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Livro Grande fechado
Tanto havia para ler… e tão inesperadamente se fechou este Livro, em manhã magoada de oitava da Trindade que jamais esquecerei. O telefone, a voz serena e dorida de Américo Viveiros, director deste Atlântico e do Correio dos Açores: Morreu Daniel de Sá! E fez…-se um silêncio de livro fechado. Toda e qualquer palavra estaria a mais! Morreu Daniel de Sá!
Claro que estas “Leituras do Atlântico” teriam de ser sobre este Livro Grande fechado, uma vida única na simplicidade e diferente na multiplicidade de conhecimentos, sempre transmitidos com a fidelidade de pensamento de quem nunca se vergou a modas nem a correntes literárias, porque ele mesmo, o Daniel de Sá, traçou a sua linha de vida, pautada por um grande Amor, a Maria Alice, os filhos e os netos, Marta, Tiago e Isabel e a quem mais possa vir acrescentar a família em beleza e amor (in O Deus dos Últimos, Ver Açor 2011) e por um grande sonho: universalizar a Literatura açoriana sem lhe retirar o encanto da autenticidade insular.
A grande amizade que me une a Daniel de Sá, desde 1973, tolhe-me o pensamento e limita-me a expressão, porque tudo quanto eu quero dizer é como um mar de saudade que bate na dor da ausência e se transforma em espuma de pensamentos que se evola no leve sopro de quem sente que a outra dimensão da vida afinal está mais perto do que aquilo que podemos imaginar.
Dizia Agostinho de Hipona que muitas das honras prestadas a quem morre mais são consolo para os vivos do que refúgio para quem partiu. Por isso, quero falar de Daniel de Sá como se ele aqui continuasse, respeitando os seus gostos, a sua humildade e a sua discrição. Daniel de Sá detestava o elogio fácil e a homenagem de circunstância. Fugia de palcos e passadeiras, com a mesma naturalidade com que se dispunha a ajudar toda e qualquer pessoa que a ele recorresse, para um conselho, uma palavra, uma correcção, um texto ou um pensamento. Era fiel aos seus Amigos e sofria com traições e ingratidões. Nunca competiu e por isso mesmo não pode nem deve ser objecto de competição na sua memória. E porque esta tentação pode existir, de alguém querer servir-se do nome de Daniel de Sá para autopromoção ou outros interesses, deixo aqui o repto a quem de direito para que o nome de Daniel de Sá não seja usado para satisfazer desejos de brilho momentâneo mas seja honrado e perpetuado da única forma que ele quereria: a divulgação dos seus livros e dos seus ensinamentos. Ler Daniel de Sá, levá-lo às escolas, incluí-lo nos manuais e na história, divulgar os Açores e cada uma das ilhas através de textos por ele escritos, eis a melhor maneira de o homenagear, porque o legado cultural que nos deixa é tão vasto que levará anos a ser entendido em toda a sua dimensão. Não cedam as entidades políticas, regionais ou autárquicas à tentação fácil de emoldurar a memória de Daniel de Sá, aceitando propostas mais ou menos oportunistas, porque ele iria detestar e com a sua proverbial calma e frontalidade, declinar.
E há tanto para divulgar a quem pouco conhece de Daniel de Sá, um dos mais marcantes escritores açorianos de todos os tempos. Urge ler, por exemplo, a simplicidade e ternura de A Longa Espera, contos imortais, de 1987, ou a força de Um Deus à Beira da Loucura. Daniel de Sá era um intimista com sede de Infinito e preocupava-o o mal da sociedade que o levou a escrever um grande livro: E Deus Teve Medo de Ser Homem, no mesmo ano em que publicava o magnífico romance As Duas Cruzes do Império.
A Terra, a gente e modo ser açoriano, tudo isto se imortaliza em A Ilha Grande Fechada. Mas a obra de Daniel de Sá passa ainda por A Terra Permitida e O Pastor das Casas Mortas, tudo com o mesmo carinho com que é capaz de narrar as Ilhas, desde Santa Maria – Ilha Mãe até à Terceira, Terra de Bravos, não esquecendo São Miguel, e muito mais, impossível de resumir nesta coluna.
Daniel de Sá escreveu um dia que ao ler um livro, em vez de nos fixarmos no que está dentro dele, devemos concentrar-nos em QUEM está nas sua páginas. O Livro Grande que agora se fechou abre ainda mais esta ilha e estes Açores para a universalidade da palavra e dos afectos, como só Daniel de Sá sabia cultivar!
Até sempre, Amigo!
Santos Narciso
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508 maia [ao daniel de sá] (pico 9 agosto 2011)
das penedias da tua maia
avistas o mar
teme-lo
afugenta-lo
com tuas palavras
narras histórias antigas de encantar
contas lendas de tempos que não vivi
habito lendas que ainda não leste
escrevo o que vivo e sinto
da janela do meu castelo
voltado ao grande oceano
à ilha mágica da autonomia
em nevoeiro de s. joão
s. miguel vive em terra
costas voltadas ao mar
por vezes tenho de o largar
da minha lomba
o mar não temo
nem repelo
nem suas águas em descabelo
nem suas terras de tremores
convulsões
medos, pavores, temores
audacioso ou petulante
abro-me ao seu encanto
enleiam-me adamastores e sereias
e me embalam
deixo-me seduzir
sem atropelo
vogo nas ondas
as correntes me levam
velas enfunadas
ao sabor da maré
nem sei quantos
dias, meses ou anos
andei marejando
sem destino
sem vocação
arribo noutra ilha
mística
mágica
abrigo-me na sombra
de seus cumes
vulcões endormidos
no magnético pico
crio este sortilégio
sem bruxas
nem feiticeiras
curandeiras
mezinheiras
macumbeiras
noutros tempos era astrologia
contavas tu daniel
seus segredos sem papel
hoje é apenas
e já
poesia.
saravá poeta amigo
**************
589. 28 maio 2013
a dama de gaze veio na bruma
sorrateira, silente, sem avisos
com passos de veludo
e mensagem nas mãos
trazia apenas um título
escritor, maia
assim, sem mais delongas
sem discutir nem tergiversar
levou o autor
ficamos todos mais pobres e sós
teremos de o reler
e de novo cavaquear
terçar argumentos
e quando a bruma voltar
lembraremos o daniel de sá
que a dama de gaze levou.
