Categoria: açorianidades açorianismos autores açorianos

  • ANIBAL PIRES APRESENTA

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    Amanhã, pelas 18h00mn, no Museu da Graciosa, apresento o livro “por um fio de seda”, de Rui Lopes
    May be an image of 1 person and text that says "0 Museu da Graciosa Rui Lopes êm re de o(a) convidar ara apresentação de a "Por um fio de Livro de da ida se prol seda" em ilustrações baseadas num episódio do Cmdte Francisco Afonso, quem homenagęm, bem como todos os que, dos outros, arriscam a sua vida 0 livro será apresentado por Anibal C 21 de abril, domingo, do Museu da Graciosa. Pires as 18h00 no átr.io MUSEU CRACIOSA GOVERNO DOS DOSAÇORES cultura"
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  • e.38. (ao daniel filipe) abril 30, 1973: um ano antes da revolução de abril

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  • Carolina Cordeiro,

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    Sintam-se convidados!
    São Miguel – 20 de abril, às 20 horas, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional – Ponta Delgada. A apresentação será realizada por Carolina Cordeiro, contando com animação musical de Joana Raposo e Vitor Tavares.
    O romance, de José Carlos Costa, cuja ação se situa no ano de 1840 e tem como pano de fundo o lugar do Guindaste, na Candelária da ilha do Pico, dá conta de episódios da vida Venceslau, velho feitor que durante décadas serviu, com zelo e dedicação, a família Arriaga que ali tinha por hábito veranear.
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    Urbano, Terry and 3 others

  • surrealismo 1972

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    e-33 o futuro é hoje ago 10 1972

    era como sentir um deus dentro de mim e depois aquilo começava a mexer, a mexer, borbotando, saía da pele, trespassando os ossos, raspando o ar ao mesmo tempo que as mãos: como quem corta um pão enquanto permanece imutavelmente estático, sem queixas, sem gemidos nem dores, moldado ao gesto, elástico.

    era como sentir o tempo parado amanhã e apenas se visse o futuro em tudo, até no nevoeiro que crescendo dentro de nós já era húmido cacimbo, lá fora objetos mudos, quietos como jamais, nem dez segundos tinham passado e já era amanhã, vermelho, gorgolejante (o futuro às vezes pregava destas partidas).

    olhos sem brilho desorbitados, vagos, num qualquer espaço que nenhum de nós sabia identificar: como se estivéssemos do lado de lá e quando nos mirássemos, esconder-mos-íamos com pavor.

    então, vinha o espelho, as pessoas perguntavam por si próprias e as imagens lá perduravam, as pessoas não.

    os rostos abrigavam-se num qualquer buraco à procura da luz que não vem dos buracos, já era dia, as ideias cavalgavam os minutos à desfilada por entre mudos sorrisos tolerantes de loucura. ninguém acreditava na linguagem dos olhos que já eram pó e habitavam um qualquer caixão. no entanto, ali estavam indesmentíveis, lembrando-nos como continuávamos vivos, de pé, naquele templo de morte.

    era costume pendurarmo-nos no tempo e os minutos eternos e futuros brincavam connosco, puxando-nos as cordas para nos balançarmos aflitos e temerosos já que não saberíamos viver noutro tempo.

    e já tudo era música, vinha dos olhos, penetrava o sexo até os dentes rangerem de prazer. tudo era música incluindo o encarnado das paredes nuas (jamais haviam sido caiadas – como numa acusação) e vinha dos poros de suor, do cabelo empastado como bolas à chuva de verão (que jamais tombará!). sempre a música, na luz, nos sons irrepetidos, mijando na lua, na poesia, na inutilidade de corrermos atrás do que sempre nos fugirá, irremediavelmente parados num vasto campo atulhado de urnas vazias – JAMAIS ALGUÉM EXISTIU LÁ. –

    o som alucinado, as pessoas bem bebidas saindo com passos trôpegos, proclamando profissões entre confissões que nunca serão assinadas porque sinceras.

    e um cão sem sexo pois nunca foi cão, encosta-se a um poste, fitámos o animal como se ele existisse e nos chamasse e houvesse poste, depois afagávamo-lo com o olhar, dormiríamos descansados com o poste seco, sempre esteve, apenas poste, nada mais.

