O ELOGIO DA DEMOCRACIA Lições da História

Views: 0

Carlos Fino and Eunice Brito shared a photo.

Image may contain: 1 person

Image may contain: 1 person

Luís Maria Gottschalk

O ELOGIO DA DEMOCRACIA
Lições da História

TUCÍDIDES, na sua admirável História da Guerra do Peloponeso, guerra que opôs Atenas a Esparta e, mais do que isso, duas concepções opostas do homem e da sociedade, dá-nos conta do discurso de Péricles em 430 a.C., no final do primeiro ano da contenda. Distinguindo-se dos seus inimigos, Péricles pretende relevar a superioridade de Atenas, do seu modo de vida e do seu sistema político, a democracia, bem como do modo de educação dos seus jovens que, seguindo o programa de Fénix, o educador de Aquiles, eram educados para duas coisas: “praticar acções valorosas e proferir belos discursos”.

 

Por contraste, Esparta estava organizada como uma poderosa máquina de guerra, dominada pela oligarquia dos Iguais, sociedade fortemente disciplinada e hierarquizada, dotada de um Estado centralizador, desprezando os discursos e a discussão (daí vem o termo “laconismo”: de Lacónia, cuja capital era Esparta) e centrando a educação dos jovens, a cargo do Estado, num rigoroso treino físico e militar.

É conhecido o desenlace trágico desta guerra, 26 anos mais tarde. Entre o momento da plena afirmação da democracia, com a retirada de todos os poderes políticos ao Areópago aristocrático e a sua concentração na Ecclesia (assembleia do povo), até à vitória de Esparta, conluiada com os seus aliados do partido oligárquico em Atenas, medeia cerca de meio século (embora a transição para a democracia se tivesse iniciado no final do séc. VI com a constituição de Clístenes). Ainda em vida (morre em 429 a.C.), Péricles terá reconhecido que temia mais os próprios erros do que os seus inimigos. A democracia, logo no momento do seu nascimento, revelava as suas fragilidades intrínsecas: o regime que consagra a liberdade é também o que abre caminho à demagogia e tolera no seu seio os seus próprios inimigos. Esta situação não se alterou, quanto ao fundamental, nos últimos 2500 anos. E não deixa de constituir uma ironia da História o facto de ser na Grécia, que viu nascer a democracia, que hoje ganham força, uma vez mais, os seus inimigos. Desde sempre, o autoritarismo dispôs de meios mais eficazes do que a democracia.

Entretanto, as palavras de Péricles conservam todo o seu poder mobilizador e merecem ser lidas com atenção. Nelas podemos reencontrar o sentido daquilo por que nos batemos: a liberdade, a tolerância, a responsabilidade e coragem cívicas, a igualdade perante a lei, a dureza do trabalho temperada pelo prazer da cultura, o deleite na beleza, a serenidade, o gosto pela reflexão e pelo debate, o respeito pela lei, a soberania do “demos”…

DISCURSO DE PÉRICLES
(excertos)

«A nossa Constituição não imita as dos Estados vizinhos. Pelo contrário, a nossa é que constitui um modelo para as outras. A nossa forma de governo é chamada democracia porque a sua administração está nas mãos, não de alguns, mas de toda a gente. Na resolução de litígios privados, todos são iguais perante a lei. A eleição para cargos públicos é feita com base na capacidade, não com base na pertença a uma determinada classe. Nenhum homem é excluído de cargos públicos por motivo da modéstia da sua posição social ou por causa da sua pobreza, desde que se disponha a servir o Estado.

E não é apenas na nossa vida pública que somos livres e abertos, mas um sentido de liberdade regula as nossas relações mútuas no dia-a-dia. Nós não nos encarniçamos contra o nosso vizinho por ele fazer o que gosta. E nem sequer ostentamos o tipo de desaprovação silenciosa que magoa os outros, mesmo não sendo uma acusação explícita. Assim, nos nossos assuntos particulares, somos tolerantes e procuramos evitar ofender. Mas nos assuntos públicos, tomamos muito cuidado com não infringir as leis por causa do profundo respeito que temos por elas. Obedecemos aos cidadãos que detêm cargos públicos em cada ano. E prestamos especial atenção às leis que protegem os oprimidos, bem como a todas as leis não escritas que sabemos trazer desgraça ao transgressor, quando são desrespeitadas.
.
Deixem-me acrescentar outro ponto. Tivemos o bom senso de proporcionar aos nossos espíritos mais oportunidades para descansar do trabalho duro do que outros povos. Durante todo o ano, existem competições teatrais e atléticas, bem como festivais religiosos. Nas nossas casas encontramos beleza e bom gosto e o deleite que daí extraímos todos os dias afasta as nossas preocupações.

Para nossa segurança, nós confiamos na coragem que procede das nossas almas, quando somos chamados à acção. Quanto à educação, o inimigo submete os seus filhos desde a sua primeira infância a um treino rigoroso da sua coragem viril. Nós, com o nosso modo de ser liberal, não estamos menos aptos que eles para enfrentar os perigos. Não é a dolorosa disciplina que nos faz ir ao encontro do perigo, mas a natural confiança que brota do nosso modo de vida e não da compulsão de leis. E também não gastamos o nosso tempo antecipando sofrimentos futuros, sem que por isso estejamos menos aptos para a batalha do que aqueles que continuamente se preparam para ela. É por estas qualidades, mas não só, que Atenas merece ser admirada.

