– 70 anos de vida literária de Eduíno de Jesus

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MAIS DETALHES EM 36º colóquio da lusofonia 30 set a 5 out (lusofonias.net)

 

HOMENAGEM 70 ANOS DE VIDA LITERÁRIA DE EDUÍNO DE JESUS

BIODADOS AQUI

Dia 3 2ª fª Liceu Antero de Quental Lgo Mártires da Pátria, GPS: 37.749428, -25.664893.

Sessão 20 Homenagem 70 anos de vida literária

Eduíno de Jesus MODERA CHRYS

vídeo homenagem AICL a Eduíno de Jesus

Poesia de Eduíno de Jesus por Luís Filipe Sarmento

Vamberto Freitas

José Andrade

Mª João Ruivo

Onésimo T Almeida VÍDEO

Eduíno de Jesus “O Primeiro Pedro da Silveira”

 

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EDUÍNO DE JESUS

Recensão crítica de Santos Narciso ao livro “Como Tenuíssima Espuma de Luz (Poética Fragmentária)”, de Eduíno de Jesus.
«Mais um belíssimo livro. Com Chancela “N9na Poesia”. Eduíno de Jesus. Para beber de um trago só ou para saborear, gota a gota, porque palavra e pensamento fazem de quem lê destinatários felizes de um grande nome dos Açores e do Mundo literário.
Falta-me coragem para escrever sobre Eduíno de Jesus. Considero-o o “Patriarca” da Literatura Açoriana. Do alto dos seus 93 Janeiros ele é conto, poema ensaio e teatro. Mas é, acima de tudo, um símbolo ilhéu da universalidade que mora em nós.
“Como Tenuíssima Espuma de Luz” é uma viagem no tempo e nos lugares, é música – linda aquela Sinfonia Cósmica -, é Asa Flutuante, “à brisa desliza / leve como a brisa / que a leva adiante. Que frases leio / na linha que descreve / a asa que a brisa / impele?”.
Há, realmente, “espuma de luz” em cada palavra de Eduíno de Jesus».
Não me foi possível estar presente. Mas segui atentamente todas as intervenções, via net. Memorável esta apresentação na Biblioteca Pública. Memorável, para um livro memorável que é simplesmente Poesia, vivida e sentida. Como só Eduíno de Jesus é capaz.
Aqui fica o que em Maio deste ano escrevi sobre esta bela obra.
Como Tenuíssima Espuma de Luz
( Poética Fragmentária)
Mais um belíssimo livro. Com Chancela “N9na Poesia”. Eduíno de Jesus. Para beber de um trago só ou para saborear, gota a gota, porque palavra e pensamento fazem de quem lê destinatários felizes de um grande nome dos Açores e do Mundo literário.
Falta-me coragem para escrever sobre Eduíno de Jesus. Considero-o o “Patriarca” da Literatura Açoriana. Do alto dos seus 93 Janeiros ele é conto, poema ensaio e teatro. Mas é, acima de tudo, um símbolo ilhéu da universalidade que mora em nós.
“Como Tenuíssima Espuma de Luz” é uma viagem no tempo e nos lugares, é música – linda aquela Sinfonia Cósmica -, é Asa Flutuante, “à brisa desliza / leve como a brisa / que a leva adiante. Que frases leio / na linha que descreve / a asa que a brisa / impele?”.
Há, realmente, “espuma de luz” em cada palavra de Eduíno de Jesus.
São apenas cem páginas, este livro. Poemas entremeados de ilustrações de Artur Bual (1926-1999), o grande artista português que não necessita de qualquer apresentação, tão reconhecida e representada está a sua obra, a nível nacional e internacional. Aqui, cada ilustração é também um desafio à nossa contemplação e interpretação. Sim, porque, nenhuma delas (poesia e arte) está ao serviço da outra. O conjunto faz-se da independência de cada uma.
Ler poesia não é fácil e, nos tempos que correm, poucos gostam de coisas difíceis. E, por isso mesmo, nunca será demais repetir aquele grito da falta que faz a poesia quando a palavra perde a alma a troco dos vis interesses do momento. “Já não são precisas as vossas ferramentas / essas complexas perversas subtilíssimas a que chamais de tecnologia de ponta / podeis guardar tudo isso para / depois de amanhã / quando começar a próxima Eternidade (…) Sim deixai tudo isso / e mesmo digo-vos… e mesmo a Poesia / (de que vos serviu? / deixai tudo isso.”
Que força, na palavra e que convicção no pensamento!
Como escreve Urbano Bettencourt, “a poesia de Eduíno de Jesus seguiu por outros caminhos, num assumido subjectivismo e numa sobrevigiada elaboração formal, atenta ao poder da palavra e às potencialidades do seu manuseamento, desembocando por vezes no terreno do experimentalismo verbal e poético”.