****************************
http://www.lusofonias.net/doc_download/836-lagoa-2009-rtp-1-hora.html
MESA QUADRADA COM DANIEL DE SÁ, CRISTÓVÃO DE AGUIAR, MALACA CASTELEIRO E CHRYS CHRYSTELLO NA RTP AÇORES 2009
videos.sapo.pt
faleceu Daniel de Sá
em memória do escritor Daniel de Sá
as nossas homenagens estão em
http://www.lusofonias.net/doc_download/759-caderno-02-daniel-de-sa.html
http://www.lusofonias.net/doc_download/959-suplemento-2-daniel-desa.html
http://www.lusofonias.net/doc_download/1532-daniel-de-sa.html
http://www.lusofonias.net/doc_download/488-declaracao-amor-daniel-de-sa.html entre muitos outros textos…
videos.sapo.pt
*******
dl.dropboxusercontent.com
*******************
Em “DA” (“Diário dos Açores”, Ponta Delgada, 29.05.2013)
e em “Os Sinais da Escrita”:
http://
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Visualização e Download do “DA”:
http://we.tl/hZFVdsLsnH
http://we.tl/CLHoZxZ3AS
Chrys Chrystello,
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www.publico.pt
“O escritor moçambicano Mia Couto acaba de ganhar o Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa!
http://www.publico.pt/cultura/
Conheça a obra do autor: http://
www.rm.co.mz
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faleceu daniel de sá
em memória do escritor Daniel de Sá
as nossas homenagens estão em
http://www.lusofonias.net/doc_download/759-caderno-02-daniel-de-sa.html
http://www.lusofonias.net/doc_download/959-suplemento-2-daniel-desa.html
http://www.lusofonias.net/doc_download/1532-daniel-de-sa.html
http://www.lusofonias.net/doc_download/488-declaracao-amor-daniel-de-sa.html entre muitos outros textos…
Eu já não tenho o gado p’ra tratar,
Nem livros que me esperam para estudo;
Nem tenho de mentir, para ir brincar,
Dizendo que já sei, que já fiz tudo.
Mas chego a crer que um dia, se eu voltar,
A linda ilha dir-me-á quanto me iludo:
Que é pequena p’ra ver, grande p’ra amar,
Que a vida é sempre igual e eu é que mudo!…
Quem voltasse a tirar (inda o desejo)
Às cabras leite, às crias o barbilho,
Sorvendo, de manhã, o sol num beijo.
E gostar de comer, com pão de milho,
Peixe assado e beber chá de poejo,
Ser criança, ter Pai e ser bom filho.”
Daniel de Sá
este foi o texto que escrevi sobre ele no 16º colóquio outº2011 que a ele era dedicado sob o título Santa Maria Ilha-Mãe…
Este é o autor que primeiro descobri e traduzi. Depois dele viriam Dias de Melo, Valadão Serpa, Onésimo de Almeida, Urbano Bettencourt, Cristóvão de Aguiar, Vasco Pereira da Costa, Eduardo Bettencourt Pinto, apenas para mencionar os que estiveram nos Colóquios) e muitos outros que fui lendo e traduzindo. Creio que posso dizer que conto com eles como amigos e companheiros. Cheguei a esta idade sem ter um autor amigo embora amigos tivesse que eram Autores. Foi com eles – e com muitos outros que não nomeio por desfastio – que cresci a apreciar e a ler autores de matriz açoriana.
FALO HOJE e AQUI DE Daniel de Sá, um escritor e um amigo, cuja obra comecei a traduzir antes de o ler, de ser amigo, antes mesmo de saber a cor e o cheiro dos seus lugares de infância e de calcorrear as ruínas onde habitou e das quais se serviu para essa obra que é o “O Pastor das Casa Mortas”. Nesse livro e no plano da linguagem, o autor [1]dá-se ao luxo de exportar, por efeitos de mimética, para uma das regiões mais interiores e montanhosas de Portugal, a Beira Alta, o seu herói em busca de um amor perdido no léxico e na sintaxe dos velhos montes escalavrados por entre o pastoreio numa verdadeira apologia da solidão física e mental que é o retrato de Manuel Cordovão esse lusitano de um amor só para toda a vida. Como o autor diz, logo a começar, trata-se de um livro dedicado “Às mulheres e aos homens que ainda acendem o lume nas últimas aldeias de Portugal.”
Mas não é da Beira Alta que se fala, nem do pastor, nem das casas, é sobretudo das memórias de casas onde o autor viveu e construiu, lentamente, uma teia de imagens, sentimentos e de princípios que nortearam a sua vida. Só conhecendo as ruínas, as pedras que foram casas, os campos que foram pastos e hoje perderam o cheiro, nos podemos vangloriar de entender a sua escrita mariense que sempre o marcou apesar de ter passado a maior parte da sua vida na micaelense Maia.
Guardadas na infância, as reminiscências, fragrâncias e as colorações perpassam ao longo de quase uma centena de páginas numa narrativa utilizando terminologia neutra (i.e. não insular) que deve ser lida como uma ode ao açoriano isolado, de si e do mundo, num amor perdido que se encontra apenas quando Caronte ronda, tal como o açoriano expatriado que volta à ilha para morrer.
Como diz o autor noutra obra “Embora eu vivesse numa ilha pequenina, a cinco minutos de um passeio calmo até ao aeroporto de quase todas as companhias aéreas que havia no Mundo, isso para o caso pouco importa! Aliás esta transposição da naturalidade geográfica do personagem deixa-nos permanentemente na dúvida se a Teresa do “Pastor” não será irmã gémea da outra personagem feminina que acompanha os seus passos numa digressão do livro “Santa Maria: a Ilha-Mãe”. Trata-se de uma visita não só ao Despovoamento do país real, montanhoso, interior e árduo de Portugal mas ao próprio “despovoamento das ilhas”. Aqui não se resgata o imaginário coletivo naquilo que tem de mais genuíno e identificador, antes pelo contrário, se dá a palavra a uma erudição improvável de um apascentador de cabras.