O nosso amor pela beleza não nos torna extravagantes, e o nosso amor pelas coisas do espírito não nos torna brandos. A nossa preocupação com os assuntos particulares é equilibrada pelo nosso envolvimento nos assuntos da cidade. E mesmo as pessoas muito ocupadas com os seus próprios negócios estão extremamente bem informadas sobre os assuntos políticos. Mas consideramos como um inútil um homem que não participa na vida da cidade e só cuida dos seus assuntos. Todos nós participamos no debate sobre os assuntos da cidade, ou pelo menos participamos nas decisões. Não pensamos que estas discussões impeçam a acção. Acreditamos que o que é prejudicial é agir sem que antes se faça uma reflexão cuidada.

Em suma, eu afirmo que Atenas, tudo considerado, é um modelo para toda a Grécia.»

Continuar a ler

monolito na Terceira

Views: 0

Um bloco que não foi “simplesmente abandonado”.
Fotografia de Félix Rodrigues.

Image may contain: cloud, sky, grass, plant, mountain, tree, outdoor and nature
Comments
  • Alexandre Barbosa Monolítico com muita história…! Obrigado pela partilha.
  •  

    Rafael FragaRafael Fraga replied

    2 replies

  • George Mendes Thank you for the post, keep up the good work. One step closer to the truth of the history of Terceira.

HISTORIETAS DA HISTÓRIA MAIOR, UM (falso) ATENTADO CONTRA A VIDA DE XANANA GUSMÃO EM 2001, QUE FOI APENAS UM MALABARISMO POLÍTICO; CURIOSIDADES DA POLÍTICA REAL INTERNACIONAL. – Mangualde Online

Views: 0

Mangualdense, José Luiz Costa Sousa, Comandante da Polícia Civil da ONU em Timor, à data deste evento e Kay Rala Xanana Gusmão   Corriam os anos 2000 e 2001, os acasos da minha vida profissional colocaram-me então em Timor Leste, na função de Comandante da Polícia Internacional da ONU, no âmbito da missão  UNTAET, que ali […]

Source: HISTORIETAS DA HISTÓRIA MAIOR, UM ATENTADO CONTRA A VIDA DE XANANA GUSMÃO EM 2001, QUE FOI APENAS UM MALABARISMO POLÍTICO; CURIOSIDADES DA POLÍTICA REAL INTERNACIONAL. – Mangualde Online

Eu fui desertor. Digo-o com todo o gosto | Guerra Colonial | PÚBLICO

Views: 0

Milhares de jovens desertaram durante a guerra colonial. Para que a deserção saia ‘debaixo do tapete”, vai ser lançado um livro, foi criada uma nova associação e um colóquio vai abordar, pela primeira vez, um tema que teima em andar em torno ‘do bin

Source: “Eu fui desertor. Digo-o com todo o gosto” | Guerra Colonial | PÚBLICO

ARQUEOLOGIA MISTÉRIOS DE FONTAINEBLEAU

Views: 0

Szymanski Joël is with Laurent Le Floch in Fontainebleau, France.

22 June at 05:52

2/12/2018 – “Un parc initiatique à ciel ouvert” – Fontainebleau (77) – On dit souvent que la nature fait bien les choses. Çà se vérifie facilement à Fontainebleau. Cette forêt incroyable regorge de blocs aux formes étranges. Peu de retouches à faire car dame nature a déjà réalisé l’essentiel. Des collections incroyables de pierres levées ou couchées, des tunnels triangulaires, des grottes profondes. Notre imagination n’a plus qu’à faire le reste et se fondre parmi cette nature féérique. Parfois le doute s’empare du visiteur. Et si la main de l’homme était intervenue pour modifier ce paysage stupéfiant ? Depuis des millénaires cet endroit fascine ou effraye les curieux. Ce lieu propice à la méditation était peut-être également un lieu d’initiation. La forêt de Fontainebleau a dû être le théâtre spirituel des civilisations primordiales.

Image may contain: one or more people, tree, outdoor and nature
Image may contain: tree, plant, grass, outdoor and nature
Image may contain: tree, plant, outdoor and nature
Image may contain: tree, outdoor and nature
Image may contain: 1 person, outdoor, nature and water

2/12/2018-“an open-air initiatory park” – Fontainebleau (77) – it is often said that nature is doing well. This is easily checked at fontainebleau. This amazing forest is full of blocks with strange shapes. Little Touch-ups to do because mother nature has already realized the essential. Amazing collections of lifted or bed stones, triangular tunnels, deep caves. Our imagination only has to do the rest and melt among this magical nature. Sometimes the doubt takes over the visitor. What if the man’s hand had intervened to change this stunning landscape? For millennia, this place fascinates or frightens the curious. This place conducive to meditation may also be a place of initiation. The Forest of fontainebleau must have been the spiritual theatre of primordial civilizations.

