DEZ PALAVRAS PORTUGUESAS DE ORIGEM PERSA

DEZ PALAVRAS PORTUGUESAS DE ORIGEM PERSA
Na semana do Dia de Reis, fui procurar palavras que o português recebeu da língua persa. Aqui ficam dez exemplos, de «açúcar» a «mago».
Marco Neves (3/01/2023)
Foto – Mehrshad Rajabi em Unsplash
Os Três Reis Magos são figuras que a tradição foi construindo a partir de uma descrição, na origem, muito sucinta — os relatos bíblicos não nos dizem que eram três e nem sequer dizem, na verdade, que eram reis. As histórias são assim, começam num sopro e acabam em intrincados relatos transmitidos de geração em geração.
Pelos séculos fora, houve quem dissesse que os Reis Magos vinham da Pérsia — noutras versões, só era persa o rei a que chamamos Melchior.
De uma maneira ou de outra, neste Dia de Reis, lembrei-me de olhar para a língua persa e procurar alguns dos presentes que deu à nossa língua.
1. Açúcar
Não é mirra, nem ouro e muito menos incenso, mas faz parte do Natal, de tal maneira que as balanças de Janeiro têm de aguentar uns quilos a mais.
A palavra entrou nas línguas europeias a partir do árabe «as-sukkar», por duas vias: a via italiana, que levou a palavra até ao francês e ao inglês (entre outras), e a via ibérica, que nos deu a nossa palavrinha «açúcar».
Ora, os árabes também já tinham ido buscar esta doce palavra ao persa, onde era «šakar». Como estas histórias parecem não ter fim, diga-se que a palavra persa tem uma origem mais remota: o sânscrito «śárkarā».
2. Laranja
Há mais alimentos com nomes de origem persa, que fizeram o mesmo caminho até ao português: «laranja», por exemplo, veio da «nārang» persa, passando pelo árabe (e, tal como no caso do açúcar, também já tinha vindo do sânscrito).
Também o «limão» veio do árabe «laymūn», que tinha vindo do persa «limu».
3. Pato
O pato fez o mesmo caminho: do «bat» persa, passou ao «baṭṭ» árabe, que na nossa península se transformou no «pato».
Todas estas palavras que passam pelo árabe fazem um caminho peculiar: o persa é uma língua indo-europeia; empresta palavras a uma língua de outra família, o árabe, que depois as devolve a idiomas da mesma família da origem. Ou seja, o árabe é como o amigo que anda a transportar prendas entre irmãos que vivem longe uns dos outros. Neste caso, as prendas são palavras.
4. Xadrez
Uma das prendas do meu filho, este Natal, foi um tabuleiro de xadrez. A palavra começou no sânscrito, de onde passou ao persa, onde se dizia «šatrang», que a emprestou ao árabe, na forma «aš-šaṭranj», que a ofereceu às línguas ibéricas, acabando no nosso «xadrez».
Estas transformações profundas das palavras, ao saltar de língua, mostram como a viagem se faz de muitas conversas, onde as palavras são ouvidas e, depois, repetidas com os sons da nova língua — e ainda mastigadas pelas gerações. É um jogo do telefone pela história fora.
As palavras que aqui vemos acompanham o que representam. Imaginemos um jogo de xadrez na antiga Andaluzia, entre um viajante do Oriente, que conhece as regras, e um moçárabe, que tenta repetir a palavra o melhor que pode aos amigos, já com os sons da sua língua latina. O jogo fica — e a palavra também.
5. Cheque
Já que falamos de xadrez, diga-se que «xeque» e «xeque-mate» também são de origem persa — e, por acaso, «cheque» (de dinheiro) também.
Tal como «xeque», a palavra financeira tem origem no nome da peça do rei no xadrez, num caminho que inclui o latim, o francês e o inglês, o que explica por que razão, neste caso, a palavra começa com outra letra. Aliás, no princípio de «cheque» vemos o eco da palavra persa para rei, «šâh», que todos conhecemos quando nos lembramos do Xá da Pérsia.
Como é que de rei chegámos a cheque (documento)?
Há caminhos sinuosos nestas viagens. O inglês foi buscar «check» à palavra do francês antigo para xeque do xadrez («eschec», palavra que viera do latim, que a fora buscar ao persa). O inglês deu-lhe um significado mais genérico, relacionado com «verificação», por ser o momento em que, no xadrez, é preciso verificar a posição do rei.
Além do nome «check» (verificação) e do verbo «to check» (verificar), a palavra acabou por dar nome ao documento que permite verificar a legalidade e a quantia de uma transacção — com este significado mais preciso, a palavra tem duas formas em inglês: «check» e «cheque». O novo vocábulo acabou por se espalhar por outras línguas, incluindo o francês (de onde viera) e o nosso português.
6. Pijama
Uma outra prenda que algumas crianças terão encontrado na noite de Natal terá sido um pijama.
Esta palavra percorreu um caminho um pouco diferente: começou no persa «pāy-jāma», que significava «roupa para as pernas», e passou para o hindi e urdu com a mesma forma.
Na Índia, os europeus (portugueses e ingleses entre eles) encontraram este tipo de roupa nocturna e começaram a usá-la, aproveitando o nome.
Com o tempo, os ingleses trouxeram a palavra até à Europa. O inglês «pyjama» acabou por se espalhar pelas outras línguas — até chegar ao português.
7. Azul
Esta palavra tem origem no nome da pedra «lápis-lazúli», que já se minerava nas montanhas do Afeganistão há quase 10 000 anos.
O nome persa da pedra passou ao árabe, que o trouxe na forma «lāzuward» até à Península Ibérica.
Esta palavra acabou por dar origem ao «azul» com que, em várias línguas ibéricas, nos referimos à cor daquela rocha.
8. -stão
Até partes de palavras têm origem persa, como o «-stão» que termina o nome de vários países: «Afeganistão», «Tajiquistão», «Cazaquistão», entre outros. O sufixo também é útil para criar países imaginários…
Todas as línguas recebem e oferecem palavras a outros idiomas. No entanto, há línguas que são especialmente generosas, como o grego, o latim e o árabe. O persa é outra dessas línguas: ofereceu, ao longo dos séculos, palavras a várias línguas das redondezas, pela força do seu prestígio e do seu uso na literatura e na ciência.
9. Magia
A palavra «magia» veio do latim «magia», aonde tinha chegado vinda do grego «μαγεία» — que significa «a arte do mago».
Ora, a palavra grega para «mago» veio de onde? Do antigo persa…
10. Mago
Chegados à palavra «mago», aproveito para desejar não só um feliz Dia de Reis, como um excelente 2023. Foi esta a minha prenda: dez pequenas viagens pela história das nossas palavras.
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Eunice Brito and 97 others
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  • Orquídea Rosa Albergaria