Aqui não há a memória plural das “Saudades da Terra”, que vem desde os tempos de Gaspar Frutuoso, mas sim uma ficcionalização dum fenómeno que não se mimetiza apenas na digressão pela Beira Alta. As Casas Mortas são-nos apresentadas como um resultado inevitável e inelutável ao longo da vida do personagem principal, sem que a sátira ou o humor permeiem a couraça de convicções de Manuel Cordovão, quiçá à semelhança do autor. Existe uma interdependência do autor, dos personagens e do leitor que nos levou a ver e rever dezenas de vezes, uma só passagem do livro para lhe dar na sua tradução em inglês a sonância, a cromia, a harmonia e a poesia das prosas.
De início pensei que seria ocasião única, mas rapidamente me apercebi de que era recorrente à totalidade da obra ficcionada. O resultado é uma prosa rica, densa e tensa, enovelando em diálogos simples e curtos um enredo que nos prende da primeira à última página e me levou a ficar órfão intelectual desde que acabei de traduzir o livro. As suas personagens e a sua escrita fazem de tal modo parte da minha vida que sinto uma espécie de síndroma de Estocolmo, fiquei cativo e apaixonei-me pelos captores…e agora, como vai ser?
Já o outro livro, traduzido na mesma época, “Santa Maria Ilha-Mãe”[2] é uma viagem ao passado, permeada de uma nostalgia quase lírica e uma trova à magia da infância e das suas colorações simples mas bem nítidas.
Fala-se de como os Açores conviveram com o isolamento ao longo dos séculos, sob a ameaça constante dos ataques de piratas, a inculcar ainda mais vincadamente as crenças de origem religiosa — numa ilha que felizmente não foi muito assolada por terramotos nem explosões piroclásticas. Essa mundividência, leva-nos naquilo que pode ser considerado o mais interessante guia ou roteiro turístico desta ilha que ora começamos a conhecer.
O título gerou controvérsia, quer na versão portuguesa quer inglesa (Santa Maria: Ilha-Mãe; Santa Maria, Island Mother”, e como o próprio autor notaria: “Não se trata de “mãe” com valor de adjetivo, mas sim de dois substantivos, tanto mais que os liguei com hífen em Português. Como … uma ilha que é mãe também…”
Diz-nos o autor que “O Clube Asas do Atlântico era um dos meus quatro lugares míticos. Os outros três, também sagrado um deles, eram a capela de Nossa Senhora do Ar, o Externato e o Atlântida Cine. Ainda hoje recordo exatamente o seu cheiro” e todos nós – ao lê-lo – sentimos com ele, os cheiros, as cores e as toadas que nos descreve.
Estes dois livros pertencem a um mesmo tempo, em que “falar do passado açoriano é, também, falar do seu presente, e referir-se ao presente é remeter inapelavelmente ao passado, o que mostra a unidade e a solidez de propósitos do livro”, como diria Assis Brasil, referindo-se ao notável e quase único traço constante de profundo humanismo que informa os textos. Todas as suas personagens, são de tal forma credíveis que nos sentimos transportados ao local e vivemos partilhando os sentimentos dos interlocutores.
Como magistralmente disse a escritora canadiana Ann-Marie MacDonald,
“A tradução, tal como a escrita, é uma arte e uma maestria, com um toque de alquimia. Quando o autor e o tradutor se reúnem, o resultado pode ser inspirador. As nuances traduzem a língua numa forma de arte. [3]
Assim, como tradutor desloquei-me, de novo à ilha em 2010 para conhecer as pedras, as casas e as ruinas do autor que em 2006 mal conhecia quando o comecei a traduzir e a quem aqui hoje rendemos preito. Calcorreei montes e vales, falei com gentes e saltei sebes e muros para ver de mais perto essa memória que criara a magia do livro “O Pastor das Casas Mortas”. E a este respeito escrevia o autor em 2/9/2010
Emocionei-me mesmo, corisco adotivo dum raio. Eu sabia que facilmente descobririas a casa da Ribeira do Engenho bem como, mais facilmente ainda, as ruínas da casa do pastor de ovelhas, de cabras e de vacas. Aquela casinha da Ribeira do Engenho mantém-se tal e qual era há sessenta anos, quando nos mudámos para a de Santana, a tal que nunca tinha sido chamada casa antes de lá morarmos.
Um forte abraço, comovido. Daniel
E à tarde nessa data, acrescentava:
Apesar de tudo, tenho saudades daquelas pedras. Elas não tinham culpa de não terem qualquer nobreza. Nós demos-lhes a possível. De caráter, claro. Obrigado. Obrigado. Um forte par de abraços.
