António Bulcão “Se não for a bem, vai a mal”.

Views: 5

“Se não for a bem, vai a mal”.
A primeira vez que ouvi a expressão foi por causa de um xarope para a tosse.
É preciso explicar que cresci nos anos sessenta do século passado, na ilha do Faial. Um tempo de vacinas de deixar marcas nos braços. Anos de óleo de fígado de bacalhau, senhores. Ainda hoje não faço ideia de quais seriam os benefícios de uma coisa que só ouvida dá vómitos – óleo de fígado de bacalhau.
Tomado à colher. Só muitos anos depois inventaram umas cápsulas transparentes com aquilo dentro, custava menos a tomar, mas o primeiro arroto trazia o nauseabundo gosto à boca. Na escola, era a mesma colher para todos, num processo democrático nojento, a gente em fila e o professor primário com o frasco na mão esquerda e a colher na mão direita a enfiar-nos o viscoso líquido pela goela abaixo, quase juro que com secreto prazer.
Uma época histórica em que todos os remédios que sabiam mal eram para o meu bem. E os supositórios, meus amigos? Ardiam no cu que nem malaguetas, mas eram para meu bem, baixavam febres, desenrolavam tripas, ajudavam a respirar nos ataques de asma. Sim, leitores, a asma atacava. Fechava alvéolos, enchia o teto do quarto de estrelas que não existiam senão no meu desespero por ar nos pulmões. Pomadas para as costas, barradas em algodão, ventosas e eu atacadinho.
Lá me levaram meus pais para São Miguel no Carvalho Araújo, no Faial não havia especialistas. Colchões de casca de milho proibidos a partir dessa viagem, na cidade já dormia em Molaflex, mas nas casas de campo era casca de milho que me tapava os brônquios. Não havia bombas como há hoje. Era sofrer, puxar o supositório para cima em arrepios de suor pingado na almofada e rezar para que o ar que entrava pelas janelas me descobrisse.
Os xaropes eram amargos como estupores. Nada destas coisas modernas, com sabor a laranja ou morango. Eram quase sólidos, a muito custo descendo o canal das sopas e com o tal sabor que obrigava a agarrar as bordas no colchão de um lado e do outro para melhor suportar a tortura. Vinha o médico ao domicílio, auscultava costas e peitos, via línguas e gargantas com a gente a dizer “ahhhhhhh”, e depois receitava. Uns rabiscos num papel que só os farmacêuticos conseguiam ler e depois era rezar para que o próximo xarope não fosse tão mau como o anterior.
Mas o próximo foi o pior de todos. Tomado depois do pequeno-almoço, tentei recusá-lo ao almoço. “Toma que é para teu bem”. Mantive a recusa. Veio, então, a tal ameaça: “se não for a bem, vai a mal”. Nestas coisas meu pai não brincava. Mas eu já tinha mamado uma colher a bem, decidi experimentar como seria a mal e mantive a boca fechada. Com a mão esquerda tapou-me o nariz e com a direita enfiou-me o maldito xarope na boca.
Todos estes infantis acontecimentos tiveram lugar vinte e poucos anos depois da Segunda Guerra Mundial. A Europa a tentar reconstruir-se depois de ter ficado em ruínas. A CEE tinha nascido apenas há escassos dez anos, e uma das suas anunciadas intenções era a manutenção da paz. E, de facto, depois dos horrores ainda tão na memória das gentes, pensei que o mundo tomaria outro rumo, o ser humano criaria juízo.
Já tinha havido demasiadas guerras, ao longo de séculos, e sempre por motivos parvos: mais território, mais riquezas, mais petróleo, mais terras raras. Estaria na altura de parar. Pura ilusão. As guerras a que o mundo já assistiu nos oitenta anos que se seguiram à Segunda provam que o ser humano não presta para nada.
O meu sonho de paz na infância, de que os únicos ataques seriam de asma e as únicas bombas inventadas seriam para a atacar, eram apenas devaneios de um rapazito tolo.
As coisas que o Hitler dizia antes de espalhar o terror estão documentadas e muitas delas conhecemos. Não sei se terá dito “se não for a bem vai a mal”, como diz agora o Trump em relação ao seu desejo de ter a Gronelândia. Mas se não nos pusermos a pau com os tiques dos ditadores, acabaremos a viver em ditadura.
(publicada hoje no Diário Insular)
 

Margarida De Bem Madruga

Caríssimo, era assim e sabíamos que era assim…
Agora o mundo anda às avessas e não temos a mínima ideia do futuro. Até desconfio que não temos futuro. Vamos viver nos interstícios do tempo e dos tempos, até que a morte nos separe. …

See more

Câmara de Bragança poderá lançar novo concurso para o Museu da Língua

Views: 10

A Câmara Municipal de Bragança admitiu lançar um novo concurso para a construção do Museu da Língua Portuguesa, que está a ser construído nos antigos silos da cidade, e que deveria estar concluída em 2024.