https://www.dinosoria.com/fontainebleau.htm?fbclid=IwAR3ILXEYxurezfSY7_ftbSfe3OqlhJYxhnVWZB6W4a3T19cXwqippsGmmW8

+22

quando Portugal se desfez da Galiza (HOJE ÉRAMOS TODOS ESPANHOLITOS)

Views: 0

HISTÓRIA
9 mins

Neste mesmo dia, em 1128, dá-se a Batalha de S. Mamede, opondo D. Afonso Henriques à sua mãe, D. Teresa. As tropas do infante e dos barões portucalenses enfrentaram as de Fernão Peres de Trava e dos seus partidários portugueses e fidalgos galegos. Os barões portucalenses, ao escolherem D. Afonso Henriques para seu chefe, recusavam-se a aceitar um reino que englobasse Portugal e a Galiza. Este foi um dos momentos fundamentais para o surgimento do Reino de #Portugal.

Image may contain: 2 people, text

Neste mesmo dia, em 1128, dá-se a Batalha de S. Mamede, opondo D. Afonso Henriques à sua mãe, D. Teresa. As tropas do infante e dos barões portucalenses enfrentaram as de Fernão Peres de Trava e dos seus partidários portugueses e fidalgos galegos. Os barões portucalenses, ao escolherem D. Afonso Henriques para seu chefe, recusavam-se a aceitar um reino que englobasse Portugal e a Galiza. Este foi um dos momentos fundamentais para o surgimento do Reino de #Portugal.

Image may contain: 2 people, text

4 hrs

HISTÓRIA – HISTÓRIA DE PORTUGAL.

24 Junho do ano 1128 (891 anos)

“CONDADO PORTUCALENSE – BATALHA DE S. MAMEDE”

…..A Batalha de S. Mamede – Guimarães, marca o inicio de um país, que se desmembrou do Reino de Leão e Castela a 24 de Junho do ano 1128.

…..O Condado Portucalense ou o Reino de Portucale, foi oferecido a um Nobre Francês, D. Henrique, Conde de Borgonha, filho de Roberto II de França, como recompensa, por ter ajudado o Reino de Leão e Castela, a combater e expulsar os Mouros a partir do Reino das Astúrias, no inicio da Reconquista Cristã na Península Ibérica.
…..Este, D. Henrique, Conde Borgonha e do Condado Portucalense, conhece e apaixona-se por uma Nobre Fidalga de Leão e Castela, chamada Infanta Teresa, casam e desta união nasce um filho chamado Henrique – Afonso Henrique.

…..Em 1114, o Conde de Borgonha D. Henrique, morre, deixando viúva a sua jovem esposa D. Teresa, com o seu filho Henrique com apenas três anos de idade, continuando ela como Senhora Absoluta do Condado Portucalense, com o intuito de o tornar independente. Passado algum tempo, conhece e apaixona-se de novo por um jovem Nobre Galego, chamado Fernão Peres de Trava, tornando-se este a figura principal do Condado, o que não agradava aos Fidalgos e Nobres do pequeno Reino de Portucale, e muito menos ao pequeno Afonso Henrique, que era um homem astuto e valente como seu pai.
…..O jovem Afonso Henrique, fora educado por um Nobre ou Homem-Rico de Portucale chamado Egas Moniz, que se opunha firmemente à submissão, domínio e soberania do Rei de Leão e Castela sobre o Reino de Portucale, onde sua mãe D. Teresa e Fernão Peres de Trava já eram donos e senhores.
….Afonso Henrique pediu à sua mãe que lhe entregasse o governo do Condado, pois só ele era mais português do que o Nobre Galego Fernão Peres de Trava. Tanto a sua mãe como Trava não aceitaram o pedido do jovem Afonso Henrique, já com a intenção de se apoderarem do Condado, tendo ficado um braço de ferro entre a mãe e o filho, que evoluiu para um confronto militar entre os dois.
…..O confronto militar entre os dois exércitos, de Leão e Castela e Afonso Henrique, focou conhecido pela Batalha de S. Mamede, tendo sido ganha pelo jovem Afonso Henrique e o derrotado Peres de Trava foge e leva consigo D. Teresa, marcando para sempre o inicio da Portugalidade, comandado pelo jovem Infante de 16 anos, 0 Infante Henrique e os seus Nobres e Barões partidários pertencentes a linhagens entre Douro e Minho, que foram;;
—-Egas Moniz de Ribadouro – o Aio
—-Soeiro Mendes de Sousa.
—-Gonçalves Mendes de Sousa.
—-Gonçalo Mendes da Maia.

…..Os Historiadores dividem-se em dúvidas sobre o verdadeiro local onde se travou o conflito, no campo de S. Mamede, em Veiga de Creixomil ou no campo de Ataca.
…..Há quem advogue, rumores não confirmados, que D. Teresa foi encarcerada até à morte no Castelo da Póvoa de Lanhoso.

(Fernando Rego de Carvalho)

o primeiro alfabeto do mundo foi criado há 6 mil anos em Trás-os-Montes |

Views: 0

Filipe de Sousa shared a link to the group: Rádio Internacional Lusofona.
36 mins