    um gato mia lugubremente a um guarda-noturno, sem rua nem farda, pois nunca foi admitido e continua a viver iludido, enquanto lhe pagam a fome com sorrisos de comiseração, e diariamente se arrasta pelas portas que lá não estão mas deviam, e já há quem lhe atire pedras, as quais não lhe acertando o trespassam, caindo atrás dele como se não o tivessem atingido, o que é mentira, pois as pedras tombam magoadas com restos de sangue coagulado, e o sangue das pedras é vermelho como o das estrelas que não brilham enquanto houver uma chávena de café para estancar o sangue com merda.

    já é noite, sempre o foi, mas o sol não acreditou até ver uma ratazana morta de medo e um polícia à paisana num bordel, vestido de luxo como morcego de raça, por entre pedras preciosas de mil enganos fosforecendo na treva.

    um mendigo busca um lato de lixo bem conservado e próspero para deitar os seus restos (que civismo! – comentarão e a esses responderei que nada disto existiu). depois, alguém irá, na sua opulência, remexê-los (inventar-lhes-á um nome, talvez banquete, palavra que conhece por ouvir dizer) e continuará de mãos bem estendidas sem que alguém vá e as acaricie (exceto com a saliva do desdém).

    a rua vazia como se ninguém a ativesse atravessado desde há séculos, o que também é mentira (outra), pois das pessoas sobraram sombras (ficam sempre para alguém ir e guardá-las) e cabeças de crianças que não nasceram, espetadas no chão para exemplo.

    passavam sem as verem, pisavam-nas e elas sem um grito, até que uma tropeçou e todos se calaram, era tarde, já chegara a hora de recolher, não havia tempo de arquivar imagens de agonia. já as gentes voavam mesmo sem quererem, incapazes de saberem como evitar pisar essas flores estranhas que ninguém colheria.

    cansadas em casa sem asas nem memória (que esta é uma dor), queriam dormir tranquilas e drogavam-se, pílulas coloridas, cada uma era cabeça de criança em tamanho de alfinete sem ponta nem voz.

    o sangue jorrando continuadamente como cascata em sonhos, como alguém quase a afogar-se querendo acordar para não morrer e logo acordando nadavam desesperadamente, não havia já quarto ou sala ou casa e ninguém restava para se lhe narrar o sonho.

    era assim naquele tempo até que um génio inventou a fala e todos gritaram como se fora vital, então, outrem gritou a lembrança de que já antes se entendiam por gestos e daí nasceu o silêncio.

    depois o hábito, o esquecimento, sem saberem o que existira antes do silêncio, e então já eram sapos de enormes bocas abertas, nem precisavam de nadar para (não) morrerem, pegajosos agarravam-se à paisagem evitando a todo o custo cair nela, dando-lhe cor sem movimento; como tinham o dom genial da voz sempre que respiravam e não sabiam que o faziam, logo morriam de novo (desta vez sufocados).

    filmes mudos não havia, eram todos toupeiras à custa de terem os olhos vendados (para não dizerem do que viam), escavavam, sem uma palavra, incitamento, e tudo ruía por toda a parte.

    deus não fora ainda inventado – nem era preciso – ninguém pensava e se o faziam, pensavam que não podiam, e acreditavam que não (assim estava determinado para não se contestarem dogmas).

    foi nessa altura que a estrela se intitulou um qualquer nome e desatou a rodopiar, percorrendo o espaço em fuga interestelar, deixando para trás um rasto invisível que só tomava forma na imaginação das outras estrelas, as quais vinham de noite passear o cosmos, afastando poeira à sua passagem, desafiando o tempo, essa sucessão de instantes inacabados, infindavelmente continuados e perdidos desde o início, pois tudo foi sempiterno (até o silêncio) por nunca ter existido.

    esta noção de amanhã é falsa, equívoca, ainda falta inventar o “agora” como quem pede desculpa e não sabe, e já de trás todos gritam dizendo que sim para se suspenderem da sua total ignorância sem terem de admitir e confessar a sua inexistência, e então, de novo, inventam algo chamado “ontem” para se autodesculparem, e logo lhes agradecemos sem sabermos porquê.