Source: Câmara de Bragança poderá lançar novo concurso para o Museu da Língua

“Diário de um homem só – Uma viagem interior”,

Views: 10

Diário de Um Homem Só
https://www.letraslavadas.pt/diario-de-um-homem-so/
 

  • Diário de um homem só – Uma viagem interior”, de J. Chrys Chrystello, é um livro em forma de diário íntimo que acompanha a solidão, os pensamentos e a autoanálise de um homem já maduro, num registo muito reflexivo e ensaístico
    Tema central

    • O foco é a condição de solidão contemporânea: um homem que vive muito consigo mesmo, observa o mundo e interroga o sentido da própria vida, do envelhecimento e das relações humanas
    • A “viagem interior” é mais importante do que qualquer deslocação física: trata‑se de revisitar memórias, escolhas e identidades, num balanço existencial feito com lucidez e ironia

    Estilo e tom

    • A escrita é culta, diarística e confessional, misturando reflexão filosófica, apontamentos do quotidiano e comentários sociais, num tom entre o íntimo e o critico
    • O narrador mostra um sujeito que se assume quase eremita, mas atento ao mundo, usando o diário como espaço de liberdade de pensamento e de autoquestionamento continuo

    Quais são os principais temas abordados no Diário de Um Homem Só
    “Diário de um homem só” trabalha sobretudo os temas da solidão, da autoanálise e da busca de sentido para a própria vida. A narrativa gira em torno de um homem isolado, que escreve para não enlouquecer e tenta organizar aquilo que sabe de si mesmo
    Principais temas

    • Solidão: o protagonista encontra‑se “no ápice de sua solidão e falta de amor”, sentindo-se desligado dos outros e afetivamente esvaziado
    • Memória e passado: ao “buscar o passado”, ele revisita lembranças, erros e relações antigas, numa espécie de acerto de contas com a própria história
    • Identidade e autoconhecimento: o diário funciona como espelho; ao narrar a si, o sujeito raivoso e desconcertante tenta compreender quem é, por que chegou a esse ponto e que tipo de futuro ainda pode construir

    No “Diário de um Homem Só”, o passado aparece mais por imagens recorrentes ligadas à memória, ao luto e ao tempo do que por grandes acontecimentos exteriores. Esses símbolos funcionam como gatilhos para a recordação e para a tentativa de reconstruir a vida que existia “antes”.​
    Objetos ligados à pessoa perdida

    • Objetos associados a Helena (fotografias, cartas, lembranças materiais) funcionam como âncoras de memória, trazendo à tona cenas do passado conjugal e familiar
    • Cada referência concreta à mulher morta transforma‑se em símbolo de um tempo em que havia amor e companhia, sustentando o contraste entre “antes” e “depois” do luto

    Diário como símbolo

    • O próprio diário é um símbolo do passado: escrever “o que sabe de si mesmo” implica vasculhar lembranças, reorganizar cronologias internas e recontar a própria biografia
    • Ao registar memórias em forma de escrita, o narrador tenta fixar o que teme perder, usando a palavra como forma de preservar o que o tempo e a morte já levaram

    Tempo e datas

    • Datas, alusões a “outros tempos” e marcas de idade funcionam como símbolos do avanço inexorável do tempo, sublinhando a distância entre o presente solitário e um passado mais pleno
    • Essa insistência em localizar acontecimentos no “antes” e no “depois” da perda transforma o tempo em eixo simbólico do livro, organizando toda a viagem interior em torno da memória

    A solidão em “Diário de um homem só” não é apenas um estado, mas a força que molda o modo como o protagonista pensa, sente e se relaciona com o mundo. Ela determina o tom da narrativa, o ritmo da “viagem interior” e o tipo de crescimento (muitas vezes doloroso) que ele experimenta
    Intensificação da autoanálise

    • A ausência de vínculos presentes empurra o protagonista para dentro, fazendo com que ele examine obsessivamente o passado, os erros e as perdas, num processo de autocrítica implacável
    • Esse isolamento produz um olhar extremamente lúcido, mas também duro, sobre si mesmo: a solidão afia a consciência, ao mesmo tempo em que amplifica culpas e ressentimentos