Bastaram as fotos que eu tirara em Santa Maria às “ruínas do Daniel” como então lhes chamei, para provocar uma avalancha de recordações que vinham à tona como se tivessem ocorrido na véspera:
Em 9 de outubro 2010, daniel.de.sá escrevia
… a Sr.ª Francelina e a Almerinda! Meu Deus, como me lembro bem delas! Pois é, e além daquilo tudo ainda cabia a máquina de costura! O que valia é que as mãos de minha Mãe eram tão pequeninas que quase não ocupavam espaço. Mas olha que eram mãos de fada, lá isso eram. Iam várias senhoras do Aeroporto lá a casa à costura e havia raparigas que iam aprender. Aquele retangulozinho dava para tantas coisas e tanta gente! Até se dançava pelas festas principais do ano. Pendurava-se o porco ou deixava-se a carne em alguidares pelo chão, vigiada pela Durana (a cadela que se tornou uma lenda). Havia senhoras com o corpo assim mais para o menos bem feito que gostavam muito do trabalho de minha Mãe, que lhes ajustava o tecido como se elas fossem manequins. Quando meu Pai morreu, tínhamos uns blocos de cimento que tinham sido feitos nos Anjos e estavam postos a secar no murinho do adro da ermida. A minha irmã ia comigo todos os dias regá-los para não racharem e ninguém os roubou nunca! Eram para fazer uma casita, que a Câmara tinha autorizado usar os terrenos baldios em frente aos nossos pastos, numa parte larga da canada. Vendemo-los e serviram para pagar a renda desse ano ao “menino” José António Arruda. A dívida corrente de uma mercearia, nas Pedras de Santo Antão, ficou por pagar. Só a pude pagar cinco anos mais tarde (vim só com o 4º ano). Pedi a um compadre meu que passasse por lá, a perguntar quanto era a dívida, que eu iria em breve na minha primeira visita de saudade e queria pagá-la. Eram 900$00. O dono da loja, que nunca imaginara poder receber aquele dinheiro, disse ao meu compadre: “Ainda há gente séria neste mundo!” Graças a Deus, não éramos dos piores… Mas que estou para aqui a dizer? Esta conversa não interessa a ninguém, só a mim e às minhas saudades. Culpa do Chrys, que me trouxe para aqui estas coisas memoráveis. Abraços. Daniel
Em 10 outubro de 2010, o autor voltava à carga emocional que as fotos das ruínas da sua velha casa em Santa Maria lhe inspiravam:
Vou falar só mais um pouco a propósito das fotografias do Chrys. Só lhes falta o cheiro. Foi precisamente do cheiro que mais falta senti, quando no verão de 2009 fui a Santa Maria depois de dezanove anos sem lá ter posto os pés. Os nossos pastos, sobretudo à volta da casa, eram amarelos e azuis da macela e do poejo. No resto a paisagem estava cheia de murta, giesta ou juncos. Arrotearam tudo. Ficou sem pasto nem jardim. Já não cheira. No Aeroporto, dos velhos cheiros, nada. Só um arzinho dele na casa da Ana [Loura]. A capela de Nossa Senhora do Ar ardeu, e foi substituída por aquela, muito parecida, mas de cimento. Resistiu a torre, que é de pedra, como pudestes ver. Meu Pai trabalhou na sua construção. Chegou a levar às costas uma pedra de duzentos quilos, que está lá, com certeza. Foi no alto daquela torre que meu Pai me mostrou (a única vez que o fez) que ficara muito satisfeito com uma classificação minha. Só confessava a sua satisfação às escondidas, a minha Mãe. Creio que o dizia aos amigos. Ele pedira-me para eu ir fazer qualquer trabalho relacionado com as vacas. Eu tinha de estudar, porque ia haver chamadas orais de Francês, mas disse que não fazia mal, havia de me desenrascar. Meu Pai, que chegou a dizer que então iria ele, estava tão cansado que aceitou que eu fosse. No outro dia fui ter com ele ao cimo da torre, e perguntou-me de imediato: "E então?" Eu respondi: "Tive quinze." Beijou-me, muito contente.
Aquelas silvas, em primeiro plano nas fotos das ruínas da casa, davam umas amoras diferentes de todas as que conheço. Embora gradas, não eram tão doces como as outras, e tinham uma pelica branca, muito ligeira, a cobri-las em parte. Em buracos das pedras daqueles muros as abelhas selvagens construíam uns favos em barro (dois ou quatro) onde faziam um mel castanho, muito escuro, depositando um ovo em cada favo. Eu ia muitas vezes, mais um amigo da minha idade, à procura desses favos, a que chamávamos casulos. Abríamo-los com um espeto e chupávamos o mel trazido na ponta do próprio espeto. Esta espécie de abelhas é tão rara que o Dr. Virgílio Vieira, biólogo, que estuda esse tipo de bicharada cá nos Açores, nunca tinha ouvido falar delas. As matas do Aeroporto perderam o cheiro também. As árvores cresceram muito e são muito menos do que antigamente. O hotel também ardeu, não poderia cheirar como antes. O Clube Asas do Atlântico envelheceu tanto que lhe fizeram uns transplantes, pondo cimento onde havia madeira. Pronto, não se fala mais nisso. Eu teria praticamente uma história para cada foto, já disse. Mas poupo-vos. Abraços. Daniel 10 outubro 2010
Não fiz esta segunda viagem à Ilha-Mãe como amigo do autor, mas como tradutor de um escritor que aprecio. Pode nunca ganhar a fama de um Prémio Nobel mas escreve para quem gosta de o ler e tem sido nossa missão nos Colóquios divulgá-lo e traduzi-lo. Muito há para fazer ainda neste campo mas para já convém partilhar convosco esta relação umbilical nunca cortada entre o autor e a ilha, e para isso nada melhor do que um texto do Daniel intitulado: Santa Maria, uma declaração de amor
Considero-me um privilegiado quando me chamam mariense. Porque, como filho destas ilhas, tenho a sorte de ter pai e mãe. Foi meu pai São Miguel, minha mãe, Santa Maria, e se se pode ter dupla nacionalidade, por certo que poderá ter-se dupla “insularidade”.
Sou mariense, sim, e julgo que de pleno direito. Cagarro e santaneiro. O que foi outro privilégio, ter vivido em Santana. Mais de oito anos, depois de quatro por São Pedro, na casa do Sr. Armando Monteiro, e seis meses na Ribeira do Engenho, numa casinha que era toda ao pé da porta e tinha o telhado à altura do caminho.
De São Miguel saí ainda de cabelos compridos, de que guardo uma vaga memória mas somente do dia em que mos cortaram, já em São Pedro. Antes disso, e da ilha onde fui gerado e onde nasci, só sei o que me contava minha mãe. Tempo esse em que uma criança de dois anos podia andar pelas ruas e ir até longe, no longe relativo do tamanho do corpo, sem deixar preocupado quem quer que fosse. Palmo e meio de pernas bastava para fugir facilmente das rodas de uma carroça ou de um carro de bois.
