunho

    como transfigurar colónias pacíficas

    em palcos de guerra

     


    memórias. (díli, abril 1975)

     

    ave louca

    sinusoide voo

    rias-te

    nem sabias de quê

    era já o fumo

    olhos e mãos, baça voz

    gestos nunca antes inventados

    sabíamos do tempo

    a imponderabilidade

    a curva obscena dos corpos

    na posse do mundo

    estávamos e éramos

    coloridos e diáfanos

    queimávamos identidades

    alguém cantarolava

    palavras

    desconexas

    inúteis

    carícias

    premeditadamente esquecidas

    ela se levantou

    e a víamos como se não fosse

    isto é

    criada no instante mesmo

    hesitante

    avançando pela janela

    ninguém a abrira

    seria talvez noite

    transcendental o país

    bebedeiras de amor

    roteiros estelares

    no suor do regresso

    como se nunca partiras

    no sorriso distante, nos teus lábios

    cresceram da criança os olhos

    encheu-se a sala

    frágeis gestos

    alguém ousara!

    na rua um escape

    no silêncio do grito

    a regra é saber que horas são

    ou o medo

    a vertigem

    a regra do pavor

    o voo de ficar

    céleres que nem imagens

    falam de nós

    no teto branco nu

    ou somos

    desirmanados

    no frémito que nos invade

    a resposta recusada

    texto ou resumo

    a vida violada.


    eleições sem lições em timor, 2012

     

    dili 23 setembro 1973

    cheguei hoje a timor português

    a vinda marcará a minha vida para sempre

    sem o saber nunca mais nada será igual

     

    o futuro começa hoje e aqui

    entrei no tempo da ditadura

    sairei na democracia adiada

     

    na bagagem guardo sabores,

    imagens e odores

    sonhos de pátria e amores

    divórcios e outras dores

     

    cheguei sem bandeiras nem causas

    parti rebelde revolucionário

    tinha uma voz e usei-a

    tinha pena e escrevi sem parar

    pari mais livros que filhos

    para bi-beres e mauberes

     

    48 anos de longo inverno da ditadura

    24 de luta independentista

    agora que a lois vai cheia

    e não se passa na seissal

    já maromác se apaziguou

    crescem os lafaek no areal

    perdida a riqueza do ai-tassi

    gorada a saga do café

    resta o ouro negro

    para encher bolsos corruptos

    sem matar a fome ao timor

     

    perdido nas montanhas

    sem luz, água ou telefone

    repetindo gestos seculares

    mascando sempre mascando

    o placebo de cal e harecan

    mas com direito a voto

    para escolher quem o vai explorar

    sob a capa diáfana da lei e ordem

    do cristianismo animista

     

    oprimido sim mas enfim livre.


    1. aviso à navegação, 25 abril 2013

     

    aos saudosistas, salazarentos

    e outros democratas

    de geração instantânea

    nascidos após o 25/4/74

     

    25 de abril é uma data que respeito,

    devolveu-me a liberdade de expressão

    que não tinha ao nascer

    nem no primeiro quartel de vida.

     

    sou sonhador, poeta e utópico…

    e só porque homens e mulheres

    traíram e abusaram esse ideal

    não vou deixar de acreditar nele…

    na minha mente e nos meus atos

    será abril sempre


    25 abril sempre, até quando, lomba da maia, 25.4.18

     

    a mulher doente

    hoje não cumprirei a tradição

    nos moinhos de porto formoso

    não erguerei o meu cravo vermelho

    pelo abril que imaginei

     

    a saúde de ambos necessita terapia

    não há medicina para estas maleitas

     

    há 44 anos que acredito

    sem arrependimentos

    hoje incréu interrogo

    quem matou os sonhos antigos

     

    para mim será abril sempre

    na mente e nos desejos

    da liberdade, igualdade, fraternidade

     

    falta nascer o homem novo

    a sociedade nova

    o mundo remoçado

    que dê vida a este desiderato

     

    espero o renascer das utopias

    neste outono de vida

     

    um 25 de abril sempre

    mas com poesia


    timor nas alturas /2012

     

    queria subir ao tatamailau

    pairar sobre as nuvens

    das guerras, do ódio, das tribos

    falar a língua franca

    para todos os timores

     

    queria subir ao matebian

    ouvir o choro dos mortos

    carpir os heróis esquecidos

     

    queria subir ao cailaco e ao railaco

    consolar as vítimas de liquiçá

    beber o café de ermera

    reconstruir o picadeiro em bobonaro

    tomar banho no marobo

    ir à missa no suai

    buscar as joias da rainha de covalima

    passar a fronteira e voltar

    chorar todos os conhecidos e os outros

    e quando as lágrimas secassem

    regressaria à minha palapa imaginária

    à mulher mais que inventada

    oferecer-lhe um pente de moedas de prata

    percorrer as suas ribeiras e vales

    sussurrar por entre as folhas do arvoredo

    navegar nos seus beiros

    rumar ao ataúro e ao jaco

    desfrutar a paz e as belezas ancestrais

    ouvir os tokés enquanto as baratas aladas voam

    os insetos projetados contra as janelas

    atraídos pela luz do petromax

     