E ainda, na passada semana, Vamberto Freitas, com o seu estilo inconfundível e o seu eloquente verbo, escrevia que “a poesia do presente livro é uma sinfonia de memórias e sentimentos, na qual, em certos versos, até a divisão de palavras funcionam com um ritmo próprio, como na voz de uma cantor ou a beleza discretamente colorida de uma pintura, tal como as do referido Artur Bual que é parte integrante destas páginas. Eduíno de Jesus esteve sempre consciente que a grande literatura do mundo é sempre a memória de um homem ou de uma mulher, todos contendo em si a memória do seu tempo e lugares”. (BorderCrossings, in Açoriano Oriental”.
A poesia – é dela que estamos a falar – em Eduíno de Jesus, vai do abstracto à mais corrente voz popular, como aqui vemos (pags 58, 59, 60) em Loas à cantiga de 4 versos: “Uma cantiga criada no campo / cheirando a pasto / uma cantiga rapariga / de corpo moreno e casto / uma cantiga solta ao vento / com flores de giesta nos cabelos / e um laço de 4 pontas / do meu enleio a prendê-los / uma cantiga de saia rodada / de 4 folhos / enxaguada n’água da minha sede / coarada ao sol dos teus olhos / uma cantiga aluada / nos seus 4 quartos fechada/ rindo por tudo / chorando por nada / Uma cantiga de 4 folhas / apanhada de madrugada / de dia em botão no meu peito / de noite nos meus braços desfolhada.
É um poema de 1958. Belo. Terno. Profundo!
Na capa deste “Como Tenuíssima Espuma de Luz”, que “tem dedo” sábio de Maria João Ruivo, na ficha técnica referida como “revisora”, indica-se que se trata de “Poética Fragmentária”. Apesar das diferentes datas dos poemas, há que referir que para qualquer leitor, o que fica é um perfeito sentido de unidade, nada “fragmentada”. Prova da belíssima selecção e cuidada organização.
E, como me faltam palavras para escrever sobre tão grande vulto da nossa Literatura, termino com Vamberto Freitas: “Eduíno de Jesus produziu uma obra cuja grandeza, em qualquer género e ante os críticos e ensaístas, tornou-se desde há muito uma referência para a minha geração. Um encontro com ele quase se tornava num seminário sobre todas estas e outras questões da literatura. Vive num mundo restrito quanto à atenção que a maioria presta à literatura em geral. Só que não sabem que a sua indefinida identidade reside para sempre nestas e nas maiores literaturas do mundo”.
O melhor que se pode desejar a um livro como este é a sua divulgação, porque agora que se lê muito menos, agora que nos prendemos a tantas coisas que nos tolhem a necessidade natural de saber e de sonhar, cada vez mais precisamos de poetas que quebrem os desencantos desta vida.
Desçam os poetas ao povo, porque no coração do povo dorme sempre um poeta que muitos não querem que acorde.
Ao “Patriarca” Eduíno de Jesus, através de Maria João Ruivo, este grande abraço que estendo à N9na Poesia, por mais esta edição.
Santos Narciso
Pedro Paulo Camara, Ana Cláudia Oliveira and 9 others
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live direto Como Tenuíssima Espuma de Luz (Poética Fragmentária)” do nosso Eduíno de Jesus

LIVE: Lançamento do livro “Como Tenuíssima Espuma de Luz (Poética Fragmentária)” de Eduíno de Jesus
To:

 

Dentro de algumas horas, siga em direto o lançamento do livro “Como Tenuíssima Espuma de Luz (Poética Fragmentária)” do nosso Eduíno de Jesus, decano dos escritores açorianos, a decorrer no Anfiteatro da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.

«A poesia de Eduíno de Jesus seguiu por outros caminhos, num assumido subjectivismo e numa sobrevigiada elaboração formal, atenta ao poder da palavra e às potencialidades do seu manuseamento, desembocando por vezes no terreno do experimentalismo verbal e poético.»
(Urbano Bettencourt, In Sala de Espelhos, ed. Companhia das Ilhas, 2020)
O livro será apresentado por Vamberto Freitas e contará com uma declamação poética por Aníbal C. Pires e Eleonora Marino Duarte e música por Ana Paula Andrade.