Muito cedo comecei a ser aluno da vida, em Santa Maria. Que belas lições recebi! Recordo a sabedoria de um povo a quem vi cavar um poço antes do tempo da sede. Aprendi a sua bondade em coisas tão simples como aquelas grandes pedras, postas ao alto à semelhança de pequenos menires, onde o gado ia roçar-se placidamente. A minha definição como pessoa começou a fazer-se com estes e com outros ensinamentos casuais ou espontâneos, sem pedagogia diplomada.
Pode parecer um contrassenso considerar um privilégio ter vivido em Santana, porque aquela era uma das aldeias mais rurais de Portugal. Nem havia sequer uma canada razoável que lhe fosse caminho. A que existia servia, em parte, como leito de uma ribeira, onde aflorava a rocha irregular posta a descoberto pela erosão. Durante séculos, foi a única via que levava a Vila do Porto. Maior isolamento do que aquele é difícil de imaginar. Ainda assim, em Santana nasceram e viveram pessoas de grande valor humano e social. Prodígios da superação.
De súbito, tudo mudou em 1945. Em Santana propriamente não, porque ela ficou imutável na sua rústica ancestralidade. Mas, mesmo ali ao lado, fora feito um aeroporto para ser um dos melhores e mais concorridos do Mundo. A Vila deixou de ser a principal referência, porque até na religião os de Santana se tornaram como que paroquianos da capela de Nossa Senhora do Ar, que antes fora lugar de culto de protestantes, católicos e judeus. Ia-se e vinha-se usando atalhos desenhados por milhões de passadas, cortados aqui e ali por muros que era preciso saltar. A aldeia isolada ficara a poucos minutos de um mundo novo e impensável. Mas aquela gente recebeu-o quase com a mesma naturalidade com que via nascer o Sol todos os dias, o Sol que gretava o solo árido no verão, depois de secos os lameiros do inverno. Aquela gente, que resistira à angústia da fome, numa penúria humilhante e indigna da condição humana. Como um pouco por toda a ilha, aliás. Mas que manteve uma dignidade bíblica, porque a dignidade é um estado de espírito mais do que uma afirmação social.
A nossa casa nunca fora chamada casa antes de lá morarmos. Nesse tempo, era um absurdo pensar que quem tivesse menos de dezasseis anos não podia trabalhar. Não o proibia a lei, e a isso obrigava a necessidade de as mães não terem falta do que pôr na mesa à hora de comer. Apesar disso, não lamento nada da minha infância.
Fui pastor de cabras, de ovelhas e de vacas. Cavalguei em pelo e sem esporas nem freio, como os índios. Nunca ninguém me ensinou a ter medo do dia nem da noite. Fui cowboy ou índio na mata de Monserrate e nas do Aeroporto. Mas não estraguei nenhuma árvore, nem os meus companheiros de aventuras. Contei histórias ao meu amigo Elias, e contava-me ele outra por cada uma das minhas. Matávamos o menor número possível de personagens, quer fossem índios ou bandidos. Apenas o essencial para haver vencedores e vencidos.
Entretanto, ia aprendendo em livros ou num quadro preto. Primeiro na escola de Santana. Com a D. Eduarda na 1ª classe, a D. Doroteia, na 2.ª, a D. Úrsula, na 3.ª, a D. Francisca, na 4.ª. Continuam a ser das minhas heroínas preferidas. Fizeram o milagre de me ensinar a ler, de explicar que povo somos e a que terra pertencemos. Depois veio o Externato. Juntei à minha lista de heróis e de heroínas mais uns quantos predestinados para o bem e a sabedoria. Passei a pertencer também à geração do Cavaleiro Andante, sem dúvida a mais prodigiosa publicação juvenil que houve em Portugal. Não tínhamos dinheiro para livros nem revistas, por isso era o José Guilherme Correia que mo emprestava sempre. E alguns livros também, como o José Vieira Souto Martins, um amigo de que nada sei há meio século. Foi assim que pude ler Emílio Salgari, Mark Twain ou Enid Blyton.
E havia o Clube Asas do Atlântico. O Asas! Nunca ninguém me pôs na rua nem mostrou desagrado pela minha presença. Nem imaginavam o bem que me estavam fazendo. Ali ouvíamos os relatos do futebol e do hóquei das nossas alegrias patrióticas. Era onde eu tinha à disposição os principais jornais que se publicavam em Portugal. Um dos mais bem escritos era A Bola, e por isso, ao mesmo tempo que a rivalidade entre o Sporting e o Benfica era um dos principais fatores de unidade dos Portugueses, o desporto, contado naquele jornal que mudou tanto que se pode considerar extinto, era também uma lição de cultura.
Não longe, o campo dos jogos épicos do futebol romântico de dois defesas, três médios e cinco avançados. Com o mítico Badjana a dar os últimos pontapés na bola, jogando pela equipa da Direção do Serviço de Obras, onde meu pai trabalhava. Depois veio outro clube, o de Gonçalo Velho, para o qual minha mãe e minha irmã bordaram os primeiros emblemas.
No entanto, a alegria suprema tinha lugar reservado no Atlântida Cine. O seu porteiro deixava muitas vezes as crianças entrarem sem pagar bilhete. Por isso o Sr. Cardoso faz parte da minha lista de heróis particulares. E o grito “ó Cardoso, apaga a luz” ainda ecoa nas minhas recordações como o anúncio de todas as claridades. Outro benfeitor de homens a haver.
Na capela de Nossa Senhora do Ar aprendi o lado mais humano da vida. Aquele que pensa acima de tudo no que nos distingue dos irracionais. Se é certo que sem uma fé sobrenatural se pode ser boa pessoa, o cristianismo à maneira do Padre Artur é o testemunho do bem na Terra.
Mas qualquer pedaço de mundo vale pelo que vale a sua gente. A do meu tempo era feita destas e de outras figuras que marcaram o modo de ser de um tempo e de uma geração em que havia na ilha mais forasteiros do que naturais dela. Sorte nossa que a maior parte dos que em Santa Maria buscaram um pouco mais de fortuna ou um pouco menos de infortúnio eram pessoas de deixar saudades. Por isso o reencontro com velhos pioneiros dos tempos modernos da Ilha de Gonçalo Velho é sempre um momento de festa que dificilmente tem semelhança quando as amizades foram feitas por outras bandas.