    Que bela lição de português! A interacção entre as línguas é fascinante! Bom 2023!
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    • 1 h
  • Carlos Esperança

    Interessante. A rica cultura persa entrou em declínio com a islamização.
  • Odete Silva

    Desconhecia. Obrigada por partilhar, um bom Ano Novo.
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    • 3 m
  • Adolfo Jacob

    Bacana, essa matéria sobre palavras persas que entraram no nosso idioma Português pelos Árabes. A Pérsia ou Irã (terra dos Arios)sempre foi uma grande e opulenta nação, que deu grandes contribuições à humanidade também nas ciências, inclusive na Matem…

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  • Carlos Baptista

    Estive no Irão há um par de anos, e nunca podes dizer-lhes, por exemplo, que são árabes ou iranianos ou que falam árabe, mas sim persa. Quase ficam ofendidos.
    Ofereceram -me um poema persa emblemático que e notável ( tradução portuguesa)
  • Conceição Cardoso

    Não é em vão que te elegi meu “AMIGO ESPECIAL” e intuitivamente me ocorreu agora o designar-te assim, embora o sinta desde que te conheço e veio a mim feedback de ti, e em que me deslumbrei quando nos cruzámos naquela esquina da Elias Garcia com a da…

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  • Fatima Castro

    Bom dia. Obrigada pelas 10 histórias de “açúcar” a “mago”, sempre magnificas como nos tem vindo a habituar, cada vez de forma mais mágica. Bom dia de Reis para si e para os seus.
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    • 1 h
  • Laurentino Medina

    Bom Ano Novo
    Carlos Fino!