    não estamos desesperados para nos suicidarmos com palavras, lá no íntimo nem a certeza de termos jamais nascido, tudo vago, sem contornos, sem cor nem forma.

    e.35. a um natal que nunca chegou a ser. dez, 26. 1972

    algo sem nome, premeditado (como quando se vê um boneco de barro decapitado), agitava-me pelos milhares longínquos demograficamente mortos no cataclismo nicaraguano.

    correndo, desenfreado, retomava consciência do meu corpo, ofegante.

    parava perscrutando o brumoso ar que a cidade me reservara: sempre igual, monótona, saturante.

    virava costas, enganando-me com um qualquer sorriso de ocasião (dos que chegavam apócrifos e vinham pousar nos meus olhos desencantados) e seguia, buscando na extremidade dos meus sapatos uma solução: a resposta.

    caminhava, alheado de mim e da catástrofe, as respostas variavam obcecantes – vãs esperanças em cada passada – à distância exata de mim próprio.

    pontapeava uma razão nova, uma ordem nova por entre a terra enlameada (chegaria muito mais tarde).

    atitude política – diriam, mais tarde, os carrascos do tribunal das ideias repetidas – mas, foi assim que [em 1972] cheguei à idade de 23 (vinte e três), já o vento da insatisfação varria a casa estranha da experiência por soletrar.

    transido chegou dezembro como quem anuncia a lua nova, o natal, porquê negá-lo?

    havia luzes, é certo, um pinheiro engalanado como quem quer depor palavras gastas, nunca inventadas (afinal, sempre existiram).

    tudo era decalcado, espelhado, até mesmo os sapatos na chaminé-mistério, não fossem os miúdos desconfiar…

    nascia revivificado um sorriso arrancado à força, as frases de ocasião e o mais.

    no entanto algo destoava – talvez eu – naquele universo de múmias empoadas, até meus pais quereriam sentir-se diferentes mas não conseguiam, apreensivos, por todos os natais arderem tão depressa, impiedosamente.

    tudo me irritava, músculos faciais contraídos (seria aquele o sorriso próprio?), acabrunhado pelos bolos, pelos doces tão tradicionaizinhos, tão habituaizinhos, tão sem-senso.

    no instante futuro dei comigo do lado de fora, especado de pé à porta, como um estranho, nunca como mendigo pois é aviltante pedir no natal, usufruindo da pseudo-tomada de consciência dos incoerentes habitantes-do-dia-a-dia.

    jamais esqueci o horror, a afronta sacrílega de ter saído na mais bela noite do ano, de amor e compreensão universais, blá, blá, blá e blá.

    andei à sorte, nem sei já por onde, em que nuas e ventosas calçadas e ruas.

    nem um só café aberto aquela hora, era natal e eu só na cidade sem rosto, só com os meus passos vagabundos errando sob catadupas de luz.

    nem um carro, apenas aqui e além o alarido quente de casas habitadas.

    até os pobres haviam emigrado.

    desci até à baixa, lá onde as pessoas e as gentes se acotovelam pejando ruas e passeios durante o dia, e nem um guarda-noturno (será que os ladrões não comemoram o natal?), nem um lixeiro, nem um bêbedo, ninguém da fauna costumeira.

    num solitário banco de madeira deixei que o tempo voasse sobre nós com aquela carícia quente de quem já não mede.

    indiferente ao frio pensei, deitei contas à vida, senti-me infinitamente minúsculo ali no centro da minha curiosidade, da minha sinceridade ofendida.

    ergui-me (muitas estrelas haviam já aparecido e passado sobre mim, alheadas da data-estátua-de-todos-os-calendários), voltei a casa, mãos vazias e vagas, todo eu me desvanecia na conclusão a que chegara.

    em casa, as pessoas endomingadas, caras alegres, cor de tição (ou seria carmim?), o bom fogo, a alimentação farta, as conversas amenas e despreocupadas de natal (que tal achas o meu vestido para a “passagem”? as notas do …inho foram muito boas e as tuas …inha?), por vezes a puxarem ao sentimento (quem sabe onde estaremos nós daqui a um ano?), para resvalarem até à queixa familiar e improfícua da enorme subida do custo de vida, etc.,.

