Sobre CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção da AICL

UM TEXTO DE CRISTÓVÃO DE AGUIAR 1988 APROPRIADO PARA QUEM ESTÁ EM CASA

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“Coimbra, 24 de Agosto de 1988 – O telefone emude­ceu. O carteiro não toca se­quer uma vez. O vento não pára. Os remédios não reme­dei­am. A dor de cabeça não esmo­rece. O Sol esqueceu-se do ofício e meteu folga. O silêncio não se constrói nem me destrói. A música não apazigua. Os jornais gri­tam que não querem ser li­dos. A espe­rança não esperneia. O calor tem frio. O frio tem fome. A fome tem sede. A sede está farta. As ideias embran­que­ceram. As pa­lavras en­louqueceram num hospí­cio de bolor esverdeado. O livro está atravessado no útero e não pede para nascer. Os amigos estão mor­rendo. A guerra nasce das entra­nhas do ouro ne­gro. Os filhos não se deixam filhar. As filhas idem aspas, mas as­pando. A poesia vi­rou car­raça em pêlo de cadelinha. A li­teratura teve mais sorte e caiu numa pane­linha. A chuva es­queceu-se de se molhar. O corpo é um copo sem espírito de be­bida. Os olhos suici­da­ram-se. A boca caiu na li­xeira. As horas não oram. Os minu­tos não minutam nem deixam minutar a minuta de um sonho. O Sol sujou-se. O céu caiu de susto. O pe­sa­delo não se assustou. O sonho sustou-se. Os olhos cabe­ceiam de sono. As mãos pe­di­ram memória a juro porque não pagam juros de mora. As pernas colunizaram-se sobre os pés. Os pés pediram tré­guas e não sa­pateiam. A sapateia dançarilha no chão do longe. O longe é uma parte da partilha ainda es­parti­lhada. A saudade é uma Ilha rodeada de ti. A Ilha veio pernoitar em tua cama e lá se deixou noivar. Os mortos não se cansam de vi­ver nem os vivos de apo­drecer. A morte anda a cavalo nos pon­tei­ros do relógio. O relógio faz que anda, mas, no íntimo, galopa. Os dias resfol­gam nos cavalos da noite. A noite de­bate-se no cre­púsculo caído. As nuvens entupiram os caminhos da viagem. A viagem per­deu o navio e dei­xou-se fi­car no cais. O comboio não pára no apeadeiro que me coube. O bi­lhe­te que tirei tem uma data falsa. Todas as datas são falsas sobretudo as dos ani­ver­sários. Ani­ver­sariar é o modo conjuntivo desconju­gado num tempo in­definido. Conti­nuo es­perando di­ante do espelho que a minha ima­gem espe­lhada se metamor­foseie na tua para nela me aposentar. O amor não se cansa. Assim seja!”

CRISTÓVÃO DE AGUIAR

Relação de Bordo (vol. 1). Porto, Campo das Letras,1999, pp. 412-413. TRANSLATED BY CHRYS C

“Coimbra, August 24, 1988 – The phone turned mute. The postman does not call, not even once. The wind does not stop. Medicine does not medicate. The headache does not wane. The sun forgot its trade and took a day off. Silence can neither be built nor can it destroy me. Music does not soothe. The newspapers scream that they do not want to be read. Hope does not flounce. The heat has cold. The cold has hunger. The hunger is thirsty. The thirst became sated. The ideas became bleached. The words became demented in a hospice of greenish mildew. The book is crisscrossed in the uterus and does not ask to be born. Friends are dying. The war is born from the innards of black gold. The children refuse to make children and leave no heirs. The daughters likewise, ditto between quotes. Poetry turned tick in a puppy’s fur. Literature got luckier and became part of a coterie. Rain forgot to get soaked. The body is a cup without any spirit of drinking. The eyes committed suicide. The mouth dropped down on the garbage. The hours do not pray. The minutes do not minute nor do they let make minutes for the draft of a dream. The sun became soiled. The frightened sky came down. The nightmare did not get frightened. The dream stopped. The eyes nodded off. The hands asked for reminiscence with interest since they do not pay default interest. The legs became pillars atop the feet. The feet asked for a truce and do not tap-dance. The tap-dance dances on a faraway floor. The faraway distance is still a part of the corseted share. Nostalgia is an island surrounded by you. The island came to sleep in your bed and got betrothed there. The dead do not get tired of living nor the living of decaying. Death rides a horse on the hands of the clock. The clock feigns to walk, but actually gallops. The days gasp in night horses. The night writhes in the fallen twilight. Clouds clogged our travelling roads. The journey missed the ship and stayed behind at the pier. The train does not stop at the way station that befits me. The ticket that I pulled has a false date. All dates are false; especially the anniversaries’. To anniversary is the conjunctive tense of a non-conjugated indefinite tense. I keep on waiting in front of the mirror for my mirrored image to metamorphose into your image so that I can retire into it… Love does not get tired. So be it!”