PALAVRAS EM DESUSO

estou mesmo cotapois nos meus escvritos ainda uso esta riqueza de palavras que dizem que estão em desuso…chrys c

Viriato Porto

50 palavras antigas que desapareceram da língua portuguesa

1. Vitrola

2. Tabefe ainda uso chrys

3. Sacripanta ainda uso chrys

4. Basbaque ainda uso chrys

5. Petiz

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6. Quiproquó

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7. Balela

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8. Supimpa

9. Alpendre

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10. Janota

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11. Gorar

12. Cacareco

13. Botica

14. Brunir

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15. Garçon

16. Jorna

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17. Ladroa

18. Lambisgoia

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19. Patego

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20. Safanão

21. Sirigaita

22. Soer

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23. Vosmecê

24. Munheca

25. Quiçá

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26. Aposentos

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27. Ceroulas

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28. Leda

29. Convescote

30. Acartado

31. Cosmonauta

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32. Deveras

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33. Pachorra

34. Obséquio

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35. Lanfranhudo

36. Ósculo

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37. Escaganifobético

38. Catre

39. Zoar

40. Fuzarca

41. Carraspana

42. Alvíssaras

ainda uso chrys

43. Basbaque

44. Sostra

45. Asseverar

46. Admoestar

ainda uso chrys

47. Boticário

48. Dondoca

49. Estorcegar

50. Asseado

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A justa homenagem da FLUL a Maria Helena Mira Mateus

No próximo dia 26 de outubro, pelas 18 horas, será inaugurada a Exposição de Homenagem à Professora Doutora Maria Helena Mira Mateus, no átrio principal da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), com entrada livre, para homenagear esta notável docente e investigadora, e rememorar a sua vida e obra.

Source: A justa homenagem da FLUL a Maria Helena Mira Mateus

chéquia

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Quem inventou o nome «Chéquia»?

Nos últimos tempos, começámos a ouvir um novo nome de país: Chéquia. Que é feito da velha República Checa?

Marco Neves

Oct 14
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Foto por Martin Krchnacek em Unsplash

Este artigo é baseado num episódio do canal A Vida Secreta das Línguas.

1. Os dois nomes dos países

Há excepções, mas a maioria dos países tem dois nomes: um nome curto, como «Portugal», «Espanha», «Angola», que usamos nas conversas do dia-a-dia, e um nome longo, que costuma incluir uma descrição do regime, como «República Portuguesa», «Reino de Espanha», «República de Angola». Todos estes nomes — curtos e longos — traduzem-se nas várias línguas, com uma ou outra excepção.

Nem sempre os nomes curtos e os nomes longos têm relação. O Reino dos Países Baixos tem este nome, em português, há muito tempo — mas sempre chamámos «Holanda» àquele país, usando, no fundo, aquilo que é uma sinédoque (tomamos a parte pelo todo, já que «Holanda» é apenas uma parte do Reino dos Países Baixos).

O governo lá do sítio, que até costumava usar as várias versões linguísticas de «Holanda» nos seus textos de divulgação turística, insiste agora em «Países Baixos» como forma curta do nome do país nas outras línguas.

Tem tido algum sucesso, principalmente em línguas onde a versão local de «Holanda» já se usava menos, como é o caso do inglês, onde «Netherlands» («Países Baixos» em inglês) já era o nome mais comum, mesmo antes do pedido do governo holandês (ups…).

Por cá, dizer «Países Baixos» numa conversa entre amigos ainda provoca aquela sensação peculiar de que a pessoa está a fazer um esforço…

2. Problemas boémios

Quanto à República Checa… O país apareceu no mapa da Europa nos anos 90, na sequência do Divórcio de Veludo. Sem guerras, a Checoslováquia dividiu-se em dois países: a República Checa e a República Eslovaca.