Siga aqui o lançamento em directo: https://www.youtube.com/watch?v=WYnM-8ksgu4

EDUÍNO DE JESUS, APRESENTAÇÃO PÚBLICA

Caros amigos. Após várias marcações e cancelamentos, finalmente irá ser apresentado o livro de Poemas (Como Tenuíssima Espuma de Luz), do Eduíno de Jesus, com desenhos de Artur Bual. A sessão de apresentação, pelo Dr. Vamberto Freitas, terá lugar na Biblioteca Pública, no próximo dia 30 de outubro (sábado), pelas 19.00 H. Teríamos muito gosto em contar convosco. Agradecia que me confirmassem a vossa presença até ao dia 29, sexta-feira, por causa da lotação da sala. Obrigada. Um abraço. Maria João Ruivo

 

Como Tenuíssima Espuma de Luz

Eduíno de Jesus, “Como Tenuíssima Espuma de Luz”

Artigo do “Atlântico Expresso” do dia 31 de maio de 2021
“No Princípio Era o Verbo”
Eduíno de Jesus, “Como Tenuíssima Espuma de Luz” (Poética Fragmentária). Ponta Delgada, Nona Poesia/Nova Gráfica, 2021
Por Maria João Ruivo
O SOPRO
1
como tenuíssima espuma de luz
eco perdido
da primeira vibração
algures
no imo do infinito
Nada
2
como um fogo
ainda não e
jamais acendido
frémito de nenhuma
coisa ou alma
digamos
3
súbito
explode no âmago da Palavra
irrompe indomável
em todos os sentidos do Sentido
e
o corpo do poema
ergue-
-se
e s p l ê n d i d o !
1992
“Silêncio” é uma palavra que se ergue na poesia de Eduíno de Jesus e que, de certa forma, a estrutura. Esse silêncio recolhido é o momento em que ele dialoga consigo e com o universo que o rodeia e que o leva a uma constante indagação sentindo, por vezes, que não há as palavras certas para configurar todo esse universo reflexivo, o que o conduz à angústia frequente, talvez quase permanente, de sentir que fala uma linguagem que nem sempre é apreendida pelos outros.
“Vã palavra do Poeta:
inútil como o silvo
de, em qualquer ponto da Terra,
uma flecha disparada ao Infinito”,
diz ele no poema “Lápide” (pág. 15 de Como Tenuíssima Espuma de Luz).
Assim, creio que o Silêncio é a oportunidade de refúgio e de indagação sobre si próprio e o universo, com o qual dialoga há muito tempo.
No poema “Frémito” (pág. 86), o eu poético tenta reconstruir, a sós consigo, a sua destruída torre de marfim, “meu refúgio antigo” (diz ele). E é sempre a velha angústia de não encontrar a palavra certa para se pronunciar, como expressa na seguinte estrofe:
“Enquanto nos meus lábios morre
a palavra para que não
posso inventar pronúncia.”
Poderia aqui apresentar muitos exemplos retirados da sua Poesia como sinal de que, para Eduíno de Jesus, a Palavra é o começo e o fim de quase tudo.
Em “O Sopro” (pág. 20), cujo primeiro verso dá o título a este livro, o Poeta busca, a meu ver, a origem do Poema, como quem busca a origem de Tudo. Ele apresenta ao nosso olhar de leitores aquele breve momento em que, do Nada, surge o Universo, tal como do caos das palavras possíveis surgirá o Poema.
