dois anos de saudade HELENA CHRYSTELLO

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Hoje celebram-se , infelizmente, dois anos sobre a última vinda da Nini a esta casa, nossa habitação desde 2005.

A medicamentação após a passagem de ano de 2023 não estava a surtir efeito, tendo sido necessário aumentar doses e morfina, o sofrimento aumentara. O Dr Carlos Pavão (entretanto falecido por doença prolongada o ano passado) como a conhecia bem, tentou o efeito placebo psicológico de a mandar para casa, a fim de que isso pudesse despertar a sua força e resiliência e fazer efeito onde a medicina tinha falhado. Infelizmente, ou era demasiado tarde ou nada havia a fazer, pois não resultou, antes pelo contrário.

Recordo aqui do Diário desse ano de 2024:

dia 15 chegou finalmente a casa, vinda do Hospital só pelas 22.30 (desde as 15.00 que esperava o transporte de ambulância de Bombeiros). Conheceu a cuidadora Magda (o filho foi aluno dela) e esteve entretida a falar com ela, apesar de muito cansada pela espera da ambulância, trocando impressões sobre como seriam os próximos tempos, o tipo de apoio a prestar, que cuidados mais necessários na sua presença (de manhã, almoço e ao fim da tarde) e nas suas ausências. Depois conseguiu dormir até pelas 03.20. Começou a piorar sem que a medicação surtisse efeito.

A crise era tanto real quanto psicológica, com a respiração sempre a piorar. Momentos de pânico para mim. Chamei a filha, a dormir no andar de cima, na falsa (a cadela Leoa não saiu da cama dela, deitada aos seus pés) para vir ajudar. Deu-se o máximo de oxigénio da bala (o portátil era insuficiente) e morfina, mas sem resultado nem melhoria visível, cada vez mais agitada e com dificuldades em respirar mas conseguia comunicar.

Pelas 10.00, após horas de aflição, medo e inquietação pela gravidade de nova crise, a viatura de emergência médica levou-a de novo para o Hospital, dizendo que devíamos tê-los chamado mais cedo, mas ela não queria nem deixava, na esperança de estabilizar a respiração e os níveis de saturação do oxigénio. Saiu em grave crise, na companhia da filha Bebé, pedindo aos enfermeiros que a não deixassem cair, cheia de medo pelo transporte de regresso ao HDES. Já doutras vezes ao entrar na ambulância sentada na sua cadeira de rodas, pedia encarecidamente aos enfermeiros que a não deixassem cair. Estava aterrorizada e nunca caíra. Só me lembro dela ter caído em agosto passado quando tentou fechar a passadeira elétrica e se lesionou com gravidade. Seria daí esse horror a cair?. Pelas 15.30 a médica disse que estava mais calma, estabilizada, aguardava na urgência a ida para a Pneumologia onde iremos vê-la no horário 18.00-20.00. Deu lá entrada apenas pelas 19.00 estabilizada, muito debilitada.

Quando foi para o Hospital eu e a filha imaginávamos ser ainda possível que ela recuperasse alguma coisa, nenhum de nós estava preparado para aceitar derrota ou um desfecho final. Nenhum de nós se apercebeu que a degradação do estado geral de saúde se vinha acentuando, dia após dia. A nossa esperança, a crença na sua capacidade de superar esta crise como superara sempre as 1001 crises anteriores era superior a uma análise fria ao seu estado de saúde. A partir desse dia seria uma escalada até dia 26, como ficou narrado em “Diário de um homem só, uma viagem interior (ChrónicAçores vol. 8)”.

Ainda hoje me debato com a não-aceitação da sua passagem a outro estado, outro universo. Isso está bem evidenciado no ChrónicAçores vol. 9 “Diário de um Homem só II, Manual para viúvos” ontem colocado em linha em https://heyzine.com/flip-book/779e68c3d3.html.