Nas várias línguas da Europa, a República Eslovaca ganhou rapidamente um nome curto: Eslováquia. Afinal, bastava tirar «Checo-» ao nome do país anterior e ficávamos com um nome pronto a usar, que não arranhava os ouvidos.

Já a República Checa não tinha nome curto à mão de semear. Não iríamos usar apenas «Checo», que é uma espécie de prefixo — e «Chéquia» era coisa que nunca ninguém tinha ouvido. As designações históricas da área eram outras: Morávia, Silésia (uma parte) e, acima de tudo, Boémia.

Assim, o próprio nome longo tornou-se o nome que usamos nas conversas do dia-a-dia. Falamos de Portugal, de Espanha, da Alemanha, da República Checa…

3. Um novo nome

Praticamente todos os países têm um nome curto — a República Checa parecia ser uma rara excepção.

Para resolver o problema, em 2016, o governo checo aprovou o novo nome, para ser usado em várias versões linguísticas. Em português, ficou «Chéquia». Depois, fez um pedido às várias organizações internacionais que mantêm listas de nomes de países (como a ONU ou a União Europeia) para passarem a incluí-lo ao lado de «República Checa».

Foi apenas isso: um pedido do governo checo para deixar ao dispor dos falantes das outras línguas um nome curto, se alguém precisasse. Não se criou nenhuma obrigação — nem, muito menos, se proibiu o uso de «República Checa», que continua na lista, na coluna do nome longo.

As organizações internacionais cumpriram o desejo do governo checo e o novo nome, nas várias línguas, apareceu nas listas. Começou também a ser cada vez mais visto nas situações onde se usavam, para os outros países, os nomes curtos.

Vendo o nome nas listas oficiais, as associações de futebol seguiram o exemplo. Afinal, a FIFA e a UEFA sempre se serviram dos nomes curtos dos países. Dão mais jeito — não é nada prático falar dos embates entre a República Francesa e a República Islâmica do Irão. «França — Irão» ocupa menos espaço.

Porque não fazer o mesmo no caso da República Checa? Foi assim que nos vimos, há uns dias, perante um jogo entre a Chéquia e Portugal, o que deixou muitos portugueses intrigados.

O que vai acontecer? Bem, quem manda na língua portuguesa são os seus falantes — talvez o nome pegue, como tantos outros, talvez não. Cá estaremos para ver. Como raramente os falantes gostam de alterações de hábitos linguísticos impostos de cima, demorará ainda muito tempo até tal nome se ouvir habitualmente em conversas que não sejam sobre o ridículo que é dizer «Chéquia». A língua muda, mas têm de ser os falantes a mudá-la — não o governo da República Checa.

Uma coisa é certa, como disse acima: «República Checa» continua a ser um dos nomes do país, perfeitamente correcto em português.

4. Países que só têm um nome

Já que falamos de nomes de países, diga-se que há alguns que têm apenas um nome. Por exemplo, a Ucrânia — não há uma «República da Ucrânia» — há apenas a Ucrânia. Da mesma forma, temos o Canadá, a Jamaica, a Hungria… São ainda bastantes os países que não gostam de complicações.

Há um caso curioso: a Irlanda é um dos Estados que usa, oficialmente, apenas o nome curto. Nos tratados da União Europeia, por exemplo, ao lado da República Portuguesa, do Reino de Espanha, da República Federal da Alemanha — e de tantos outros Estados de nomes longos — aparece a simples Irlanda.

E, no entanto, no dia-a-dia, usamos um nome longo que não é oficial: «República da Irlanda». Porquê? É uma forma de fazer a distinção com a Irlanda do Norte…

Aliás, é também por isso que o próprio Estado irlandês insiste no nome curto: ter como nome oficial apenas «Irlanda» é uma forma de lembrar que a ilha é só uma e, um dia, há-de estar unida.

Olhar para os nomes dá nisto: começámos num país que se separou do vizinho e terminámos noutro que se quer unir.

(Crónica no Sapo 24.)

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