O próprio aeroporto, começado a construir durante a guerra, acabou por ser um lugar de passagem para a paz. Se, em 1918, Franklin Delano Roosevelt escolheu Ponta Delgada para apoio ao transporte de tropas a caminho da Europa, por aquelas pistas passaram sobretudo soldados de regresso a casa. O nome de código da operação, “Green Project”, era ele mesmo uma declaração de esperança numa nova era. Foi neste ambiente, um dos espaços nacionais onde mais se concentravam pessoas com ensino superior ou com uma cultura acima da média, que começou a germinar a minha vontade de fazer das palavras escritas um uso para além da obrigação de alguma carta familiar. Sem Santa Maria, sobretudo sem o seu Externato, eu teria ficado pela 4.ª classe, tal como todos os rapazes que nasceram na Maia, em São Miguel, no mesmo ano que eu. Por um desses acasos que são difíceis de explicar, cresci logo nos primeiros anos de vida com uma curiosidade sem limites. Um dia, ainda antes de completar seis anos, perguntei a meu pai como é que se faziam versos. Ele era um improvisador de quadras e de histórias como poucos conheci na vida. Chegou a fazer o negócio de uma burra cantando ao desafio. E, nos intervalos do almoço, contava casos a homens da sua idade, mas tão interessados como crianças. Vi muitos filmes pelos seus olhos, ou ouvi-os da sua boca. Ele levou a sério a minha pergunta sobre poesia, e respondeu como se deve sempre responder a uma criança: dizendo a verdade das coisas como se se falasse ao adulto que a criança será um dia. Logo a seguir exercitei o meu novo conhecimento cantando para uma vizinha da minha idade, de que só guardo a memória de uns longos caracóis loiros. Sei que começava assim, esse que foi em rigor o meu primeiro poema: “Sou Daniel/ da ilha de São Miguel”.
Era, sim, com a sorte de ser da Ilha-Mãe também. E nela vivia então um poeta que fez parte do meu imaginário, e de quem eu muito quis ser imitador: Lopes de Araújo. Não tive a sorte de ser seu aluno, mas a ânsia de alcançar um estatuto semelhante ao seu foi talvez o maior impulso que me levou a dedicar-me à escrita. Mas Santa Maria veio a ser para mim cenário de drama também. Numa certa manhã, os responsáveis pela Direção do Serviço de Obras estavam reunidos para despedir pessoal. O critério escolhido foi o de optar pelos trabalhadores com menos filhos. O nome do meu pai foi um dos primeiros a serem falados, porque éramos só minha irmã e eu. Minha irmã não estudara porque as propinas equivaliam a um terço do ordenado de meu pai que levou um ano a decidir se eu deveria frequentar ou não o Externato. Acabou por resolver-se pela positiva, e eu revi a gramática da 4.ª classe, feita um ano antes, estudando-a enquanto vigiava as vacas. Valeu-nos que nunca paguei propinas no colégio, como chamávamos ao Externato.
O Miguel Côrte-Real, esse homem da linhagem dos primeiros povoadores e a quem Santa Maria muito deve, não concordou com a ideia, alegando que eu estudava, e que meu pai e minha mãe, costureira, se sacrificavam a trabalhar mais do que podiam para eu ter aquele privilégio. Estava a questão por decidir quando chegou um funcionário com uma notícia dramaticamente irónica. Meu pai acabara de deixar vago definitivamente o seu lugar na vida.
Daniel de Sá é o autor açoriano que primeiro descobri e traduzi. Por ter sido o primeiro que traduzi quis vir aqui homenageá-lo na terra que ele me deu a conhecer nesse seu livro. Propus até que designassem uma rua com o seu nome ou como ele sugeriu que dessem o nome de Santa Maria Ilha-Mãe a uma rua e espero que o Município avance com essa proposta. Por ter sido o primeiro foi ele um dos que levei nessa jornada dos colóquios pelo mundo, para que fosse traduzido em várias outras línguas como o Búlgaro, Russo, Romeno, Polaco, Esloveno, Italiano e Francês.
Por mais que não queiram os seus autores ali vive a todo o instante a palavra mar. Essa a omnipalavra que jamais se desvanece também nos poemas de Vasco Pereira da Costa e de Eduardo Bettencourt Pinto, ambos aqui presentes, e mesmo quando Daniel de Sá escreve sobre montes e vales das Beiras. Aliás Daniel escreveu que, aqui bem perto, na Ribeira do Capitão e na Praia dos Lobos as arribas praticamente desaparecem oferecendo a ilha a quem vem do mar. E esta ilha, nós, que somos corsários das palavras, a tomamos como nossa para todo o sempre para que seja partilhada entre todas as pessoas de bem e de boa vontade desfraldando bem alto esta bandeira da Lusofonia que por todo o mundo erguemos como se fora um Padrão dos Descobrimentos. O meu Obrigado ao Daniel e à Ilha-Mãe surge em forma de poema:
Vieram os deuses
plantaram ilhas
onde dantes havia água
uma era Ilha-Mãe,
havia a Mãe-Ilha,
outra Marilha,
a Ilha Menina
a Ilha-Filha
nove irmãs
filhas de Posídon e de Afrodite
nascidas da espuma do mar
nos montes verdes
rugiam dragões
cuspiam fogo
tremiam os chãos
secavam ribeiras
vomitavam magma
choviam trovões
de Thor filho de Ódin
esquecido das gentes e animais
pobres escravos e colonos
amanhadores de rochas e fomes
desbravadores de mínguas
crentes e temerosos
orando promessas seculares
criam no destino e sabiam-se culpados
ainda hoje penam
com liberdades que não pagam dízimos
votam com os pés da emigração
a libertação de todas as cangas
mas voltam sempre
romeiros em promessas várias
açorianos até ao tutano
sem alforrias nem autonomias
perenes escravos destas ilhas
escrevem a história que poucos leem
4 maio 2011
É graças a esse primeiro autor que traduzi e que, hoje, aqui homenageamos que os Colóquios se arvoraram em paladinos da literatura de matriz açoriana, encarregues de atravessarem mares nunca dantes navegados e chegar a leitores insuspeitados em línguas diversas que também aí se faz a Lusofonia em que acreditámos.