CRISTÓVÃO DE AGUIAR

Relação de Bordo (vol. 1). Porto, Campo das Letras, 1999, pp. 412-413.

 

como cidadã e médica: aos açorianos deslocados no continente que estão em grande número a regressar aos Açores não venham

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Obrigado filha por teres a coragem e determinação de vires a publico, com rigor e clareza, levantar um problema que é delicado, mas que é essencial!

Joana Decq Mota

A minha opinião como cidadã e médica: aos açorianos deslocados no continente que estão em grande número a regressar aos Açores não venham pelo nosso e vosso bem, pela saúde dos vossos! Fiquem em isolamento social onde estão! Não entendo, custa a todos estar longe, mas vai seguramente custar mais que sejam vocês os portadores e transmissores de um vírus contagioso e agressivo. Temos no SRS recursos técnicos e humanos limitados e que não crescem. Ninguém virá de fora ajudar-nos se a situação complicar. Mesmo que todos os que regressarem cumprissem a quarentena (o q n acontece) teriam de estar sozinhos. A família que vive convosco continua a trabalhar e circular e pode-se assim começar uma cadeia de transmissão. Espero que não partilhem casa com pais ou avós com problemas de saúde. Sejam responsáveis! É um sacrifício que se pede a todos e ninguém está a ouvir…os que estão a voltar em grande número são, na maioria, jovens e saudáveis, e os que cá estão cá à vossa espera têm de certeza mais risco…

Covid-19. Cruzeiro com duas mil pessoas atracou por exceção em Espanha e passageiros vieram para Lisboa

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Informação está a ser avançada pela imprensa local, que refere que o episódio aconteceu ontem à noite. Turistas seguiram diretos do cais em 50 autocarros para Portugal. Também há um caso de um avião que terá sido desviado para Lisboa Informação está a ser avançada pela imprensa local, que refere que o episódio aconteceu ontem à noite. Turistas seguiram diretos do cais em 50 autocarros para Portugal. Também há um caso de um avião que terá sido desviado para Lisboa&etilde;

Source: Covid-19. Cruzeiro com duas mil pessoas atracou por exceção em Espanha e passageiros vieram para Lisboa

vejam pf..COVID-19..Há um documentário no canal odisseia

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Há um documentário no canal odisseia sobre o corona vírus que deve ser visto!!!

Comments

don’t visit azores

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Podem não fechar os aeroportos, mas não nos calarão!.
” Antes morrer livres do que em paz sujeitos”

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Rui Álvares Cabral

Podem não fechar os aeroportos, mas não nos calarão!.
” Antes morrer livres do que em paz sujeitos”

este padre é um atentado à minha inteligência

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6 hrs

Oh meu filho, então? Não vamos deixar de celebrar missas. Afinal, também há pessoas nas esplanadas. No comments.

-0:44

Por que diabéticos estão entre grupos mais vulneráveis ao coronavírus? Saiba quais são os riscos – TiaBeth.com

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Diabéticos estão entre os grupos mais vulneráveis ao novo coronavírus por dois motivos principais: excesso de glicose no sangue e tendência a inflamação – essas duas condições impedem que o sistema imunológico responda adequadamente a infecções por vírus e bactérias. Relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde colocam quem tem diabetes entre os mais suscetíveis à Covid-19. De acordo…

Source: Por que diabéticos estão entre grupos mais vulneráveis ao coronavírus? Saiba quais são os riscos – TiaBeth.com