“Diário de um homem só – Uma viagem interior”,

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Diário de Um Homem Só
https://www.letraslavadas.pt/diario-de-um-homem-so/
 

  • Diário de um homem só – Uma viagem interior”, de J. Chrys Chrystello, é um livro em forma de diário íntimo que acompanha a solidão, os pensamentos e a autoanálise de um homem já maduro, num registo muito reflexivo e ensaístico
    Tema central

    • O foco é a condição de solidão contemporânea: um homem que vive muito consigo mesmo, observa o mundo e interroga o sentido da própria vida, do envelhecimento e das relações humanas
    • A “viagem interior” é mais importante do que qualquer deslocação física: trata‑se de revisitar memórias, escolhas e identidades, num balanço existencial feito com lucidez e ironia

    Estilo e tom

    • A escrita é culta, diarística e confessional, misturando reflexão filosófica, apontamentos do quotidiano e comentários sociais, num tom entre o íntimo e o critico
    • O narrador mostra um sujeito que se assume quase eremita, mas atento ao mundo, usando o diário como espaço de liberdade de pensamento e de autoquestionamento continuo

    Quais são os principais temas abordados no Diário de Um Homem Só
    “Diário de um homem só” trabalha sobretudo os temas da solidão, da autoanálise e da busca de sentido para a própria vida. A narrativa gira em torno de um homem isolado, que escreve para não enlouquecer e tenta organizar aquilo que sabe de si mesmo
    Principais temas

    • Solidão: o protagonista encontra‑se “no ápice de sua solidão e falta de amor”, sentindo-se desligado dos outros e afetivamente esvaziado
    • Memória e passado: ao “buscar o passado”, ele revisita lembranças, erros e relações antigas, numa espécie de acerto de contas com a própria história
    • Identidade e autoconhecimento: o diário funciona como espelho; ao narrar a si, o sujeito raivoso e desconcertante tenta compreender quem é, por que chegou a esse ponto e que tipo de futuro ainda pode construir

    No “Diário de um Homem Só”, o passado aparece mais por imagens recorrentes ligadas à memória, ao luto e ao tempo do que por grandes acontecimentos exteriores. Esses símbolos funcionam como gatilhos para a recordação e para a tentativa de reconstruir a vida que existia “antes”.​
    Objetos ligados à pessoa perdida

    • Objetos associados a Helena (fotografias, cartas, lembranças materiais) funcionam como âncoras de memória, trazendo à tona cenas do passado conjugal e familiar
    • Cada referência concreta à mulher morta transforma‑se em símbolo de um tempo em que havia amor e companhia, sustentando o contraste entre “antes” e “depois” do luto

    Diário como símbolo

    • O próprio diário é um símbolo do passado: escrever “o que sabe de si mesmo” implica vasculhar lembranças, reorganizar cronologias internas e recontar a própria biografia
    • Ao registar memórias em forma de escrita, o narrador tenta fixar o que teme perder, usando a palavra como forma de preservar o que o tempo e a morte já levaram

    Tempo e datas

    • Datas, alusões a “outros tempos” e marcas de idade funcionam como símbolos do avanço inexorável do tempo, sublinhando a distância entre o presente solitário e um passado mais pleno
    • Essa insistência em localizar acontecimentos no “antes” e no “depois” da perda transforma o tempo em eixo simbólico do livro, organizando toda a viagem interior em torno da memória

    A solidão em “Diário de um homem só” não é apenas um estado, mas a força que molda o modo como o protagonista pensa, sente e se relaciona com o mundo. Ela determina o tom da narrativa, o ritmo da “viagem interior” e o tipo de crescimento (muitas vezes doloroso) que ele experimenta
    Intensificação da autoanálise

    • A ausência de vínculos presentes empurra o protagonista para dentro, fazendo com que ele examine obsessivamente o passado, os erros e as perdas, num processo de autocrítica implacável
    • Esse isolamento produz um olhar extremamente lúcido, mas também duro, sobre si mesmo: a solidão afia a consciência, ao mesmo tempo em que amplifica culpas e ressentimentos