     

    a infância e a juventude são como uma bebedeira

    todos se lembram menos tu


    para que não digam, 25 setº 1974

    ao dr buceta martins, fascista dos antigos

    na direita o fáscio, na esquerda o chicote

    o sorriso no gatilho, mártir da democracia)

     

    para que não digam

    a mordaça acabou

    a voz é livre

    o futuro é novo

    pintaremos o silêncio

    que nos impõem

    calaremos os sonhos

    dos jornais que lemos.

    sabemos nossa a vitória final ou talvez não

    cântico da luta a palavra ressuscitada

    aqui Timor aqui díli

    o fáscio perene fidedigno

    insuspeito nos bastidores

    da obsoleta ordem nova

    este mundo sem denúncia

    porque o medo

    sem progresso

    porque o interesse

    sem abril

    porque os cravos murcham

    nas estrelas da rosa-cruz

    o trabalho é um dever divino

    de obediência

    perdida no espaço

    já que tempo nunca teve

    esta a terra dos parasitas

    inaptos

    corruptos

    exilados das grandes batalhas

    aqui o poder discricionário

    o absentismo forçado

    a passiva repressão

    uma-a-uma todas as vozes silenciadas

    o charco estagnou

    idólatras do verde rubro

    simbolistas de fé nenhuma

    tiranos cujos ecos nos perseguem

    mijai-vos de indignação

    babai-vos de orgulho insalubre

    a grande farsa acabará um dia

    sem a razão

    única e arbitrária

    sufocados pelos gritos de piedade

    afundar-vos-emos na merda que vos sustenta

    e alimenta

    vingar-nos-emos com o riso aberto sem incriminações

    aqui Timor aqui díli a voz colonial da oceânia.


    prazeres sem orgasmo (díli, abril 25, 1974)

     

    pragmática palavra o som primeiro

    hierático sorriso impresso

    das crianças suburbanas subalterna vida

    nas ruínas de lata o bairro

    obscura idade do gesto habitante incómodo

    ódios ignotos do ócio

    ilhas à deriva plasmando a cidade

    cerca da fome a fadiga desnuda

    dos olhos a sombra

    • este o uterino vértice – ex/ato

    heréticas noites de silêncio ex/voto

    ignaras letras excitadas o infólio

    tamanho normal de povo no estertor

    • É URGENTE REINVENTAR A CURVATURA OBSCENA DA GRAVIDEZ

    PREENCHER DE FORMAS O VAZIO CORPO (DES)ESPERADO –

    a mulher vulgar objeto

    a televisiva fonia de anestesiar

    amorfa consciência o pesadelo

    cercearam irredutível ascensão

    o plano antigo inclinado em queda abrupta

    h2 = a2+b2 a razão inversa

    do quadrado da hipotenusa a concêntrica marcha

    relógio imperfeito da geração perdida

    ao limiar do ser o haver

    cerco do universal enfado indizíveis cansaços

    • tranquidolente marasmo mais um dia

    na nudez proverbial deste povo

    construtor ingénuo

    de prazeres sem orgasmo ou de orgasmo sem prazer?


    a nau sem escorbuto / 2011

     

    arribou nesta praia deserta

    a nau sem escorbuto

    sem mastro nem pendão

    sem carga nem marinhagem

    sem especiarias do oriente

    nem arroz do sião ou malaca

    sem pérolas de ormuz

    nem diamantes da índia

    sem cavalos das arábias

    nem marfim das áfricas

    fôra de cochim a meca

    de ternate a timor

    sem compradores

    nem lusitanos feitores

     

    nesta açoriana praia deserta

    longe do mar eritreu

    há mouros e judeus conversos

    cristãos por batizar

     

    os senhores dos açores

    ocupam lugares de proa

    a barlavento das gentes

    não vieram de calecute

    nem estiveram em cipango

    não cuidam da pimenta do reino

    da noz-moscada, do cravo-da-índia

    do açafrão, anis, gengibre e canela

    não foram a banda, ceilão ou malucas

     

