1 – GOVERNO PODE CAIR – Não será difícil adivinhar que este novo ano traz cenários atribulados para a Região, face aos sinais que se vislumbram na economia e na política.
2026 é o ano crucial para o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que termina no final do Verão, teremos também a execução do Plano de Investimentos anual, com apresentação do próximo para 2027, e a finalização do processo de privatização da SATA.
São três vertentes estratégicas essenciais para os Açores, para as quais os partidos da oposição vão querer fazer um balanço do desempenho do Governo Regional em cada uma delas.
E a melhor oportunidade será exactamente no regresso das férias de Verão, com a reabertura da sessão parlamentar e a apresentação do Plano e Orçamento 2027 em Outubro.
Pelo que se vai ouvindo nos bastidores dos partidos da oposição, o balanço perspectiva-se “muito negativo”, não sendo de descartar um eventual chumbo do próximo Plano e Orçamento e a consequente queda do governo.
Faz sentido a meio do mandato? Tudo vai depender do desempenho do governo naqueles eventos ao longo do ano, mas as perspectivas não são boas.
O Chega, que até agora tem ajudado a suportar a coligação, está numa fase de críticas crescentes à governação, manifestando profundo descontentamento com a actuação da equipa de Bolieiro e, mesmo a meio da legislatura, não vai querer ficar colado à imagem de uma governação fraca, criticada por todos os sectores da Região, desde parceiros sociais, autarcas e cidadãos, querendo evitar a imagem de “muleta” da coligação.
Já não haverá a desculpa do PRR, em que a oposição absteve-se no último Plano e Orçamento com o argumento, responsável, de que era preciso aproveitar todos os fundos comunitários e não atrasar a respectiva programação.
Sabendo-se que não vai ser possível aplicar na íntegra o PRR, muito menos um bom desempenho do Plano de Investimentos, a que acresce o rotundo falhanço da privatização da SATA, que continua a desgastar o governo, seja qual for o seu desfecho, a oposição fica em condições de mostrar um cartão vermelho a José Manuel Bolieiro.
Com o crescente descontentamento popular que grassa em todas as ilhas, agravado com o aumento do custo de vida para este ano e o abrandamento do turismo e, consequentemente, da economia regional, teremos então o cenário perfeito para a oposição fazer cair o executivo.
Se não for na próxima discussão do Plano e Orçamento, é quase certo que acontecerá em 2027.
Este é o cenário que se desenha nos bastidores da oposição.
Na coligação, há a confiança de que a maioria dos eleitores não vê na oposição, nomeadamente no PS, a alternativa desejada, continuando a pensar que Francisco César é o seguro de vida da coligação.
Embora não desejando eleições antecipadas, a coligação acha-se preparada para voltar a ganhar, seja em que circunstância for, e contar novamente com o Chega, que não quer o PS no poder.
Há, ainda, um outro trunfo que Bolieiro poderá utilizar no final do Verão, que é a remodelação do governo.
Com o Chega a pedir uma nova forma de governar, a coligação poderá proceder a uma remodelação, mesmo que trocando alguns secretários de pasta, com o argumento de que não o faz mais cedo porque todos os secretários estão envolvidos na programação do PRR.
Resta saber se é o suficiente para “domesticar” o Chega, sabendo-se que José Pacheco é um dos defensores da máxima dentro do partido, segundo a qual “se o governo não muda, nós vamos mudar o governo”.
Ou seja, politicamente este governo estará sempre na corda bamba durante todo o ano.
Com as fragilidades que tem apresentado e com a desorientação estratégica em várias áreas, o mais provável é que vamos ter um ano politicamente agitado.
2 – A ECONOMIA DAS ELITES E A DOS CIDADÃOS – A iniciativa do Secretário das Finanças em avançar com uma conferência de imprensa, no início deste ano, para fazer um balanço económico de 2025, é uma resposta às preocupações do Chega.
Duarte Freitas quer demonstrar que, mesmo com a maior dívida da história da Autonomia e com várias empresas públicas falidas, a economia “é pujante” e nunca esteve tão bem, mesmo comparando com os governos do PS.
Os números são bonitos, mas o que conta, para os cidadãos, é a carteira no fim do mês.
A economia cresce há mais de 50 meses, como gostam de sublinhar os governantes, mas não dizem que ela está a abrandar a olhos vistos.
Em 2024 houve apenas três meses em que o Indicador de Actividade Económica cresceu 2%.
Em 2025 não se registou nenhum mês com 2% de crescimento.
São crescimentos pífios, abaixo da média da inflação, que não se reflectem na carteira das famílias, o que agrava o descontentamento popular, notório em qualquer sector da sociedade.
A conferência de imprensa de Duarte Freitas foi recheada de números, mas com pouca mensagem motivadora para os cidadãos, cada vez mais cientes de que a economia está assente apenas no bom desempenho do turismo, que dá pleno emprego mas não dá bons salários e aumenta o custo de vida em sectores essenciais, como a alimentação, a energia e a habitação.
Há uma espécie de duas economias na Região: a dos que aproveitam os fundos comunitários para crescer e a dos cidadãos da classe média, que chegam ao fim do mês sem dinheiro nos bolsos.
O próprio Secretário das Finanças entra em contradição quando anunciou uma poupança no sector público de 30 milhões de euros, mas na conferência de imprensa veio dizer que só o sector da Saúde leva a fatia de leão do orçamento regional, com o HDES a tornar-se no “principal centro de custos da região”.
Ou seja, não há poupança nenhuma.
3 – A SUBMISSÃO A LISBOA – Com um governo tão desgastado, pelos inúmeros falhanços e pela falta de estratégia em áreas chaves da economia regional, o melhor que poderia acontecer era o Governo da República dar um pretexto para que a coligação fizesse do centralismo lisboeta um cavalo de batalha, desviando as atenções dos problemas internos.
Nem isso soube fazer.
Teve uma posição frouxa e submissa no caso dos salários em atraso nas Misericórdias e, agora, incompreensivelmente, na escandalosa trapalhada que é a portaria do Subsídio de Mobilidade, reagiu tardiamente e sem uma posição concertada com a Madeira, que foi mais rápida e contundente.
Miguel Albuquerque deu uma lição a Bolieiro sobre como se deve lidar com gente incompetente e centralista, seja qual for a origem partidária.
O PSD-Açores, reagindo tarde e por arrasto da Madeira, depois de constatar que o assunto está na boca de todos os cidadãos, dá a imagem de um partido refém da arrogância de Luís Montenegro e do ministro das dondocas de Cascais, que pela segunda vez faz da coligação açoriana uma autêntica rodilha política.
É preciso pôr este ministro na linha, à semelhança do que se fez com outros, noutros tempos, nomeadamente com a socialista Ana Vitorino, que nos queria “roubar” a gestão partilhada do mar.
Em plena comemoração de 50 anos de Autonomia, dar a percepção de subjugação ao Terreiro do Paço só nos envergonha a todos e vem comprovar o cenário mais do que provável descrito no início desta crónica: a coligação está a perder fôlego internamente há já algum tempo, claudica perante Lisboa e já poucos eleitores se revêem neste projecto.
Bolieiro e os seus parceiros da coligação que ponham as barbas de molho!