    então, não sei bem porquê fiz-lhes sentir que já nascera e estava ali acordado, discuti com raiva, berrei (talvez tenha também falado), gesticulei enquanto me deixaram, agitei as pseudotranquilas consciências, adormecidas pelo calor de rebanho que ali eram; gritei tudo o que era verdade e haviam calado, afirmei direitos, incongruências, apelei para a falta de senso de semelhante reunião onde tudo cheirava a mofo (até as ideias), falso e malsão, derrubei as fachadas, as palavrinhas doces (próprias das sobremesas).

    vi os rostos animados e alegres transfigurarem-se, afogueados, incomodados – quase até à congestão – ai, cambaleei no ardor excessivo da nova luta e calaram-me, isto é, calei-me, esgrimira sozinho até me sentir acossado e ninguém me perdoaria por ter despertado o que se esforçavam por manter em permanente letargo.

    jamais esqueci esse natal, o primeiro, talvez único, em que senti a plenitude do seu significado.

    era como ver presépios nus, árvores tão-só árvores, homens sem roupagens de fingimento, sem esses falsos trejeitos de fraternidade, sem caridade instituída por calendário, derrotados, amarfanhados como se fossem homens – nada mais.

    vi-os a todos vencidos, como maus atores, péssimos amadores sem terem ensaiado a peça que só é levada à cena uma vez ao ano, e, conscientes da exigência do público sempre predisposto a deles exigir tudo.

    foi um dia, talvez igual, mas um natal diferente sem esoterismos, mas mais sentido na sua milimétrica dimensão.

    nesse longínquo ano não nasceu o menino-jesus para eterno descanso do homem, nem houve um pai-natal descendo da chaminé, foi um dia (de natal) como todos, triste…morrera apenas uma decrépita tradição, ultrapassada pela rotina de cada dia, com a beleza gasta dos astros que não brilham porque incansavelmente lutam pelo direito à vida.

    para além do espanto amordaçado às bocas estarrecidas, para além da incompreensão, as crianças ficaram marcadas, perdida que foi a ingenuidade, não pularam, nem tampouco gritaram de alegria.

    as prendas pareceram muito mais modestas (aliás, pareceram ter o seu valor real e exato), as caras, outrora gaiatas, moldaram-se fúnebres, enquanto as cabeças abanavam lentamente (último refúgio), para não aceitarem o pesadelo, um estranho (já não eu) rompera as tréguas do natal, algo se perdera para sempre, talvez a quase-sensação de paz eterna e imorredoira.

    hoje, já quando a voz se me entaramela um pouco ao peso dos anos (consumidos numa voragem acelerada) escuto um quase-vazio dentro de mim, como um tremendo “punch” por ter perdido o meu natal.

    lá fora, a vozearia, a alegre música da exaltação infantil, movimento desenfreado perpetua-se a data-acontecimento, as ruas regurgitam, há crianças impacientes e ainda ingénuas (até quando?) que anseiam pela hora sagrada de descobrir a chaminé como fonte de mistérios dum só momento.

    algures, longe no tempo ou no espaço, outras combatem uma qualquer guerra sem idades, ou choram à chuva, ao frio, ao medo e ao vento seco da fome, na ignorância dessa palavra quente e mágica: natal.

    tiritam, unhas fincadas na pele que escorre dos dedos, ossos sorvendo o calor das pedras e dos remendos multitudinários.

    hoje para elas é dia de jejum (mais um!) porque ignoram que não é Páscoa.

    só amanhã ou mesmo já logo pela madrugada haverá restos nos latos de lixo (para elas é sempre amanhã, é amanhã a resposta única que a esperança tem para calar o hoje).

    também hoje morrerá gente, para sempre, aqui ou na Nicarágua, em guerras, calamidades, acidentes ou incidentes, do mesmo modo que naquele já longínquo ano morreu a tradição.

    por tudo isto, estou mais só, triste e apagado: a partir de hoje já não tenho natal

  • a vida antes do 25 abril…estórias da minha terra. jun. 12, 1972 1.