    os senhores dos açores,

    que não é terra de gentios

    chamam-lhe sua e de mais ninguém

    como samorim a regem

    feitos marajás em palácios

    ofertam bugigangas aos nativos

    promessas vãs e eleitorais

     

    sentado na ameia

    frente à seteira

    em castelo sem pendão

    envio migas de letras

    a todos sem literário pão

    crónicas avulsas de vidas vividas

    pecados sem perdão

     

    e o povo sem saber da fome

    do frio que aí vem

    das vacas que se foram

    do leite que não mungiram

    dos campos que não araram

    das colheitas que não comeram

    feliz vota nos que prometem

    sempre a mesma solução

     

    lá fora há guerras sem pátrias

    mutilados e estropiados

    cá já temos sem-abrigo

    drogaditos e malfeitores

    assaltantes, meliantes

    económicos dissabores

    da troica que tudo leva

    e cobra dívidas que herdamos

    de tantos ditos senhores

     

    não há santos que nos valham

    nem procissões e andores

    preces e velas acesas

    romeiros de todas as dores

    somos um povo infeliz e abúlico

    sem sonhos nem destemores

    vergados ao duro peso

    de vis especuladores

     

    da história magnânima nem sombras restam

    nem bardos nem cantores

    nem escribas dedicados

     

    o povo sofrendo medos

    erros grosseiros

    enganos ledos

    sem naus nem caravelas

    sem espadas nem aduelas

    sem especiarias nem língua franca

    cantando fados a tétis com paixão

    com futebol e telenovelas

    e fé sem outra afeição

     

    o povo escravo de novo

    sofre consternado

    às dívidas acorrentado

    à mingua de dízimos e outros enfados

    sem contar os créditos mal parados

    come demagogia e paga iliteracia

    santa liberdade e democracia

    chora lágrimas de crocodilo

    lendo jornais desportivos

    com as letras aprendidas

    nas novas oportunidades

     

    o povo sofrendo fomes e enfermidades

    vendia os anéis e comia os dedos

    emigrava quando podia

    queixava-se da sorte caipora

    temia do governo as novidades

     

    a geração rasca a parva passara

    timidamente na crise despontara

    bancos enriqueciam na austeridade

    à custa da plebe e do suor já suado

    de brandos costumes acostumado

    não descera às ruas este povo

    faltava-lhe força e inteligência

    nem era gleba de novo

    antes novos ricos da indigência

     

    ancorada a nau fmi de novos reis

    em terra de pagãos e infiéis

    não daria berloques aos nativos

    apenas a chibata e o chicote

    as grilhetas de trabalhos cativos

    sem abrigo nem culote

     

    e um poeta solitário

    no alto do seu castelo

    gritava a bom gritar

    mas não o ouviam as massas

    sem perder tempo para se educar

    e acreditavam nos seus donos

    compradores de votos

    com promessas a acenar

     

    o jardim à beira-mar plantado

    há muito inculto e estiolado

    ia fenecendo devagar

    sem gente para o cuidar

     

    e dos vindouros muitos virão

    dizer que o poeta pressagiava

    o fim desta bela nação.


    fados e sambas (lomba da maia, abr 2013)

     

    ser ilhéu é um fado triste

    entoado como um samba alegre

    cantigas ao desafio

    cantorias desgarradas

     

    os corpos e as palavras

    pintam realidades inesperadas

    todos ficam todos partem

    em dia de são vapor

    tão longe sempre perto

    em calafonas e canadás

     

    ser ilhéu é um fado triste

    entoado como um samba alegre

    manta remendada de nove cores

    tapete voador da saudade

    sementes da memória

    nas paredes do tempo

    rasgando o silêncio

    mundos mágicos sem chave

     

    e eu ilhéu de abril

    filho de muitas ilhas

    choro este fado


    autonomias nominais /2013

    “para saberes quem te governa descobre quem não podes criticar”

    voltaire

     

    hoje acordei sem voz

    sem mãos,

    sem pés

    sem coração.

     

    habito nove ilhas de mil cores

    arquipélago de mil autores

    num fiasco de autonomia

    pobreza sem alegria

     

    na independência poucos confiam

    em busca de subvenções porfiam

    melhor é ficar mudo e quedo

    viver dos subsídios esmoleres

    submissos e acomodados

    pobres despreocupados

    servos enfeudados

    ingénuos explorados

    na eterna espera de godot

    de um mandela que não nasceu

     

    assim se explicam os açores

    ilhas de mil e uma dores


    à Galiza (moinhos, agosto 2013)