No primeiro verso, tudo aponta para algo ténue, volátil, nessa fragilidade de um começo que é, por isso mesmo, quase invisível, ideia evidenciada pelo adjetivo “tenuíssima” , que surge no superlativo, e na metáfora “espuma de luz” – algo frágil que se desfaz com um sopro, mas que é, todavia, animado pela luz, que remete para a origem, essa “primeira vibração”, espécie de esboço do que virá a ser a vida, esse frémito primeiro, vindo do âmago do Nada, que se anima e que deixou um “eco perdido”, que vem da lonjura do Começo e que o homem anseia encontrar, achando que nele estarão as respostas para os enigmas ligados a esse Nada que deu origem a Tudo e que os homens buscam desde sempre.
Ao mesmo tempo, temos “um fogo” ainda não e / jamais acendido // frémito de nenhuma / coisa”, remetendo, pelos próprios termos da negação – “não”, “jamais” e “nenhuma” – para o mesmo Nada, mas “frémito”, apesar de tudo, confirmando essa “primeira vibração” que, de súbito, surge do mais fundo da Palavra, dando origem ao Poema. Assim, tal como a vida, que não havia ou não se havia revelado, surge nessa explosão inicial, esse big bang de que tudo descende, também o Poema se ergue “esplêndido” e se torna revelação pela Palavra.
Esta ideia remete para o Apóstolo João: “No princípio era o Verbo”, cuja explicação me ultrapassa, mas que implicaria que, sem a Palavra (o Verbo), nada poderia existir. Do Nada, tudo surge pelo poder ativo da Palavra. Aliás, quando São João afirma que “no princípio era o verbo”, a expressão “no princípio” remete para o Gênesis – “No princípio criou Deus o céu e a terra”. Poderemos ter em conta que essa expressão remeterá para o começo material do universo ou, pelo menos, para a noção espácio-temporal. Além de que, se no princípio era o Verbo, poderíamos achar que, antes de o mundo existir, já o Verbo existia.
Não pretendo resvalar aqui para um terreno que não domino, mas, ao ler este “Sopro”, não pude deixar de pensar nessa questão, por difícil que seja entendê-la efetivamente e cujo aprofundamento deixarei para quem sabe. De qualquer modo, achei ver aqui colocada esta problemática da origem. De uma outra forma, esta ideia está também presente no poema “As Palavras” (p.37), que o autor dedica a meu Pai, Fernando Aires, em que mostra, mais uma vez, esse poder iniciático da Palavra. E cito:
“Imprecisas? Volúveis? Mas inamovíveis,
elas lá ficam na página branca
à espera de um Levanta-te e caminha
de qualquer voz humana.”
A poesia do Eduíno leva-nos por caminhos imensos, não fáceis de trilhar, e torna -se uma procura e uma descoberta permanentes, pois sugere, mais do que diz, deixando algum caminho aberto ao leitor. Ele encontra nas virtualidades da Palavra uma forma de busca, de indagação permanente. E a busca é uma forma de vida sonhada, pois o mundo é um grande mistério ainda por desvelar. Sendo assim, a Palavra transforma-se em Poema, dando, então, ao Poeta, o privilégio de buscar a origem ao mesmo tempo que vai criando a eternidade possível.
“As palavras, meu Deus, como são
Imprecisas, volúveis. No entanto,
elas só (enquanto os homens passam)
guardam para sempre o sinal do tempo.” (“As Palavras”, pág. 37)
Ponta Delgada, maio de 2021
Maria João Ruivo”
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POESIA DE EDUÍNO DE JESUS