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    https://blog.lusofonias.net/wp-content/uploads/2024/04/e32.pdf

     

    stórias da minha terra. jun. 12, 1972

    endormido corpo de pisar pedras

    notívago leito

    proibidos sonhos

    sensacionalista da miséria alheia

    o repórter bateu a chapa

    primeira página de amanhã

    cidadão-sem-rosto

    identificado

    o corpo de madrugar

    pagará taxa de turismo

    (a cidade

    ruas e jardins

    são do povo

    não os usurpem!).

    2.

    oito anos descalços

    duas estrelas cavas

    na puída esquina

    policromático recorte

    remendos de olhar severo

    faces nuas e suplicantes

    “dois pensos uma c’roa”

    (aqui começa

    hoje

    a ficção infinda do orgulho

    em destino de pobre)

    3.

    “quem compra?”

    soletra sem futuro adolescente

    nas novas avenidas da mentira

    fachada de estômago às moscas

    pregando revoltas de dores postergadas

    ilusórios ecos de recusa

    silêncio-da-fome-sem-dias

    perdida pressa de passos

    nem mãos nem afagos

    murchas violetas

    cestos de eterna-espera

    (decidida

    incisivamente

    estrangulemos esta voz

    pobreza incómoda nos desperta

    compremos um sonho

    já sequestrado

    na-fome-da-ilusão-sem-dias).

    4.

    criança sem escola

    também a ti

    interditaram a imagem e o invento

    não vendas

    parcas esmolas em retrato-de-esquina

    apregoa tão-só

    pensos de curar todas as misérias

    árdua aprendizagem do dia a dia

    inditosa saciedade do ócio

    (nenhum óbolo

    paternalista

    caritativo

    sofreará o vício de séculos espoliados).

    5.

    famílias há

    aos gritos

    morrendo onde calha

    qualquer sol

    qualquer ocaso

    sugadas dia a dia

    gratuitamente

    promíscuas enxergas

    moribundas

    subvivas

    sem heroicas gestas

    prostradas

    resignantes

    (surdas rebeldias

    assanham-se homens

    assacam-se cães

    CUIDADO! silenciam a voz do povo

    com místicas perigrinanças)

    6.

    dileta terra

    aqui o clima

    a natural beleza

    turísticos pósters da indigência

    mascarem-se de pedintes os indígenas

    todos

    decorem-se cidades

    ruas

    vilas

    praias

    esplanadas-do-torpor-repetido

    depois

    cobrem-se as esmolas

    todas

    (milhares de fardas por pagar

    dezenas de conselheiros a engordar).

    7.

    saudade

    palavra rara

    sonorífero da vontade

    sempre adiada

    repartida

    palavra antiga

    dor nova

    (re)fundida

    desolados

    extensos feudos e baldios

    para turista vir-ver-voltar

    e já partiam novos e velhos

    colonizadores da ambição desvairada

    eterna

    embaladora

    esventravam povos

    lendárias famas

    viúvas de vivos

    vozes de fábula

    (no reino-do-clima-do-perpétuo-sol

    nunca espantou saber

    única

    a saudade

    • certeza histórica

    de todas as cruzadas).

    8.

    opiados nasciam

    analfabetos

    ministros havia

    tecnólogos da (des)informação

    instituíam concursos

    festivais

    eleições de misses

    para as massas

    folclores de aluguer

    touradas

    fados

    mulheres

    no reino-sem-esperança

    o povo

    anestesiado e grato

    bebia

    o suor

    calado

    bailava o vinho

    chorava fadas de folhetim

    batia palmas

    ao sagrado retrato

    insensíveis olhos

    via inaugurações

    escolas

    fontanários e pontões

    via casacas

    ministros

    presidentes

    banquetes

    jantares

    comemorações

    9.

    esqueletos de domingo

    marginais habitantes do trabalho

    sem futebol

    longa espera

    plácida contemplação

    perdidos oceanos

    da morte mais lenta

    sonâmbulos visionários do sacro império

    perene destino de colonizadores

    bronzeados pelo sol

    (pouco e tímido porque grátis)

    rastejavam

    esmoleres de fim de semana

    milionários-da-ilusão-repercutida

    heróis-de-todo-o-ano

    à conquista de um só mês

    (onde o dinheiro para comprar um verão decente?)

    que restava senão endormir o desejo insatisfeito?

    convictos sebastianistas

    do nevoeiro

    povo

    de discursos ouvidor

    de impostos pagador

    gente

    cantada

    decantada

    desencantada

    escrava-do-sempiterno-senhorio-da-tradição

    por que arrastas imagens de liberdade?

    promessas que não saberias usar.