     

    imagino a galiza

    de cravo e bandeira na mão

    gritando a plenos pulmões

    que a liberdade é merecida

    que a rua é dos poetas

    que o 25 de abril não é de todos

    mas será sempre para todos

    mesmo para aqueles que o negam

    imagino a galiza

    de manifesto e megafone na mão

    declamando a poesia da alforria

    das conquistas irreversíveis

    quando os esbirros vierem

    feitos controladores do pensar

    sei que ela estará lá

    e abrirá o peito às balas

    e o sangue que jorrar

    será poema e arma

    e o corpo desvanecido

    será escudo e estandarte

    para que a liberdade não morra

    nem haja estertor do povo

    com ela será 25 de abril sempre

    que ninguém nos cala

    e a voz dos poetas

    troa mais que a da bala


    475. NASCEM OS DIAS

     

    suburbanamente vives

     

    renasces quotidianamente

     

    no sol que te alimenta

     

    te transporta

     

    hábitos comprimidos no sono

     

    cheiras a cama

     

    correndo te perdes

     

    te cansas

     

    nascem os dias na cidade

     

    em cada rua

     

    esquina

     

    no matraquear lento dos minutos

     

    nos acotovelámos vorazes

     

    por entre a sandes e o copo de leite

     

    a grande corrida no relógio das veias

     

    e já somos o rebanho

     

    e o cansaço

     

    triturados no suor do trabalho

     

    na lufa do jantar

     

    um marido às prestações

     

    os filhos endormentes

     

    a televisão deserta

     

    o sono

     

    cansados os corpos

     

    desconhecidos repousam

     

    até um dia

     

    amor

     

    e chamar-se-à liberdade

     

    nos dormitórios da cidade

     

    o silêncio nos embala

     

    sem voz que se erga

     

    nos sonhos

     

    que nos proíbem

     

    sem que a desfraldemos

     

    no edifício dos corpos

     

    a alegria das bandeiras

     

    neste país dos cravos

     

    as lágrimas vermelhas do seu sangue.


    outro epitáfio 25.6.2022

     

    ser velho é isto

    olhar para a parede que já foi branca

    contar os traços quase a atingir 26645

    já pouco espaço resta para mais traços

    cada um deles um dia

    uma alegria mil tristezas

    sonhos que se esfumaram

    sonhos nunca sonhados

    que se concretizaram

    sonhos recorrentes

    nunca atingidos

    subidas aos sete céus

    descidas a mil infernos

    a certeza inabalável

    de ter feito a diferença

    no carneirismo cinzento

    a ovelha negra

    no meio do rebanho

    sem medo

    dos cães pastores

    de seus dentes ameaçadores

    sem temor da chibata do pastor

    e para epitáfio

    um “smile” gigantesco

    de desdém, de zombaria

     

    [1] Cacatua-bote ou patas-de-aço designações dos timorenses aos aviões

    [2] Lipa, saia de tecido colorido, típica, de origem malaia, os timorenses usam-na enrolada à cintura descendo até aos tornozelos.

    [3] Casas cónicas, quadradas ou retangulares em colmo

    [4] Folha de planta semelhante à do tabaco

    [5] Espécie de lagarto sonoro, cuja idade se determinava pelo número de vezes que emitia o som toké.

  • ‘O 25 de Abril nunca aconteceu’: como seria se ainda vivêssemos no Estado Novo

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    Peça de teatro da Palmilha Dentada é uma distopia-homenagem. Encenador Ricardo Alves pensou muito nos jovens ao escrever o guião.

    Source: ‘O 25 de Abril nunca aconteceu’: como seria se ainda vivêssemos no Estado Novo

  • ANÍBAL PIRES E O 25 de abril

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    ·
    Terça-feira, 16 de abril, pelas 20h30, no Museu Municipal das Lajes das Flores haverá palestra sobre os 50 anos do 25 de Abril, apresentação do livro de poesia “Destroços à Deriva” de Aníbal Pires, momento musical, declamação de poemas e Porto de Honra. Aparece!
    Vera Santos

  • Após acusações e 9 meses depois, Marcelo divulga condecoração de Spínola

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    Presidente da República condecorou 219 militares que participaram no 25 de Abril entre fevereiro de 2021 e julho de 2023.

    Source: Após acusações e 9 meses depois, Marcelo divulga condecoração de Spínola

  • abril? nada mudou desde 2013 a não ser para pior…

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    Enquanto dormias a nova escravatura chegou, nov 2013

     

    nenhum de nós é livre

    enquanto ao teu lado

    houver fome

    miséria

    desemprego

    hoje são os outros

    amanhã serás tu

    passaram 40 anos

     

    nenhum de nós é livre

    enquanto abril não se cumprir

  • poema de abril 1974

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    https://blog.lusofonias.net/wp-content/uploads/2024/04/poema-abril-1974.pdf