    Relação com o mundo e com os outros

    • Por viver “no ápice de sua solidão e falta de amor”, o protagonista passa a ver o mundo com desencanto, desconfiando das relações afetivas e das promessas de felicidade compartilhada
    • A solidão cria uma distância quase irreversível entre ele e os outros, o que o leva a preferir o refúgio da escrita e da memória a qualquer tentativa real de reaproximação social

    Transformação interior

    • Embora o isole, a solidão funciona como motor de transformação: é nesse vazio afetivo que ele se obriga a encarar quem se tornou e a repensar escolhas, identidades e expetativas
    • O desenvolvimento do protagonista é menos uma “superação” da solidão e mais um aprendizado para conviver com ela, integrando-a à própria visão de si e do sentido da vida.

    Uso da primeira pessoa e voz íntima

    • O narrador fala em primeira pessoa, num tom confessional, centrado na própria história interior: esse “eu” que se expõe, analisa a própria vida e vasculha lembranças é um traço clássico de escrita de si
    • A focalização quase exclusiva na subjetividade do narrador (pensamentos, sentimentos, culpas, memórias) aproxima a obra das formas autobiográficas e diarísticas discutidas por teóricos como Lejeune, que destacam a narrativa retrospetiva do próprio “eu”.​

    Experiência de solidão e envelhecimento

    • O protagonista é um homem maduro, marcado pela solidão, pelo desencanto e por um balanço da vida; esse tipo de personagem frequentemente funciona como projeção, ainda que ficcionalizada, de inquietações e fases vividas pelo autor
    • A insistência na autoanálise, na revisão do passado e na tentativa de compreender “como chegou até aqui” é típica de narrativas em que a experiência real do autor serve de matéria para a construção do personagem, mesmo com liberdade ficcional

    Diário como forma de escrita de si

    • A estrutura em forma de diário reforça o pacto de intimidade: o texto se organiza como registo de uma vida, retomando fatos, afetos e perdas, o que se aproxima das práticas autobiográficas descritas pelos estudos sobre literatura intima
    • Mesmo sem uma declaração explícita de identidade entre autor, narrador e personagem, o forte investimento na subjetividade e na memória permite falar em elementos autobiográficos no sentido lato: fragmentos de experiência e de visão de mundo do autor filtrados pela ficção

    ão” da solidão e mais um aprendizado para conviver com ela, integrando-a à própria visão de si e do sentido da vida.

Uso da primeira pessoa e voz íntima

  • O narrador fala em primeira pessoa, num tom confessional, centrado na própria história interior: esse “eu” que se expõe, analisa a própria vida e vasculha lembranças é um traço clássico de escrita de si
  • A focalização quase exclusiva na subjetividade do narrador (pensamentos, sentimentos, culpas, memórias) aproxima a obra das formas autobiográficas e diarísticas discutidas por teóricos como Lejeune, que destacam a narrativa retrospetiva do próprio “eu”.​

Experiência de solidão e envelhecimento

  • O protagonista é um homem maduro, marcado pela solidão, pelo desencanto e por um balanço da vida; esse tipo de personagem frequentemente funciona como projeção, ainda que ficcionalizada, de inquietações e fases vividas pelo autor
  • A insistência na autoanálise, na revisão do passado e na tentativa de compreender “como chegou até aqui” é típica de narrativas em que a experiência real do autor serve de matéria para a construção do personagem, mesmo com liberdade ficcional

Diário como forma de escrita de si

  • A estrutura em forma de diário reforça o pacto de intimidade: o texto se organiza como registo de uma vida, retomando fatos, afetos e perdas, o que se aproxima das práticas autobiográficas descritas pelos estudos sobre literatura intima
  • Mesmo sem uma declaração explícita de identidade entre autor, narrador e personagem, o forte investimento na subjetividade e na memória permite falar em elementos autobiográficos no sentido lato: fragmentos de experiência e de visão de mundo do autor filtrados pela ficção

 

Emanuel Areias, Presidente Do Comissariado Dos Açores Para A Infância: “É Essencial Promover Uma Cultura Que Valorize Verdadeiramente A Infância E Proteja O Direito De Participação Da Criança” – Diário Dos Açores

Views: 5

O Comissariado dos Açores para a Infância, entidade de âmbito regional criada em 2016, que funciona na dependência do Governo Regional, tem por missão a

Source: Emanuel Areias, Presidente Do Comissariado Dos Açores Para A Infância: “É Essencial Promover Uma Cultura Que Valorize Verdadeiramente A Infância E Proteja O Direito De Participação Da Criança” – Diário Dos Açores