Artigo do “Atlântico Expresso” do dia 31 de maio de 2021
“No Princípio Era o Verbo”
Eduíno de Jesus, “Como Tenuíssima Espuma de Luz” (Poética Fragmentária). Ponta Delgada, Nona Poesia/Nova Gráfica, 2021
Por Maria João Ruivo
O SOPRO
1
como tenuíssima espuma de luz
eco perdido
da primeira vibração
algures
no imo do infinito
Nada
2
como um fogo
ainda não e
jamais acendido
frémito de nenhuma
coisa ou alma
digamos
3
súbito
explode no âmago da Palavra
irrompe indomável
em todos os sentidos do Sentido
e
o corpo do poema
ergue-
-se
e s p l ê n d i d o !
1992
“Silêncio” é uma palavra que se ergue na poesia de Eduíno de Jesus e que, de certa forma, a estrutura. Esse silêncio recolhido é o momento em que ele dialoga consigo e com o universo que o rodeia e que o leva a uma constante indagação sentindo, por vezes, que não há as palavras certas para configurar todo esse universo reflexivo, o que o conduz à angústia frequente, talvez quase permanente, de sentir que fala uma linguagem que nem sempre é apreendida pelos outros.
“Vã palavra do Poeta:
inútil como o silvo
de, em qualquer ponto da Terra,
uma flecha disparada ao Infinito”,
diz ele no poema “Lápide” (pág. 15 de Como Tenuíssima Espuma de Luz).
Assim, creio que o Silêncio é a oportunidade de refúgio e de indagação sobre si próprio e o universo, com o qual dialoga há muito tempo.
No poema “Frémito” (pág. 86), o eu poético tenta reconstruir, a sós consigo, a sua destruída torre de marfim, “meu refúgio antigo” (diz ele). E é sempre a velha angústia de não encontrar a palavra certa para se pronunciar, como expressa na seguinte estrofe:
“Enquanto nos meus lábios morre
a palavra para que não
posso inventar pronúncia.”
Poderia aqui apresentar muitos exemplos retirados da sua Poesia como sinal de que, para Eduíno de Jesus, a Palavra é o começo e o fim de quase tudo.
Em “O Sopro” (pág. 20), cujo primeiro verso dá o título a este livro, o Poeta busca, a meu ver, a origem do Poema, como quem busca a origem de Tudo. Ele apresenta ao nosso olhar de leitores aquele breve momento em que, do Nada, surge o Universo, tal como do caos das palavras possíveis surgirá o Poema.
No primeiro verso, tudo aponta para algo ténue, volátil, nessa fragilidade de um começo que é, por isso mesmo, quase invisível, ideia evidenciada pelo adjetivo “tenuíssima” , que surge no superlativo, e na metáfora “espuma de luz” – algo frágil que se desfaz com um sopro, mas que é, todavia, animado pela luz, que remete para a origem, essa “primeira vibração”, espécie de esboço do que virá a ser a vida, esse frémito primeiro, vindo do âmago do Nada, que se anima e que deixou um “eco perdido”, que vem da lonjura do Começo e que o homem anseia encontrar, achando que nele estarão as respostas para os enigmas ligados a esse Nada que deu origem a Tudo e que os homens buscam desde sempre.
Ao mesmo tempo, temos “um fogo” ainda não e / jamais acendido // frémito de nenhuma / coisa”, remetendo, pelos próprios termos da negação – “não”, “jamais” e “nenhuma” – para o mesmo Nada, mas “frémito”, apesar de tudo, confirmando essa “primeira vibração” que, de súbito, surge do mais fundo da Palavra, dando origem ao Poema. Assim, tal como a vida, que não havia ou não se havia revelado, surge nessa explosão inicial, esse big bang de que tudo descende, também o Poema se ergue “esplêndido” e se torna revelação pela Palavra.
Esta ideia remete para o Apóstolo João: “No princípio era o Verbo”, cuja explicação me ultrapassa, mas que implicaria que, sem a Palavra (o Verbo), nada poderia existir. Do Nada, tudo surge pelo poder ativo da Palavra. Aliás, quando São João afirma que “no princípio era o verbo”, a expressão “no princípio” remete para o Gênesis – “No princípio criou Deus o céu e a terra”. Poderemos ter em conta que essa expressão remeterá para o começo material do universo ou, pelo menos, para a noção espácio-temporal. Além de que, se no princípio era o Verbo, poderíamos achar que, antes de o mundo existir, já o Verbo existia.
Não pretendo resvalar aqui para um terreno que não domino, mas, ao ler este “Sopro”, não pude deixar de pensar nessa questão, por difícil que seja entendê-la efetivamente e cujo aprofundamento deixarei para quem sabe. De qualquer modo, achei ver aqui colocada esta problemática da origem. De uma outra forma, esta ideia está também presente no poema “As Palavras” (p.37), que o autor dedica a meu Pai, Fernando Aires, em que mostra, mais uma vez, esse poder iniciático da Palavra. E cito:
“Imprecisas? Volúveis? Mas inamovíveis,
elas lá ficam na página branca
à espera de um Levanta-te e caminha
de qualquer voz humana.”
A poesia do Eduíno leva-nos por caminhos imensos, não fáceis de trilhar, e torna -se uma procura e uma descoberta permanentes, pois sugere, mais do que diz, deixando algum caminho aberto ao leitor. Ele encontra nas virtualidades da Palavra uma forma de busca, de indagação permanente. E a busca é uma forma de vida sonhada, pois o mundo é um grande mistério ainda por desvelar. Sendo assim, a Palavra transforma-se em Poema, dando, então, ao Poeta, o privilégio de buscar a origem ao mesmo tempo que vai criando a eternidade possível.
“As palavras, meu Deus, como são
Imprecisas, volúveis. No entanto,
elas só (enquanto os homens passam)
guardam para sempre o sinal do tempo.” (“As Palavras”, pág. 37)
Ponta Delgada, maio de 2021
Maria João Ruivo”
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    Urbano Bettencourt

    Maria João Ruivo, gostei muito de ler. Silêncio, Sopro, Palavra: três palavras da Criação poética. Tenho de fazer uma releitura da poesia de Eduíno em função de «Sopro», uma palavra que só agora me chamou a atenção, a partir da leitura do teu tex…

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