CRÓNICA DO QUOTIDIANO INÚTIL vols 1-6 (50 ANOS DE POESIA”ÁLAMO  OLIVEIRA PREFACIOU E EDUÍNO DE JESUS COMENTOU

CINQUENTA ANOS DE POESIA VOLUMES 1 A 6 DE CRÓNICA DO QUOTIDIANO INÚTIL

 

VENDA EM LETRAS LAVADAS, FNAC, WOOK, ETC..

 

ÁLAMO OLIVEIRA PREFACIOU A OBRA

 

(…) é urgente descobrir um poeta.

Repito

É indispensável um só!

Para Ministro das Finanças.

 

  1. Chrystello

 

Se a Poesia pudesse entrar no mercado de valores, ela estava, com certeza, mais cara. E estaria mais cara, porque, nomeadamente, se veste de uma energia capaz de converter pecadores da Palavra, ou, se se preferir, ela quiser medir forças com os malefícios discursivos, onde tudo pode acontecer, mesmo o menos respeitável. Chrys Chrystello quer – e muito bem – que os poemas, escritos de há cinquenta anos a esta parte, possam garantir motivos de festa, mesmo que essa festa seja programada para dizer ao Mundo que a Poesia não é máscara para covid e, muito menos, cemitério de «quotidianos inúteis». Uma coisa é certa: Chrystello bem pode dizer que a sua Poesia tem o seu quanto de canino, mas, o que tem para dizer diz sem mais demoras.

Durante cinquenta anos tudo aconteceu e de tudo Chrystello deu conta. Ele expressa-se através de uma inquietação, que até pode parecer prosaica, mas que, ideologicamente, é profunda. A sua Poesia não é gratuita e, parecendo querer percorrer espaços pequenos, eis que a grandeza, banalizada pela injustiça, pela guerra, pela fome e pela falta dos saberes suficientes para resolver esse «quotidiano inútil», transparece como vontade no espelho da vida. Tudo o que pode acontecer numa guerra, ele denuncia como quem despe o denominado «cadáver adiado», denunciando barricadas, recolher obrigatório, fronteiras francas, o que provoca uma relação penosa com o Poder, através da corrupção das palavras. Nunca como agora as palavras adiam as mentiras, seguindo o velho ditado que a mentira dita convictamente e muita vez, passa a ser uma verdade indesmentível. É o Poeta que afirma: «Não vos vou dizer que (os homens) eram fortes como certezas.»

Vem a surpresa da Poesia de Chrys Chrystello dar a entender que se está perante uma escrita situada e sitiada. eivada de partidas e de chegadas, pois a tanto o obriga o desassossego geográfico de uma vida que nunca aceitou a monotonia do tempo e do lugar e sempre quis captar, mesmo que de forma cronicada, o rosto possível dos habitantes e o que lhes abria as portas para o resto do Mundo, apesar das suas paisagens virem quase sempre tocadas por colorações bélicas. Neste viajar irrequieto, o Poeta procura, no interior das comunidades que vai convivendo, adaptar-se ao léxico de cada lugar e que, obviamente, se deixa temperar pela Língua portuguesa.

Porém, são as condições político-sociais dos povos o tema que mais sensibiliza o Poeta de Crónica do Quotidiano Inútil. Transforma-se em poeta militante; desenvolve uma estratégia armada com a poesia de combate; é um amante à procura da pátria estabelecendo as suas próprias fronteiras afetivas. Os afetos dão-lhe essa espécie de força erótica, embora o seu coração permaneça em Díli – lugar onde «os sentimentos não são fraldas descartáveis, nem piedosas senhoras tricotantes». Afinal, «é preciso levantar o amor.»

A Poesia de Chrystello não se fica por aqui. Para lá deste encontro muito intencional com o pulsar dos seus afetos, há que referir que o poeta não esconde a militância política de rosto descarado, quase deslírica porque também sarcástica. Apunhala, de seguida, o leitor com «só se é rio uma vez (na vida).» É um trabalho de escrita violento, mas objetivo, com manuseado e cuidado de escrita, de forma a obter um desenho vocabular que atrai o leitor.

Ao falar-se da Poesia de Chrystello, não se pode deixar de lembrar Eduardo Lourenço que tem pelo neorrealismo português, «uma realidade literária (que) nasceu após a sua teorização, como vestimenta de uma ideologia cuja força histórica, sugestão e potencial universalidade, a exigiam.» E acrescenta: o «neorrealismo português decorrerá desta singular relação entre teoria ideológica e prática literária, (…)» Entende-se assim que a Poesia de Chrys é esta relação «sofrida entre os factos e os lugares», sendo de ajuizar o que é dito de forma crua e sentida. Por isso, «é urgente descobrir um poeta/ Repito/ É indispensável um só!/ Para Ministro das Finanças.»

 

Cinquenta anos de Poesia é uma vida de palavras sustentadas com a coragem dos versos que dão importância ao quotidiano. É uma apreciação redutora, mas que facilita a própria leitura. Não foi inútil. Não houve, não há tempo para rasurar a fórmula do discurso. Talvez seja abusivo falar aqui de neorrealismo, uma vez que a Poesia saltou de versos a verso como se o Mundo estivesse todo por fazer. Ou estivesse feito demais. O novo-realismo tem destes erros de espelhos. O que é «inútil» é a deformação das palavras apodrecidas.

 

Álamo Oliveira

Raminho, 5 de maio de 2022

 

 

EDUÍNO DE JESUS SOBRE CRÓNICA DO QUOTIDIANO INÚTIL VOLS 1-6

Uma Poesia do real e da análise como meditara Cesário, mas noutra clave, em que a palavra, o texto, a estrutura circular do sentido – o real e a análise – , tudo isso se desintegra, estilhaça em vários fragmentos de forma e de sentido que é preciso reconjuntar para atingir o Poético e o Sentido. Tal, se bem a entendo, a Poesia nesta Crónica do Quotidiano Inútil, em que Chrys Chrystello a e se exprime.

Eduíno de Jesus

maio 2022

 

 

 

 

alexandre o´neill

♪ ♫ ♫ ♪ … ♫
(…)
Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p’la manhã?
(…)
Alexandre O’Neill, in “No Reino da Dinamarca”
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  • Albino Matos

    Para a frente, para cima,
    Despontam, alegres, os teus seios.
    Vitoriosos já,
    Mas não ainda triunfais…