    10.

    vou ficar atento

    anfitrião

    alguém pode espertar

    sou urgente para o adeus

    (espanto desfraldado

    ingénuo bandeirante

    quem me acredita?)

    alguém pode morrer

    defraudado

    longe

    antes do tempo?

    NO INSTANTE EXATO EM QUE FALAR!)

  • cenas da cidade 1971

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    e.29. cenas de cidade, set 24, 1971

    1.

    por vezes vemos faces curiosas, rugas e cãs a assomarem às janelas, enquanto dentro do elétrico nº 214 vamos percorrendo as ruas e imaginado com fértil imaginação esse catálogo de pessoas idosas, sem filhos, viúvas (a grande maioria pela forma como vestem), fechadas num mundo a que chamam casa, limitando-se a esperar com paciência o dia em que deixarão de ser.

    até lá matar-se-ão aos poucos com o sopro de vida que ainda respiram enquanto se amedrontam com o que se passa cá fora. outras haverá solteiras, há muito habituadas a partilharem a solidão com inofensivos animais domésticos, vítimas de carinho e amor excessivos não extensivos a outro ser humano. sempre que passo por essas personagens velhas de olhar triste e vago, começo a imaginar quantas histórias não teriam ali para me contar, histórias de amor, de famílias felizes que nunca chegaram a ser, mas contento-me – como membro da sociedade protetora dos animais – que nunca tenham sido.

    enquanto pachorrentamente o elétrico vai percorrendo esta cidade velha, olho os jardins plenos de viço e calmamente passeio pelas sombras sob as quais se abrigam jovens enamorados, amantes com medo que o mundo acabe já, para quem mais ninguém conta num egoísmo de corpos que se encontram.

    mais adiante, à soleira de uma porta (prédio escurecido pela idade e pelas rendas fixas) numa irreverência profunda de bocas duas bocas unem-se num beijo prolongado enquanto as mãos – distraídas – buscam um pretenso porto de abrigo.

    lá fora passam carregadores numa qualquer estiva, gente e mais de trabalho árduo, que param e comentam, afastando-se lentamente com anseios de escândalo bailando nos olhos lúbricos. para os que insistem em ficar especados às portas há sempre uma ou outra careta grotesca do par. mais adiante nessa mesma rua há uma construção, cinzenta, pouco acolhedora onde se asilam sonhos desfeitos de pessoas cujo fim chegou antes da data marcada, muito antes, muito antes da morte.

    nesse albergue de fome e frio as almas que esperam morrem lentamente de miséria, sem coragem para enfrentarem a esmola e a incerteza do dia-a-dia. para eles e elas a esperança é vã e a assistência social à terceira idade é um mito sob o qual nem abrigar-se podem.

    3.

    foi neste albergue que muitos anos passados, reconheci o par do portal com as mãos enrugadas, a pele mal segurando o peso dos ainda magros ossos, olhos ainda não-apagados sobre bocas murchas, e as caretas que neles notei já não eram de escárnio nem de sofrimento, mas de um longo e resignado amor na pobreza.

    por vê-los assim e por ainda acreditar no amor decidi não mais andar neste elétrico.

  • a língua sanitizada com lixívia

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    o politicamente correto do absurdo via Denise Bottmann
    2 mins ·
    acabo de saber que, segundo recomendação de algum departamento de letras, “esclarecer” é um verbo a ser evitado em monografias por causa de possíveis conotações raciais. Denegrir já estava vetado apesar da sua origem latina nada ter a ver… imbecis…
  • /sucesso-na-Diaspora.

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    Sucesso Na Diáspora

  • -fundo-Jose-Martins-Garcia.pdf

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    Disponibilização Do Fundo José Martins Garcia