Assim se explica que este 16º colóquio da Lusofonia tenha chegado não numa caravela quinhentista mas nas asas do sonho a que chamamos Lusofonia. Os únicos corsários que encontramos por esses mares foram aqueles que ainda não reconheceram o valor dos colóquios, da necessidade da defesa intransigente da língua e da cultura de todos nós. Mas a nossa artilharia de mais de 200 milhões de lusofalantes, a Gramática de Evanildo Bechara, os Dicionários de Malaca Casteleiro e a obras da novel Academia Galega da Língua Portuguesa foram suficientes para evitarmos a abordagem. Os monstros adamastores, para os quais nos haviam alertado, soçobraram com as primazias do novo Acordo Ortográfico de 1990 e foram juntar-se em triste carpideira aos Velhos do Restelo.
Que da ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados, passamos ainda além da Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana, e entre gente remota edificamos o Novo Reino da Lusofonia, que tanto sublimámos.
Em uníssono: Bem hajas Daniel. Bem hajas Daniel.
(este foi o texto lido mas a comunicação original continua …i;)
1] (ed. VerAçor 2007)
[2] (editado em 2007)
[3] “Translation, like writing, is both art and craft, with a touch of alchemy. When translator and author actually get to meet, the result can be inspired. Nuance is what translates language into art.” Ann-Marie is a Toronto-based writer and actor. She has received accolades for her playwriting, acting and writing. Her play Goodnight Desdemona (Good Morning Juliet) won the Governor General’s Award for Drama, the Chalmers Award for Outstanding Play and the Canadian Authors’ Association Award for Drama. She won a Gemini Award for her role in the film Where the Spirit Lives and was nominated for a Genie for her role in I’ve Heard the Mermaids Singing. Her first novel, Fall On Your Knees, was published in 1995 to much critical acclaim in Canada and abroad. Her latest book, The Way the Crow Flies, was shortlisted for both the Giller Prize and Governor General’s Award.
http://www.banffcentre.ca/programs/93_words/2007/biltc/past_programs.aspx
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DA CÂMARA MUNICPAL DA RIBEIRA GRANDE
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Morrer na ilha grande fechada…
Há dois mestres da literatura açoriana contemporânea que ficarão na história como exemplos da perfeição da escrita: Fernando Aires e Daniel de Sá.
Ambos admiravam-se e nós, humildes seguidores das suas obras, admirávamos a limpidez da escrita de ambos, desde a síntese de Fernando Aires à “prosa enovelada e tensa, plena de subentendidos, a tecer sua urdidura através de achados linguísticos” de Daniel de Sá, como escreveu Luis António de Assis Brasil.
Ambos partiram quando menos se esperava.
Daniel de Sá decidiu sair da sua “Ilha grande fechada” no dia seguinte às celebrações da Santíssima Trindade, assumindo a sua forte convicção e formação religiosa, sacrificando a família e amigos, como o protagonista João do referido romance.
Ao deixar-nos, Daniel dá vida à frase mais bonita que inventou: “sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”.
Daniel de Sá ficará para sempre na ilha, mesmo naquela que reside na memória de cada um de nós.
A minha ilha esteve sempre rodeada pelo Daniel.
Desde os tempos do “Correio dos Açores” até há poucas semanas atrás, guardava com enlevo tudo o que recebia do amigo, mentor e inspirador.
Era rara a semana que o Daniel não me enviava um ‘email’, a propósito das minhas crónicas neste jornal: apoiava, discordava, sugeria-me, corrigia-me, inspirava-me, acrescentava e até esclarecia-me sobre as dúvidas mais misteriosas da nossa história insular.
A última, que guardo religiosamente nos meus arquivos, ocorreu há pouco tempo, dias antes de ele ter adoecido.
Fiquei confuso com algo que tinha lido na nossa imprensa, a propósito de uma eventual presença de romanos, fenícios e outros povos de há milénios na ilha Terceira.
Na mesma hora em que interrogava Daniel de Sá sobre tal mistério, ele respondeu-me de rajada: “Meu Caro, para perceber a história dos Açores, é essencial conhecer um pouco de náutica antiga. Aquilo de os romanos terem andado por aqui é uma variante da versão fenícia. Ora os romanos só criaram navios para combater Cartago. Até então quase não os usavam. Mas eram navios preparados para o Mediterrâneo apenas, sem capacidade de viagens muito longas, tanto mais que a maior parte da sua capacidade de carga teria de ser, em tais casos, para armazenar alimentos para os remadores, talvez os mais desgraçados condenados de sempre. Os próprios fenícios, que viajavam também só com terra à vista, e que iam até às ilhas britânicas, diziam que no mar do Norte a terra subia e se aproximava dos navios. Era o fenómeno das marés, desconhecido no mediterrâneo. Outra razão para não se atreverem a viajar para longe da terra”.
Escrupuloso nas suas investigações, não o era menos sobre os historiadores: “Não se pode dizer isto em voz muito alta, mas antes do Dr. José de Torres e do Ernesto do Canto, não se fez História credível nos Açores, porque o próprio Gaspar Frutuoso tem dias…”.
O humor do Daniel era outra vertente contagiante.
Vê-lo a contar histórias do arco da velha, com o Onésimo, na esplanada da Praia dos Moinhos, como no Verão passado, era uma delícia para o intelecto.
Tive o privilégio de apresentar um dos seus livros na tertúlia de então do Solar de Lalém, já lá vão uns anos, mas sempre que nos encontrávamos, geralmente na Livraria Solmar para o lançamento de algum livro, dizia que tinha uma dívida para comigo e, no seu jeito brincalhão, perguntava: “quando é que apresento o teu?”.