    Relação com o mundo e com os outros

    • Por viver “no ápice de sua solidão e falta de amor”, o protagonista passa a ver o mundo com desencanto, desconfiando das relações afetivas e das promessas de felicidade compartilhada
    • A solidão cria uma distância quase irreversível entre ele e os outros, o que o leva a preferir o refúgio da escrita e da memória a qualquer tentativa real de reaproximação social

    Transformação interior

    • Embora o isole, a solidão funciona como motor de transformação: é nesse vazio afetivo que ele se obriga a encarar quem se tornou e a repensar escolhas, identidades e expetativas
    • O desenvolvimento do protagonista é menos uma “superação” da solidão e mais um aprendizado para conviver com ela, integrando-a à própria visão de si e do sentido da vida.

    Uso da primeira pessoa e voz íntima

    • O narrador fala em primeira pessoa, num tom confessional, centrado na própria história interior: esse “eu” que se expõe, analisa a própria vida e vasculha lembranças é um traço clássico de escrita de si
    • A focalização quase exclusiva na subjetividade do narrador (pensamentos, sentimentos, culpas, memórias) aproxima a obra das formas autobiográficas e diarísticas discutidas por teóricos como Lejeune, que destacam a narrativa retrospetiva do próprio “eu”.​

    Experiência de solidão e envelhecimento

    • O protagonista é um homem maduro, marcado pela solidão, pelo desencanto e por um balanço da vida; esse tipo de personagem frequentemente funciona como projeção, ainda que ficcionalizada, de inquietações e fases vividas pelo autor
    • A insistência na autoanálise, na revisão do passado e na tentativa de compreender “como chegou até aqui” é típica de narrativas em que a experiência real do autor serve de matéria para a construção do personagem, mesmo com liberdade ficcional

    Diário como forma de escrita de si

    • A estrutura em forma de diário reforça o pacto de intimidade: o texto se organiza como registo de uma vida, retomando fatos, afetos e perdas, o que se aproxima das práticas autobiográficas descritas pelos estudos sobre literatura intima
    • Mesmo sem uma declaração explícita de identidade entre autor, narrador e personagem, o forte investimento na subjetividade e na memória permite falar em elementos autobiográficos no sentido lato: fragmentos de experiência e de visão de mundo do autor filtrados pela ficção

    ão” da solidão e mais um aprendizado para conviver com ela, integrando-a à própria visão de si e do sentido da vida.

Uso da primeira pessoa e voz íntima

  • O narrador fala em primeira pessoa, num tom confessional, centrado na própria história interior: esse “eu” que se expõe, analisa a própria vida e vasculha lembranças é um traço clássico de escrita de si
  • A focalização quase exclusiva na subjetividade do narrador (pensamentos, sentimentos, culpas, memórias) aproxima a obra das formas autobiográficas e diarísticas discutidas por teóricos como Lejeune, que destacam a narrativa retrospetiva do próprio “eu”.​

Experiência de solidão e envelhecimento

  • O protagonista é um homem maduro, marcado pela solidão, pelo desencanto e por um balanço da vida; esse tipo de personagem frequentemente funciona como projeção, ainda que ficcionalizada, de inquietações e fases vividas pelo autor
  • A insistência na autoanálise, na revisão do passado e na tentativa de compreender “como chegou até aqui” é típica de narrativas em que a experiência real do autor serve de matéria para a construção do personagem, mesmo com liberdade ficcional

Diário como forma de escrita de si

  • A estrutura em forma de diário reforça o pacto de intimidade: o texto se organiza como registo de uma vida, retomando fatos, afetos e perdas, o que se aproxima das práticas autobiográficas descritas pelos estudos sobre literatura intima
  • Mesmo sem uma declaração explícita de identidade entre autor, narrador e personagem, o forte investimento na subjetividade e na memória permite falar em elementos autobiográficos no sentido lato: fragmentos de experiência e de visão de mundo do autor filtrados pela ficção