Infelizmente já não vai a tempo amigo Daniel.
Mas fica a certeza de que os teus ensinamentos, as tuas sugestões (e a tua riquíssima colaboração como revisor), ficarão gravadas na memória deste pobre escriba que te admirou muito.
Como disse o Onésimo, logo após conhecermos a tua morte, “perdemos um irmão e um amigo. Quem só o conhecia dos livros perdeu um escritor. Os Açores perderam uma voz. Que vai fazer muita, muita falta. Sobretudo quando ela, nas nossas contas humanas, ainda deveria intervir por muitos, muitos mais anos”.
Termino com o que Daniel de Sá escreveu, em Novembro de 2010, na morte de Fernando Aires: “Hoje não me levantei. Não volto a levantar-me, já disse. Não me cansei da vida, nem da família, nem dos amigos. Nem sequer me cansei de mim. Mas tinha de haver este dia. O dia de nunca mais. Até qualquer dia companheiros”.
Pico da Pedra, Maio de 2013
Osvaldo Cabral
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ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA
josé costa
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Morreu o meu primeiro escritor. Um dos grandes – dos Açores e do mundo. Devo-lhe a entrada de “O Terceiro Servo” para o Plano Regional de Leitura, devo-lhe um monte de gargalhadas (e de poemas satíricos) a pretexto das derrotas do nosso bem-amado Sporting e devo-lhe o testemunho da família harmoniosa e repleta de sentido de humor, que de imediato impressionava quem o visitava na Maia. Mas devo-lhe sobretudo “Um Deus à Beira da Loucura”, a novela que desaguou em “E Deus Teve Medo de Ser Homem”, e cujo existencialismo cristão (como ele próprio gostava de definir) me tornou primeiro leitor e depois, em boa parte, escritor. Encontrámo-nos pela última vez em Ponta Delgada, no dia do lançamento do meu “Os Sítios Sem Resposta”. Saíra da Maia, coisa rara, e viera oferecer-me em mãos um volume de contos natalícios e o livro que escrevera para Maria Alice, e de que tirara apenas uns quantos exemplares, para oferecer aos amigos. Lembro-me de pegar nele , de folheá-lo como ele devia ser folheado (como se fosse um livro de animação, assim se completando o retrato de Maria Alice), e de pensar: eis, aí, a célula que funda a família harmoniosa – um homem que ama a sua mulher. Hoje faço silêncio por Daniel de Sá. Um homem, mais ainda do que um escritor – e, definitivamente, um exemplo. Mas não me despedirei dele: os seus livros continuam na minha mesa de cabeceira.
Lusa
Natural da Maia, Daniel de Sá faleceu vítima de doença aos 69 anos com várias obras publicadas, desde crónicas, contos, romances ou ensaios, “tendo contribuído ainda para inúmeras revistas e jornais”.
Chrys Chrystello sublinhou à Lusa que o escritor deixa “uma vasta obra na literatura”, lembrando que Daniel de Sá era também o presidente da comissão do Plano Regional de Leitura.
O escritor colaborou nos Colóquios da Lusofonia, que o têm homenageado desde 2008.
Além disso, as duas antologias de autores açorianos contemporâneos, lançada pelos Colóquios, contêm excertos das obras de Daniel de Sá, indicou Chrys Chrystello.
Daniel de Sá, que nasceu a 02 de março de 1944, fez o curso do Magistério Primário antes de ser professor.
APE // ROC
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http://folhinhapoetica.blogspot.com.br/2013/05/25mai13-chrys-chrystello.html
POEMA AO LUIZ FAGUNDES DUARTE HOJE NA Folhinha
estar numa ilha é um modo de vida
por vezes sinto-a prisão sem grades
rodeado de mar, céu e vacas
aves e peixes que não me falam
pessoas com passados heroicos
gestas de povo sofrido e resignado
de basalto e pedra-pomes também
gente que veio no mar e a ele se condenou
em terra e nas ondas dos baleeiros
quando a terra não tremia
e os vulcões estavam silentes
mares de mil e uma cores
do azul ao negro e ao vermelho do sangue
cheio de monstros e poucas sereias
gente que veio com sonhos e fomes
sofreu a escravatura infame dos senhores
feudalismos tardios e encobertos
a coberto do manto da igreja
em troco de promessas etéreas
suor, lágrimas e sacrifícios
povo que dominou fajãs
gente que criou maroiços
construiu ambições e voou
para outros países sem deixar este
à roda do qual o mundo gira
e regressam sempre e sempre
superando os que ficaram
e construíram estas nove ilhas
do enorme orgulho pátria
ser açoriano é ser único
em nove identidades afins
não sei descrever os sons
os cheiros, as cores, os paladares
todos iguais, todos diferentes
todos açorianos
aceito este destino estrangeiro
moldo-me e adapto-me
ao clima e ao ritmo
a esta velocidade lenta
de início de mundo
a este fatalismo ingente
a estas devoções salvadoras
às promessas com que se enganam
romagens de comprar perdões
folclores e tradições recriadas
alheios ao que roda lá fora
toleram a autonomia que não têm
e no meio destas gentes
surgem escritores, poetas, autores
neles me encontro e observo
imagem refratada doutro espelho
o lado de lá do eu
até quando?
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Naquele largo que diziam
ser tão grande quanto o oceano,
nasceu uma ilha azul.
O vento emergiu do Norte,
veio dos navios e das névoas
e a lava esculpiu o Penedo Negro.
A praga do oídio secou
os figos e as uvas com cheiro a mar,
repleto de flores brancas.
Foi então que nasceu o baleeiro
que veio com as gaivotas
para ser capitão das nuvens
no mar imenso que é o céu
onde permanece
erguido como o arpão.
Joana Félix
Neste cais de pedra cinza
olho o mar em silêncio.
Deixados nos sonhos
há peixes de prata
que serpenteiam,
parecem pássaros sem medo
que não se casam.
Agitam as barbatanas
e cantam com frequência,
deslizam no infinito
em direção ao escuro.
Desaparecem
talvez para dormir…
Joana Félix